Entre Margens



Junho teve poucos discos em rotação, não só porque saíram menos propostas que me interessaram guardar, mas também porque fiquei presa a um EP específico. Além disso, sinto que este mês serviu para consolidar o vínculo que criei com álbuns de meses anteriores.


os álbuns de junho


TÁ CALOR E A CULPA É TUA, VAN ZEE

A temperatura subiu e o responsável é o Van Zee. Depois de um Alta Costura bordado ao mais alto nível, com Frankieontheguitar, a curiosidade aumentou para perceber qual seria o próximo passo. E o Zee, sem prometer nada, entregou tudo.

Tá Calor e a Culpa é Tua, composto por sete temas, destaca-se por explorar uma sonoridade diferente, que mistura ritmos mais dançáveis e sedutores. Não deixa de ter um tom intimista, sobretudo, na Não Confundas e na A 10 da Tua Porta, mas até nessas há uma melodia distinta, que ainda não tinha escutado nos antecessores. Parece, inclusive, que brinca com um jogo de luz e de sombras, com o desapego e a vontade de estar perto e que, neste balanço, descobre até onde se quer entregar. Acredito que isso comprova a sua versatilidade enquanto artista e que está cada vez mais seguro da sua identidade musical.

Ter ouvido a listening party permitiu-me criar um primeiro vínculo com as canções e deixá-las amadurecer na expectativa de as poder escutar em repetição, escalando para vários estados de espírito, talvez porque tive mais tempo para pensar nas primeiras impressões, naquilo que os temas me fizeram sentir só com uma audição. Tenho regressado ao EP todos os dias e a verdade é que continuo fascinada com o seu alinhamento — acho que a sequência ficou perfeita. Ainda assim, confesso que me surpreendeu que a Enfeitiçado tivesse ficado de fora, porque encaixava na narrativa geral, mas não creio que a qualidade do projeto fique comprometido com essa decisão.

Tá Calor e a Culpa é Tua conquistou-me ao primeiro acorde, por todo o conceito, e sei que fará parte dos meus favoritos. Que energia incrível!



ECLIPSE, MUN

O Mun não era um artista que ouvisse com regularidade, mas prendeu-me nas músicas que lançou este ano. Com um álbum de estreia no horizonte, estava curiosa para o descobrir num longa duração.

Eclipse é a metáfora perfeita «para uma relação em que uma pessoa acaba por anular a outra, apagando a sua luz», porque o alinhamento vai oscilando entre aquilo que se entrega e aquilo que sentimos ser diminuído. Com um tom vulnerável, intimista, embarcamos numa viagem emocional, que não tem de se limitar a uma relação romântica, até porque há muitos pontos transversais a relações de diferentes naturezas.

Não tem sido uma escolha constante na minha playlist, mas tenho gostado de me ir reencontrando com estes temas e de descobrir as suas nuances.



IT ALL LEADS BACK SOUTH, CARLA PRATA

A Carla Prata é daquelas artistas que vou mantendo por perto. Pode haver fases em que não a ouço tanto, mas sei que acabo sempre por voltar à sua música: porque adoro a voz e a identidade artística que cimentou ao longo dos anos.

It All Leads Back South é um EP composto por seis faixas e vários universos, que alternam entre o desejo e o desgosto, entre o ser e o ter, entre a desilusão e a resistência. Com uma narrativa cinematográfica, este trabalho também cruza diferentes raízes — Reino Unido, Angola e Portugal —, uma vez que encontrou em cada um deles um lar. Por esse motivo, encontramos uma reflexão «sobre memória, identidade e o que significa pertencer a mais do que um lugar ao mesmo tempo».

A deambular por uma sonoridade mais introspetiva e sedutora, é fascinante como vai da luz à sombra de uma forma tão natural. Este é o primeiro capítulo de uma história que nos mostra que, «independentemente de onde a vida nos levar», encontraremos sempre uma maneira de voltar «onde tudo começou».



Este mês, também ouvi:

  • Porto Baby, do Tiago Mob. Ainda não sei o que achar do projeto no seu todo, mas gostei do tema com o Vasco, Destaque;
  • Jon, do Isak, do Zigarro e do Armando Teles. Talvez não regresse com a maior frequência, mas acho graça ao jogo de palavras, sem filtros, e ao facto de terem construído uma identidade musical tão própria;
  • Um Dia Vais Perceber, do T-Rex. Não me arrebatou à primeira audição, mas sinto que é daqueles álbuns que precisam de tempo para amadurecerem.



A arte de apreciar e abraçar os pequenos prazeres da vida é algo que me atrai: não pela ideia de abrandar e viver quase em slow living, mas pelo impacto de estarmos realmente presentes naquilo que vivemos e/ou que observamos, mesmo que nos pareça trivial.

Talvez seja por esse motivo que me tem apetecido romantizar um pouco a vida, sem perder o limbo de segurança que me mantém lúcida. Assim, como me entusiasmo sempre a preparar os favoritos do ano, decidi recuperar um conteúdo intermédio, para fazer uma espécie de ponto da situação do que me tem enchido as medidas.

Admito, há uma certa dose de obsessão associada a alguns tópicos, sobretudo nos musicais, mas não tinha como ser de outra forma — a culpa não é minha, juro. Portanto, sirvam-se de uma chávena de chá, deixem-se estar confortáveis e sejam bem-vindos aos meus favoritos do momento.


 uma música

Na realidade, começo já a fazer uma pequena batota, porque não trago uma música, trago a playlist que criei com as músicas que mais têm tocado cá por casa, com particular destaque para as três primeiras: Bon Vivan (Lhast), Não Disseste Nada (Icaro) e Camel Blues (Mallina).



 um EP e um álbum

Fevereiro foi um sonho no que diz respeito a lançamentos de artistas/bandas que admiro, porque os Dealema lançaram 96 ao Infinito, o Dengaz lançou O Que Não Se Vê é Eterno e o xtinto lançou Em sonhos, é sabido, não se morre. Ainda assim, tenho estado a viver mais tempo em Elephant In The Room, do Richie Campbell, e em Tá Calor e a Culpa é Tua, do Van Zee. A temperatura subiu sem pedir licença!




 um sabor

Os dias ficam mais quentes e os meus dotes de barista sobressaem. Estou a exagerar, claro, mas gosto mesmo de preparar as minhas bebidas frias e, assim, ir experimentando diferentes tipos de café e de opções com leite. Como equipa que ganha não se mexe (ainda que não concorde totalmente com isto), voltei a comprar o Iced Frappé, da Dolce Gusto, que tem um travo a caramelo e cereais. Acho mesmo refrescante e saboroso.


No fim de semana, provei o gelado Volcanix, da Olá, com cinco camadas. Adorei o contraste de sabores e, contrariamente ao meu receio, não o achei enjoativo. Quero voltar a experimentar.


 um produto

Estou rendida ao Bálsamo de Limpeza de Cera de Girassol, da MyLabel, porque com pouco produto consigo retirar toda a maquilhagem que uso diariamente e não tem um cheiro que me incomode. Por norma, não sou sensível a esta questão, mas, como uso todos os dias, se for um produto com aroma acaba por me incomodar a longo prazo. Para já, só tenho maravilhas a destacar deste bálsamo, incluindo o preço.


Por falar em maquilhagem, todas as referências são poucas aos Locked Kiss, da MAC, porque têm uma durabilidade ótima e são bastante confortáveis nos lábios. Tenho três tons e quero muito experimentar o Vibrant Purple.


 um livro

É capaz de ser o ano em que estou mais oscilante e exigente nas leituras que faço, mas há um livro ao qual tenho regressado para ler poemas soltos: A Axila de Egon Schiele, de André Tecedeiro, porque fiquei presa à sua escrita, à proximidade, à vulnerabilidade. Para evitar repetir-me, partilho a opinião completa sobre a obra.



 um podcast

Só comecei a acompanhar Desnorte depois de ver Arraial, mas tenho gostado muito de ouvir o Vítor Sá neste formato descontraído, sempre com tantas peripécias acumuladas.



 um lugar

Fui ao Casa das Tortas apenas duas vezes, mas já escalou para um dos meus restaurantes favoritos do Porto, porque o ambiente da sala é bastante acolhedor, os funcionários são simpáticos e atenciosos e a francesinha é muito boa (o molho tem um travo diferente, mas acho que contrasta e combina bem com os restantes ingredientes). Tenho de voltar para experimentar outras opções do menu.



 uma atividade

Escrever poemas inspirados em canções que tenho adorado ouvir. Recuei muitas vezes antes de avançar com a ideia, mas depois decidi deixar de ser parva e de colocar entraves em algo que não tem de ser uma questão. E a verdade é que me tenho divertido no processo.


 uma peça

A ideia andava a amadurecer cá dentro e decidi enviar mensagem para a página da Noama, para encomendar uma t-shirt personalizada. A Foguetes, do Lhast, tem um significado muito especial para mim e quis eternizá-la nesta peça, juntamente com três manjericos alusivos ao meu tio e à tradição que tinha connosco. Acho que ficou completamente a minha cara.



A perda leva-nos para terrenos pantanosos, imprevisíveis, porque, por mais que lidemos com ela de perto, nunca se transforma em algo ínfimo. Uma vez que nenhuma despedida é igual, o impacto que tem sobre nós também diverge e desperta posturas igualmente distintas, obrigando-nos a ajustar, a adaptar, a ressignificar o processo. Já levo algumas perdas na bagagem, mas nenhuma se compara à de Yiyun Li.


 situações-limite, abismo e aceitação radical

Tudo na Natureza Apenas Continua inquieta, de imediato, no título, porque nos confronta com a certeza de que a vida segue o seu curso apesar da nossa dor, dos fragmentos em que nos dividimos. Neste livro, «sem sentimentalismos ou redenção», a autora testemunha a morte dos dois filhos, no espaço de sete anos: ambos «escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família».

O exercício de encarar a situação com uma certa racionalidade é complexo, sobretudo, quando percebemos que a tragédia se repete. Os meus lutos sempre foram muito mais emocionais. Durante esse processo longo e moroso, desço ao abismo e há um vazio que se apodera, contaminando tudo por dentro, portanto, admito, estava com algum receio de não conseguir compreender a aceitação radical de Yiyun Li, mas liguei-me a estas memórias e talvez não seja capaz de o traduzir por palavras.

O livro não é sobre o luto, no entanto, impressionou-me a forma como me deixou a pensar nele e na urgência de o ultrapassarmos, como se existisse sempre um limite. Ao parar para pensar na sua perspetiva sobre o assunto, acho que apaziguei algumas questões que me afligiam mais do que tinha consciência. Houve um período em que temi que manter-me nesta realidade fosse um espaço de conforto. Aliás, agarrei-me à convicção de que ficar ali era a minha maneira de não esquecer, até me questionar se prolongava o luto por medo de não saber quem sou sem as pessoas que perdi. Depois eduquei a tristeza, lancei foguetes para continuar a contar a «história até me faltar a voz», encontrei pontos de fuga e, com esta obra, percebi que também «não quero uma meta final para o meu sofrimento».

«A Necessidade obriga-me a prestar atenção a todos estes pormenores depois do que aconteceu: tudo é relevante, tudo tem peso, tudo conduz a um momento no passado, que se torna recordação, a qual, por sua vez, se transforma numa narrativa»

É egoísta da minha parte colocar-me neste relato, quando nem sequer sou mãe. Ainda assim, não pretendo apropriar-me dele, apenas destacar que me revi na citação supracitada, porque, de repente, tudo adquire novos ângulos e significados. Além disso, outro aspeto que me impressionou foi o alerta para a insensibilidade camuflada em todas as tentativas de ajuda. A intenção vem de um fundo de generosidade e empatia, na maior parte dos casos, mas precisamos de aprender a escutar as verdadeiras necessidades do outro. Uma das maiores aprendizagens deste livro, para mim, foi entender que querermos cuidar de feridas que vemos de fora pode ser sufocante: precisamos de dar espaço para que sintam.

O pragmatismo da autora, evidente na escrita direta e honesta, permitiu-lhe construir o seu habitat e aceitar que nunca sairá do fundo do abismo, porque é impossível ser igual ao que era, mas concentrar-se no agora talvez seja a sua cura. Sem qualquer tentativa de romantizar a depressão e o suicídio, também não pretende trazer conforto e emotividade a este testemunho. Não obstante, creio que há um lado emocional a pairar nas suas palavras, se calhar, por se sentir todo o amor e respeito que tem pelos filhos.

Tudo na Natureza Apenas Continua não pretende encontrar respostas, nem justificar escolhas. Leiam-no com cuidado, se estiverem num lugar bom, porque tem «uma gramática só sua», oscilando entre rasgos de intimidade e um tom mais austero. Este livro consegue ser brutal e desconfortável, mas achei particularmente bonita e comovente a maneira como utilizou a escrita para prolongar a memória dos filhos e marcá-los no mundo.


 notas literárias
  • Lido entre: 4 e 5 de maio
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Não Ficção
  • Nº de páginas: 176
  • Banda sonora: How To Live, Del Water Gap | 12 to 12, Sombr



O Porto tem uma identidade literária, enquanto «berço e casa de muitos dos maiores escritores portugueses», ramificando-se entre o poético e o romanesco. Sustentando-se nesta virtude, não só procura reafirmá-la, como também abrir as portas para que se transforme, se reinvente e se viva essa essência em comunidade, em histórias plurais.

É nesta margem que vemos a florir, como se de uma camélia se tratasse, uma Cidade-Livro que «mapeia livrarias, alfarrabistas e espaços culturais» e que exibe a «cidade, a cultura e a identidade portuense a partir da literatura». E como a Invicta sabe receber, idealizou-se uma iniciativa pensada para acolher moradores, visitantes e apaixonados pela sua mística, unidos pelo fascínio às palavras e aos recantos onde nos levam, com a particularidade de cada ponto de ação não distar mais de 15 minutos a pé dos outros.

Escrita com dois LL, fazendo lembrar «o mito bíblico da Torre de Babel, para afirmar a diversidade cultural e linguística como riqueza maior da humanidade» e inspirando-se «no conceito de biblioteca infinita, criado por Jorge Luis Borges», assim é BABELL.


 conceito, durabilidade e acesso

BABELL é um evento literário e cultural, estruturado para acontecer, sobretudo, em «espaço público, em praças e ruas da cidade». Idealizado e produzido pela Fundação Livraria Lello, em coprodução com a Câmara Municipal do Porto, este festival «visa valorizar o território a partir do investimento na cultura», usando o livro como motor.

O «corpo central da programação é internacional, mas a alma é de cá», isto porque as sessões trazem figuras artísticas reconhecidas «a nível mundial», ao mesmo tempo que inclui «sessões e iniciativas protagonizadas por escritores e outros artistas portuenses e portugueses», entre conversas, exposições, performances, concertos e colóquios.

A acontecer de 24 a 29 de junho, a organização de BABELL «não cobra pela entrada em nenhuma das sessões», mas o acesso às mesmas é feito mediante a aquisição de um livro, independentemente do preço. Tem, isso sim, de ser comprado numa das livrarias aderentes da cidade, para nos ser fornecida uma senha alfanumérica «que possibilita a reserva para uma sessão». Importa referir que devemos «comprar tantos livros quantas as sessões a que quiser[mos] assistir». Além disso, para além do bilhete, devemos levar sempre um livro connosco, para «encher a cidade de livros» e contagiá-la pela leitura.


 sessões a que gostava de assistir

A Sofia perguntou-me se estava a pensar escrever sobre este evento e, inicialmente, só tinha idealizado incluí-lo na parte da bilheteira — e fazer uma breve contextualização, quando escrevesse sobre um dos concertos. A conversa escalou e acabei por desafiá-la para uma perspetiva partilhada, no número 151 da Portugalid[Arte]. Assim, cada uma de nós escolheu três sessões às quais gostaria de assistir, sem repetições, para tornar a experiência ainda mais diversificada.

Como reduzir a lista apenas a três eventos foi complexo, decidi trazer uma versão mais extensa para o blogue.

dia 24 de junho

  • Conferência de abertura de Alberto Manguel, intitulada Leitura e Resistência, sobre a história do livro e da palavra escrita, às 21h30, no Teatro Rivoli. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 25 de junho

  • Visita ao Jardim do Pensamento, às 10h, no Mosteiro de Leça do Balio. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Inauguração da exposição Poesia Imersiva: Cego Som, de João Habitualmente, às 16h, no Mosteiro de São Bento da Vitória. Entrada livre;
  • Concerto GNR, Pedro Abrunhosa e Artista Surpresa, às 21h30, na Avenida dos Aliados. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 26 de junho

  • Conversas com Escritores: Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida, com moderação de Tito Couto, às 12h, no Largo de Santo Ildefonso (Batalha). Livro-Bilhete obrigatório;
  • Conversas com Escritores: Conceição Evaristo e Milton Hatoum, com moderação de Minês Castanheira, às 16h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Conversas com Escritores: Ana Paula e Dulce Maria Cardoso, com moderação de Luís Caetano, às 18h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 27 de junho

  • A História do Porto em 90 Minutos - O Olhar de Nuno Resende, às 9h30, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Livro-Bilhete obrigatório;
  • A Poesia Está na Rua - Intervenções Poéticas Simultâneas Rumo aos Paços do Concelho, com curadoria de Rui Spranger, a começar às 10h30, num percurso poético pelo centro da cidade;
  • A Poesia ao Poder - Poetas portuenses leem a partir da varanda dos Paços do Concelho, com curadoria de Rui Spranger, às 12h, na Câmara Municipal do Porto. Entrada livre;
  • Sessão literária com Margaret Atwood e moderação de Tânia Ganho, às 16h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Sessão literária com Olga Tokarczuk e moderação de Marta Bernardes, às 18h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 28 de junho

  • A História da Música do Porto em 90 Minutos - O Olhar de Sofia Lourenço, às 9h30, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Livro-Bilhete obrigatório;
  • A Literatura do Porto em 90 Minutos - O Olhar de Isabel Pires de Lima, às 11h30, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Sessão literária com Salman Rushdie e moderação de Alberto Manguel, às 21h30, no Coliseu do Porto. Livro-Bilhete obrigatório.

dia 29 de junho

  • Conversa com Escritores: Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge, com moderação de Francisco Sena Santos, às 17h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório;
  • Lançamento do novo romance de Valter Hugo Mãe, com o autor e Héctor Abad Faciolince, às 19h, na Praça Gomes Teixeira. Livro-Bilhete obrigatório.


As histórias nunca têm apenas uma versão, no entanto, se só escutarmos um dos lados da narrativa, naturalmente, será esse a prevalecer. Assim, «até que os leões contem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça» e é este provérbio africano que dá mote e acompanha a nova aposta audiovisual da RTP.

Novas Narrativas de Caça pretende ser um espaço de conversa, que rejeita os habituais lugares comuns associados à comunidade afrodescendente em Portugal e evidencia o racismo estrutural existente em situações mundanas. Nas palavras de Luís Almeida, o autor da ideia da série, cada episódio é um lugar de fala, por isso, encontramos temas como identidade, pertença e opressão, a partir da escrita de diferentes argumentistas. Ademais — ou por causa disso —, contactamos com «histórias que partem de dentro», edificando pontes para realidades da nossa sociedade que necessitamos de reavaliar.

A falácia de existir apenas «uma experiência negra» é desconstruída desde o começo, até porque, ao longo de sete episódios independentes, percebemos como é que várias situações afetam as personagens, como é que cada uma delas as encara e gere. Podem existir elementos transversais, ainda assim, acabam por nos mostrar distintos pontos de vista, distintas camadas da luta «para fazer parte de uma sociedade que as ignora».

É, portanto, na diversidade que as narrativas florescem e nos implicam, confrontando-nos com comportamentos inadequados, que se escudam na ausência de maldade, mas que não deixam de ser parte do problema: a intenção pode não ser diminuir, subjugar, só que o resultado contribui precisamente para cimentar a sensação de isolamento, de exclusão. No final, talvez não sejamos capazes de calçar estes sapatos, mas creio que ficamos um pouco mais conscientes de como podemos agir para ir quebrando o ciclo.

Outro aspeto valioso desta série, para mim, é a representatividade, sobretudo, porque nos mostra que, se lutarmos pela igualdade de oportunidades, tornamos o mundo num lugar mais justo; porque, se formos mais empáticos na forma como tratamos o outro e não fecharmos portas por causa da sua cor de pele (ou de outro fator diferenciador), há patamares que se tornam acessíveis e não só uma miragem para muitos que querem lá chegar. Neste manifesto cultural, o tom é claro: tirar o filtro da invisibilidade, destacar os preconceitos tão enraizados e combater a segregação de dentro para fora dos ecrãs.

Com humor e crueza, levantando questões sociopolíticas, emocionais e de ética, Novas Narrativas de Caça é plural até nos géneros que explora, proporcionando uma boa dose de entretenimento, mas sem perder a sua componente reflexiva e de «literacia cívica».

 episódio um: moamba
Leandro conhece os pais da namorada branca pela primeira vez, o que protagoniza um momento confrangedor, «fruto de comentários e mal entendidos». Apesar de ter raízes africanas, o protagonista é português e este cenário remete-nos, de imediato, para algo recorrente: a nacionalidade ser questionada devido à cor de pele. Em simultâneo, paira uma discussão pertinente sobre herança cultural, gastronomia, tradições e escravidão, sem que exista violência no diálogo ou no tratamento. Aliás, acho que a maior valência do episódio reside na não violência, no facto de a simpatia das personagens camuflar o quanto certas observações não deixam de ser manifestações racistas. A maneira como o humor é utilizado nestas cenas evidencia, por um lado, a cegueira do que tentamos justificar como curiosidade e, por outro, a necessidade de diminuir o desconforto, de o desvalorizar, porque, deste modo, talvez cause menos cicatrizes e danos emocionais.

 episódio dois: recursos humanos
A irmã de Taís, Maya, desapareceu misteriosamente, há cinco anos. As perguntas sem resposta não atenuam a angústia e, a tentar descobrir alguma pista que explique o que aconteceu, Taís acaba por conseguir emprego no mesmo local onde Maya trabalhou. A energia daquele lugar não lhe inspira confiança, não só pelas interações forçadas, mas também por uma questão que fica a ecoar: a rotatividade dos funcionários negros, sem que exista justificação. Este segundo episódio, confesso, foi o que mais me perturbou, porque é impressionante a discriminação laboral, o peso do silêncio, o que se cala por medo. Além disso, choca pela consciência de que «a carne mais barata do mercado é a carne negra», como eternizou Elza Soares, não restando qualquer dúvida sobre o quão pouco mudaram certas práticas com o tempo. Ainda assim, também é o meu favorito.

 episódio três: once you go black
As palavras pesam e, neste caso, uma expressão aclamada como elogio, que mais não é do que a propagação de um estereótipo, foi o ponto final de uma relação interracial. A história de Salomé serve de mote para debatermos se é possível «desejarmos e sermos desejados despojados de construção social», convidando-nos a mergulhar mais fundo, porque isso traz, também, um olhar crítico sobre fetichização e intimidade. Ao ter um encontro inesperado com alguém do passado, a protagonista embarca numa conversa «intelectual sobre existencialismo, amor e raça», o que nos ajuda a ter noção de todas as vezes em que parece ter de se justificar, quase pedir licença para existir. Há, aqui, um retrato de vulnerabilidade muito bem construído e que nos tira o tapete no final.

 episódio quatro: limbo
Nuno é filho de cabo-verdianos, mas teve um educação portuguesa. A atravessar as oscilações da adolescência, há uma fragilidade identitária que parece ocupar os seus pensamentos, sentindo-se um pouco perdido. É quando marca presença numa festa que, pela primeira vez, a sua cor de pele lhe pesa tanto. Achei mesmo interessante a interação entre Nuno e Artur, pela honestidade, pela credibilidade e por representar uma rede de apoio nem sempre visível. E, depois, impressionou-me a fragilidade da alegria, a facilidade com que os acontecimentos escalam e a violência assume todo o protagonismo. Com uma crítica evidente ao abuso de poder e às narrativas que não controlamos, porque alguém o decidiu, é impossível não questionar a quantidade de casos semelhantes ao que é retratado e o sentimento de impotência que nos reveste.

 episódio cinco: sobrevivente
Portugal mergulha numa guerra civil e a «elite conhecida como Os Vanguardas cria a Nova Capital, um território seguro longe do conflito». Os olhares focam-se em Shakali, uma ex-militar da Nova Capital, que foi violada por um Vanguarda e engravida. Perante este cenário de horror, torna-se imperativo lutar pela sua sobrevivência e essa luta é, sem margem para dúvida, um profundo «ato de resistência». O que mais me fascinou neste episódio foi o vínculo que um inimigo comum pode desencadear, pesando em diferentes momentos, e o facto de termos uma mulher a mudar o curso da revolução — o brilho que isso provocou em quem o menciona é a prova que a representatividade influencia a maneira como nos vemos e como acreditamos nas nossas capacidades.

 episódio seis: undeu
Isaac é acusado de roubar o supermercado onde trabalha, por isso, sem algo a perder, agride o patrão. Entretanto, a namorada conta-lhe que está grávida e este escalar de acontecimentos precipita o desespero, a sensação de ficar sem rumo e de assistir, na fila da frente, à morte de um sonho. As nossas escolhas têm consequências e, mais do que isso, vêm sempre de um lugar, mesmo que não o identifiquemos logo. Ao longo do episódio, vai ficando claro que os fantasmas do passado se transformaram em revolta e que são um gatilho silencioso para várias atitudes. Naturalmente, isso não pode ser justificação para tudo, mas ajuda a contextualizar, a perceber que existem situações pendentes. Neste episódio, as personagens tentam construir um futuro diferente, mas torna-se angustiante constatar que as barreiras sociais podem ser um muro gigante.

 episódio sete: codé
Cíntia decide voltar sozinha para a Guiné-Bissau, ainda que o seu desejo fosse levar o pai consigo. No entanto, ele é peremptório a recusar, o que a entristece, talvez por não compreender a resistência de Augusto. Enquanto ela sente necessidade de conhecer as suas raízes, o pai parece não querer voltar a um lugar que já não é aquele que, um dia, teve de deixar para trás. É neste limbo entre o passado e o presente, entre a herança e a memória, que a protagonista deambula e se descobre. A comoção por encontrar a sua família e um pedaço da sua história torna-se um impulso para estar mais em paz com o seu lugar no mundo, como se estivesse a encaixar as peças de um puzzle. Por um lado, gostava que Augusto tivesse ido com a filha e redescobrisse a sua terra natal, porque sinto que isso o ajudaria a sarar algumas feridas, mas, por outro lado, acho que ela precisava de ir sozinha e trilhar esse caminho sem interferências. A par de Recursos Humanos, este episódio tornou-se um dos favoritos, porque é humano e comovente.



O meu primeiro contacto com a obra de Chimamanda Ngozi Adichie foi através de Notas Sobre o Luto. Mais tarde, li o Americanah e percebi que tinha de me aventurar nas restantes. Corta para 2026, mais concretamente para o desafio literário que tenho com a Sofia, porque esta autora foi uma das nossas escolhas e, em maio, lemos, talvez, o livro que mais vezes me recomendaram.


 diferentes fronteiras

A Cor do Hibisco abre-nos as portas da luxuosa propriedade da família de Kambili e de Jaja, irmãos cujo vínculo foi tantas vezes um pedaço de salvação emocional. Lá dentro, as regras estão bem definidas, por isso, os dias dividem-se entre «rezar, dormir, estudar e rezar ainda mais». E aquilo que, no início, aparenta ser uma vida de puro privilégio, rapidamente mostra sinais de rutura e tensão.

O ambiente familiar marcado por «expectativas irreais» e opressão contrasta com a imagem que a comunidade tem do pai de Kambili, isto porque o veem como um grande benfeitor, mas, dentro de casa, há outra história a ser contada. Ao ler estas realidades antagónicas, como se pertencessem a protagonistas distintos, fiquei a pensar no quanto as aparências enganam e na quantidade de máscaras que caem quando se regressa a um espaço íntimo, sem olhares externos, rodeados por quem não se opõe àquela forma de ser. Isso não significa que a aceite, apenas que há uma força maior a impedir uma revolta, um grito que quebre as amarras. De um modo geral, as pessoas não são só feitas de uma face, mas há sempre quem leve isso ao extremo.

Este drama familiar é, ainda, fortemente marcado pelo golpe militar na Nigéria, o que acrescenta, por um lado, mais intensidade à narrativa e, por outro, a possibilidade de refletirmos e repensarmos o modo como vivemos a nossa cultura, a nossa religião, as nossas crenças. Perante esta ameaça de instabilidade, Kambili e Jaja mudam-se para casa da tia e é nesse ponto que as fronteiras se alargam.

«Tinha os olhos tristes. Profundos e tristes. Apeteceu-me tocar-lhe no rosto, passar a minha mão pelas suas faces macias. Existiam histórias nos olhos dele que eu nunca haveria de conhecer»

Se, até então, fui avançando na leitura com uma certa aflição agregada ao peito, ao conhecer a figura da tia Ifeoma fui invadida por uma onda de esperança, porque senti que proporcionou tudo o que faltou a estes irmãos: uma verdadeira definição de lar, de família, de amor. Mostrando-lhes que a vida também pode ser leve, animada, sem cobranças desmedidas, permitiu-lhes acreditar que os seus futuros podiam ser outra coisa. Em nenhum momento lhes retirou responsabilidades, trazendo cenários irrealistas para a equação, apenas soube ouvir e acolher, deixando claro que é possível lutar por aquilo que acreditarmos sem diminuirmos os outros.

A Cor do Hibisco é palco do impacto que o fanatismo tem, bem como do quanto o patriarcado ecoa até nos gestos mais simples. Além disso, acredito que a escrita na primeira pessoa ajuda a que nos liguemos ainda mais à ação. É fascinante como a autora borda as suas histórias com tanta credibilidade, confrontando-nos com os nossos medos, as nossas angústias e a necessidade de alargarmos horizontes. Estas personagens continuarão a viver comigo.


 notas literárias
  • Desafio: 3 autoras para 2026
  • Lido entre: 8 e 13 de maio
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 368
  • Banda sonora: purple hibiscus (BBB), playlist de Margot Mikkelsby



O xtinto lançou Em sonhos, é sabido, não se morre e, tal como referi nesta publicação, cativou-me a coesão entre faixas, a parte instrumental que as une, sem perderem identidade e autonomia, o som das guitarras e do saxofone e, sendo ele um homem de palavras, de caneta afiada, a perícia de determinados versos, que ficaram a ecoar no meu peito. Portanto, desligar o leitor de cd’s e ir escutar cada um deles ao vivo era tudo aquilo que precisava para estreitar o vínculo.

As expectativas para o concerto não estavam modestas, admito, e o melhor de tudo foi sair do Auditório CCOP a sentir que as superou a todas. Aliás, foi daqueles casos em que os detalhe se alinharam na perfeição, porque o xtinto tem uma presença em palco contagiante, o alinhamento ficou incrível, a entrada dos convidados foi na altura certa, o público entregou tudo e o próprio espaço contribuiu para que o espetáculo, embora bastante enérgico e dançável, não perdesse a sua componente intimista, quase familiar.

Naturalmente, fizemos uma paragem mais extensa pelos temas do novo álbum, porém, foi de coração a transbordar que pudemos ir aos clássicos como Pentagrama, Marfim e Éden. E se esta seleção já mexeu por dentro, sobretudo quando começaram os acordes da Pentagrama, nem quero imaginar se ele incluísse a Berço no reportório: era capaz de ter mais dificuldades para recuperar emocionalmente. Faço só a ressalva de que isto é uma observação pessoal, porque gosto muito do tema e seria incrível escutá-lo ao vivo, não uma crítica, até porque a história que ele contou em cima do palco ficou perfeita com a sequência que escolheu. Por outro lado, para além de confirmar que a Cidade, a Sofá e a Vento têm o meu coração por inteiro, foi excelente perceber como a Prisma e a Kintsugi crescem neste formato e como precisamos que lance aquele verso da Interlúdio.

Não conhecia as pessoas que tinha à minha volta, mas senti a pele eriçada ao longo da noite, porque é mesmo arrebatador o poder da música e a capacidade de nos alicerçar às palavras de um artista, reproduzindo-as a uma só voz. A forma como cada um viveu a interpretação dos diversos temas, não duvido, foi particular, única, mas não solitária e isso é especial, é sinal de que a mensagem ecoa e permanece. Parafraseando o xtinto, os clichés só o são porque os tornamos verdadeiros e não há dúvidas sobre o quanto a música nos une e serve diferentes propósitos. Ali, gritou pela liberdade e sarou feridas.

Assentamos os pés na terra e levantamos voo. Num assunto que é de todos nós, foi um privilégio tremendo assistir de perto ao seu talento e a esta noite de absoluto sonho.


A Kilt é casa de alguns artistas que acompanho de um modo mais regular e, através do Conteúdo do Batáguas, até tem realizado sonhos que talvez não soubessem que tinham, que o diga Sérgio Fernandes, desafiado a subir a palco com um espetáculo de stand-up.

Pastor Serjão é revisor de texto e um dos guionistas do Conteúdo do Batáguas, por isso, utilizar a expressão «desafiado» é capaz de ser um eufemismo, porque, na realidade, a equipa obrigou-o a construir um solo e a aventurar-se, sozinho, num formato que foge do seu ambiente. Os trocadilhos são imagem de marca, mas as particularidades não se esgotam por aqui: «aos 13 anos decidiu que o guarda-redes Neno era Deus» e, um ano depois, «juntou os amigos da rua e criaram o Vitória Clube de Santarém». Portanto, no meio de tantos «acasos absurdos», que o levaram do jornalismo ao futsal e ao humor, a estreia, naturalmente, só podia partir do quanto ser devoto de Neno lhe mudou a vida.

O traço imprevisível era a única certeza de comparência. Minto, a presença de Diogo Batáguas, Vítor Sá, Rui Cruz e Rodrigo, que é novo, também estava confirmada, o que me pareceu bastante sensato, já que foram os responsáveis por Sérgio Fernandes estar nesta alhada. E, tal como os verdadeiros amigos que permanecem por perto a assistir e a apoiar todas as nossas aventuras — e a impedir fugas —, eles puxaram as cadeiras e não o deixaram desamparado, tendo cada um o seu momento ao longo do espetáculo.

Admito que calibrei as expectativas, uma vez que não sabia o que esperar, mas foi um excelente espetáculo: bem construído, com um texto sólido e sem quebras de ritmo. O nervosismo fez-se sentir, o que acho natural, mas não comprometeu a entrega, porque Pastor Serjão é genuinamente cómico e creio, até, que foi capaz de usar o desconforto para trazer ainda mais expressividade às partilhas/dinâmicas. Portanto, misturando as «histórias do bairro do Alto do Bexiga», com «experiências bizarras da sua vida e uma boa dose de sátira», também houve momentos musicais e um exercício de português.

Fomos ouvir esta palavra do senhor e acabamos evangelizados com o talento de Sérgio Fernandes. Se ele quiser, acredito que pode ter um futuro promissor em cima do palco.


A excentricidade — que eu sinto que é, somente, um ato de profunda liberdade — de Natália Correia nunca passou despercebida. Aliás, nunca foi aceite e a prova disso é que teve livros censurados, apreendidos e queimados e idas a tribunal (uma em nome próprio; outra, pelo processo judicial referente ao Novas Cartas Portuguesas). Se isso a demoveu? De todo. Portanto, no final de 2022, estreei-me na sua obra e fui descobrir a escrita sem filtros. Quatro anos depois, regressei e é sempre extraordinário perceber a quantidade de camadas novas que conseguimos retirar das mesmas palavras escritas.


 carnal e vulnerável

Antologia Poética equilibra o «gosto pessoal do organizador e a representatividade dos diversos períodos» literários da poeta. Através de uma curadoria cuidada, que mostra os motivos pelos quais o nome de Natália Correia «continua a surgir como um dos que causaram uma repercussão mais duradoura», ficamos com uma noção mais ampla das temáticas sociais e políticas que povoam e impulsionam os seus versos — e inquietam.

Sinto que, em certos poemas, precisava de ter um pouco mais de contexto histórico, de conhecer melhor algumas situações da época em que se concentram, para ser capaz de decifrar todas as entrelinhas. Contudo, ao fazer esta travessia pelas suas composições poéticas, que atravessam o tempo em assumiu o cargo de deputada, o pós-25 de Abril, o PREC e a opressão, tornou-se ainda mais evidente o tom que adotou, uma vez que se dedicou a lutar pela cultura, pela emancipação da mulher e pelos direitos humanos. A sua escrita demonstra-o com frontalidade, inconformismo e como um grito de revolta.

Enquanto articulo os meus pensamentos acerca desta obra, ouço o Mundo Segundo a cantar, na Guerreiros Indomáveis, «não queremos lugar numa mesa que não é justa» e a sincronia pareceu-me curiosa e bastante certeira, já que a postura da poeta se alinhou sempre a esse princípio, sem omissões, socorrendo-se da escrita ousada, sarcástica e intensa para se insurgir contra «regras impostas pela força» e vários tipos de poder.

«só ela sem paciência
desfazia o colar das horas transportadas.
E perguntava qual a medida do tempo:
se as horas
se o sonho que as desligava»

Na primeira leitura, estava à espera de ser arrebatada de uma maneira diferente, ainda que não soubesse bem explicar em que contornos. Agora, ao regressar a estas páginas, creio que senti as suas palavras com outro impacto, porque houve versos que soaram mais emocionais, mais sensíveis. Fascina-me o tom irónico, complexo e humorístico, mas rendi-me por completo àqueles em que se nota uma vulnerabilidade maior. Sinto, inclusive, que a sua liberdade vem precisamente desta combinação. Por essa razão, sei que quererei voltar a estes poemas quando ler a sua biografia, O Dever de Deslumbrar.

Antologia Poética divide-se em planos distintos, combinando feminismo, sensualidade, erotismo, efemeridade e denúncia, entre o que é humano e o que é divino. Através da palavra, centra-se em problemas concretos e urgentes, com um tom que tanto é capaz de ser canal, como de se revestir de compaixão. Este poemas são livres, assertivos, com diferentes intenções por dentro. E, com todo o seu carisma, têm melancolia e saudade.


 notas literárias
  • Desafio: 12 meses, 12 livros de poesia
  • Lido entre: 1 e 4 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 336
  • Banda sonora: Magnólia, Lúcia Moniz


O processo interposto pelos Anjos não deixou ninguém indiferente e acredito, até, que foi motor de várias conversas, durante o último ano, não só pelo espanto, mas também pela curiosidade, pela vontade de debater os vários ângulos desta situação caricata. E, tal como prometido, Joana Marques veio falar sobre o assunto no seu novo espetáculo.

As minhas expectativas para Em Sede Própria estavam elevadas, mas admito que tinha um pouco de receio que, por ser somente sobre este tema, tendo em conta que foi tão esmiuçado na comunicação social, se tornasse maçador, talvez repetitivo. No entanto, a forma como construiu o texto não deu qualquer margem para desilusões. Antes pelo contrário, sinto que conseguiu acrescentar camadas novas e intercalar a insanidade de todo o processo com situações recentes, integrando o seu humor de atualidade mordaz.

Naturalmente, não entrarei em detalhes, mas achei que foi muito inteligente no modo como iniciou o espetáculo e como o conduziu. Ainda que seja todo baseado em algo que lhe aconteceu, não deixa de ser evidente o cuidado com que limou os segmentos, o tom e a fluidez. Sem quebras de ritmo e com «provas irrefutáveis», foi certeira em cada observação. O palco fica-lhe bem e vê-la a escalar no texto com tanta naturalidade traz a sensação de que é fácil estar naquela posição. Não é, claro, mas a Joana Marques não vacila — e acredito que o seu humor incomoda porque carrega nas feridas sem filtros.

Em Sede Própria só peca porque termina, ainda assim, sem aspas, foi extraordinário. O ponto de partida era claro para todos e, através dele, fez-nos refletir e rir sobre falhas, lugares de privilégio, maternidade, moralidade, liberdade e dualidade de critérios. Que o ser humano é cheio de incoerências, já todos sabemos (nenhum de nós escapa a essa sina), mas continua a ter graça perceber aqueles que se levam demasiado a sério: é que existe sempre uma ocasião em que essa imagem desmorona como um castelo de cartas.



O gira-discos de maio esteve sempre em rotação, mas admito que não quis voltar para uma segunda ou terceira audição na maior parte dos álbuns que adicionei na biblioteca do Spotify, talvez por não estar bem alinhada com a energia que me estavam a transmitir ou, então, por sentir necessidade de ouvir outras coisas, o que não significa que não posso fazê-lo mais tarde.

Em maio, ouvi Soy Louco (Nininho Vaz Maia), Jab (Vilas Boas), Primavera (Isaura), Capacete Preto (SleepyThePrince), Transparente (Velhote do Carmo), Vendavais (Picas), Hormonal (Bárbara Tinoco), Já Não Posso Ficar Aqui (Trêsporcento), Quer Sequeira Quer Não (Luís Sequeira), Linguagem (Guga), unsent from london (Pipa), Será Que Lhe Descobres a Poesia? (Teresinha Landeiro) e Relatos de Um Coração Confuso (Marisa Liz) e é provável que, quando a poeira assentar, até recupere alguns dos títulos desta lista, porque creio que só não nos cruzamos na melhor altura. Não obstante, o meu entusiasmo estava todo concentrado na última semana de maio, já que trazia novidades do Richie Campbell, da Rita Vian e do Gui Aly, artistas que me enchem as medidas.

Posto isto, deixo-vos o que colhi musicalmente.


os álbuns de maio


CONSUMIR PREFERENCIALMENTE ANTES DO APOCALIPSE, JOÃO MAIA FERREIRA

As metamorfoses do João Maia Ferreira têm sido interessantes de acompanhar. Embora não faça parte do seu público mais atento, sinto que trouxeram sempre algo novo ao panorama musical português, limando arestas até encontrar a sua voz, o seu lugar. A celebrar dez anos de carreira, presenteou-nos com um novo trabalho.

Consumir Preferencialmente Antes do Apocalipse aparenta ter um tom fatalista, mas creio que a sua movimentação traz, pelo contrário, uma vontade de explorar novos caminhos. Ao mesmo tempo que faz uma espécie de retrospetiva pelo seu percurso, atando todos esses nós passados, vai abrindo portas ao futuro — seja através da sonoridade, seja por certos detalhes nas letras.

Tenho consumido o álbum em doses moderadas, mas apetece-me sempre voltar para o redescobrir e perder-me na sua caneta afiada, ora mordaz, ora vulnerável.



LSD, PROFJAM

A Sozinho foi a minha porta de entrada para o novo trabalho do ProfJam. Apesar de não ser a maior consumidora da sua arte, ouço-o pontualmente e este tema deixou-me bastante curiosa com a sonoridade que esteve a construir.

Love Songs Die — LSD — quebra um pouco essa visão, já que as letras exploram o amor em diferentes vertentes. O conceito pareceu-me fascinante desde o início, mas confesso que tive uma viagem oscilante, porque demorei a entrar em algumas canções. Ou, melhor, em algumas delas parecia haver sempre um pormenor que não estava a resultar em pleno comigo. Por esse motivo é que acho importante darmos tempo para que as músicas cresçam em nós, permitindo-nos chegar a outras paragens, sem forçarmos esse vínculo.

Há um lado luminoso que aparenta contrastar com os trabalhos anteriores e estou a gostar de perceber até onde consegue escalar, identificando camadas que me escapariam caso não regressasse a LSD com atenção e regularidade. Além disso, gosto que as letras tão depressa sejam vulneráveis, como sejam mais descomprometidas, retirando peso a certas questões.



ID, NENNY

A Sushi e a Bússola, a certo ponto, repetiram muitas vezes nas minhas playlists, mas depois distanciei-me do percurso da Nenny. Só com o tema Delulu, que integrou o álbum do Mizzy Miles, é que me reencontrei com a sua sonoridade e fui ficando expectante, para ouvir o seu novo trabalho.

ID é exatamente aquilo que promete: um bilhete de identidade que interliga as raízes, as lutas e as ambições da artista, num misto de vulnerabilidade e leveza, até porque há algo de fascinante em expiarmos as nossas feridas através de ritmos mais dançáveis. Sem limitações na forma como se expressa, este álbum explora diferentes sonoridades, que nos ajudam a conhecê-la melhor.

Essência, sobrevivência, superação, pertença, saudade são tudo peças deste puzzle musical que construiu de um modo tão equilibrado, emocional e identitário. O mais bonito, para mim, é sentir que cabem inúmeras histórias aqui dentro e que todas elas gritam liberdade.



LUSA: ATO II, BÁRBARA BANDEIRA

O Ato II é dedicado à portugalidade, à língua portuguesa e, sinto, aos detalhes que nos tornam tão nós.

Sem querer ser injusta a estabelecer comparações, até porque cada parte deste projeto da Bárbara Bandeira terá a sua identidade, funcionando com autonomia, achei que o Lusa: Ato II está mais coeso, mais maduro e menos óbvio. As referências e as homenagens à nossa cultura estão bem presentes, mas sinto que as abordou de um modo diferente, distanciando-se de um lado tradicional comum e incorporando a sua imagem de marca.

Esta parte é, também ela, uma viagem de autodescoberta e gosto de perceber como as músicas conversam entre si.



DE CORPO INTEIRO, MATILDA

Foi com o tema meu norte, lançado em fevereiro, que fiquei a conhecer a Matilda. Entretanto, lançou o seu álbum de estreia, por isso, não perdi a oportunidade de o ir descobrir.

De Corpo Inteiro cruza melodias de Pop e R&B, sendo percetível o seu lado mais intimista, introspetivo. De facto, o nome do álbum não podia ter sido melhor escolhido, já que há tanto da artista em cada um dos temas. Tenho voltado aqui sempre que preciso de abrandar, de respirar e de olhar um pouco mais para dentro.



LATITUDE 40º, GUSTAVO REINAS

Acompanhei o percurso do Gustavo Reinas no The Voice, completamente fascinada com a sua voz. Após ter vencido o programa e ter lançado músicas em nome próprio, estava curiosa para o descobrir numa versão mais longa, que saiu em forma de EP.

Latitude 40º parece-me uma estreia bastante sólida, com letras profundas e uma sonoridade que espelha o seu amadurecimento enquanto artista. Nesta viagem pelo lado emocional do ser humano, é curioso como há coordenadas que nos cruzam a todos, seja enquanto ponto de partida, seja enquanto paragem mais ou menos extensa.

Sinto que o futuro é promissor.



INCOERENTE, ELISA

A Elisa tem uma das minhas vozes favoritas, por isso, estou sempre disponível para novidades musicais da sua parte. Na última sexta-feira de maio, lançou o seu segundo álbum, o que me deixou bastante feliz.

Incoerente reúne quatro anos de «criação, experimentação e silêncio», porque o coração precisa de se recolher para sarar, porque há momentos em que precisamos de abraçar o caos e potenciar a mudança. É por esse motivo que o disco, ainda que se revista de melodias mais leves, não deixa de ter planos nostálgicos e, até, sombrios nas letras. Além disso, há um caminho que se ramifica, que nos permite avançar e recuar conforme as nossas oscilações emocionais.

As histórias que nos conta através das suas canções são sempre próximas e intensas, acolhendo-nos na sua asa, como se nos mostrasse que não estamos sozinhos nas dúvidas, nos medos, nas falhas. Achei a proposta muito humana, muito honesta, a relembrar-nos que nenhuma viagem é linear.



THIS IS WHAT LOVE FEELS LIKE, GUI ALY

Há qualquer coisa de aconchegante na voz do Gui Aly e achei particularmente poético que o seu mais recente EP quisesse acompanhar essa vertente de «porto seguro».

This Is What Love Feels Like espelha, em cinco faixas, diferentes versões do amor, com todos os abrigos e imperfeições que o revestem. Entre ritmos mais dançáveis, «lembra o que realmente importa», porque se foca nos pequenos gestos, nas pessoas, na empatia e naquilo que nos cura por dentro.

Sinto que este EP combinará muito bem com noites de verão.



LIGA DURA, RITA VIAN

A Rita Vian borda canções com uma assertividade impressionante, porque parece que nada lhe escapa, que a atenção ao mundo que a rodeia a predispõe a sentir com outra propriedade. Quando partilhou que vinha aí álbum novo, é claro que isso me fez o dia.

Liga Dura chega com uma identidade mais interventiva, a tocar em feridas e incoerências do ser humano: não com o intuito de dar lições de moral, mas, talvez, com uma certa urgência para nos alertar sobre o tempo que perdemos em coisas banais, que pouco nos acrescentam; para nos incentivar a questionar. Além disso, ao focar-se «no que não se vê por fora», faz-nos pensar em todas as vivências que nos moldam, que nos permitem amadurecer e construir a nossa identidade.

Confesso que, inicialmente, fiquei com a impressão de que não seria uma trabalho que fosse ouvir muitas vezes de seguida, porque precisa do estado de espírito certo. E a verdade é que tenho de passar mais tempo com estas músicas, mas é maravilhoso perceber como a Rita Vian usa a palavra como arma, como colo, como casa e como transforma todos estes poemas através de melodias que misturam eletrónica com «canto tradicional português e urbano». Talvez não o consiga encaixar em todas as partes do meu dia, por ser visceral e nem sempre querer ir para esse lugar, no entanto, faz-nos ver «o mundo com mais lucidez e empatia».



Propositadamente, fica a faltar-me aquele que escalou para o álbum do mês, Elephant In The Room, do Richie Campbell, não só porque quero passar mais tempo na sua companhia antes de concretizar a minha opinião, mas também porque ainda preciso de organizar melhor os meus pensamentos e aquilo que estas músicas me estão a transmitir. Correndo tudo bem, acabarei por lhe dedicar uma publicação individual.
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