Entre Margens


«Pés bem assentes
Na pedra quente
Planta queimada
Pegada na estrada

Sabor amargo
Trilho eterno
Que teima em enganar

[...]

E um doce impulso
Provoca o arrepio
Leve e fugidio
Num vaivém

Um grito surdo
Uma celebração
Velha recordação
Que teima em ficar

Inferno que promete acalmar
Em brasa na espera de chegar

[...]

Num último suspiro
Azul de imensidão
O tempo transforma
Memórias para contar
Sobra energia
Vontade de voltar

Respira...

Chão e carvão
Água com limão
Estamos cansados
Mas ninguém diz que não»

Fotografia da minha autoria



«Vou cegar minha dor»

Avisos de Conteúdo: Discriminação, Racismo, Referência a Morte


A Elga Fontes (@quemmelera) recuperou o projeto Ler a Diferença, que consiste na promoção de leituras inclusivas, apostando em autores marginalizados. Para junho, propôs o tema «além do amor romântico» e, uma vez que pretendia regressar a Djaimilia Pereira de Almeida, senti que esta obra cumpria o propósito.


QUANTOS BOA MORTE EXISTIRÃO?

Maremoto é uma história vulnerável, triste e, ainda assim, bastante poética, que nos inclui nas trivialidades do quotidiano, no mesmo compasso em que nos desarma através de pensamentos e observações de uma beleza singular. Levando-nos até Lisboa, ficamos a conhecer Boa Morte, um ex-combatente da guerra colonial e arrumador de carros na Rua António Maria Cardoso, e a sua amiga, que vive na Rua do Loreto, na paragem do 28. É ao tentar arrumar a sua vida que Boa Morte vai escrevendo cartas a uma filha que não conhece.

«(...) somos quase um exército, mas ninguém nos vê por aqui»

Para mim, a amizade é um dos elos mais puros do amor e, neste enredo, assistimos a uma demonstração plena disso, porque, apesar de todas as condicionantes, apesar de todas as micro catástrofes que pautam o caminho do protagonista, há um cuidado com o outro que nunca é descurado. Em simultâneo, ao termos acesso à correspondência para a filha, fazendo-a presente nas mais diversas circunstâncias, percebemos o quanto a ama e o quanto lhe pesam as feridas e um passado aparentemente sombrio, que ditou a ausência. Portanto, num jogo de contrastes, seguimos as pegadas de um dos melhores narradores com que cruzei.

«Vou no fundo do poço buscá-la. É esforço sem glória e também não chego 
para herói. Desço o poço nos olhos da minha amiga e não encontro ninguém»

Nesta história, marcada por uma escrita com uma certa musicalidade, Djaimilia Pereira de Almeida obriga-nos a olhar para aqueles que nos rodeiam e a reconhecer a diferença. Aliás, sacode-nos para que a abracemos e, sobretudo, para que compreendamos os pedidos de auxílio - que, não tão raras vezes assim, não são pronunciados, mas que se manifestam na subtileza dos gestos. Numa cidade que se reveste de tanta vida, é inconcebível que tantas pessoas permaneçam invisíveis, a viver do incerto, «daquilo que a rua lhes dá».

«Já é tarde para chorar meus erros, foi tarde no instante em que os cometi»

Maremoto confronta-nos com vidas complexas, com o peso da solidão, com as marcas da marginalização, com o impacto da pertença que se manifesta de um modo unilateral. Mas, acima de tudo, mostra-nos que o amor é a bússola que norteia os nossos valores e tudo aquilo que trazemos de mais puro no lado esquerdo do peito.


🎧 Música para acompanhar: Lisboa Não é a Cidade Perfeita, Deolinda

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Luanda, Lisboa, Paraíso & Esse Cabelo


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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Fotografia da minha autoria



«é quando a alma usa o corpo de instrumento»


O jogo de luzes e de sombras ia-se intensificando à medida que avançava no caminho: solitário, silencioso, tal como ela, à procura de um propósito; subtil, talvez, com algo que fosse estimulante o suficiente para a prender à vida, a si, a um amanhã que se avizinhava turvo, hesitante, quem sabe, fugaz.

Enquanto apontava a objetiva da sua máquina, para um qualquer detalhe que, depois, lhe pareceu insignificante, um movimento despertou-a e fê-la estagnar o passo.

E ali estavam elas, numa dança majestosa, inebriante, de uma delicadeza ímpar. Aquelas borboletas ascendiam na cordialidade de uma abraço que não envolve qualquer toque, numa brincadeira de miúdos, inocente, cúmplice, que acabaria por se esgotar, mas sem que isso representasse um laivo de culpa.

Nesta coreografia pouco ensaiada, cada uma das borboletas retomou a sua missão, até que se perderam de vista. Mas voltariam, voltavam sempre, porque há um tempo em que as asas se fecham ao estarem em casa.

Fotografia da minha autoria



«(...) em silêncio era afinal, quem diria, uma entrada escondida»

Avisos de Conteúdo: Violência Doméstica, Violação, Assédio, 
Homofobia, Linguagem Explícita


A melodia ecoa por almas alheias, mas nem sempre paramos para a escutar. Existe o conforto de um ambiente que não está vazio, mas é como se nós não reparássemos. Porém, neste livro, Rodrigo Guedes de Carvalho alerta-nos para esse exercício, mostrando-nos que, «por vezes, nem tudo, nem todos somos uma só coisa».


UM HÍBRIDO EMOCIONAL

O Pianista de Hotel cruza várias histórias, com particular destaque para a de Maria Luísa, Luís Gustavo, Saúl Samuel e Pedro Gouveia. Em comum, têm a cidade onde habitam, a música, fantasmas e uma linguagem misteriosa que nos mantém numa espécie de vertigem. Assim, cada uma destas personagens procura desembaraçar-se da sua dor, dos seus contratempos e leva-nos a desvendar cada tentativa nesse sentido.

«O corpo encontra sempre maneira de sobreviver»

Há um prenúncio sombrio que evidencia os traumas e compreendemos que o passado assume um peso vital, condicionando os passos dos protagonistas, fazendo-os mergulhar numa espiral de dúvidas, hesitações e emoções extremas. Por esse motivo, sentimos os estilhaços do luto, do preconceito, do vazio e da solidão.

«O nosso corpo chega aos outros sempre antes de nós»

Embora aborde temas urgentes, reais, que nos fazem oscilar entre a exasperação e a esperança, que nos levam a refletir sobre o quanto tentamos colmatar fragilidades com falhas e nos esquecemos de comunicar com o outro, reconheço que nem todos os aspetos resultaram comigo, porque acho que o enredo se perdeu em algumas banalidades que pouco acrescentaram à narrativa, desviando-nos do que tem de mais belo.

«(...) porque se a escrita é muitas vezes expressar um sentimento, 
ele não sabe, precisamente, o que sente»

O Pianista de Hotel apresenta um ritmo muito próprio, por vezes confuso, com um vínculo à tradição oral. As teclas deste piano, em certos momentos, foram um pouco abafadas, e o final também não correspondeu às minhas expectativas, no entanto, não deixam de focar um retrato interessante dos desencontros, dos caminhos que se traçam em simultâneo, do amor que fica suspenso em famílias disfuncionais ou a gerir perdas e dos sucessivos desencontros que pautam a nossa jornada e nos levam para longe - em muitos casos, de nós.


🎧 Música para acompanhar: Prelude in B Minor, Johann Sebastian Bach & Khatia Buniatishvili

📖 Do mesmo autor, li e recomendo: Margarida Espantada


◾ DISPONIBILIDADE ◾

Wook: Livro | eBook
Bertrand: Livro | eBook

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Fotografia da minha autoria



«Poesia para ser lida com a alma»


O Clube Leituras Descomplicadas, na edição de 2023, aliou-se a pequenas unidades para uma viagem singular. Assim, com duas letras do alfabeto associadas a cada mês, o objetivo passa por selecionarmos um livro de um autor cujo nome ou apelido comecem pela[s] letra[s] em questão. Para junho, temos o F e o U.

Quando a Sandra Cavaleiro disponibilizou as informações, fiz uma lista com os títulos que se enquadravam na dinâmica e, para este mês, tinha destinado o livro do Guilherme Fonseca, o Deve Ser, Deve. Como fiz uma pequena batota e o li logo em fevereiro, achei por bem redimir-me e acabei a ler dois exemplares de poesia.


A IMPORTÂNCIA DO PEQUENO-ALMOÇO, FRANCISCA CAMELO


Avisos de Conteúdo: Referência a Violação, Assédio, Morte, Violência, 
Mutilação Feminina, Linguagem Explícita

O discurso ecoa em surdina: «não saias de casa sem tomar o pequeno-almoço», «o pequeno-almoço é a refeição mais importante», «qual foi o teu pequeno-almoço?». Foi a partir deste momento do nosso dia que a Francisca Camelo nos levou a refletir sobre o quanto esta tarefa é mais uma representação do posto social que nos foi atribuído à nascença e o que é isto de ser mulher.

«o silêncio apodera-se das minhas mãos»

Os seus poemas, tão reais, que parecem uma história versada, são-nos servidos passo a passo, como se fossemos, todos juntos, confecionar este grande pequeno-almoço: para alguns, indigesto, porque coloca em evidência o patriarcado, o medo, a solidão, a diminuição, a violência, a necessidade que ainda temos de, enquanto mulheres, nos fazermos visíveis. E, aqui, refiro o quanto adorei Manifesto de Identidade.

«as batalhas do meu corpo
sou eu que as travo
sou eu que as como
sou eu que as lavo»

Com uma escrita que oscila entre a ternura e a dureza, percebemos que há inúmeros momentos em que estamos sozinhas, mas que continuamos aqui, a resistir.


🎧 Música para acompanhar: Nome de Mulher, Ana Magalhães


GUARDA NOCTURNO, ANA FREITAS REIS


Avisos de Conteúdo: Referência a Morte

O mais recente livro de Ana Freitas Reis oscila entre o abismo e os afetos, oscila entre a tragédia e o que é cómico. Dando um certo palco à dor e a um tom mais pessimista e melancólico, é como se o sujeito poético se fosse libertando desta nuvem negra e tornasse o seu quotidiano um pouco mais leve.

«Pela madrugada a solidão entra»

Num processo catártico, que nos liberta do terror e nos permite regressar ao quotidiano, estes poemas exploram o absurdo, o real que não é racionalizado e o renascimento do corpo. E a ideia de termos o corpo como guarda nocturno torna a experiência de leitura mais visceral.


🎧 Música para acompanhar: Guarda-me Esta Noite, Valter Lobo

📖 Da mesma autora, li e recomendo: Cordão

Fotografia da minha autoria



«O verão em que o amor cresceu»

Avisos de Conteúdo: Referência a Morte, Luto e Fim de Relacionamento


A promessa estava no subtítulo e eu acreditei que a veria refletida no decorrer da ação. Além disso, inconscientemente, elevei o entusiasmo ao pensar que seguiria uma fórmula próxima a Heartstopper. Por norma, evito ao máximo comparar obras e cimentar expectativas em experiências anteriores, mas percebi que não o consegui em pleno [falha minha], por isso, fiquei um pouco desiludida com o livro de Kevin Panetta.


UMA NOVELA GRÁFICA COM IMENSO POTENCIAL

Bloom transporta-nos para o final das aulas, para a curva temporal em que Ari, um jovem que «sonha mudar de cidade e tocar com a sua banda», conhece Hector, «um rapaz simpático que adora cozinhar». Enquanto o primeiro procura deixar a padaria da família, porque almeja um futuro longe e diferente, o segundo chega para o substituir. Apesar disso, acabarão por trabalhar juntos e as reviravoltas sucedem-se a partir desse momento.

«Mas aqui é diferente. Olhas para cima e não há nada entre ti e o céu»

A história tem bastante potencial [e talvez arrisque comprar o volume seguinte], mas não me arrebatou como estava à espera, porque fiquei com a sensação de que quiseram abordar imensos temas ao mesmo tempo, o que levou a que nenhum deles fosse explorado com profundidade e que as partes importantes carecessem de um desenvolvimento adequado, mais contextualizado, para que o leitor sentisse o seu impacto. Em simultâneo, as situações centrais escalaram rapidamente, tornando o ritmo oscilante e, por vezes, um pouco confuso.

«Porque é que queres estar noutra parte do mundo?»

O estilo desta novela gráfica é encantador e, pessoalmente, adorei os tons azulados e a forma como os traços me permitiram reconhecer o ambiente, mas acabei por não me relacionar tanto: pelas mudanças abruptas, por cobranças que me soaram exageradas, por se retirar o foco de uma circunstância fundamental, por sentir que o protagonista necessitava de outra construção. Por estes motivos, prossegui na leitura a achar que faltava algo.

«Mas... Não tentes ser o que achas que tens de ser. Sê o que amas»

Bloom é, ainda assim, um bom ponto de partida para refletirmos sobre diferentes tipos de perda e inseguranças, sobre a necessidade de procurarmos validação e a incerteza do futuro, sobre problemas familiares e sentimentais e sobre o facto de não estarmos bem resolvidos numa série de questões, condicionando não só a maneira como nos vemos, mas também o modo como nos ligamos aos outros. Os ingredientes estão todos cá, mas precisavam de levedar para nos levarem nesta viagem de [auto]descoberta.


🎧 Música para acompanhar: Summer Mood, Best Coast


Disponibilidade: Wook | Bertrand

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Fotografia da minha autora



«Sou apenas um ser consciente e curioso»


A sensação de mergulhar num livro pode despertar vários estados: liberdade, catarse, fascínio, revolta, um certo vício. Porque as palavras - e a forma como se agrupam para construir a narrativa - abrem um precedente que nos estimula a querer mais. Se calhar, é por esse motivo que qualquer leitor tem uma profunda admiração pelas suas estantes, pois são um lembrete de todas as viagens que já fez e daquelas que ainda o esperam.

Quando comecei a fomentar o gosto pela leitura, ainda que não tenha sido consciente na altura, senti uma urgência para recuperar o tempo que julguei perdido. Portanto, entre ler na biblioteca, requisitar e destinar parte das minhas poupanças para comprar novos exemplares, fui-me moldado enquanto leitora e, sobretudo, passei a investir num bem precioso: a minha modesta biblioteca. Mas se, numa fase inicial, a seleção não tinha qualquer critério em particular, porque o objetivo era descobrir os autores e perceber o que resultava comigo, com essa perceção mais evidente passei a ser mais criteriosa. Só que esse processo levou o seu tempo.

Crescer, creio, também passa por aprender a olhar para as nossas paixões com outra maturidade.


AUMENTAR AS ESTANTES

Uma casa sem livros parece-me, hoje, um espaço menos colorido. No entanto, houve uma altura em que isso não me fazia confusão, porque a minha prioridade era diferente. Nessa fase, os meus livros cabiam, à vontade, numa das prateleiras do móvel da sala. E até parece surreal pensar nisso, porque sinto que foi há muitas vidas.

Agora, para além do móvel, tenho uma estante, caixas de madeira, cubos por cima da secretária, outra estante no quarto, mais uma caixa e livros divididos entre a cómoda/armário da televisão e a parte inferior da mesinha de cabeceira. Tendo em consideração as histórias que me faltam descobrir, há momentos em que me aflige ter de as encaixar nestes espaços cada vez menos vazios. Por oposição, há outros em que me sinto totalmente em paz com essa imagem, porque percebi, finalmente, que nem todas são para ficar comigo - dadas, doadas ou vendidas, existem obras que sei que vou querer deixar ir, para que cumpram o seu propósito noutras casas.

Seja como for, este aumentar de estantes é algo que, no geral, me entusiasma, já que gosto da possibilidade de ter tantas narrativas por perto. Gosto da sensação de ir a uma livraria e sair de lá com o mundo nas mãos. Gosto quando as minhas pessoas me surpreendem com livros. Contudo, comecei a não apreciar muito o incómodo de ter tantos livros por ler. Sei que parte do problema se deve, agora, ao não usufruir tanto da biblioteca, porque gosto de viver os meus livros sem preocupações e prazos, mas também sei que há estratégias que me permitem manter um certo controlo na hora de comprar. De que me serve ter tantos livros parados, se não paro de adicionar exemplares à estante? Quando é que priorizarei os antigos? Quero muito continuar a investir numa biblioteca pessoal, mas fazê-lo de um modo consciente, com um tempo de resposta mais equilibrado e sem sentimentos de culpa. Acima de tudo, quero garantir que o princípio não é acumular.


SER MAIS CONSCIENTE A COMPRAR LIVROS

Organizar a lista de livros por ler ajuda-me a ter uma noção clara do caos. Catalogar os que ainda não descobri das edições anteriores da Feira do Livro do Porto e dividir, depois, todos os restantes pelos anos de compra foi outra estratégica que se revelou útil. Aliás, fazer este exercício até me deixou mais tranquila, porque o livro mais antigo que tenho por ler é de 2020 e vários dos que me faltam estão reservados para clubes de leitura.

Penso que já o escrevi noutra publicação, mas faz-me sentido recuperar este pensamento: existem livros que compramos e que deixam de nos interessar - pelas mais variadas justificações. Respeito isso, assim como respeito e aplico a leitura por estados de espírito, porque acho importante seguirmos essa espécie de chamamento, esse olhar para a estante e sentir uma afinidade maior por um determinado título, que aumenta a predisposição. Talvez por isso nunca tenha sido grande adepta de pensar numa TBR mensal, até que, este ano, decidi arriscar nessa dinâmica e percebi que me tem ajudado a ser mais consciente dentro deste universo.

Em simultâneo, à semelhança do que fiz em 2020, propus-me a um novo book buying ban e usei os clubes de leitura, incluindo a minha viagem literária, a meu favor: se tenho livros que se enquadram nos temas ou nas sugestões, separo-os para o efeito; caso não tenha, não participo naquele[s] mês[es]. Embora necessite de ser mais regrada nos momentos de pausa, para não comprar por todos os dias em que não o fiz, estes métodos são autênticos aliados para diminuir a pilha e para me recordar de que tenho muitas histórias à minha espera.


PAIXÃO VS ESTRATÉGIA

É improvável, para não dizer impossível, ter a lista de livros por ler a zeros. Para ser honesta, também não é algo que pretenda na totalidade, apenas tenho vindo a reajustar a forma como penso o meu investimento.

Há livros que comprarei com a certeza de só os ler mais tarde, como acontece com os do Alma Lusitana, porque aproveito a Feira do Livro para organizar a edição seguinte. Da mesma maneira, sei que há lançamentos que vou querer aproveitar no imediato, caso sejam dos meus autores favoritos. Isto é um pensamento estratégico, porque existe uma lógica que funciona comigo e porque estou a privilegiar exceções, em vez de fazer disto uma regra. De resto, procuro que o período entre a compra e a leitura não seja extenso.

Não deixei de adorar comprar livros - nunca deixarei, na realidade -, mas embarcar nesta análise é saber que respeito muito mais os que estão por ler e que foram adquiridos para serem descobertos e não apenas para ficarem em exposição por épocas infinitas. É tentador ver as estantes a aumentar, porém, como sei que o tempo, por si só, já escasseia, prefiro garantir que aqueles que habitam cá em casa terão o seu momento.

Fotografia da minha autoria



«(...) mesmo que o tempo não volte atrás, renasci»


Tenho saudades das manhãs de inverno. De acordar com aquela luminosidade tímida e, praticamente, sem força para invadir as pequenas frinchas das persianas. Sinto falta de escutar as gotas da chuva contra o vidro, formando uma melodia confortável, que nos embala no aconchego de um ritmo quase impercetível.

Preciso dessa paz, do cheiro acolhedor de um chocolate quente acabado de fazer, do crepitar da madeira na lareira, das mantas espalhadas pela casa, estrategicamente expostas para quando o frio se torna insuportável - o meteorológico e o da alma. Quem é que me abraça durante esta estação tão propícia à melancolia?

Fico de pé, encostada à janela, a ver os carros a desaparecer, ao mesmo tempo que imagino a tua chegada; e que, ao chegares, me envolves nos teus braços. Quando regressas, perfumando a casa, eu fico bem.

O inverno é o teu retorno, como se fosses uma ave migratória. Por isso é que esta estação me diz tanto e é por isso que, quando termina e tu vais embora, os meus dias ficam mais frios, mesmo que lá fora seja verão.

Tenho saudades das manhãs de inverno: das nossas, de quando te tenho só para mim.

Fotografia da minha autoria



«Incentivar o hábito de leitura»


O ato de comprar livros e o ato de os ler correspondem a hobbies distintos, como o afirmará qualquer leitor - e com uma certa verdade, diga-se, porque existem imensas justificações para adquirirmos exemplares novos, mesmo que não saibamos quando os conseguiremos priorizar (dependendo do ritmo e do estado de espírito).

Eu tenho quatro regras antes de comprar livros novos e duas delas relacionam-se com o facto de ponderar bem se quero descobrir aquela obra e com o cuidado de não ter outros livros de um determinado autor em espera, no entanto, reconheço que há oportunidades tentadoras que nos desviam do caminho. Por outro lado, gosto de olhar para a estante dos que estão por ler e agrupá-los, mentalmente, por ocasiões/anos em que os trouxe para casa, uma vez que é uma maneira útil de perceber há quanto tempo os tenho ali a aguardar.

Quando se aproxima uma nova Feira do Livro do Porto, redobro esta postura. Foi uma meta que estabeleci, porque não me faz sentido ir com uma lista extensa para a nova edição, estando ciente da quantidade que tenho por ler das anteriores. Assim, com esta dinâmica no pensamento, lembrei-me de dividir os meus livros por ler em duas partes: primeiro, reconhecendo quais os que me faltam descobrir das Feiras do Livro; segundo, enumerando todas as obras pelos seus anos de compra. E só precisamos de recuar até 2018.


OS LIVROS POR LER: DAS VÁRIAS EDIÇÕES DA FEIRA DO LIVRO DO PORTO A QUE FUI

📖 Porto, 2018
Neste ano, comprei três livros e já os li.

📖 Porto, 2019
Neste ano, o número aumentou para cinco, mas também já estão todos lidos.

📖 Porto, 2020
Neste ano, a despesa foi bem maior. No total, comprei 15 livros e falta-me ler um:
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

📖 Porto, 2021
Neste ano, comprei 18 exemplares [alguns para a edição de 2022 do Alma Lusitana], mas também já os consegui ler a todos [o que me faltava, Gente Melancolicamente Louca, de Teresa Veiga, li-o no mês anterior].

📖 Porto, 2022
Neste ano, comprei 16 livros e já li 11. Dos cinco que faltam, quatro estão reservados para o Alma Lusitana, portanto, não existindo algo em contrário, o objetivo é rasurá-los até terminar 2023. Assim, faltam-me ler:
O Coração dos Homens, Hugo Gonçalves;
Caronte à Espera, Cláudia Andrade;
Baiôa Sem Data Para Morrer, Rui Couceiro;
Ecologia, Joana Bértholo;
Escrítica Pop, Miguel Esteves Cardoso.


LISTA DOS LIVROS POR LER: DIVIDIDOS PELOS ANOS EM QUE OS COMPREI

📖 Livros comprados em 2020/2021
1. Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa [o único de 2020];
2. O Pianista de Hotel, Rodrigo Guedes de Carvalho;
3. Pretérito Perfeito, Raquel Serejo Martins;
4. Flecha, Matilde Campilho;
5. Os Números que Venceram os Nomes, Samuel Pimenta;
6. Gente Melancolicamente Louca, Teresa Veiga;
7. Vamos Todos Morrer, Hugo Van Der Ding;
8. Contos de Cães e Maus Lobos, Valter Hugo Mãe;
9. Fabíolo, Mário Zambujal.

TOTAL: 3 de 9 lidos [dos que faltam, 4 são para o Alma Lusitana, 2 são para o Clube Leituras Descomplicadas]


📖 Livros comprados em 2022
1. Obras Completas Vol. I, Maria Judite de Carvalho;
2. Rapazes de Zinco, Svetlana Alexievich;
3. Apontar é Feio, Joana Marques;
4. O da Joana, Valério Romão;
5. Três Mulheres no Beiral, Susana Piedade;
6. O Coração dos Homens, Hugo Gonçalves;
7. Caronte à Espera, Cláudia Andrade;
8. Baiôa Sem Data Para Morrer, Rui Couceiro;
9. Ecologia, Joana Bértholo;
10. A Profeta, Maria Francisca Gama;
11. Escrítica Pop, Miguel Esteves Cardoso;
12. O Elevador, Filipa Fonseca Silva;
13. Deste Silêncio em Mim, Rui Conceição Silva;
14. O Paraíso Segundo Lars D., João Tordo;
15. Cair Para Dentro, Valério Romão;
16. O Deslumbre de Cecilia Fluss, João Tordo;
17. Ideias Concretas Sobre Vagas, Ricardo Araújo Pereira;
18. Curar Através das Palavras, Rupi Kaur;
19. Os Vivos, Os Mortos e o Peixe Frito, Ondjaki.

TOTAL: 3 de 19 lidos [dos que faltam, 10 são para o Alma Lusitana, 3 são para o Clube Leituras Descomplicadas e 1, por ser de escrita, está a ser descoberto aos poucos, para desfrutar das propostas]


📖 Livros comprados em 2023
1. Tudo Sobre o Amor, bell hooks;
2. Rádio Silêncio, Alice Oseman;
3. Ainda Bem Que a Minha Mãe Morreu, Jennette McCurdy;
4. Obras Completas Vol. II, Maria Judite de Carvalho;
5. Obras Completas Vol. V, Maria Judite de Carvalho;
6. Já Não Me Deito em Pose de Morrer, Cláudia R. Sampaio;
7. Os Meus Sentimentos, Dulce Maria Cardoso;
8. Volta Para a Tua Terra, Manuella Bezerra;
9. A Importância do Pequeno Almoço, Francisca Camelo;
10. Guarda Nocturno, Ana Freitas Reis;
11. A Estrada Para Firopótamos, Filia Leal;
12. O Ano do Macaco, Patti Smith;
13. A Minha Andorinha, Miguel Esteves Cardoso;
14. Lunário, Al Berto;
15. Quantos Ventos na Terra, Maria Isaac;
16. Lágrimas no Mercado, Michelle Zauner;
17. Os Livros no Final da Tua Vida, Will Schwalbe;
18. Misericórdia, Lídia Jorge;
19. Obra Poética, Sophia de Mello Breyner;
20. Maremoto, Djaimilia Pereira de Almeida;
21. Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro, Susana Moreira Marques.

TOTAL: 6 de 21 lidos [dos que faltam, 2 são para o Alma Lusitana, 1 está a ser lidos, 1 está na TBR de junho]

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