Entre Margens



A viver entre palavras, sinto-me sempre em casa quando são o tema central de uma conversa — ou o seu desenrolar nos encaminha nessa direção. Essa era, portanto, uma das razões pelas quais queria tanto assistir à peça que Gregorio Duvivier escreveu com Luciana Paes e, depois de a ver, fiquei tão apaixonada por O Céu da Língua que o passo seguinte só podia ser comprar este livro.


 imaginar a partir das palavras

À Flor da Língua nasce «da desconfiança em relação aos significantes» e funciona como um desdobramento da peça supracitada, até porque, nesta obra, coube tudo o que não coube no texto que levou a palco, ampliando «aquilo que nos une: a capacidade de falar, de imaginar a partir das palavras e de contar histórias».

Ao explorar o seu amor e obsessão pela semântica, Duvivier construiu uma espécie de dicionário, no qual cada termo adquire uma componente emocional, humana, como se fosse um organismo vivo, como se respirasse e tivesse uma forma palpável. Aqui, nenhuma expressão é dita por acaso, sem vir agregada a uma explicação e experiência particulares.

Permiti-me demorar nesta viagem, apesar de a querer ler num sopro, porque é fascinante o poder de argumentação e as associações que o humorista estabelece, despertando sensações, desbloqueando uma nova forma de olharmos para a génese e para o significado de cada palavra. E fá-lo sempre com graça e sensibilidade. Se dúvidas existissem quanto à inteligência e cultura de Gregorio Duvivier, neste livro ficam desfeitas.

«Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida. Se a saudade é a presença de uma ausência, a despedida é a presença antes da ausência: se despedir é tornar presente aquilo que não estará»

Entre palavras mais kiki ou mais boubas, também consegue a proeza de abordar as subtilezas que aproximam e diferenciam o português de Portugal e o português do Brasil. Isso é mágico e, por vezes, quase que podia jurar que o estava a ouvir a dizer os textos — aqueles que se cruzam na peça, então, podia jurar que estava de volta ao Coliseu do Porto a viver a experiência de assistir ao espetáculo. Apesar de serem propostas que funcionam em separado, acredito que este livro prolonga a peça com mais intimidade, deixando-a a ecoar em nós (mas leiam-no mesmo que não tenham visto o monólogo, porque não compromete o vínculo).

À Flor da Língua desperta o nosso sentido crítico e convida-nos a pensar mais fundo. Uma vez que se foca na linguagem, mostra-nos que esta é uma ponte para compreendermos a cultura em que nos inserimos, para reconhecermos uma identidade que é coletiva e, sobretudo, para nunca esquecermos que as palavras nos colam ao mundo. Hei-de regressar para me (re)descobrir nesta pluralidade contagiante.


 notas literárias
  • Lido entre: 7 e 13 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Humor
  • Banda sonora: Trem das Onze, Maria Gadu | Meu Bem Meu Mal, Caetano Veloso


O meu texto precisava de começar com uma confissão: a primeira vez que ouvi o Vítor Sá não encaixei com a sua energia. Na altura, ainda não acompanhava Cubinho de uma forma assídua e creio que incompatibilizei com ele por não ter compreendido o tom, por me parecer que havia uma postura de superioridade, sobretudo, em relação a um dos colegas. Contudo, o lado bom das primeiras impressões é que podem ser mudadas e bastou-me estar mais atenta ao seu percurso para perceber o quanto estava errada.

Para além do podcast que divide com o António Azevedo Coutinho e o Ricardo Maria, assisti ao especial de comédia que disponibilizou no Youtube, Incerto, e, mais tarde, vi-o a abrir o Não Faz Sentido, do Guilherme Fonseca. Se, após esse espetáculo, dissessem que eu ia acabar por comprar bilhetes para um solo seu, talvez não acreditasse, porque até achei que embalou bem o público, mas que a construção do texto se socorreu mais de palavrões (e eu adoro palavrões). Claro que é injusto reduzir o trabalho do artista ao tempo de abertura, ainda assim, foi uma primeira interação que me deixou oscilante.

Corta para novembro, de 2025, quando Vítor Sá anuncia o novo espetáculo de stand-up e, com uma perceção diferente, tive de me apressar a comprar bilhetes, já que estavam a desaparecer num ápice. E a curiosidade foi aumentando: pelo conceito do solo, pelos novos ângulos que traria à sua comédia e pela quantidade de histórias hilariantes que teria acumulado, afinal, atendendo a que tanto o podemos ver «disfarçado de Zorro na Festa dos Arcos de Paços de Paços de Brandão», como a ser «tesoureiro e dançarino no Rancho Folclórico e Etnográfico das Terras de Santa Maria em Rio Meão», sem, claro, esquecer que foi «praticante de skate amador», não lhe faltam peripécias na bagagem.

Conclui-se, portanto, que «uma boa parte da vida de Vítor Sá foi passada num Arraial» e não haveria melhor nome para o espetáculo. Com um cenário, em palco, que nos leva mesmo para um ambiente festivo, a noite começou com a atuação do Chimpas, que se revelou uma excelente surpresa. Não sabia o que esperar, sendo honesta, porque ainda não tinha visto trabalhos dele, mas sinto que entregou tudo e que deixou a plateia no ponto certo. Logo de seguida, ainda tivemos a visita de Carlos Contente, que fez total justiça ao apelido. Se o início da festa já prometia, o resto da noite cumpriu em pleno.

Não quero entrar em pormenores, para não comprometer a experiência a quem possa ir ver Arraial, mas permitam-me realçar o quanto a evolução do Vítor Sá é admirável: o texto nem parecia o de um primeiro solo, de tão bom e coeso que estava. Uniu todas as pontas soltas com mestria e sem quebrar o ritmo — nem quando teve de gerir aquelas situações imprevisíveis. Se existia nervosismo, nunca o transpareceu, atuando seguro, conseguindo o equilíbrio certo entre o cómico e o javardo. Há, aqui, histórias que só podiam ser contadas por ele, que talvez só nos levem a chorar a rir por serem dele, no entanto, a entrega em cada momento foi irrepreensível, espelhando toda a qualidade.

Não me recordo de ter estado noutro espetáculo em que estivesse o tempo todo a rir e ele conseguiu-o. Aliás, fiquei com a sensação de que esse foi o estado geral da sala, o que corrobora o tom cirúrgico das punchline. Percebe-se que existiu trabalho «a limar cada frase», não obstante, o texto não perdeu naturalidade e isso também é uma prova da sua evolução. A fasquia está elevada, mas acredito que tem tudo para melhorar. E o mais curioso é que não o conheço, mas saí do Teatro Sá da Bandeira orgulhosa, como se tivesse assistido a uma conquista de um amigo. Se dúvidas existissem em relação ao quanto merece que lhe esgotem todas as salas, este solo veio desfazê-las uma por uma.

Sinto que nenhum outro Arraial foi tão extraordinário, porque este fica para a história!



Abril começou na companhia de um álbum que, na realidade, já tinha saído no mês anterior e ainda me levou de volta a 2025, porque fiquei rendida à voz da Libra, ao seu Everyone's First Breath e à declamação poética que ganha outro fôlego musicada. Este mês, também deambulei entre vulnerabilidade e um tom mais combativo. Celebrei abril, reforcei a importância de ver beleza nas pequenas coisas e terminei ao som de folk.


os álbuns de abril


THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE, RAYE

A sensação de que a arte é tão maior do que nós pode ser sufocante ou estimulante, pelo simples facto de sabermos que nos faltarão sempre referências, mas talvez seja nesse ponto que entra o lado emocional, deixando-nos em paz com isso.

Nunca acompanhei a Raye com particular atenção, até a Where Is My Husband aparecer em vários contextos. E, ainda que com algumas reticências, aventurei-me no seu mais recente trabalho, confirmando algo que pairou no meu pensamento: que ia sentir-me à deriva, sem ser capaz de atar todos os nós e de estabelecer todas as associações possíveis, enquanto me deixaria contagiar pela voz, pela linguagem melódica.

Ao longo de 17 canções, senti que estava a assistir a uma produção cinematográfica, a uma história longa com espaço para mergulharmos até às profundezas da nossa alma, conhecendo todos os recantos tristes e sombrios; com espaço para preencher vazios e silêncios e traçar uma nova rota. Neste álbum, a artista oscila emocionalmente, mas é de uma composição tão coesa que tudo parece encaixar no sítio certo: não porque seja calculado, mas porque sentimos verdade na partilha.

This Music May Contain Hope acertou-me em cheio e já não o dispenso.



DOBERMANN, ELLA NOR & MOGNO

A voz da Leonor Andrade não me passou despercebida no The Voice. Ainda a acompanhei um pouco para lá do programa, mas depois os nossos caminhos desencontraram-me. Anos depois, e já a responder pelo alter ego artístico Ella Nor, estava muito curiosa para descobrir a sua nova identidade musical.

Foi o Santa que me abriu a porta do Dobermann e de uma sonoridade que me cativou pela junção de pop, eletrónica e ritmos latinos. Aliás, cativou-me pela possibilidade de ser tanta coisa, de explorar diferentes estados de intimidade e, até, de combatividade. Sinto que este trabalho é um espelho das diferentes facetas que podemos assumir, dependendo do momento e das circunstâncias que estamos a viver, sem ignorar o quanto as relações, independentemente da sua natureza, têm influência no processo.

O próprio nome do disco é a metáfora perfeita para essa dicotomia, para o facto de ser ténue a linha que separa a vulnerabilidade e a necessidade de reagir. No fundo, como referiu a artista, é um trabalho que representa «a ocasião em que deixa[mos] de sobreviver em silêncio e começa[mos] a proteger quem realmente [somos]».

Dobermann é, talvez, o manifesto de Ella Nor, porque «defende a sua própria identidade». Sempre que o ouço, há uma força que parece renascer por dentro.



APENAS ABRIL, INÊS APENAS

Inês Apenas, uma das vozes mais promissoras do panorama musical português, quis prestar uma homenagem a Zeca Afonso, compilando versões contemporâneas de alguns dos seus temas mais emblemáticos.

Apenas Abril integra sete canções e conta, ainda, com a participação de Sérgio Onze, Inês Monstro e Bia Maria. Que forma bonita de celebrar a liberdade e músicas que, de algum modo, nos moldaram enquanto sociedade, mantendo sempre acesa a chama da intervenção.



A BELEZA DE TODAS AS COISAS, LUAR

A primeira vez que ouvi falar do LUAR foi através do Volume I, da Avalanche, e fui-me mantendo atenta a eventuais trabalhos posteriores a solo. Por isso, foi com grande expectativa que recebi a notícia de que editaria o seu álbum de estreia.

A beleza de todas as coisas tem uma sonoridade intimista, de quem observa o que o rodeia com a calma e a atenção que merece. Com sensibilidade e introspeção, acolhe-nos na sua viagem de autodescoberta, de contemplação face às vivências que o habitam, ao que necessita de exteriorizar, ao quotidiano que consegue ser tão mundano e imprevisível.

Sinto que os seus poemas nos convidam a abrandar, a respirar fundo e a explorar as nossas incertezas. Partindo dos seus problemas, dos pensamentos onde fica a pairar, encontrou na escrita uma forma de verbalizar «o encanto que [gosta] de encontrar entre as rotinas».

A beleza de todas as coisas é plural na sonoridade, entrelaçando «música alternativa, indie e bedroom pop», porque espelha o quanto podemos ser várias coisas em simultâneo.



THE GREAT DIVIDE: THE LAST OF THE BUGS, NOAH KAHAN

O tik tok pode ser um universo fascinante. E digo isto porque bastou-me ver um vídeo de uma rapariga a falar com todo o entusiasmo da música Deny Deny Deny para a querer ouvir na sua versão completa. Gostei tanto dela que o passo seguinte só podia ser escutar o álbum novo do Noah Kahan.

The Great Divide: The Last Of The Bugs cativou-me de imediato pela sonoridade intimista e vulnerável. Sei que nos encaminhamos para o tempo quente, mas fez-me sentir naqueles dias enevoados, onde corre uma brisa ligeira e só nos apetece ficar enroscados no sofá, com uma chávena de café ou de chá ao lado, se calhar, porque a sua concretização veio de um lugar ambivalente, a oscilar entre «o medo, a pressão, a alegria».

Sinto que as músicas nos vão retirando da escuridão, levando-nos para espaços mais luminosos, mostrando-nos que «nunca estamos verdadeiramente sozinhos», mas que há lugares onde precisamos de ir sem essa companhia. Tenho regressado sempre que preciso de revestir os dias com um pouco mais de quietude.


Menções honrosas: 94, do LON3ER JOHNY, porque houve músicas que me conquistaram. Para mim, não foi um álbum consistente, razão pela qual não tenho sentido o impulso de o escutar na íntegra; Pop Luso Flamenco, do Lucas Maia, porque gostei da fusão de estilos e da infinidade de camadas que cabem em seis canções, quase como se tivéssemos uma opção para distintos estados de espírito; Equilibrivm, da Anitta, porque achei interessante o facto de ser tão diferente dos trabalhos anteriores. Ainda só ouvi uma vez na integra e algumas canções soltas, mas quero continuar a explorar este álbum.



A ideia andava a pairar e optei por não prolongar a dinâmica até ao final do ano, porque, honestamente, já não me estava a divertir com a rubrica Notas Literárias, nem a sentir que se mantivesse relevante para justificar uma publicação individual. Por isso, decidi agregá-la ao Entrelinhas, numa espécie de nota introdutória antes de partilhar as reviews.

Em abril, quis rodear-me de autores-casa, de livros sobre livros e que fossem uma forma de celebrar a liberdade. No total, li dois de poesia, três romances, um de humor e três de não ficção, e fiz duas releituras (Jóquei e Vem à Quinta-Feira). Descobri três autores novos — Gregorio Duvivier, Carlos Maria Bobone e Tiago Fernandes — e, de acordo com as estatísticas do The StoryGraph, fiz leituras mais reflexivas e emocionais. O Homem Sem Mim e À Flor da Língua levaram a medalha de favoritos do mês


 entrelinhas de abril

A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone

Os leitores praticam várias modalidades e uma que creio ser transversal é o gosto em lermos livros sobre livros, talvez por ser uma forma de orbitarmos mais tempo neste universo, descobrindo novas camadas e pretextos para nos deslumbrarmos. Num mês em que celebramos este portal mágico para infinitas histórias, decidi ler o ensaio que o alfarrabista Carlos Maria Bobone tem na Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A Religião dos Livros mostra-nos um retrato sobre «a vida dos livreiros e das livrarias», que, certamente, encapsularão «historietas rocambolescas» dentro da normalidade dos dias. Há uma imagem romântica que lhes associamos, mas estava curiosa com «o lado iniciático, o cenário algo apocalíptico e o papel do livreiro como guardião da cultura e de preciosidades esquecidas». Além do mais, estava intrigada com o olhar acerca dos alfarrabistas, uma vez que continua a ser um mundo bastante desconhecido para mim.

Sinto que, ao desromantizar todo o processo, nos deixa mais próximos da realidade, da dificuldade que paira em algumas situações, da necessidade de resistir, de modernizar, de encontrar estratégias estimulantes que permitam vender. É que, embora possa ser um cenário idílico para a maior parte dos comuns mortais, existe uma componente de negócio que não se pode descurar, por isso, achei particularmente interessante que o autor partilhasse informações sobre os leilões, a compra de bibliotecas particulares e a relação preço-objeto, pois ajuda-nos a refletir sobre a complexidade destas questões.

Reconheço, ainda assim, que não adorei a escrita e o tom, que me pareceu um pouco condescendente em certas passagens. Mas, se calhar, esta sensação vem do facto de me ter faltado mais paixão no discurso: os dados e a contextualização são importantes para compreendermos o propósito e este universo que exige intuição e calculismo, só que, por ser alguém que o conhece com proximidade, esperava um lado menos formal.

A Religião dos Livros abre-nos a janela para que espreitemos os bastidores e, por isso, é uma leitura que permite satisfazer curiosidades e entender que o futuro se reveste de esperança, até porque, «enquanto houver livros, haverá muito mais do que leitores».



As Filhas do Capitão, María Dueñas

A escrita da María Dueñas deixa-me sempre com uma sensação de aconchego, porque consegue retratar vidas comuns de uma forma muito natural, quase como se pudessem ser pessoas próximas, com dilemas e sonhos semelhantes aos nossos. Por esse motivo, e por saber que é baseada numa história real, estava muito curiosa com esta obra.

As Filhas do Capitão transporta-nos para uma «grande cidade americana», quando Emilio Arenas morre num acidente e «as suas filhas indomáveis assumem as rédeas do [seu] negócio, enquanto nos tribunais se revolve a herança». Perante a necessidade de sobreviver e de fazer o luto pelo pai, Victoria, Mona e Luz veem-se envoltas num quotidiano de adversidades, que coloca à prova os seus temperamentos e a própria relação entre elas.

Talvez não tenha sido o meu tempo certo para descobrir esta história, razão pela qual quero relê-la mais tarde, mas, de facto, não me consegui relacionar com o enredo e as personagens. A primeira parte até estava a fluir e a intrigar-me, mas depois senti que a ação ficou algo confusa, a perder-se em pormenores que não me pareceram assim tão essenciais para a construção da narrativa.



Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes

O marco mais bonito da nossa história, enquanto país, continua a ter vários contornos que merecem ser descobertos: não só pela total pertinência da data, mas também para que nunca esqueçamos que precisa de ser cuidada/protegida todos os dias. Para além de tudo o que reconhecemos, ao pós-25 de abril acresce o facto de ser «historicamente raro uma revolução levar diretamente a um regime democrático», sendo este o foco do retrato que Tiago Fernandes escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Revolução, Contrarrevolução e Democracia parte de um estudo comparado da revolução portuguesa «com outros processos revolucionários europeus do séc. XX». A intenção, que fica clara desde o início, é perceber os motivos que permitem que as revoluções se transformem num regime democrático. Assim, responde a duas questões centrais: (1) «por que razão Portugal não sofreu um golpe militar de direita apoiado por segmentos da elite do anterior regime» e (2) «por que não sucumbiu à ascensão de um regime de partido único revolucionário apoiado por segmentos dos militares». Focar o contexto português espelha um simbolismo duplo, porque a revolução portuguesa marcou «o início da terceira vaga de democratização» e foi «uma revolução social pacífica».

A obra divide-se em três capítulos, cada um deles responsável por analisar um período específico — a crise do Estado Novo, o 25 de abril e a consolidação da democracia —, o que nos ajuda a compreender melhor o arco evolutivo, quer em relação aos valores defendidos pelo regime, quer em relação às incoerências que pautavam esse sistema político, à oposição e ao papel dos militares, socorrendo-se de dados e de gráficos para termos uma noção mais visual daquelas que eram as condições da sociedade nacional.

Confesso que esperava encontrar um diálogo mais estreito com o dia da revolução em si, porém, privilegia mais o antes e o depois desse acontecimento, evidenciando que o «predomínio das forças liberais/moderadas […] ocorre quando aquelas têm capacidade de organização cívica e aliados nos militares». Embora tivesse precisado de calibrar as minhas expectativas, achei Revolução, Contrarrevolução e Democracia muito elucidativo e interessante, por me permitir explorar um tópico sobre o qual nunca tinha lido antes e por sentir que abre a porta para que continuemos a informarmo-nos sobre o assunto. É uma leitura para fazer sem pressas, porque há muita informação para assimilarmos.



Notas Para John, Joan Didion

O monólogo baseado n' O Ano do Pensamento Mágico foi a minha porta de entrada para o universo Joan Didion. Anos mais tarde, quando tive a oportunidade de ler o livro, fiquei embevecida pela intensidade do relato, da escrita sem filtros e, ainda assim, com tantas sombras. Por isso, quis continuar a aventurar-me na não ficção da autora.

Notas Para John é um diário «comovente do dilema doloroso de uma mulher, de uma corajosa escritora reconhecida pela capacidade de examinar meticulosamente as camadas de uma história». Em 1999, começou a ser acompanhada por um psiquiatra e, durante mais de um ano, «descreveu as sessões clínicas» através de entradas que dirigiu ao marido, John Gregory Dunne.

Foi um pouco sufocante ler esta obra, devo admitir, porque se percebe o medo da perda, a preocupação constante, a fragilidade que se entrelaça ao querer proteger quem amamos. Não sei é se a compilação destas notas teve a sensibilidade que merecia, porque são demasiado íntimas. 



 tbr de maio
  • Poemas Quotidianos, António Reis (12 meses, 12 livros de poesia);
  • Lá Fora, Pedro Mexia (alma lusitana);
  • A Cor do Hibisco, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • Marcas Que Fazem Portugal, Margarida Vaqueiro Lopes (ler ffms);
  • A Cozinheira do Ditador, Afonso Cruz;
  • As Melhoras da Morte, Rui Cardoso Martins;
  • Um Pouco de Cinza e Glória, Cláudia Andrade.



As expectativas para abril nunca são modestas, porque espero o melhor deste mês: para além do meu aniversário, não me faltam motivos para celebrar as pessoas que amo, os livros e a liberdade. A cidade está florida e eu sinto que «cá dentro tem sol».

Começou Bon Vivan, foi Malandrim e teve muitas palavras a sustentar a viagem. Sinto que me permitiu encontrar uma das minhas histórias favoritas do ano e abraçar muitos regressos — gastronómicos, literários e geográficos —, bem como descobrir espaços novos (onde talvez não volte, mas que valeram a pena pela novidade, pelo satisfazer da curiosidade). Abril também abriu o caminho para traçar programas para os meses seguintes e recentrar. Sair à rua e ver tantos cravos na rua deu-me o alento certo para continuar a dar passos firmes, porque será sempre um assunto nosso, porque seremos sempre muitos mais, unidos, a resistir.

O meu mês reveste-me, incondicionalmente, de poesia ♡


as coisas maravilhosas de abril


 os fragmentos aleatórios

Voltei, depois de tantos anos, ao Conga e é incrível como há coisas que permanecem iguais. As bifanas continuam tão picantes como me recordava, mas sem que isso impeça de sentir o verdadeiro sabor da carne. Além disso, a simpatia da equipa, por muito que possa ter mudado (estou a mandar-me para fora de pé nesta observação), conquista sempre.


Recebi muito amor no meu aniversário e, por mais que não sejam o principal, a verdade é que os bens materiais podem demonstrar o quanto algumas pessoas nos conhecem bem, surpreendendo-nos com prendas que são a nossa cara. E houve três que tiveram entrada direta no meu coração, precisamente por irem buscar detalhes que me definem: uma carteira efeito palha, uma travel mug lilás e um marcador de livro de decoração.

O xtinto anunciou concerto no Porto e isso também fez o meu mês.


 as músicas e os álbuns

A playlist de abril esteve recheada, mas confesso que a maior parte dos temas não teve muito espaço, culpa do Lhast que trouxe novidades em dose dupla. Ainda assim, pude descobrir registos diferentes e viciar por completo na voz da Libra.

As músicas que marcaram o mês: Bon Vivan, Lhast | DVL, Pedro do Vale | Mau Olhado, Bárbara Bandeira | Dou, Jüra | Deixo o Número Aqui, Gustavo Reinas.


Os álbuns que marcaram o mês: Dobermann, Ella Nor | a beleza de todas as coisas, Luar | The Great Divide: The Last Of The Bugs, Noah Kahan.


 as publicações

o cemitério das publicações perdidas: ou como nem todas as ideias saem da gaveta
Inspirada por Carlos Ruiz Zafón, que me abriu a porta do Cemitério dos Livros Esquecidos, percebi, dentro de um contexto muito mais humilde, que estava a compilar material para o meu próprio universo mágico, paralelo, não com obras literárias, mas com publicações que ficaram apenas a existir nestas plataformas, anonimamente (publicação completa aqui).

No meu substack poético, partilhei um poema inspirado na música Bon Vivan. Adoro quando o trabalho de um artista nos impacta de tal forma que nos impulsiona a criar. Ainda que esteja a anos-luz da caneta cirúrgica do Lhast, deu-me muito gozo escrever este poema. Se vos interessar, encontram-no aqui.


 os filmes, as séries e os podcasts

Este segmento inclui uma conversa, um videoclipe duplo e um filme

Papillon no Imperfeita Repetição
O risco não compensa sempre, no entanto, quando as coisas são feitas com o coração no sítio certo, é provável que se desbloqueiem possibilidades maravilhosas. Embora não acompanhe o percurso do Papillon desde o início, de um modo regular, tem sido fascinante ver a sua evolução enquanto artista — e entre álbuns — e saber que isso culminou num Coliseu dos Recreios esgotado, porque a dedicação acaba a dar frutos. 

No Imperfeita Repetição, o Alexandre Guimarães conversou com o Papillon antes e depois dessa noite, creio eu, memorável e o que mais se destacou para mim, além do talento óbvio, foi a falta de deslumbramento, a gratidão agregada às suas palavras, a vontade de desfrutar de cada momento e, apesar disso, sentir que ainda há tanto para explorar. A vontade de o ver ao vivo já era imensa e esta conversa só a aumentou.

Bon Vivan / Malandrim
A semana primeira semana de abril foi santa, mas o Lhast chegou sem inocência ao lançar duas músicas novas, Bon Vivan e Malandrim: «pensados como duas peças complementares, os dois temas exploram diferentes estados e atmosferas, refletindo contrastes que fazem parte da [sua] identidade artística». Além disso, vieram acompanhados por um videoclipe que evidencia bem essa dualidade na sua forma de criar, interligando passado e presente.

Sei que sou bastante suspeita ao falar do Lhast, mas adoro a sua versatilidade e o facto de nunca sabermos qual é o seu próximo passo. Depois de um Violetta que explora um lado mais intimista, estava curiosa para descobrir a que outros horizontes apontaria e foi interessante perceber que estes dois temas, apesar de terem uma energia própria e independente, conseguem funcionar como uma extensão de projetos anteriores. Aliás, Bon Vivan é azul, enquanto Malandrim é vermelho e essa combinação resulta num tom violeta, o que me deixa com a sensação de que se estas canções tivessem sido incluídas no álbum não destoariam. Depois, pela associação das cores e de partes das melodias, foi impossível não regressar ao AMOR’FATI e ao ALK — e, até, ao EP com o Chaylan.

Já estou a divagar, mas acho mesmo fascinante como consegue cruzar estes contrastes, como é capaz de estabelecer tantas pontes e, no entanto, levar-nos até novas paragens. É o Lhast a elevar a fasquia uma música de cada vez: sorte a nossa por virem aos pares.

O Drama
O milagre aconteceu: voltei a uma sala de cinema e não para ver filmes infantis, em contexto de trabalho. Desta vez, fui ver O Drama, com a Sofia, o Diogo e o Ricardo, e aquilo que mais me surpreendeu no filme foi o tom de provocação e o facto de nos deixar a pensar sobre limites, sobre aquilo que, para nós, é o fim da linha, o intransponível. E, também, sobre o quanto os nossos pensamentos nos podem consumir.


 os livros

Senti-me a abrandar, ainda que, na quantidade, esteja na minha média habitual, porque acho que fiquei mais tempo em certos livros — alguns, poucos, de um modo intencional; outros, porque, de facto, a minha atenção não estava completamente alinhada com a história e o próprio ritmo da narrativa.

Os favoritos do mês: O Homem Sem Mim, Rute Simões Ribeiro | À Flor da Língua, Gregorio Duvivier.

Outros livros lidos: Jóquei, Matilde Campilho (releitura) | A Malcriada, Beatrice Salvioni | A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone | Vem à Quinta-Feira, Filipa Leal (releitura) | As Filhas do Capitão, María Dueñas | Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes | Notas Para John, Joan Didion.


 os momentos

Idas ao parque. Pintar ovos de Páscoa. Ouvir Bon Vivan em loop. Experimentar o Mila Jardim e o Jardim Viriato e visitar o Grande Museu da Casinha das Bonecas. Aniversários. Lanches e jantares de família — de sangue e de coração. Tulipas. Comprar vários livros. Voltar ao Dragão. Muita música a encher a casa.






Verificando Se Você é Humano
O imprevisível aconteceu: Ricardo Araújo Pereira anunciou a sua estreia num solo de stand-up comedy e nós não quisemos perder a oportunidade de assistir a esse momento.

Sem querer entrar em destalhes, para não comprometer a experiência de quem ainda o for ver, Verificando Se Você é Humano cruza tecnologia, comportamentos da sociedade e a linha que «nos distingue das máquinas», com o tom sarcástico que reconhecemos no humorista. Honestamente, acho que a maior prova da sua humanidade foi senti-lo um pouco nervoso e vulnerável em determinadas ocasiões, como se estivesse a ir para fora de pé. Creio que isso também nos aproxima, porque percebemos que está a correr riscos, a desafiar-se, a explorar outras formas de criar e que não dá nada por garantido.

Entre episódios caricatos e ideias, talvez, descabidas, acho mesmo fascinante como o texto desconstrói por completo a imagem com que se apresenta. Gostei bastante de o ver neste registo e de andar à deriva, sem antever para onde escalaria a piada. Sentir que continua a apurar o seu humor e a capacidade de nos surpreender é extraordinário.


 Maio, sê gentil ✨



Um dos meus traços de personalidade é (tentar) encontrar sempre um ângulo cómico nas situações menos leves, talvez na tentativa de lhes retirar o peso que possam ter e, dessa forma, ser capaz de me gerir emocionalmente. Neste sentido, brinco muito com o facto de a minha memória ser péssima, mas depois, refletindo com cuidado, sei que me assusta a possibilidade de, no futuro, isso representar algo sério, com implicações para quem me rodeia. E no livro da Rute Simões Ribeiro regressei a essa sombra.


 o terreno pantanoso da memória

O Homem Sem Mim intercala uma certa névoa com fragmentos de lucidez, isto porque retrata a vida de João, um carpinteiro septuagenário «diagnosticado com a doença de Alzheimer». É Carminho, esposa e fortaleza do narrador-personagem, que conduz os seus passos, sendo «surpreendida por uma versão passada do marido a cada novo dia».

Os capítulos são curtos e creio que essa abordagem evidencia o quanto é breve o fluxo da lembrança, o quanto é frágil o nosso património mnésico e, por isso, sabendo que é fundamental para construirmos a nossa história e identidade, também sentimos que é tudo ténue e oscilamos nesse terreno pantanoso. Além disso, sendo honesta, sinto que tornou a leitura um pouco mais angustiante, por ser tão evidente a fragilidade humana.

O quotidiano deste homem comoveu-me pela necessidade de fazer um luto constante à pessoa que foi/que era e pela «cisão entre sujeito e corpo», como se fossem dois seres independentes, desconexos, num permanente desencontro. Numa rotina imprevisível, foi a forma como a autora descreveu cada momento que me impactou, porque trouxe um tom lírico, mas sem camuflar a mágoa, a frustração, a sensação de perda e, até, a vontade de desmoronar. E, confesso, desmoronei em algumas passagens: pela dureza, mas, sobretudo, pela sensibilidade e pela dignidade com que retratou o protagonista.

«A minha mulher é casa, é edifício, é tudo que é permanente. Ela fica. Eu vou. Eu não dou conta da partida, ela vê-me todo o caminho»

Avançamos neste livro conscientes de que é uma doença que corrói e que deixa tudo fora do lugar, que os dias se sucedem, no entanto, as memórias podem não pertencer exatamente àquela janela temporal. No fundo, sentimo-nos dentro de um labirinto, a afastarmo-nos do mundo exterior, porque a aparente normalidade vivida por João e pela sua família não deixa de ser ilusória, destoando do presente, do que permanece.

Por outro lado, é uma história que torna visível o cuidador, o amor que resiste a todas as privações e ausências. Embora seja escrita na primeira pessoa, ao inferirmos aquilo que Carminho e os filhos passam, percebemos que «o tecido afetivo [é] abalado» e que há uma camada a complexificar estas relações, porque tudo fica intermitente. Sofrem em silêncio, mas João percebe, mesmo que seja por pouco tempo. Existe tristeza e, no entanto, é como se se tornassem mais ágeis a encontrar pontos de luz — e de fuga —, para que o agora não se sustente só em areias movediças, desequilibrando o futuro.

O Homem Sem Mim é uma viagem íntima, é uma conversa entre o protagonista e as diferentes versões que, sem controlar, o compõem, que desfazem a sua identidade e a reorganizam, fazendo da memória um lugar turvo, estilhaçado, mas ainda a subsistir.


 notas literárias
  • Desafio: Alma Lusitana
  • Lido a: 6 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Banda sonora: Baile de São Simão, Os Quatro e Meia | Restolho, Mafalda Veiga



A voz de Sérgio Godinho, em Lisboa Que Amanhece, ecoa pela casa sem que identifique o cenário de imediato, mas a tentar transportá-lo para a minha realidade, vendo na sua sombra não o Tejo, mas um Douro onde até a neblina se reveste como se fosse um poema.

Em sonhos, é sabido, não se morre parece encerrar em si um prenúncio, um murmúrio que repetimos até nos convencermos da sua verdade, trazendo conforto e esperança. E, já que estamos a salvo nos nossos sonhos, porque não fazer deles um impulso que nos deixe menos à deriva, mais perto de quem somos?

O xtinto fez isso, depois de ver «pairar sobre [si] uma nuvem densa que [o] empurrava para fora do [seu] sonho». Entre a vontade de desistir e de procurar «outro ofício», também a história do artista de Ourém me deixou a pensar em todas as vezes que esmorecemos, sem anúncio prévio, porque parece existir algo a quebrar o encanto, «o sentimento basilar»; porque parece que aquilo que se torna maior é a profissionalização, o lado burocrático — se o posso colocar nestes termos —, obrigando-nos a focar em tudo menos na arte pela arte. E, por vezes, é difícil sair desse lugar, dessa espiral cheia de névoa.

Este álbum nasce como resposta ao reencontro com a música, ao reapaixonar-se por ela, abraçando uma metamorfose que apurou, ainda mais, a forma como observa o mundo. Naturalmente, há particularidades que não saberia se não o lesse em entrevistas (e na edição especial do disco), no entanto, é maravilhoso perceber aquilo que despertou essa reaproximação, que tanto pode ser o acorde de uma guitarra, como a voz de um artista amigo. Por isso é que acho tão inspirador partilharmos e conversarmos sobre as nossas paixões, sobretudo pelo brilho que nos provocam, porque alargam horizontes, porque nos trazem novas perspetivas, porque nos convidam a olhar para algo que esteve sempre à nossa frente, mas com o qual nos precisamos de alinhar, quase como se déssemos um passo atrás para ganhar balanço.

Divagações à parte, uma característica que sempre me impressionou no xtinto foi a capacidade para brincar com as palavras, para as desconstruir, levando-nos numa viagem auditiva que é imagem de marca e que amplia a versatilidade da nossa língua. Aqui, encontramos essa abordagem, mas acho que é percetível que a amadureceu, que essa vertente abriu espaço para que «a escrita se pareça com o diálogo que [teria] a falar com alguém». E a verdade é que este álbum conversou bastante comigo.

Sem nos apropriarmos das suas experiências, fragilidades e emoções, sinto que há uma linha transversal onde nos conseguimos rever, porque todos nós já sofremos por amor, desamor e saudades; porque todos nós já tivemos dúvidas, quisemos desistir, ficamos presos nos mesmos pensamentos; porque, ainda que de maneiras distintas, encontramos conforto nas nossas raízes, nos amigos, na família. Creio, portanto, que este álbum é sobre todos os lugares — físicos e íntimos — onde regressamos, nos fixamos e renascemos.

Em sonhos, é sabido, não se morre cativou-me, também, pela coesão entre faixas, pela parte instrumental que as funde, sem que percam identidade e autonomia, pelo som das guitarras e pelo saxofone (que momento precioso). E, claro, sendo o xtinto um homem de palavras, «que abraça as melodias sem nunca descurar o texto», com a ponta da caneta sempre afiada, deixou-me a orbitar em versos como tão a ganhar força onde eu não vi verdade (Dividir), eu guardo-te o teu espaço no meu colo (Sofá), se eu só sei ser sozinho deixa-me estar/a sós a dar abrigo ao mau estar (Tempestade), mas basta olhares por mim a dentro para veres que moro só (Fora d'Horas), mas tu sabias ser melhor que a solidão então ficaste (Vento) e o que faz falta a esta cidade/são os teus olhos sobre ela (Cidade) — aliás, foram estes dois últimos versos que espoletaram a publicação para celebrar o Dia Mundial da Poesia: Versos que gostava de ter escrito.

Oscilando entre um tom mais emocional e um tom mais ousado, agrupando utopias/ideias coletivas e individuais, o álbum também adquire força na simbiose com os artistas convidados. E achei particularmente interessante ver que a parte do ed une várias músicas. Admito que posso estar a ver coisas onde não existem, mas senti que nos seus versos, para além da Sofá, encontramos a Vento, a Tempestade, a Nunca Mais e, até a Fora d'Horas. Esta capacidade de ter as músicas a conversarem entre si é outro dos aspetos que me entusiasma neste trabalho.

Em sonhos, é sabido, não se morre é, talvez, sobre ficar em «silêncio numa casa barulhenta», combater a inércia, lutar contra os nossos fantasmas e as nuvens que vão pairando; é sobre ver beleza onde mais ninguém a reconhece. Agora que sabe «que o sonho é bem maior do que [ele]», só espero que o xtinto continue a sonhar cada vez mais alto. Este álbum é uma excelente profecia.



A figura de Maria Teresa Horta é incontornável. Primeiro, conheci-a através do olhar de terceiros e das lutas que a moviam — e das quais, enquanto mulher, eu acabava por beneficiar — e não tanto pela sua obra. Isso fi-lo depois, fascinada pela possibilidade que as suas palavras pareciam acolher. Mas parti nessa missão de um modo comedido, porque ainda acalento a esperança de ver a sua poesia compilada num único exemplar.

Não tenho o hábito de ler biografias, no entanto, prefiro lê-las com um pouco mais de conhecimento acerca dos livros do respetivo autor antes de mergulhar na sua vida, nos traços de personalidade que podem não ser tão evidentes. Só que, neste caso, senti que não seria possível adiar mais e o livro da Patrícia Reis veio comigo da última edição da Feira do Livro do Porto, com o propósito de o deixar para março: tendo em conta tudo o que se celebra este mês, pareceu-me adequado — mas abril também assentaria bem.


 reivindicar a liberdade

A Desobediente, mais do que construir um retrato sobre Maria Teresa Horta, permite-nos conhecer Teresinha, filha de um prestigiado médico de Lisboa e de uma mulher «descendente dos marqueses de Alorna». E esta referência é importante, porque fica claro que a infância e a adolescência da poetisa são peças centrais da sua história, «à beira do abismo», marcada pelas cicatrizes da dor e do abandono. Assim, avancei na leitura consciente de que essas duas partes seriam as mais desenvolvidas: por um lado, achei interessante, já que permitem compreender os ideais que começou a cimentar desde muito nova, mas, por outro, fiquei com uma sensação agridoce, uma vez que gostava de ter acesso a uma abordagem mais sólida da idade adulta e de determinados acontecimentos — pessoais, sociais e profissionais — que se revelaram formadores.

A menina que encontrou nas palavras uma forma de se expressar, de se encontrar, de fazer prevalecer as suas lutas floresceu, ainda que tivesse havido alturas em que não podia fazer mais do que sobreviver. Porém, um aspeto que achei fascinante é que em nenhum momento se tornou amarga. Talvez tenha perdido a esperança, talvez tenha olhado em frente com dúvidas e hesitações, como todos nós, em alguma ocasião, mas há uma inocência e uma generosidade que parecem ter quebrado a inevitabilidade de um coração pouco disponível. Quis abraçar Maria Teresa Horta em várias passagens destas conversas, porque foi demasiado sofrimento para uma pessoa só, mas também sorri pela força com que defendeu cada uma das suas decisões, pela capacidade de se manter fiel aos seus princípios, apesar dos dissabores que isso lhe possa ter trazido.

É neste ritmo oscilante, por vezes frenético, de uma vida tão cheia de acontecimentos, de convívios, de interações com pessoas do meio literário e político, que vemos a sua voz ativista cada vez mais audível, rejeitando qualquer tipo de submissão. Deste modo, em simultâneo, é impressionante como a história desta mulher agrega a vida de tantos de nós e, acima de tudo, permite traçar um retrato esclarecedor do que se passava em Portugal, sobretudo no que diz respeito aos anos da ditadura, às perseguições da PIDE e ao 25 de abril. A sua história não é indissociável do contexto histórico do país, até porque as suas movimentações contribuíram, e muito, para influenciar o seu curso.

«Para trabalhar o poema, partir do coração do poema para uma versão final, a Teresa escreve à mão, depois transcreve o poema e nesse exercício de fixação existem outras possibilidades criativas, o poema fala-lhe de outra forma em letra impressa»

Assim, não deixa de ser curioso que alguém com tanta expressão na sociedade tenha ficado, gradualmente, invisível, que os prémios e as menções tenham chegado tarde, que o seu feminismo tenha provocado tanta inquietação e, por isso mesmo, tenham encontrado uma forma subtil de a ir afastando. De facto, a arte — e a arte criada por mulheres — pode ser perigosa para aqueles que nos pretendem calados, a colaborar.

Já me tinham alertado que esta biografia se lia como um romance e acredito que, em parte, isso se deve à intimidade entre a poetisa e Patrícia Reis, porque é uma partilha franca, sem pruídos, onde só acedem aqueles em quem confiamos. Gostei muito deste tom, porque acho que humaniza as vivências, aproximando-nos do seu real impacto. Não obstante, devo confessar que não adorei a maneira como alguns capítulos foram construídos, porque senti que o fio condutor foi quebrado em partes chave, nas quais seria necessário abrandar e explorar melhor a situação, em vez de haver repetições ou um foco em detalhes que não me pareceram relevantes. Se isso interfere com a fluidez da leitura? Não creio, contudo, o texto beneficiaria mais com essa coesão e equilíbrio.

A Desobediente abre-nos a porta para um lugar íntimo, sem que haja, aqui, qualquer tentativa de esmiuçar a sua vida de forma gratuita. Pelo contrário, evidencia toda a dignidade que guiou o percurso de Maria Teresa Horta, a sua arte, as suas causas. E o mais interessante é perceber que, apesar de conhecermos tanto da mulher e da obra, há partes que permanecem ocultas. A poetisa abraçou diferentes facetas, tão únicas e tão complementares, mas talvez a liberdade seja o elo que as interliga a todas, porque a reivindicou sempre, mesmo quando tentaram impedir que a plantasse em todos nós.


 notas literárias
  • Lido entre: 24 e 29 de março
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Tous Les Garçons et Les Filles, Françoise Hardy | A Solidão da Mulher e Mulheres Guerrilheiras, Tereza Paula Brito



A imagem de remendos de papel anotados, com frases, pensamentos, ideias para o futuro, traz um um toque romântico ao processo criativo, sempre tão caótico e tão fascinante, permanente antítese de estados de alma.

A minha secretária sempre foi organizada dentro da sua desorganização, espelho convicto dos fios invisíveis que florescem entre temas, entre fragmentos que não quero perder, entre tudo o que possa auxiliar a minha escrita. Com o tempo, passei a procurar um cenário menos confuso visualmente e passei a ter essas ideias espalhadas noutros lugares: na agenda, em páginas do notion, em monólogos no whatsapp. E, claro, como seres autónomos, sobrevivem sem precisarem da minha aprovação, da minha rega constante, da minha supervisão, podendo ficar descansada, porque sei sempre onde as encontrar.

Inspirada por Carlos Ruiz Zafón, que me abriu a porta do Cemitério dos Livros Esquecidos, percebi, dentro de um contexto muito mais humilde, que estava a compilar material para o meu próprio universo mágico, paralelo, não com obras literárias, mas com publicações que ficaram apenas a existir nestas plataformas, anonimamente.

Sei de onde vieram a maior parte das ideias, a intenção com que as anotei, a vontade de as tirar da gaveta... mas foram permanecendo ocultas, paradas no mesmo lugar: algumas porque deixaram de fazer sentido (apenas não as quis eliminar), algumas porque percebi que não tinha assim tanto a desenvolver, algumas (poucas) porque ainda havia esperança para as recuperar. Às vezes, quando a inspiração oscila, volto ali para perceber se algum dos tópicos me impulsiona a escrever, contudo, faço o caminho inverso com folhas em branco. Talvez um dia.

Ter uma espécie de banco de ideias traz-me um certo conforto, por um lado, porque continua a ser um sinal concreto do quanto esta casa digital me faz sentido e, por outro, porque é a desculpa perfeita para continuar entre palavras escritas. No fundo, sinto que estou a amealhar possibilidades dentro da possibilidade maior que é criar.

Como não sei quando, ou se, irei desenvolver os temas acumulados, quis agrupá-los por aqui. Assim, sejam bem-vindos ao meu Cemitério das Publicações Perdidas.


 o cemitério das publicações perdidas


ter ou não ter rubricas no blogue
Apontei esta a partir de uma pergunta que me fizeram, há uns anos, com o intuito de refletir sobre o facto de ajudarem ou condicionarem a criatividade. Uma vez que fiquei a boiar num depende, deixei de ter o impulso para algo longo: em parte, acho que as rubricas nos ajudam a cimentar a identidade dos nossos projetos, espelhando aquilo que poderão ser; em parte, sinto que podem afunilar tanto o nosso conteúdo, que ficamos apenas numa bolha pouco curiosa para explorar novos horizontes. Pender para um dos lados dependerá sempre do nosso propósito, do quanto nos colocamos inteiros — e esta abordagem pode mudar consoante a fase da vida em que estamos.

os palavrões: desrespeito ou meras expressões?
Há quem adore, há quem repudie o seu uso. Eu, nascida e criada numa das margens do Douro, sempre os encarei como advérbios de intensidade. Claro que tudo tem o seu momento, o seu contexto e, dependendo do modo como são utilizados, rapidamente escalam de uma expressão inocente para uma afronta, no entanto, partindo de um cenário consciente, que não pisa limites, não há advérbios mais satisfatórios do que estes, aos quais recorro com regularidade, sem culpas.

No meu whatsapp, tinha começado o texto assim: Não me refiro a palavras grandes, mas ao vernáculo que ofende sempre um grupo muito específico de pessoas, como se dizer palavrões fosse repugnável ou nos tornasse criminosos — a quantidade de bem falantes que andam por aí a estragar a vida de terceiros é que as deveria preocupar, mas isso não é assunto para agora. Um bom palavrão, dito no momento certo, é libertador. E é por isso que não confio em quem afirma que não os pronuncia. Nem quando batem com o mindinho num móvel? Psicopatas! Foda-se e filha da putice estão no topo das minhas preferências. Mas também não fecho a porta a um caralho. É preciso interpretar a energia e ver o que encaixa melhor. A parte engraçada da questão é que só digo palavrões entre amigos. Com os meus pais e restante família não. E é isto que me fascina, porque somos pessoas dadas à arte do vernáculo. Não em demasia, mas com a utilidade que o palavrão tem: pontuar frases (a partir daqui ficou vazio).

os meus anticorpos
Na realidade, é só um: brincar com os assuntos. Sempre senti que o riso era um aliado de peso para iluminar zonas cinzentas, por vezes sombrias. Encontrar o ângulo cómico de cada situação sempre foi a minha forma de estar na vida, mas sem que isso me impedisse de as sentir, apenas com a intenção de não me afundar nelas, porque haveria uma forma para as ultrapassar.

falar em voz alta os assuntos que nos incomodam/inquietam
Como nem sempre o faço, achei que seria hipócrita da minha parte avançar com um texto destes. Um dia, quem sabe, volto aqui.

a literatura como lazer ou como impulso de mudança?
Pode ser ambos, por isso, deixou de ser uma questão. Aliás, até acho que este tópico se interliga a outro que anotei, também em modo de pergunta: será que todos os conteúdos têm de ser educativos? Todos temos responsabilidade social e as nossas escolhas, ainda que inconscientemente, refletem isso mesmo. No entanto, isso não tem de eliminar um dos lados da equação: posso ler por prazer ou para aprender/provocar mudanças internas; posso consumir ou criar conteúdo educativo ou que não passe de entretenimento. Ambos são válidos, ambos nos acrescentam, o importante é encontrarmos o nosso equilíbrio.

campa literária
Os tópicos dentro deste universo são em maior quantidade, por isso, achei que os podia compilar no mesmo parágrafo: é que deixar livros a meio deixou de ser um problema, as metas literárias, para mim, sempre foram uma fonte de motivação e não de pressão, lidar com críticas negativas aos livros que adoramos faz parte do processo (e escolher não as ler é válido/aceitável/uma excelente decisão) e a minha estratégia para manter a pilha de livros por ler controlada passou por, simplesmente, saber que não tenho de comprar tudo para ontem, que priorizar os títulos já adquiridos não quebra o mundo encantado das possibilidades — e como já tenho uma publicação sobre ser mais consciente na hora de comprar livros, senti que não valia a pena voltar a este tema. Quanto aos outros, não queria que os textos viessem com um tom condescendente, como se quisesse dar uma lição de moral, porque a minha intenção nunca foi essa. Uma vez que não tenho uma conclusão brilhante para acrescentar a tudo o que já foi dito, preferi remetê-los ao silêncio.

publicar todos os dias ou dosear as publicações
Na qualidade de pessoa que já publicou todos os dias, durante alguns anos, e que, agora, doseia este calendário de conteúdos, volto a socorrer-me do depende, porque haverá alturas para tudo, porque a nossa vontade pode pender mais para uma das opções, porque podemos querer desafiar-nos ou sentir que precisamos de abrandar. Os motivos podem ser variados, sem grande ciência que nos obrigue a explicá-los detalhadamente.

será que queremos ou não queremos mesmo uma coisa?
Joana Bértholo, no seu A História de Roma, e Ana Pessoa, no seu Desvio, abriram a porta para uma questão que me ficou a ecoar por dentro, porque existem alturas em que dizemos/fazemos algo, mas, depois, questionamo-nos se isso partiu mesmo de nós ou se, inconscientemente, reagimos a um estímulo de terceiros — será que eu quero mesmo ser mãe? será que quero mesmo não ser? será que a minha resposta não passa de um contra a uma ideia enraizada pela sociedade? Como não cheguei a um consenso para desenvolver, este tópico ficou perdido.

a necessidade de tudo ter significado
E tem, mas sinto que a obsessão para que tudo tenha um significado profundo, transcendente, tem escalado. Às vezes um só porque sim é significado suficiente. Pronto, era só isto que tinha para dizer.

vidas pinterest
Não preciso de ver pessoas a chorar na internet para saber que sofrem e que a vida consegue ser uma filha da putice, nem preciso que deixem de filtrar aquilo que partilham. Aliás, percebo perfeitamente que queiram fazer das suas redes um refúgio, um álbum de boas memórias (também o faço). Preciso, isso sim, é que diminuam o tom de vidas pinterest e parem de romantizar atrasos, falta de tempo, exaustão, ausência, dor, a falta de limites.

ideias de wc
Se vocês soubessem a quantidade de textos que já desbloqueei só com uma ida à casa de banho! Não sei que fenómeno é este, mas será que resultava ter um caderno e uma caneta nesta divisão da casa ou ia acabar por dar ao mesmo? Será que é a mudança de espaço que influencia a fluidez? 

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