Entre Margens

O Coliseu do Porto Ageas e a Câmara Municipal lançaram o Primeira Box, «um novo ciclo de música dedicado a bandas e artistas emergentes» desta cidade, que nasceu da «vontade de levar ao grande palco do Porto projetos musicais ainda fora do radar, que merecem ser escutados por novos públicos». A motivação basilar foi primordial, mas abrir a sala Coliseu Box, com uma dimensão média, permitindo «novas possibilidades de lotação e imersividade», concedeu a oportunidade para avançar com o programa.

Com a curadoria do músico, DJ e produtor João Vieira e do próprio Coliseu, a estreia aconteceu a 6 de julho. Durante três anos, cada uma das noites do Primeira Box contará com «três concertos de três artistas distintos, e múltiplos territórios sonoros». Depois de uma primeira data dedicada «à música experimental, ambient e art-pop», no dia 21 de setembro foi a vez do hip-hop e dos sons mais urbanos terem um lugar de destaque, com Rodrigo 13, ed e João Não & Lil Noon. E foi, exatamente, a esta noite que assisti.

Rodrigo 13 foi o primeiro a atuar. Dos nomes do cartaz, é o que acompanho há menos tempo, no entanto, estava bastante expectante para o ver em palco, pois tanto o tema Rosa, como o tema Carapaça têm estado em repetição na minha playlist. E foi bom vê-lo a ganhar confiança à medida que ia interpretando as canções, o futuro é promissor. Para abrilhantar a noite, teve o Ícaro como convidado (com quem partilha o tema Rosa) e apresentou músicas do seu EP de estreia, que, segundo o próprio, sairá em breve.


O responsável por ter comprado bilhete para o espetáculo, reconheço, foi o ed, porque sou fascinada pela sua voz e pelas letras que escreve, que mais parecem poemas a falar diretamente com o nosso coração. E, quando o ouvi no concerto do xtinto, compreendi que precisava que tivesse um momento em nome próprio. Embora soe suspeita — não me importo —, é um dos maiores talentos da nova geração de músicos e só espero que tenha todo o reconhecimento devido: há coisas que se curam cá dentro sempre que os seus temas ecoam pela casa e me levam em longas viagens emocionais. Por isso, foi de coração a transbordar que ouvi, entre outras, lado a lado, antes, tua falta e quase nada e mais um avanço do seu EP de estreia. Além disso, contou com a presença do Vasco, do xtinto e do Lhast (com quem interpretou duas canções). Foi uma atuação entre amigos, que podia muito bem não ter chegado ao fim, porque foi absolutamente maravilhosa!

A noite terminou com a dupla João Não & Lil Noon, que nos teletransportou para um bar dançante. Aliás, a energia deles foi tão contagiante desde o início, que estava a ser difícil assistir à atuação sentada. Felizmente, já na reta final do concerto, inverteram a narrativa e convidaram o público a levantar-se a juntar-se à festa. É por artistas como eles que sou tão apaixonada por música portuguesa, porque são talentosos e têm uma visão particular, bastante versátil. Além disso, gosto como combinam uma sonoridade mais dançável com letras próximas (por vezes, com uma certa provocação) e como essa simbiose flui com naturalidade. Estava tão investida que nem dei pelo tempo a passar.

O único senão, para mim, prendeu-se com o som, porque houve alguns momentos em que estava tão alto, que se tornava um pouco difícil escutar os artistas com a devida atenção. Ainda assim, não foi algo que tivesse comprometido a minha experiência.

O palco do Coliseu é emblemático e acho ótimo que tenham pensado num projeto que o pretende «dessacraliz[ar] em nome de todos, da diversidade e da urgência», tal como explicou o presidente do Coliseu do Porto, Miguel Guedes. Desta forma, ao abraçarem um novo formato, permitem que a sala abra portas ao presente, aproximando artistas locais, «em plena atividade», com o público da Invicta. Que venha a próxima noite! 


As pessoas chegam e ocupam o seu lugar, sempre em movimento. As conversas não se fazem em silêncio, ainda assim, há qualquer coisa que apenas é dita através de olhares inquietos, deslumbrados, curiosos com o que se passa ao seu redor. E, tal como Inês Lourenço, não sei «de onde irradia mais calor»: se desta representação de comunidade, se da Avenida das Tílias que se parece transformar numa interminável mesa de café, para que nos voltemos a encontrar e a descobrir perto dos livros, à volta das palavras.

Foi neste clima caloroso que a Feira do Livro do Porto retornou aos Jardins do Palácio de Cristal, durante mais de duas semanas, combinando o recolhimento que a leitura nos proporciona com a capacidade de nos conectarmos com os outros, atendendo a que, «quando fechamos o livro, a leitura continua nas conversas que gera e na vontade de passar aquele segredo a outra pessoa». Por esse motivo, a programação foi pensada ao detalhe, «com lugar para todos», porque a «malha das relações» só faz sentido assim.

Nesta cidade-livro, identidade reforçada com BABELL, procura-se olhar para dentro e construir o evento em torno de um nome que esteja intimamente ligado ao Porto. Este ano, a homenageada foi Inês Lourenço, nascida na Rua de Camões, autora que escreve «a cidade com ternura e ironia, a partir das suas entranhas». Visto que reconhece na Invicta «uma pessoa de família», é maravilhoso saber que poeta e cidade se criam em simultâneo, «poema a poema, verso a verso, palavra a palavra». Ademais, como referiu Pedro Duarte, Presidente da Câmara Municipal do Porto, os livros «nascem do mundo e criam mundos, como uma matriosca sem fim», por isso, convidam-nos a olhar para a obra da artista e a experienciar todos os rasgos de magia que nela possamos encontrar.

A programação teve a curadoria de Teresa Coutinho e, socorrendo-me das palavras de Jorge Sobrado, Vereador da Cultura e Património da Câmara Municipal do Porto, com uma «face mais feminista (…) humanista e inconformada», pretendia alargar o debate ao convocar temas «como a guerra, a violência de género, a resistência através da escrita, o poder da leitura e da representação, a participação cívica», entre outros. Portanto, nada melhor do que nos escudarmos na literatura, «que sempre se constituiu como o território privilegiado para pensar e imaginar o mundo, a sua justiça e a existência».

A acompanhar este ato de resiliência encontramos a poesia, que nesta edição da Feira do Livro do Porto não se afigurou somente como género literário, mas como ponto que «contamina toda a programação proposta», mostrando como é «uma língua com carga viral», o que me entusiasmou, já que é entre versos que encontro muito de quem sou.

A alma e o sotaque estiveram de braços abertos para acolher todas as riquezas fugidias.


 as sessões a que assisti

A entrada mudou de lugar, como se quisessem prolongar a curiosidade e a expectativa, no entanto, a magia de regressar aos Jardins do Palácio de Cristal com a Feira do Livro do Porto (FLP) a decorrer permanece inalterável, porque há sítios que são sentimento puro.

Voltamos a ir no primeiro dia, para uma viagem de reconhecimento, para desfrutar da Avenida das Tílias sem pressas, para descobrir eventuais mudanças e revisitar o que já nos é familiar. E foi impressionante ver a quantidade de pessoas que andava pela FLP, em passeio, a ver os stands, a participar nas sessões e a criar memórias. Retirando um pouco do romantismo, sei que também se pode tornar confuso, sobretudo, se formos com a intenção de ver/comprar livros, ainda assim, o cenário não deixa de ser entusiasmante, uma vez que demonstra interesse, uma vez que espelha aquele que é um dos motes do evento: ser um lugar com lugar para todos.

No sábado, para além de percorrer os stands para aproveitar um livro do dia (e extras), fui assistir à cerimónia de Atribuição da Tília de Homenagem a Inês Lourenço, o que me parece sempre um momento de enorme comoção por tudo o que representa: ter o nome de um(a) autor(a) perto de uma árvore tão distinta é simbólico, porém, o que me entusiasma é a sensação de permanência, de vitalidade. As palavras podem perder-se com o tempo, mesmo que nunca se esqueçam na totalidade, mas aquela representação eterniza, de um modo muito mais evidente, o vínculo entre o artista e a sua cidade. É por isso que, para mim, passear pela Avenida das Tílias é tão especial, porque existem, ali, vários nomes a contar histórias, mesmo quando precisamos de ir à procura deles.

Posteriormente, assisti à sessão Um Poema é Sempre Uma Pergunta Sem Resposta, com Inês Lourenço, José Manuel Teixeira, Rosa Maria Martelo, Teresa Coutinho, Jorge Sobrado e a leitura de poemas por Isaque Ferreira e Raquel Marinho. Confesso que estava à espera de encontrar uma conversa e não tento uma análise formal, na falta de melhor descrição, sobre a obra da poeta, porque sinto que isso traria um ritmo mais fluído e estimulante à sessão — que, infelizmente, começou bem mais tarde e teve quase o dobro do tempo que era suposto. Concordo que há iniciativas que merecem prolongar-se, mas isso pode interferir com a restante programação e impedir que o público consiga aproveitar o início das sessões seguintes, a decorrer noutros pontos da Feira do Livro. Apesar disso, é sempre maravilho ver a poesia a ter tanto destaque.


A Música Vinha Duma Mansidão de Consciência
A voz da Malva e a guitarra da Beatriz Madruga preencheram a Concha Acústica num final de tarde muito bonito. Uma vez que só conhecia o trabalho da Malva — e adoro a sua voz —, aproveitei o evento para diminuir as distâncias e fiquei impressionada com esta dupla, com a forma como combinam tão bem e nos levam a viajar entre canções.

Ancestralidade e Identidade
A conversa entre a Gisela Casimiro e o Dino D’Santiago fez morada em mim, porque a forma como nos fizeram chegar o impacto de cada assunto, de cada memória, de cada cicatriz foi inspiradora e emocional. Há uma realidade que nunca sentirei na pele, por mais que tente colocar-me naquele lugar, mas acabei por me rever em várias questões — não deixa de ser curiosa a transversalidade das vivências. Naquele palco, debateram sobre dificuldades, medos, escassez, vulnerabilidade, o peso do lugar onde nascemos, racismo, padrões que se repetem, culpa e casa. Mas também criaram espaço para falar sobre amor, futuro e todas as pontes que nos salvam e nos permitem curar as feridas.

Na Lâmina Implacável do Tempo
A exposição «propõe uma aproximação ao universo poético de Inês Lourenço através do percurso literário, da atividade editorial e das múltiplas redes de criação e amizade que moldaram uma das vozes mais singulares da poesia portuguesa contemporânea». Estará patente no foyer do Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett até ao dia 10 de outubro, proporcionando uma excelente oportunidade para estreitar laços.

A Música Vinha Duma Mansidão de Consciência
O S. Pedro e a Elisa são artistas com entrada direta nas minhas playlists. Talvez não os ouça todos os dias, mas faço questão de os acompanhar de perto: não só por adorar as vozes, mas também por ficar sempre rendida à forma como escrevem as canções e nos levam numa viagem emocional. Por esse motivo, não podia perder a oportunidade de os ver juntos, num concerto tão intimista como o que deram na Concha Acústica. Foi uma partilha generosa e com alguma provocação à mistura (depois de ver um S. Pedro mais tímido na Maia, confesso que gostei muito da sua versão desbocada). Já só espero por um dueto no futuro, porque acredito que a energia dos dois combina na perfeição.

Liderança e Afetividade
O programa da Feira do Livro inclui uma sessão com o Martim Sousa Tavares? Estarei lá! Já não é a primeira vez que o menciono, mas gosto mesmo muito da forma como o maestro comunica, como consegue partir dos seus contextos e incluir-nos a todos nas suas observações, construindo pontes e nunca muros. Neste ciclo de conversas, esteve acompanhado por Guilherme Blanc, com quem abriu um debate interessante sobre as várias formas de liderar um grupo e a necessidade de sermos empáticos com aqueles que nos rodeiam. Recorrendo a exemplos audiovisuais para ilustrar as práticas que queriam analisar, sinto que conseguiram uma partilha ampla e muito rica, mostrando que a genialidade nunca será inteira se olharmos para os outros com desigualdade.

Edição Independente do Porto
Admito que estava à espera de uma partilha um pouco mais concreta em relação ao tema que trouxeram para esta Mesa Redonda, isto porque ser editor independente, neste mercado tão complexo, implica outras concretizações. Ainda assim, gostei de os ouvir conversar sobre o que se aprende entre projetos (nem sempre com a intenção de corrigir, por vezes para saber que lugares ocupar), a estabilidade que permite pensar noutras ramificações e a paixão que os move, que os faz continuar a lutar por isto.


Apresentação do Livro Cassiopeia, de Francisca Camelo
O primeiro livro da Francisca Camelo esteve esgotado durante muito tempo e, agora, renasce numa segunda edição. A apresentação revelou-se um momento de aconchego e confesso que o que ecoou em mim foi a partilha da poeta, quando lhe perguntaram se ainda se revia nestes poemas antigos, tendo em conta que os escreveu numa idade precoce do seu percurso, porque foi muito honesta e empática. Naturalmente, ela já não é aquela pessoa que os escreveu, mas percebeu que o seu «ego ferido» não podia ser maior do que a vontade que as pessoas tinham de a ler. Achei isso muito generoso.

A Música Vinha Duma Mansidão de Consciência
A dupla João Só e Tiago Nogueira encheu a Concha Acústica com todo o seu talento e energia contagiantes. Gosto bastante de ambos e acho fascinante como combinam tão bem em palco — para além do talento, para mim, inegável, são naturalmente cómicos e conseguem criar um ambiente agradável para o público, enquanto nos recordam de temas deles e de artistas que os moldaram. Além disso, contaram com a participação de João Castilho, Mariana Nogueira e João Almeida. Corro o risco de ser injusta, mas não posso deixar de dizer que ouvir Falésia do Amor, dos Santamaria, foi o ponto alto.

Mesas Redondas: As Cidades dos Livros e os Livros das Cidades
O tema desta mesa redonda talvez fosse bastante amplo, mas creio que essa amplitude é entusiasmante, tendo em conta que nos permite compreender de que forma cada um dos intervenientes o interpretou. Por esse motivo é que se construíram pontes entre o passado, a educação, a poesia, a alma do Porto e a capacidade que a Invicta tem para criar espaços alternativos aos espaços institucionais. Sei que a conversa escalou para pontos que não tinha idealizado, porque fiquei mais centrada no plano literário, não obstante, achei muito interessante as análises que trouxeram para a discussão, já que, como referiu Mário Cláudio, o Porto é infinito e motivador de grandes reflexões.

Na minha programação, ainda inclui as sessões de autógrafos da Bruna Martiolli e do Hugo Gonçalves, que são sempre bastante generosos na forma como nos acolhem.


 algumas considerações

A Feira do Livro do Porto é um dos meus eventos favoritos da cidade, o que surpreende um total de zero pessoas. Ainda assim, apesar de todo o amor que lhe tenho, consigo reconhecer que há margem para melhorar, garantindo uma experiência mais gratificante para todos. Assim, reuni alguns aspetos que gostava de ver colmatadas em edições futuras

Divulgar o programa com mais antecedência: Quando vi os concertos a serem anunciados com bastante antecedência, tive esperança que o programa e a lista de livros do dia seguissem a mesma energia, porque é um aspeto importante. Nem todos os visitantes da FLP são do Porto, nem todos estão de férias em agosto, por isso, as visitas precisam de ser geridas com outra atenção (mesmo para quem é da zona, existem sempre questões logísticas e faz sentido haver margem para nos organizarmos). Acho que algumas sessões interessantes podem perder público, porque a divulgação acontece perto do evento.

Horário das sessões e levantamento de bilhetes: Já fui a edições em que abriam as portas 15 minutos antes das sessões começarem. Este ano, optaram por abrir a sala à hora da sessão e isso não me parece errado. O problema é terem as sessões marcadas para determinadas horas e começarem com 15 minutos de atraso, já para não falar quando as sessões se estendem bem para lá da hora em que deveriam terminar. Às vezes, é difícil colocar um fim quando a conversa está a fluir tão bem, mas, a partir do momento que existem outras propostas no programa, convém haver essa sensibilidade, para que não se cruzem momentos e as pessoas não cheguem atrasadas ao que querem ver. Por outro lado, achei interessante que a masterclass tivesse inscrição online e acho que podiam adotar esse sistema para todas as sessões maiores que requerem levantamento de bilhetes. Nem sempre é exequível estar na feira três horas antes para levantar o bilhete e, assim, conseguiam ter uma noção mais imediata da lotação esperada.

Hidratação: Este aspeto talvez não seja exclusivo da feira, mas seria importante haver mais bebedouros ao longo do jardim.

Gerir o espaço: A FLP tem crescido ao longo dos anos, o que é ótimo, mas sinto que é necessário repensar a disposição dos stands. Talvez estendê-los por mais zonas da Avenida/dos Jardins, colocar a restauração perto do Pavilhão, aproveitar o Terreiro (perto da Biblioteca) para ter outros stands e deixar o Jardim das Cidades Geminadas para as atividades infantis, por exemplo. Além disso, a acessibilidade aos stands também poderia receber uma reformulação, porque seria interessante podermos circular lá dentro e garantir que não há tanta confusão acumulada, com pessoas a tentarem ver os livros e a não conseguirem, porque os corredores são estreitos e editoras maiores acabam sempre por atrair mais atenção.


Inês Lourenço, num dos seus poemas, traçou duas pessoas a conversarem «sobre livros de poesia à mesa de um café no Porto». Talvez não exista imagem mais representativa daquilo que a Feira do Livro pode ser, como mencionou Pedro Duarte, uma vez que nos remete para a partilha e para a beleza dos mundos que escalam entre as palavras.

Uma nova edição deste evento chegou ao fim e acho que, ainda hoje, não sou capaz de traduzir o quão feliz sou a percorrer a Avenida das Tílias nesta altura do ano. No entanto, não faltei à chamada e deixei-me envolver pelo aroma dos dois cimbalinos escaldados, que imagino. É esta a magia da Feira. E, nela, sinto-me sempre em casa.


O corpo fragmenta-se em silêncio, numa «lenta e incendiária viagem», mas há algo nas palavras que desencadeia um encontro. Um reencontro, para ser mais precisa, entre as inúmeras versões resultantes desse processo subtil. Como se fossem um sopro frágil e, em simultâneo, indomável, resistem, porque se renovam e Sara Duarte Brandão parece ter encontrado nesse limbo um modo de multiplicar pontes com aquilo que nos habita.


 uma travessia emotiva e cívica

Descolonizar o Sujeito Poético abre o peito e tira-nos o tapete com a mesma rapidez com que nos acolhe e nos abraça na sua travessia. Aliás, leva-nos até às raízes da autora e a «todas as coisas a que não se deram nome», mas sobre as quais não deixou de escrever. Talvez os seus versos sejam uma forma de encontrar essa denominação, já que faz das palavras morada e caminho. E, a certo ponto, transmite-nos uma sensação de conforto perante o naufrágio, como se fosse uma oportunidade para repousar e desbravar novas fronteiras — independentemente da natureza e das coordenadas de cada uma delas.

João Gesta afirma que descolonizar é preciso e eu acrescento que necessitamos de nos libertar do que mantém o nosso coração preso, a temer a vulnerabilidade, quando é ela que nos permite ampliar o debate e descobrir pontos de contacto com os outros e mais focos de luz. A madrugada «vigia-nos os impulsos» e Sara, sem o omitir, traçou na sua poesia um gesto de resistência. Atrevo-me, inclusive, a dizer que teve a ousadia de nos fazer acreditar que também na escuridão é possível sonhar, porque nos ajustamos: não pela conformidade, mas pela capacidade de descermos às profundezas de quem somos.

Estava na página do primeiro poema e já perdida, no melhor sentido possível, a pensar sobre uma das perguntas, atendendo a que não sei para «onde regressam as almas/que nunca saíram do lugar», porque há ocasiões em que me sinto um barco parado no cais a rever sempre o mesmo horizonte. No entanto, onde poderia florescer mágoa, prefiro que haja a convicção de «que um dia vou voltar/aonde nunca fui», como uma promessa que, apesar de semeada em terreno incerto, contribui para a esperança de um amanhã.

«lê com atenção os silêncios
que sobrevivem nos lábios»

Há, aqui, uma noção de futuro que recupera memórias passadas, que nos impulsiona a seguir, porque é forte a certeza de termos onde ancorar. E por entre silêncios, solidão, ausência, distância e o tempo que passa sem pedir, fala-nos sobre sermos livres, sobre perigos e sobre a saudade, com o mesmo cuidado com que nos fala sobre a beleza dos detalhes, cravos e amor. Pode chover por dentro, mesmo assim, o poema nunca acaba.

Sinto que esta obra é, também ela, uma maneira preciosa de impedir o esquecimento: daqueles que nos moldam, dos lugares que nos formaram, das casas que edificamos ao nosso redor e onde podemos crescer. Por esse motivo, estes poemas também são sobre pertencer — muito mais do que sobre caber. A título de curiosidade, embora seja uma redução inglória, visto que «é um livro comovente» no seu todo, próximo e complexo na mesma intensidade, confesso que Expansão marítima do poema, Navio de combate ao esquecimento, O espaço vazio, Flôr di nha esperança ficaram com todo o meu coração.

Descolonizar o Sujeito Poético alicerça-se num património afetivo que abre portas a um património cívico que nos quer atentos, reativos. A deambular pelas palavras que são casa, manteve-me sempre em movimento, a preencher as minhas margens. Fabuloso!


 notas literárias
  • Desafio: Alma lusitana
  • Lido a: 3 de agosto
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 76
  • Banda sonora: Ouvi Dizer, Ornatos Violeta | Rua da Saudade, Bárbara Bandeira | Cajuína, Caetano Veloso | Quem Me Vê, Os Quatro e Meia & Luís Trigacheiro



O despertador ecoa no quarto e há um novo dia a amanhecer dentro e fora das quatro paredes que o delimitam, que delimitam esta casa construída de pedra, de saudades e de afeto. E sendo, todo ele, feito de promessas, florescem perguntas diferentes, outros olhares sobre a mesma realidade e a vontade renovada de me continuar a mover pelo espanto, tal como Inês Meneses, com quem aprendo, sobretudo, a olhar para dentro.


 o que se acrescenta aos dias banais

Linhas de Valor Acrescentado embarca nessa viagem intimista, de quem observa sempre o mundo de um modo introspetivo, mas sem diminuir a possibilidade de enriquecer os dias com rasgos de esperança, de animação, de amor. Aliás, sinto que uma das missões da autora é mesmo mostrar-nos o quanto a vida «acontece com os amores por cumprir (…) com as paixões que fazem os anos parecer instantes»; mostrar-nos que a vida é um lugar «bonito para se habitar», apesar da solidão, dos silêncios, do desânimo, visto que os amigos também nos resgatam da «claustrofobia quotidiana» e não nos desamparam.

Existe sempre um motivo para as coisas demorarem o seu tempo: se eu tivesse escrito este texto pouco depois de ter terminado a leitura, teria perdido um exemplo evidente das linhas que me acrescentam e que refletem várias observações que sublinhei nestas páginas. Num domingo que tinha tudo para ser igual a tantos outros, estar no parque com a minha melhor amiga (e a mais antiga), enquanto a filha dela se divertia a ver as bolas de sabão, foi daqueles momentos simples que se colam à nossa pele, talvez, não tanto pela situação em si, mas pelo facto de nós, duas adultas com tantos dias dentro, estarmos apenas em silêncio, sem necessidade de preencher esse espaço com palavras. Podemos não conversar diariamente, podemos demorar até combinar um reencontro, no entanto, continuamos a nutrir aquilo que nos une. E isso, creio, explica o conforto que esse silêncio representa, excluindo qualquer indício de cobrança ou afastamento.

A Inês Meneses é uma das vozes que mais companhia me faz e tenho procurado voltar à sua escrita com maior frequência, uma vez que sei que encontrarei sempre uma nova perspetiva para aquilo que é comum e uma maneira de não perder a capacidade de ver nisso uma certa beleza, porque, parafraseando-a, precisamos de andar distraídos para estarmos atentos e é nessa distração que vamos colhendo o que nos deixa mais perto de quem somos — se calhar, pela pureza, por nos moldarmos menos ao que esperam de nós e nos limitarmos a ser livres naquilo que nos amplia as emoções e as memórias.

«O amor e a paixão são ambos válidos. Preciso do amor para me situar e da paixão para saber que lado meu não obedece. Não há nada de errado nisto. A paixão descoordena-nos, o amor situa-nos»

Confesso que tenho algumas reservas em relação ao ato de romantizar a vida, quando isso implica bloquear a nossa vulnerabilidade. Nem todos os dias serão luminosos e a transbordar de felicidade, porém, precisamos de sentir, de nos fragmentar, porque só assim «voltamos a ficar quase intactos». E reforço o quase, tendo em conta que nunca seremos as mesmas pessoas: as cicatrizes fazem parte do processo e, mesmo que soe a lugar comum, são, também elas, fiéis contadoras da nossa história. Não obstante, creio que a Inês Meneses consegue trazer o equilíbrio perfeito entre descermos ao abismo e sermos arrebatados por aquilo que nos rodeia, sem medo de sentirmos as coisas como elas nos chegam, porque sente tudo intensamente, mas há uma calma que nos inebria.

Leio-a sempre com um lápis por perto, porque há frases que abraçam e sobre as quais me apetece escrever, como se lhe enviasse um bilhete de resposta através das margens, embora saiba que nunca o lerá. Neste livro, que aparenta ser uma crónica longa, senti-me a conversar com uma amiga e, por um lado, a chegar a lugares onde não tinha ido e, por outro, a voltar a temas que são recorrentes nas minhas conversas. Assim, pude refletir sobre a diferença entre confiança e segurança (que parece evidente e não é), o caminho da sororidade, o que fica do (que não foi) amor, as pessoas que nunca chegam a sair da nossa vida totalmente e as feridas provocadas por amizades interrompidas.

Linhas de Valor Acrescentado parte das relações humanas e traz para a mesa aquilo que é o território material e o território afetivo — e a certeza de ser no segundo que reside o que temos de mais valioso. Hei-de regressar a estas páginas, porque existe, em cada uma, um mundo que nos acalenta nos dias mais turvos e que nos faz sentir acolhidos.


 notas literárias
  • Lido entre: 28 e 30 de julho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Crónica
  • Nº páginas: 112
  • Banda sonora: Neblina, Luar, Rita Onofre & Avalanche | Gostas, Lhast | Inquietação, José Mário Branco


O termo antologia seduziu-me pela origem etimológica, uma vez que deriva do grego e significa «coleção de flores». Este escalar da botânica para uma utilização mais ampla, sem, no entanto, perder a sua génese, talvez seja a demonstração do lirismo da poesia e do quanto o ato de reunir nos agrega. Como procuro colher poemas como se fossem flores, voltei a Ana Luísa Amaral para (re)descobrir os seus trinta e um anos em verso.


 transversal, curioso e próximo

O Olhar Diagonal das Coisas compila os 17 livros de poesia da autora e tradutora, numa viagem inaugurada em 1990, com Minha Senhora de Quê, e que terminou em 2021, com Mundo — não deixa de ser curioso que o último título publicado seja este, porque Ana Luísa Amaral, através da escrita, mostrou sempre a maneira como observava o mundo, encarando-o pelo espelho do quotidiano, pelo que vem de dentro e continua complexo.

Partir da nossa esfera pessoal, privada, mesmo que não tenhamos de analisar o que se passa dentro de quatro paredes, pode ser uma forma muito interessante de estabelecer pontes com aquilo que nos rodeia: se calhar, porque invertemos um pouco a ordem do percurso e seguimos uma linha que vai do concreto para o abstrato; se calhar, porque é nessa inversão que nos predispomos a imaginar, a não temer o metafórico, a conceder espaço para que se avistem e acolham novos ângulos. Desfoca-se o horizonte, contudo, adquire-se margem para o instantâneo e para as subtilezas, sem ponta de narcisismo.

Creio que a expressão que sustenta o nome da obra é, por si só, uma analogia singular, isto porque olhar na diagonal assume uma carga mais negativa, como se estivéssemos pouco investidos no que vemos/lemos. No entanto, nestas páginas, é um conceito que se expande, que se torna transversal, que cria, inclusive, intimidade e privacidade, ou seja, ao olhar na diagonal, a poeta permanece atenta ao outro, só que não o confronta com as suas sombras, as suas incoerências, as suas divagações, nem o intimida nessas observações. Deste modo, as pessoas continuam a agir como se ninguém as estivesse a ver, ficando tudo muito mais próximo da sua verdadeira essência. E acho interessante como parece aplicar a mesma fórmula à sua existência, sobressaindo outras camadas.

«Estragas-me a paz.
E eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti»

O olhar oblíquo amplia a curiosidade, quer pelas coisas, quer pelas pessoas, ao mesmo tempo que lhe permite ver para além do óbvio e oscilar entre o vazio e o infinito, entre o que é ínfimo e colossal, entre o emocional e o racional. É, também, nestes contrastes que explora vários estilos e assuntos, trazendo para os versos uma ressonância bíblica, política, mnemónica e épica, com uma precisão que pode suportar diferentes crises e, por um lado, auxiliar na procura por respostas e, por outro, levantar mais perguntas.

Naturalmente, não me relacionei com estes livros com a mesma intensidade. Aliás, já tinha lido Ágora e Mundo, que me despertaram reações distintas, e isso fez-me pensar que um dos aspetos mais fascinantes das antologias prende-se com a possibilidade de acompanharmos a evolução do autor de uma forma mais imediata e sequencial. Foi, portanto, estimulante identificar as metamorfoses de Ana Luísa Amaral e, até, a sua envolvência com certas temáticas. Assim, «há poemas transferidos de um livro para o outro» e poemas que dialogam entre si, e esta cumplicidade impulsiona-nos a ver os detalhes com atenção. A título de exemplo, destaco os capítulos Minha Senhora de Quê e Coisas de Partir e os poemas Do Lado Mais Brilhante do Silêncio, Sentidos e A Casa e o Tempo, atendendo a que ficaram com todo o meu coração e a minha alma por inteiro.

O Olhar Diagonal das Coisas alicerça-se na saudade, nos afetos, na banalidade dos dias e no amor. Com um tom espinhoso e sensível, traduz uma humanidade que não nos é indiferente e que denota aquilo que permanece — e a força que habita o ato de sentir.


 notas literárias
  • Desafio: 12 meses, 12 livros de poesia
  • Lido entre: 1 e 16 de julho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 1384
  • Banda sonora: Sentir o Sol, Os Quatro e Meia | Sinal, Dengaz | Para T., Valter Lobo



O que suspirei por agosto não está escrito, mas sei que precisava destes dias longe, a desfrutar da minha bolha de oxigénio, sem ter o despertador a tocar à mesma hora e a rotina mais ou menos definida. Ainda assim, idealizei alguns objetivos de escrita, porque os tinha adiado e porque a calma de agosto me pareceu o impulso necessário para os concretizar.

Percebi, contudo, que agosto vinha com outros planos e que o truque era deixar fluir. Portanto, os cadernos passaram mais tempo fechados e a máquina fotográfica mais tempo a funcionar. Aproveitei para ver/ouvir conteúdos em atraso, ler ao sol e, por vezes, ficar só a existir, sem pressas, sem a sensação de ter de preencher o tempo.

Este mês foi um sopro, mas trouxe-me um dos eventos mais bonitos da cidade.


as coisas maravilhosas de agosto


 os fragmentos aleatórios

Uma breve anotação neste separador para registar que voltei a atualizar a minha coleção de dedais (que, ultimamente, estava a ser alimentada por amigos e familiares) e que o Pumpkin Spice Latte, do Starbucks, está de regresso (primeiro, para quem tem a aplicação). De facto, não preciso de muito para ser feliz.


 as músicas e os álbuns

De acordo com os dados do meu last.fm, agosto foi o mês com mais minutos de audição, muito às custas das músicas que já são prata desta casa. Ainda assim, fui recuperar um álbum de março, que deixei passar na altura, e voltei a Post Malone.

As músicas que marcaram o mês: Hoje Tem, Pikika | Pinga, Isak & Armando Teles | Ouro, bapcat & Carolina Deslandes.


Os álbuns que marcaram o mês: 3º Esquerdo, Galrito | August 26, Post Malone.


 as publicações

O blogue entrou de férias, mas continuei a publicar na newsletter e no meu substack poético. Assim, destaco uma publicação de cada um dos formatos.

feira do livro do porto 2026
uma espécie de guia com as minhas sugestões, quer em relação ao programa, quer em relação aos livros do dia, para um dos meus eventos favoritos.

no mesmo lugar
um poema inspirado na música Eu Não, do LUAR.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um podcast e um documentário.

O Código Farioli
Francesco Farioli chegou ao Futebol Clube do Porto com uma história difícil de ignorar. A eventual desconfiança, sinto, foi rapidamente desfeita e não o refiro pelos resultados alcançados em tão curto espaço de tempo, mas pela certeza que Jorge Costa destacou: voltamos a ter uma equipa. Mais do que uma equipa, no seu sentido profissional, voltamos a ter um grupo unido, a falar o mesmo dialeto. Isso pode dever-se a uma série de fatores, mas não duvido que o principal foi, claro, Farioli. Neste podcast, Eduardo Soares da Silva foi um pouco mais longe, numa peça jornalística de excelência — a certo ponto, mesmo sabendo o que aconteceu no Ajax, dei por mim a torcer por um desfecho diferente.

Infância
Infância leva-nos numa viagem pelas atividades que Pedro Teixeira da Mota mais gostava de fazer em criança. O presente recua ao passado, sem que deixe de ser percetível a passagem do tempo e aquilo que permanece inalterável, porque ele cresceu, porém, é engraçado perceber que existem fragmentos que se repetem — só se transformaram.


 os livros

Agosto não foi um mês de leituras arrebatadoras, mas deixou algumas marcas.

Os favoritos do mês: Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão | Primeiro Eu Tive de Morrer, Lorena Portela | Poemas Completos, Herberto Helder.

Outros livros lidos: Heartstopper Volume 6, Alice Oseman | Sonetos de Amor e Sacanagem, Gregorio Duvivier | Alentejo Prometido, Henrique Raposo | A Coisa à Volta do Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie | Nós e os Outros, Maria Luísa Pedroso de Lima.


 os momentos

Os 2 anos do Tomás. Passear com a Rita e a Lúcia. Terceira temporada de Salto de Fé. Ir a S. Jacinto e a Ovar. Idas ao starbucks. Passeios em família. Revisitar o Porto sempre. Voltar a Braga. Jogos de futebol. Preparar idas à Feira do Livro do Porto. Conhecer A Guarda, o Monte de Santa Tecla e o Mosteiro de Oia. Voltar aos Jardins do Palácio de Cristal em vários dias, em diferentes horários, para viver a Feira do Livro. Livros, livros e mais livros. Mais jogos de futebol. Despedidas. Regressos. Aproveitar dias cinzentos para pedir o pumpkin spice latte. FELP 2. E muita poesia pela cidade.







Setembro, sê gentil ✨



Julho precisou que cuidasse da minha energia, mas senti-o leve. Acho que não consigo identificar os motivos exatos dessa sensação, mas encontrar equilíbrio entre as coisas que acrescentam valor à minha rotina, desde ler meia dúzia de páginas de um livro até assistir a um jogo de futebol, foi o gatilho perfeito para encarar este mês para lá do caos e do cansaço que o reveste.

Saber que as férias estão perto, reconheço, também ajuda. Não obstante, entre regressos e fins de semana de ronha, tive vários momentos de silêncio que me ajudaram a reorganizar por dentro e a colocar em dia conteúdos que são regulares no meu dia a dia — e isso pesou de uma forma bastante positiva. 

Acho sempre que este mês fica um pouco turvo, porque é tão longo que parece passar uma vida entre todos os acontecimentos em que se divide. Desta vez, a agenda não esteve preenchida, mas não faltaram coisas maravilhosas para registar.


as coisas maravilhosas de julho


 os fragmentos aleatórios

A minha máquina de café é Dolce Gusto e tenho usufruído bastante de algumas novidades que vão surgindo. No entanto, sinto que a Nespresso acaba por ter uma variedade maior e, como gosto de preparar as minhas bebidas, tanto no verão, como no inverno, há sabores que não posso provar por não ter uma máquina compatível. Por esse motivo, no início do mês, decidi investir nesta máquina de café expresso portátil, que dá para café em cápsula ou moído, e estou bastante satisfeita. A bateria não é a mais duradoura (tem dado para três cafés, talvez por usar sempre a capacidade máxima e nem sempre aquecer a água), mas é prática e intuitiva, e tem sido uma excelente aliada ao pequeno-almoço e/ou ao lanche.


Outros fragmentos aleatórios: a Bola de Berlim da Oficina do Pão, ser surpreendida com a caneca Book Lover e comprar a versão física do cd do Noah Kahan, The Great Divide.


 as músicas e os álbuns

A playlist mensal esteve menos mexida e, curiosamente, não fiz morada em nenhum álbum, mas tenho estado a ouvir o do Espama Trincana, Bad Bitches Ouvem Espama, a Mixtape.

As músicas que marcaram o mês: Não Entendo, Espama Trincana | Ressaca, bapcat & xtinto | Na Raiz, Xico Gaiato & Bia Maria | Rosa, Rodrigo 13 & Icaro.



 as publicações

No meu substack poético — No Silêncio —, partilhei um poema inspirado no tema Festa Bem Louca, da Pikika. Se vos interessar, podem ler dança lenta.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um podcast e um filme

Na saúde e na doença
A dupla que faltava aventurou-se num projeto comum e isso deixou-me entusiasmada, já que acompanho o Guilherme Geirinhas e a Margarida Santos em separado, nas suas vertentes profissionais tão distintas, mas que eles interligam na perfeição. Aliás, adoro como a Margarida conversa sobre saúde de uma forma tão descomplicada e acessível e como o Geirinhas é tão ágil a dinamizar conteúdos que, não sendo sobre comédia, têm sempre um caráter cómico. E acho que é no humor que encontram o meio do caminho.

Na saúde e na doença conquistou-me logo na introdução, porque sinto que estabelece o tom do que podemos encontrar ao longo do episódio: num misto de ironia, provocação e brincadeira, porque há coisas que são sérias, mas não é necessário encarar tudo com formalidade. Através de temas que os inquietam — ou que, pelo menos, lhes suscitam algum tipo de debate —, encontraram espaço para conversarem sobre tudo com leveza e sem que um dos lados tivesse de diminuir a sua voz. Gostei bastante da dinâmica, do facto de combinarem dúvidas, curiosidades e estatísticas e de serem tão sinceros nas suas intervenções. Claro que há planeamento no modo como conduzem os segmentos, no entanto, sinto que teriam o mesmo discurso caso as câmaras estivessem desligadas.

A Sibila
O filme, como afirmou Eduardo Brito, contém a matriz do romance de Agustina, mas não procura «ter a sua sombra» e talvez por esse motivo haja uma imagem um pouco mais exacerbada da personalidade de cada uma destas mulheres — tia e sobrinha —, uma convivência marcada por «sentimentos de ciúme, admiração e magnetismo» nem sempre imediatos, mas que identificamos em movimentos, olhares, pensamentos que nunca chegam a ser verbalizados: provocam, sim, uma reação física subtil. Para mim, o mais curioso foi ver como «cresceu para dentro de si», porque o mistério de Quina prende-se com essa interioridade, com aquilo que viveu em criança e transformou na sua identidade. Apaixonada «por corrigir, comandar, ser notável», viu em Germa uma continuação do seu legado e isso deixou bem claro o contraste entre o ser e o possuir.

Já não me recordo do que li, devo confessar, apenas da sensação pesada de avançar as páginas, porque havia uma carga sombria densa. Também a encontrei no argumento, mas ter um rosto para associar permitiu-me humanizar a história e manter presente que, apesar do cinismo e da frieza, nenhum daqueles comportamentos era gratuito. É certo que podemos questionar a intenção, a moralidade, mas percebemos que vêm em consequência de algo passado. Além disso, achei fascinante a conveniência do afeto, a dureza do caráter a contrastar com a generosidade do cuidado e a noção de abandono.


 os livros

Habituei-me a definir uma tbr mensal, por ser uma forma de orientação que resulta comigo. Não obstante, se nos outros meses não encaro essa lista como algo estanque, em julho ainda menos. Por isso, fui lendo sem pressa e a priorizar sempre o que o meu estado de espírito estava a pedir no momento.

Os favoritos do mês: O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral | Linhas de Valor Acrescentado, Inês Meneses.

Outros livros lidos: Benjamim, Chico Buarque | Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral | Cidade Infecta, Teresa Veiga | Mau Género, Chloé Cruchaudet | Cordão, Ana Freitas Reis | As Vinhas de La Templanza, María Dueñas.


 os momentos

Jogar matraquilhos humanos. Ver Rent. Estender a toalha. Estrelas do mar. Visitar o Pink Palace. Hey, Jude. Ir a um centro de equitação. Visitar a Casa da Música (o nosso guia era extraordinário). Voltar à Arquivo. 







Rent
O musical Rent, um dos maiores sucessos da Broadway, numa «adaptação moderna da ópera “La Bohème”, de Puccini», regressou aos palcos portugueses e conquistou-me.

A acompanhar um grupo de amigos, durante um ano, «no auge dos boémios anos 90», transmite-nos a importância de aproveitarmos o tempo com aqueles que amamos. Por esse motivo, vemos os protagonistas a lutarem pela sua sobrevivência, a celebrarem os laços que os unem, a esforçarem-se para superar dificuldades, reverberando condições precárias, os malefícios do consumo de drogas e vários problemas de comunicação.

Os contextos e as circunstâncias são diferentes, mas dei por mim a pensar no grupo de amigos de Sinais de Fumo, porque há muito das suas histórias que se cruzam; a pensar na força necessária para não sucumbir, para não desistir, perante tantas adversidades. Nem sempre a vontade é motor suficiente para avançar, contudo, haver um propósito pode ser o impulso que precisamos para valorizar «cada momento» e vermos além da desesperança, do orgulho, dos constantes entraves que se colocam no caminho — por mais que isso seja difícil, porque não existe, aqui, qualquer tentativa de romantização.

A homossexualidade, a SIDA, a dependência, os parcos apoios para o meio artístico e a crise da habitação são temas explorados na peça, estabelecendo uma ponte «entre a sociedade de há 30 anos e a de hoje». Felizmente, evoluímos em muitos aspetos, mas é fascinante como, tanto tempo depois, ainda conseguimos elencar tantas semelhanças.

Fiquei completamente rendida ao talento e à forma como me fizeram sentir cada fragmento. Tenho pena que a qualidade do som interfira com experiência (dependendo o local, pode não ser fácil distinguir tudo o que está a ser dito), ainda assim, arrepiei-me em vários momentos.


Agosto, sê gentil ✨
(reencontramo-nos em setembro)



A leitura é um refúgio e sinto que se transforma numa espécie de bolha de oxigénio, durante o mês de julho, para não sucumbir ao cansaço e manter-me minimamente funcional. E é, também, neste período que olho menos para a tbr mensal, já que acabo por priorizar os livros para os desafios e o resto vai-se compondo, ainda que tenha sempre alguns títulos extra em mente.

Até ao momento, li sete livros (três romances, um de não ficção, uma novela gráfica e dois de poesia), mas ainda quero ir ao Linhas de Valor Acrescentado, da Inês Meneses. Descobri dois autores novos — Fernando Sobral e Chloé Cruchaudet —, fiz uma releitura (Cordão, da Ana Freitas Reis) e, sem ter sido particularmente arrebatada pelas obras que escolhi para julho, O Olhar Diagonal das Coisas, de Ana Luísa Amaral foi a minha favorita.


 entrelinhas de julho


Benjamim, Chico Buarque

A voz de Chico Buarque vai ecoando, cá em casa, de um modo pontual. Em 2020, abri a porta para que a sua prosa deixasse de me ser desconhecida e, seis anos depois, senti que estava na altura de regressar à sua escrita.

Benjamim «narra a história de um ex-modelo fotográfico que, com uma câmara invisível, vê o mundo desfilar diante dos seus olhos sob uma atmosfera opressiva». Obcecado pela morte de uma mulher, o protagonista deixa de conseguir distinguir o passado e o que vê à sua frente e isso encaminha-o «em direção ao destino trágico que a sua obsessão lhe reserva».

A proposta pareceu-me interessante e a escrita cinematográfica entrelaça-nos à divagação deste homem assombrado pelos seus fantasmas. No entanto, a concretização não me prendeu como estava à espera — faltou algo que me ligasse profundamente ao tumulto interior, à nostalgia e à ambiguidade da personagem. Ainda assim, achei curioso que, por entre as suas divagações, também nos deixasse à deriva, a tentar compreender o que fica no meio do caos, das pontas soltas, do que tentamos, a todo o custo, compreender para resgatarmos alguma lucidez.



Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral

A Seleção Portuguesa perdeu com a Espanha, nos oitavos de final, sendo eliminada do Mundial. Por esse motivo, começar a ler o ensaio que Fernando Sobral escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos logo no dia a seguir é capaz de não ter sido o ideal. Contudo, indo à boleia de um desporto que me fascina desde miúda, não resisti.

Futebol, o Estádio Global parte de uma paixão universal. Ainda que não existam estudos que corroborem este facto, «em 10 milhões de portugueses, não será arriscado afirmar que 10 milhões já viram um jogo». Inclusive, talvez seja possível afirmar que temos um pouco de treinador de bancada em nós, que sobressai em ocasiões concretas: há quem passe a época sem estar atento a resultados, no entanto, a energia modifica-se quando o assunto é a seleção nacional. Enquanto elemento que tem a capacidade de agregar a comunidade, acho maravilhoso ver como as pessoas se unem por uma equipa comum, pondo de parte qualquer barreira. Por isso é que o futebol é de todos. Ou será que não?

O livro, que se assume como «o retrato que faltava da grande paixão nacional», propõe-se a traçar a evolução deste desporto, desde a essência de espetáculo até à componente de negócio: o que começou como um jogo amigável, para divertir os trabalhadores das fábricas, escalou para algo sério, profissional e sujeito a pressões externas. Isso fez-me questionar se a profissionalização foi a responsável por essa mudança ou se, por outro lado, foi a necessidade de tornar o futebol numa fonte financeira rentável que alterou a maneira como o encaramos. Sem apresentar uma resposta inflexível, é inegável que a «transformação fora das quatro linhas» acaba por influenciar a sua estrutura interna.

Compreendo, portanto, quando o autor afirma que este desporto se transformou numa poderosa indústria, já que «tem adeptos, mas também accionistas», já que se joga num estádio, mas a televisão permite que possa ser visto em todo o mundo, em simultâneo. O futebol expandiu, modificou-se, abriu portas e isto não deixa de ser uma resposta a essas alterações, com tudo o que têm de positivo e negativo — mas este cenário não é exclusivo do mundo desportivo, acontece na música, na literatura, nos nossos hobbies.

Tal como na arte, existem momentos em que parece que o futebol pelo futebol já não é suficiente, que é sempre preciso um pouco mais para que subsista. Numa visão idílica, acho que qualquer adepto gostava de sentir que o futebol continua a ser uma forma de entreter quem o vê, sem escândalos, sem fronteiras, sem desigualdades. No fundo, que fosse simples e não um jogo de poder político, que desvirtua a sua verdadeira essência. Ainda assim, por mais que possa ser uma observação ingénua, não creio que se passou de um extremo ao outro, ainda acredito que a magia deste desporto está em campo, na equipa, nas jogadas imprevisíveis, na euforia de um golo que é marcado ao minuto 92.

Por oposição, não me revi no tom fatalista, por vezes condescendente e contraditório, do autor, tão centrado nos números (mais comerciais do que estatísticos). Uma vez que assume a nostalgia do «jogo bonito», de dribles e fintas, em vez de um «sistema táctico rígido e defensivo», esperava um discurso mais emotivo, ainda que não perdesse o lado racional, do jornalista que analisa os factos. Aliás, sinto que seria mais interessante se se tivesse desvinculado dos extremos, visto que os interesses económicos não mudam, por si só, aquilo que é o futebol, visto que apresentar um sistema tático sólido não tem de impedir que exista poesia nas jogadas. Hoje, focamo-nos em aspetos que não eram uma prioridade e, não nos iludamos, há situações que nos desagradam e revoltam, mas nem todas as mudanças implicaram uma perda de identidade: a essência ainda resiste.

Futebol, o Estádio Global foi-se perdendo no seu propósito a partir do momento em que Fernando Sobral afunilou o tema central. Embora crítico do espetáculo de massas, não alargou o debate e teria sido interessante trazer realidades distintas, porque os clubes não lidam todos com o mesmo tipo de adversidades. As vitórias são fundamentais, no entanto, reduzir o futebol a esse fim parece-me distanciá-lo daquilo que é suposto ser: «uma linguagem comum», o espetáculo que faz vibrar multidões. Quando recordamos um jogo, o resultado até pode surgir, mas não sei se essa será a primeira memória ou a que guardamos com fervor: os números acabarão por ficar turvos, com o tempo, mas o voo sobre os centrais, a defesa impossível, os cânticos partilhados com desconhecidos não e isso, sim, é a definição de estádio global, porque há emoções universais, para lá do emblema que apoiamos, que nos deixam apaixonados por aquilo que não se explica.



Cidade Infecta, Teresa Veiga

As personagens comuns, que se confundem com a trivialidade do quotidiano, cativam-me, porque transportam uma essência mais próxima da realidade. Não pretendo que a literatura seja apenas uma representação fiel do que presencio dentro e fora da minha bolha, mas, como sinto que escrever a normalidade não é assim tão simples e intuitivo, gosto de me perder em narrativas que a façam sobressair e que nos permitam reparar noutros ângulos. Era isso que estava à espera de encontrar neste livro de Teresa Veiga.

Cidade Infecta leva-nos para uma cidade do interior, na qual «a vida segue os trilhos da tradição» e cuja tranquilidade dos seus moradores «é violentamente interrompida pelo assassínio de uma mulher». Este cenário sombrio e suspeito povoa as ruas de Oliveira, onde Raquel e Anabela se conhecem num curso de informática. Aparentemente, nada têm em comum, mas a amizade é imediata, movida «por uma determinação férrea em conduzir a vida familiar». Cada vez mais unidas, é quando «estão prestes a desvendar uma à outra os seus segredos mais inconfessáveis» que acontece uma nova tragédia.

A premissa intriga, não só pelo mistério, mas também pelos elementos transversais à vida das protagonistas, o que me deixou a pensar no facto de nenhuma experiência ser individual: podem mudar o contexto e os contornos, no entanto, existem situações que se repetem dentro de várias casas, em simultâneo, sem que nos ocorra. Dito assim, sei que parece que estou apenas a constatar o óbvio, porque nós sabemos a multiplicidade dos casos, podemos não ter o número da porta, mas reconhecemos que não é isolado, só que não ser verbalizado faz com que permaneça invisível. Quando identificamos os mesmos comportamentos, os mesmos padrões, isso pode ajudar a despertar vínculos.

Esta aproximação pelo trauma é capaz de, por um lado, contribuir para ver o problema com clareza, mas, por outro, talvez contribua para que se torne algo maior e sufocante, pela impossibilidade de sair do abismo. E eu fui ficando presa neste limbo, a assistir à mesquinhez dos casamentos, por causa de descrições e não tanto pela narrativa em si, atendendo a que a senti demasiado à superfície, como se não nos pudéssemos demorar.

A leitura avança a bom ritmo, ainda assim, confesso, tive dificuldade em compreender para onde a autora nos queria levar. Creio que Raquel e Anabela espelham a angústia de viver relacionamentos construídos na base da conveniência, da violência, da ofensa, por esse motivo, achei que a amizade entre elas fosse um gatilho de mudança, mas até este ponto central se perdeu, ficando a sensação de que foi somente um pretexto, uma frincha de sol num dia cinzento, para nos iludir. Além disso, não consegui entender a pertinência do assassínio da mulher, porque não tem um impacto substancial na ação.

Parece, inclusive, que o livro é só um conjunto de acontecimentos suspensos, como se a qualquer momento a história fosse começar e adiassem o seu início. Tendo em conta as temáticas e toda a sua potencialidade, há um sabor agridoce a pairar, visto que teria sido mais interessante se tivesse mexido com as nossas emoções de um modo visceral, se tivesse aprofundado as situações e a carga sombria, para não ficarmos dormentes.

Cidade Infecta talvez pretenda demonstrar a sobrevivência, as vidas geridas através dos danos e tudo o que fica pendente perante dilemas diários, que nos obrigam a recuar, a ceder, a desistir, até que tudo se esqueça e fique em silêncio. A história é interessante, mas a concretização não resultou comigo, porque gostava de ter sentido inquietação.



Mau Género, Chloé Cruchaudet

A capa da novela gráfica de Chloé Cruchaudet chamou-me logo à atenção, mas acabei por adiar a leitura. Quando vi que estava disponível na BiblioLED, fiz a reserva e comecei a lê-la no mesmo dia.

Mau Género é inspirado na história verídica de «um desertor que se torna travesti nos loucos anos 1920». Paul e Louise, os protagonistas, conheceram-se, apaixonaram-se, casaram e, depois, tiveram de se separar por causa da Primeira Guerra Mundial. Perante um cenário de profundo terror, Paul «deseja escapar de lá a qualquer custo, acabando por desertar e encontrar a mulher em Paris». Apesar de estar a salvo, permanece condenado a viver «escondido num quarto de hotel».

A estratégia para sair da clandestinidade passa por se vestir de mulher e, quando a amnistia é concedida aos desertores e pode voltar à sua verdadeira identidade, os dramas entre o casal amplificam-se, destacando questões fulcrais sobre sexualidade e identidade de género, mas também sobre os traumas que interferem com todas as dinâmicas individuais e sociais.

A história em si é interessante e bastante angustiante, sobretudo, por sabermos que não é ficção, porque nos deixa a pensar em todas as adaptações que temos de fazer para sobreviver — e o quanto isso pode não ser suficiente, por um lado, devido às marcas profundas provocadas por experiências agressivas e, por outro, por causa de preconceitos demasiado dolorosos. Ainda assim, não me relacionei totalmente com a cadência do texto, porque sinto que houve partes um pouco confusas (ou onde precisava de ter um pouco mais de contexto).



As Vinhas de La Templanza, María Dueñas

Uma nova volta na roleta ditou que eu e a minha amiga Sofia regressássemos a María Dueñas, em julho. Tendo em conta que a autora é espanhola e foi Espanha a ganhar a Copa do Mundo, achei uma coincidência curiosa. Se esse facto e a obra se cruzam por alguma circunstância? Não, de todo, estou só a divagar.

Voltando ao que interessa, As Vinhas de La Templanza é sobre a história de Mauro Larrea, cuja fortuna conquistada graças a «anos de luta e perseverança» se desmorona de repente, obrigando-o a recomeçar, a procurar uma alternativa que o permita reerguer-se. Assim, da Cidade do México até Havana, das Antilhas a Jerez, vê-se num impasse que o cruzará com «minas de prata, intrigas de família, vinhas» e Soledad Montalvo.

Achei a narrativa interessante, até porque levanta questões morais pertinentes e leva-nos a refletir sobre os limites que estamos dispostos a transpor para alcançarmos determinado fim — o que é que legitima o nosso comportamento? — e de que forma usamos as pessoas para nosso proveito. Além disso, tendo em conta o jogo de aparências, também me deixou a pensar nas histórias que não conhecemos dos lugares que habitamos ou por onde passamos. Só não me relacionei totalmente com o livro porque não senti o ritmo entre as diferentes partes equilibrado e o final pareceu-me um pouco apressado, com certas pontas soltas a serem atadas de um modo previsível.

Continuo fascinada com a forma como Dueñas torna as suas personagens tão humanas.



tbr de agosto

Tenho alguns títulos que gostava de ler em agosto, no entanto, como ainda não estou certa da logística do meu mês e quero aproveitá-lo para ver séries e filmes, optei por compilar apenas os livros dos desafios.

  • Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão (alma lusitana);
  • O Dever de Deslumbrar, Filipa Martins (alma lusitana);
  • Alentejo Prometido, Henrique Raposo (ler ffms);
  • A Coisa à Volta do Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • Poemas Completos, Herberto Helder (12 meses, 12 livros de poesia).
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