![]() |
| Fotografia da minha autoria |
A primeira vez que ouvi a Gisela João ao vivo (2014) tinha a Serra do Pilar como pano de fundo. Embora já me restem poucas memórias dessa noite, perdidas numa neblina que acompanha o avançar dos dias, nada fez desaparecer o impacto da sua voz grave, quente, que parece acolher o mundo inteiro em cada palavra. Dez anos depois, voltei a vê-la na Feira do Livro do Porto, rendendo-me uma vez mais. Mas estava a faltar-me um concerto numa sala mais intimista e, desta forma, fui ouvi-la ao Coliseu do Porto.
O frio que cobriu a Invicta ficou à porta, até porque não tinha qualquer hipótese de encontrar espaço no aconchego com que a artista nos abraçou, na inquietação que nos emociona, que nos molda a respiração e nos transporta para um viagem urgente, que quase nos faz esquecer o que se passa ao nosso redor, apesar de nos manter despertos. A construção do espetáculo, que contou com uma componente visual a transbordar de força, de histórias paralelas a embalar as letras e a sonoridade dos instrumentos, fez com que me comovesse em vários momentos, porque é arrepiante o modo como, em cima do palco, parece comunicar diretamente com o público, numa conversa pessoal, onde ninguém fica de fora — aquelas vidas também nos pertencem, também existem pedaços nossos naquelas dores, naqueles sonhos, naquelas mágoas e nas hesitações.
A poesia da Gisela João vai para além dos poemas que interpreta: está, claro, na sua voz cheia, nos silêncios, nas histórias que nos conta entre canções. A sua poesia está no sorriso que não vemos, quando se posiciona de costas, mas que sentimos a formar-se nas palavras. E, por falar em palavras, não podia estar mais de acordo quando dizem que ela as defende até ao último fôlego. Esta imagem não é só belíssima, é também um retrato fiel do modo como se entrega ao poema e como respeita o legado deixado no nosso cancioneiro, por artistas que usaram a arte como arma, como rosto de liberdade.
Há uma intensidade na sua interpretação que parece quase um grito, um arrancar das entranhas pela urgência de acordarmos, de nos erguermos, porque «se dermos as mãos fica mais fácil». Mas depois, como se fizessem sempre parte do mesmo compasso, há a doçura da vulnerabilidade, a gargalhada que floresce pelas peripécias que nos conta, a metamorfose de quem se vai libertando das amarras. E houve dança, muita dança, e uma partilha muito generosa, prolongada pelos convidados que trouxe para o concerto.
Fomos Inquieta, AuRora e Gisela João. Fomos todos aqueles que carrega na voz. Não sei traduzir a força que ela imana, contudo, senti o privilégio de a poder ver tão de perto.







0 Comments