Entre Margens



O despertador ecoa no quarto e há um novo dia a amanhecer dentro e fora das quatro paredes que o delimitam, que delimitam esta casa construída de pedra, de saudades e de afeto. E sendo, todo ele, feito de promessas, florescem perguntas diferentes, outros olhares sobre a mesma realidade e a vontade renovada de me continuar a mover pelo espanto, tal como Inês Meneses, com quem aprendo, sobretudo, a olhar para dentro.


 o que se acrescenta aos dias banais

Linhas de Valor Acrescentado embarca nessa viagem intimista, de quem observa sempre o mundo de um modo introspetivo, mas sem diminuir a possibilidade de enriquecer os dias com rasgos de esperança, de animação, de amor. Aliás, sinto que uma das missões da autora é mesmo mostrar-nos o quanto a vida «acontece com os amores por cumprir (…) com as paixões que fazem os anos parecer instantes»; mostrar-nos que a vida é um lugar «bonito para se habitar», apesar da solidão, dos silêncios, do desânimo, visto que os amigos também nos resgatam da «claustrofobia quotidiana» e não nos desamparam.

Existe sempre um motivo para as coisas demorarem o seu tempo: se eu tivesse escrito este texto pouco depois de ter terminado a leitura, teria perdido um exemplo evidente das linhas que me acrescentam e que refletem várias observações que sublinhei nestas páginas. Num domingo que tinha tudo para ser igual a tantos outros, estar no parque com a minha melhor amiga (e a mais antiga), enquanto a filha dela se divertia a ver as bolas de sabão, foi daqueles momentos simples que se colam à nossa pele, talvez, não tanto pela situação em si, mas pelo facto de nós, duas adultas com tantos dias dentro, estarmos apenas em silêncio, sem necessidade de preencher esse espaço com palavras. Podemos não conversar diariamente, podemos demorar até combinar um reencontro, no entanto, continuamos a nutrir aquilo que nos une. E isso, creio, explica o conforto que esse silêncio representa, excluindo qualquer indício de cobrança ou afastamento.

A Inês Meneses é uma das vozes que mais companhia me faz e tenho procurado voltar à sua escrita com maior frequência, uma vez que sei que encontrarei sempre uma nova perspetiva para aquilo que é comum e uma maneira de não perder a capacidade de ver nisso uma certa beleza, porque, parafraseando-a, precisamos de andar distraídos para estarmos atentos e é nessa distração que vamos colhendo o que nos deixa mais perto de quem somos — se calhar, pela pureza, por nos moldarmos menos ao que esperam de nós e nos limitarmos a ser livres naquilo que nos amplia as emoções e as memórias.

«O amor e a paixão são ambos válidos. Preciso do amor para me situar e da paixão para saber que lado meu não obedece. Não há nada de errado nisto. A paixão descoordena-nos, o amor situa-nos»

Confesso que tenho algumas reservas em relação ao ato de romantizar a vida, quando isso implica bloquear a nossa vulnerabilidade. Nem todos os dias serão luminosos e a transbordar de felicidade, porém, precisamos de sentir, de nos fragmentar, porque só assim «voltamos a ficar quase intactos». E reforço o quase, tendo em conta que nunca seremos as mesmas pessoas: as cicatrizes fazem parte do processo e, mesmo que soe a lugar comum, são, também elas, fiéis contadoras da nossa história. Não obstante, creio que a Inês Meneses consegue trazer o equilíbrio perfeito entre descermos ao abismo e sermos arrebatados por aquilo que nos rodeia, sem medo de sentirmos as coisas como elas nos chegam, porque sente tudo intensamente, mas há uma calma que nos inebria.

Leio-a sempre com um lápis por perto, porque há frases que abraçam e sobre as quais me apetece escrever, como se lhe enviasse um bilhete de resposta através das margens, embora saiba que nunca o lerá. Neste livro, que aparenta ser uma crónica longa, senti-me a conversar com uma amiga e, por um lado, a chegar a lugares onde não tinha ido e, por outro, a voltar a temas que são recorrentes nas minhas conversas. Assim, pude refletir sobre a diferença entre confiança e segurança (que parece evidente e não é), o caminho da sororidade, o que fica do (que não foi) amor, as pessoas que nunca chegam a sair da nossa vida totalmente e as feridas provocadas por amizades interrompidas.

Linhas de Valor Acrescentado parte das relações humanas e traz para a mesa aquilo que é o território material e o território afetivo — e a certeza de ser no segundo que reside o que temos de mais valioso. Hei-de regressar a estas páginas, porque existe, em cada uma, um mundo que nos acalenta nos dias mais turvos e que nos faz sentir acolhidos.


 notas literárias
  • Lido entre: 28 e 30 de julho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Crónica
  • Nº páginas: 112
  • Banda sonora: Neblina, Luar, Rita Onofre & Avalanche | Gostas, Lhast | Inquietação, José Mário Branco


O termo antologia seduziu-me pela origem etimológica, uma vez que deriva do grego e significa «coleção de flores». Este escalar da botânica para uma utilização mais ampla, sem, no entanto, perder a sua génese, talvez seja a demonstração do lirismo da poesia e do quanto o ato de reunir nos agrega. Como procuro colher poemas como se fossem flores, voltei a Ana Luísa Amaral para (re)descobrir os seus trinta e um anos em verso.


 transversal, curioso e próximo

O Olhar Diagonal das Coisas compila os 17 livros de poesia da autora e tradutora, numa viagem inaugurada em 1990, com Minha Senhora de Quê, e que terminou em 2021, com Mundo — não deixa de ser curioso que o último título publicado seja este, porque Ana Luísa Amaral, através da escrita, mostrou sempre a maneira como observava o mundo, encarando-o pelo espelho do quotidiano, pelo que vem de dentro e continua complexo.

Partir da nossa esfera pessoal, privada, mesmo que não tenhamos de analisar o que se passa dentro de quatro paredes, pode ser uma forma muito interessante de estabelecer pontes com aquilo que nos rodeia: se calhar, porque invertemos um pouco a ordem do percurso e seguimos uma linha que vai do concreto para o abstrato; se calhar, porque é nessa inversão que nos predispomos a imaginar, a não temer o metafórico, a conceder espaço para que se avistem e acolham novos ângulos. Desfoca-se o horizonte, contudo, adquire-se margem para o instantâneo e para as subtilezas, sem ponta de narcisismo.

Creio que a expressão que sustenta o nome da obra é, por si só, uma analogia singular, isto porque olhar na diagonal assume uma carga mais negativa, como se estivéssemos pouco investidos no que vemos/lemos. No entanto, nestas páginas, é um conceito que se expande, que se torna transversal, que cria, inclusive, intimidade e privacidade, ou seja, ao olhar na diagonal, a poeta permanece atenta ao outro, só que não o confronta com as suas sombras, as suas incoerências, as suas divagações, nem o intimida nessas observações. Deste modo, as pessoas continuam a agir como se ninguém as estivesse a ver, ficando tudo muito mais próximo da sua verdadeira essência. E acho interessante como parece aplicar a mesma fórmula à sua existência, sobressaindo outras camadas.

«Estragas-me a paz.
E eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti»

O olhar oblíquo amplia a curiosidade, quer pelas coisas, quer pelas pessoas, ao mesmo tempo que lhe permite ver para além do óbvio e oscilar entre o vazio e o infinito, entre o que é ínfimo e colossal, entre o emocional e o racional. É, também, nestes contrastes que explora vários estilos e assuntos, trazendo para os versos uma ressonância bíblica, política, mnemónica e épica, com uma precisão que pode suportar diferentes crises e, por um lado, auxiliar na procura por respostas e, por outro, levantar mais perguntas.

Naturalmente, não me relacionei com estes livros com a mesma intensidade. Aliás, já tinha lido Ágora e Mundo, que me despertaram reações distintas, e isso fez-me pensar que um dos aspetos mais fascinantes das antologias prende-se com a possibilidade de acompanharmos a evolução do autor de uma forma mais imediata e sequencial. Foi, portanto, estimulante identificar as metamorfoses de Ana Luísa Amaral e, até, a sua envolvência com certas temáticas. Assim, «há poemas transferidos de um livro para o outro» e poemas que dialogam entre si, e esta cumplicidade impulsiona-nos a ver os detalhes com atenção. A título de exemplo, destaco os capítulos Minha Senhora de Quê e Coisas de Partir e os poemas Do Lado Mais Brilhante do Silêncio, Sentidos e A Casa e o Tempo, atendendo a que ficaram com todo o meu coração e a minha alma por inteiro.

O Olhar Diagonal das Coisas alicerça-se na saudade, nos afetos, na banalidade dos dias e no amor. Com um tom espinhoso e sensível, traduz uma humanidade que não nos é indiferente e que denota aquilo que permanece — e a força que habita o ato de sentir.


 notas literárias
  • Desafio: 12 meses, 12 livros de poesia
  • Lido entre: 1 e 16 de julho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 1384
  • Banda sonora: Sentir o Sol, Os Quatro e Meia | Sinal, Dengaz | Para T., Valter Lobo



O que suspirei por agosto não está escrito, mas sei que precisava destes dias longe, a desfrutar da minha bolha de oxigénio, sem ter o despertador a tocar à mesma hora e a rotina mais ou menos definida. Ainda assim, idealizei alguns objetivos de escrita, porque os tinha adiado e porque a calma de agosto me pareceu o impulso necessário para os concretizar.

Percebi, contudo, que agosto vinha com outros planos e que o truque era deixar fluir. Portanto, os cadernos passaram mais tempo fechados e a máquina fotográfica mais tempo a funcionar. Aproveitei para ver/ouvir conteúdos em atraso, ler ao sol e, por vezes, ficar só a existir, sem pressas, sem a sensação de ter de preencher o tempo.

Este mês foi um sopro, mas trouxe-me um dos eventos mais bonitos da cidade.


as coisas maravilhosas de agosto


 os fragmentos aleatórios

Uma breve anotação neste separador para registar que voltei a atualizar a minha coleção de dedais (que, ultimamente, estava a ser alimentada por amigos e familiares) e que o Pumpkin Spice Latte, do Starbucks, está de regresso (primeiro, para quem tem a aplicação). De facto, não preciso de muito para ser feliz.


 as músicas e os álbuns

De acordo com os dados do meu last.fm, agosto foi o mês com mais minutos de audição, muito às custas das músicas que já são prata desta casa. Ainda assim, fui recuperar um álbum de março, que deixei passar na altura, e voltei a Post Malone.

As músicas que marcaram o mês: Hoje Tem, Pikika | Pinga, Isak & Armando Teles | Ouro, bapcat & Carolina Deslandes.


Os álbuns que marcaram o mês: 3º Esquerdo, Galrito | August 26, Post Malone.


 as publicações

O blogue entrou de férias, mas continuei a publicar na newsletter e no meu substack poético. Assim, destaco uma publicação de cada um dos formatos.

feira do livro do porto 2026
uma espécie de guia com as minhas sugestões, quer em relação ao programa, quer em relação aos livros do dia, para um dos meus eventos favoritos.

no mesmo lugar
um poema inspirado na música Eu Não, do LUAR.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um podcast e um documentário.

O Código Farioli
Francesco Farioli chegou ao Futebol Clube do Porto com uma história difícil de ignorar. A eventual desconfiança, sinto, foi rapidamente desfeita e não o refiro pelos resultados alcançados em tão curto espaço de tempo, mas pela certeza que Jorge Costa destacou: voltamos a ter uma equipa. Mais do que uma equipa, no seu sentido profissional, voltamos a ter um grupo unido, a falar o mesmo dialeto. Isso pode dever-se a uma série de fatores, mas não duvido que o principal foi, claro, Farioli. Neste podcast, Eduardo Soares da Silva foi um pouco mais longe, numa peça jornalística de excelência — a certo ponto, mesmo sabendo o que aconteceu no Ajax, dei por mim a torcer por um desfecho diferente.

Infância
Infância leva-nos numa viagem pelas atividades que Pedro Teixeira da Mota mais gostava de fazer em criança. O presente recua ao passado, sem que deixe de ser percetível a passagem do tempo e aquilo que permanece inalterável, porque ele cresceu, porém, é engraçado perceber que existem fragmentos que se repetem — só se transformaram.


 os livros

Agosto não foi um mês de leituras arrebatadoras, mas deixou algumas marcas.

Os favoritos do mês: Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão | Primeiro Eu Tive de Morrer, Lorena Portela | Poemas Completos, Herberto Helder.

Outros livros lidos: Heartstopper Volume 6, Alice Oseman | Sonetos de Amor e Sacanagem, Gregorio Duvivier | Alentejo Prometido, Henrique Raposo | A Coisa à Volta do Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie | Nós e os Outros, Maria Luísa Pedroso de Lima.


 os momentos

Os 2 anos do Tomás. Passear com a Rita e a Lúcia. Terceira temporada de Salto de Fé. Ir a S. Jacinto e a Ovar. Idas ao starbucks. Passeios em família. Revisitar o Porto sempre. Voltar a Braga. Jogos de futebol. Preparar idas à Feira do Livro do Porto. Conhecer A Guarda, o Monte de Santa Tecla e o Mosteiro de Oia. Voltar aos Jardins do Palácio de Cristal em vários dias, em diferentes horários, para viver a Feira do Livro. Livros, livros e mais livros. Mais jogos de futebol. Despedidas. Regressos. Aproveitar dias cinzentos para pedir o pumpkin spice latte. FELP 2. E muita poesia pela cidade.







Setembro, sê gentil ✨



Julho precisou que cuidasse da minha energia, mas senti-o leve. Acho que não consigo identificar os motivos exatos dessa sensação, mas encontrar equilíbrio entre as coisas que acrescentam valor à minha rotina, desde ler meia dúzia de páginas de um livro até assistir a um jogo de futebol, foi o gatilho perfeito para encarar este mês para lá do caos e do cansaço que o reveste.

Saber que as férias estão perto, reconheço, também ajuda. Não obstante, entre regressos e fins de semana de ronha, tive vários momentos de silêncio que me ajudaram a reorganizar por dentro e a colocar em dia conteúdos que são regulares no meu dia a dia — e isso pesou de uma forma bastante positiva. 

Acho sempre que este mês fica um pouco turvo, porque é tão longo que parece passar uma vida entre todos os acontecimentos em que se divide. Desta vez, a agenda não esteve preenchida, mas não faltaram coisas maravilhosas para registar.


as coisas maravilhosas de julho


 os fragmentos aleatórios

A minha máquina de café é Dolce Gusto e tenho usufruído bastante de algumas novidades que vão surgindo. No entanto, sinto que a Nespresso acaba por ter uma variedade maior e, como gosto de preparar as minhas bebidas, tanto no verão, como no inverno, há sabores que não posso provar por não ter uma máquina compatível. Por esse motivo, no início do mês, decidi investir nesta máquina de café expresso portátil, que dá para café em cápsula ou moído, e estou bastante satisfeita. A bateria não é a mais duradoura (tem dado para três cafés, talvez por usar sempre a capacidade máxima e nem sempre aquecer a água), mas é prática e intuitiva, e tem sido uma excelente aliada ao pequeno-almoço e/ou ao lanche.


Outros fragmentos aleatórios: a Bola de Berlim da Oficina do Pão, ser surpreendida com a caneca Book Lover e comprar a versão física do cd do Noah Kahan, The Great Divide.


 as músicas e os álbuns

A playlist mensal esteve menos mexida e, curiosamente, não fiz morada em nenhum álbum, mas tenho estado a ouvir o do Espama Trincana, Bad Bitches Ouvem Espama, a Mixtape.

As músicas que marcaram o mês: Não Entendo, Espama Trincana | Ressaca, bapcat & xtinto | Na Raiz, Xico Gaiato & Bia Maria | Rosa, Rodrigo 13 & Icaro.



 as publicações

No meu substack poético — No Silêncio —, partilhei um poema inspirado no tema Festa Bem Louca, da Pikika. Se vos interessar, podem ler dança lenta.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um podcast e um filme

Na saúde e na doença
A dupla que faltava aventurou-se num projeto comum e isso deixou-me entusiasmada, já que acompanho o Guilherme Geirinhas e a Margarida Santos em separado, nas suas vertentes profissionais tão distintas, mas que eles interligam na perfeição. Aliás, adoro como a Margarida conversa sobre saúde de uma forma tão descomplicada e acessível e como o Geirinhas é tão ágil a dinamizar conteúdos que, não sendo sobre comédia, têm sempre um caráter cómico. E acho que é no humor que encontram o meio do caminho.

Na saúde e na doença conquistou-me logo na introdução, porque sinto que estabelece o tom do que podemos encontrar ao longo do episódio: num misto de ironia, provocação e brincadeira, porque há coisas que são sérias, mas não é necessário encarar tudo com formalidade. Através de temas que os inquietam — ou que, pelo menos, lhes suscitam algum tipo de debate —, encontraram espaço para conversarem sobre tudo com leveza e sem que um dos lados tivesse de diminuir a sua voz. Gostei bastante da dinâmica, do facto de combinarem dúvidas, curiosidades e estatísticas e de serem tão sinceros nas suas intervenções. Claro que há planeamento no modo como conduzem os segmentos, no entanto, sinto que teriam o mesmo discurso caso as câmaras estivessem desligadas.

A Sibila
O filme, como afirmou Eduardo Brito, contém a matriz do romance de Agustina, mas não procura «ter a sua sombra» e talvez por esse motivo haja uma imagem um pouco mais exacerbada da personalidade de cada uma destas mulheres — tia e sobrinha —, uma convivência marcada por «sentimentos de ciúme, admiração e magnetismo» nem sempre imediatos, mas que identificamos em movimentos, olhares, pensamentos que nunca chegam a ser verbalizados: provocam, sim, uma reação física subtil. Para mim, o mais curioso foi ver como «cresceu para dentro de si», porque o mistério de Quina prende-se com essa interioridade, com aquilo que viveu em criança e transformou na sua identidade. Apaixonada «por corrigir, comandar, ser notável», viu em Germa uma continuação do seu legado e isso deixou bem claro o contraste entre o ser e o possuir.

Já não me recordo do que li, devo confessar, apenas da sensação pesada de avançar as páginas, porque havia uma carga sombria densa. Também a encontrei no argumento, mas ter um rosto para associar permitiu-me humanizar a história e manter presente que, apesar do cinismo e da frieza, nenhum daqueles comportamentos era gratuito. É certo que podemos questionar a intenção, a moralidade, mas percebemos que vêm em consequência de algo passado. Além disso, achei fascinante a conveniência do afeto, a dureza do caráter a contrastar com a generosidade do cuidado e a noção de abandono.


 os livros

Habituei-me a definir uma tbr mensal, por ser uma forma de orientação que resulta comigo. Não obstante, se nos outros meses não encaro essa lista como algo estanque, em julho ainda menos. Por isso, fui lendo sem pressa e a priorizar sempre o que o meu estado de espírito estava a pedir no momento.

Os favoritos do mês: O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral | Linhas de Valor Acrescentado, Inês Meneses.

Outros livros lidos: Benjamim, Chico Buarque | Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral | Cidade Infecta, Teresa Veiga | Mau Género, Chloé Cruchaudet | Cordão, Ana Freitas Reis | As Vinhas de La Templanza, María Dueñas.


 os momentos

Jogar matraquilhos humanos. Ver Rent. Estender a toalha. Estrelas do mar. Visitar o Pink Palace. Hey, Jude. Ir a um centro de equitação. Visitar a Casa da Música (o nosso guia era extraordinário). Voltar à Arquivo. 







Rent
O musical Rent, um dos maiores sucessos da Broadway, numa «adaptação moderna da ópera “La Bohème”, de Puccini», regressou aos palcos portugueses e conquistou-me.

A acompanhar um grupo de amigos, durante um ano, «no auge dos boémios anos 90», transmite-nos a importância de aproveitarmos o tempo com aqueles que amamos. Por esse motivo, vemos os protagonistas a lutarem pela sua sobrevivência, a celebrarem os laços que os unem, a esforçarem-se para superar dificuldades, reverberando condições precárias, os malefícios do consumo de drogas e vários problemas de comunicação.

Os contextos e as circunstâncias são diferentes, mas dei por mim a pensar no grupo de amigos de Sinais de Fumo, porque há muito das suas histórias que se cruzam; a pensar na força necessária para não sucumbir, para não desistir, perante tantas adversidades. Nem sempre a vontade é motor suficiente para avançar, contudo, haver um propósito pode ser o impulso que precisamos para valorizar «cada momento» e vermos além da desesperança, do orgulho, dos constantes entraves que se colocam no caminho — por mais que isso seja difícil, porque não existe, aqui, qualquer tentativa de romantização.

A homossexualidade, a SIDA, a dependência, os parcos apoios para o meio artístico e a crise da habitação são temas explorados na peça, estabelecendo uma ponte «entre a sociedade de há 30 anos e a de hoje». Felizmente, evoluímos em muitos aspetos, mas é fascinante como, tanto tempo depois, ainda conseguimos elencar tantas semelhanças.

Fiquei completamente rendida ao talento e à forma como me fizeram sentir cada fragmento. Tenho pena que a qualidade do som interfira com experiência (dependendo o local, pode não ser fácil distinguir tudo o que está a ser dito), ainda assim, arrepiei-me em vários momentos.


Agosto, sê gentil ✨
(reencontramo-nos em setembro)



A leitura é um refúgio e sinto que se transforma numa espécie de bolha de oxigénio, durante o mês de julho, para não sucumbir ao cansaço e manter-me minimamente funcional. E é, também, neste período que olho menos para a tbr mensal, já que acabo por priorizar os livros para os desafios e o resto vai-se compondo, ainda que tenha sempre alguns títulos extra em mente.

Até ao momento, li sete livros (três romances, um de não ficção, uma novela gráfica e dois de poesia), mas ainda quero ir ao Linhas de Valor Acrescentado, da Inês Meneses. Descobri dois autores novos — Fernando Sobral e Chloé Cruchaudet —, fiz uma releitura (Cordão, da Ana Freitas Reis) e, sem ter sido particularmente arrebatada pelas obras que escolhi para julho, O Olhar Diagonal das Coisas, de Ana Luísa Amaral foi a minha favorita.


 entrelinhas de julho


Benjamim, Chico Buarque

A voz de Chico Buarque vai ecoando, cá em casa, de um modo pontual. Em 2020, abri a porta para que a sua prosa deixasse de me ser desconhecida e, seis anos depois, senti que estava na altura de regressar à sua escrita.

Benjamim «narra a história de um ex-modelo fotográfico que, com uma câmara invisível, vê o mundo desfilar diante dos seus olhos sob uma atmosfera opressiva». Obcecado pela morte de uma mulher, o protagonista deixa de conseguir distinguir o passado e o que vê à sua frente e isso encaminha-o «em direção ao destino trágico que a sua obsessão lhe reserva».

A proposta pareceu-me interessante e a escrita cinematográfica entrelaça-nos à divagação deste homem assombrado pelos seus fantasmas. No entanto, a concretização não me prendeu como estava à espera — faltou algo que me ligasse profundamente ao tumulto interior, à nostalgia e à ambiguidade da personagem. Ainda assim, achei curioso que, por entre as suas divagações, também nos deixasse à deriva, a tentar compreender o que fica no meio do caos, das pontas soltas, do que tentamos, a todo o custo, compreender para resgatarmos alguma lucidez.



Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral

A Seleção Portuguesa perdeu com a Espanha, nos oitavos de final, sendo eliminada do Mundial. Por esse motivo, começar a ler o ensaio que Fernando Sobral escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos logo no dia a seguir é capaz de não ter sido o ideal. Contudo, indo à boleia de um desporto que me fascina desde miúda, não resisti.

Futebol, o Estádio Global parte de uma paixão universal. Ainda que não existam estudos que corroborem este facto, «em 10 milhões de portugueses, não será arriscado afirmar que 10 milhões já viram um jogo». Inclusive, talvez seja possível afirmar que temos um pouco de treinador de bancada em nós, que sobressai em ocasiões concretas: há quem passe a época sem estar atento a resultados, no entanto, a energia modifica-se quando o assunto é a seleção nacional. Enquanto elemento que tem a capacidade de agregar a comunidade, acho maravilhoso ver como as pessoas se unem por uma equipa comum, pondo de parte qualquer barreira. Por isso é que o futebol é de todos. Ou será que não?

O livro, que se assume como «o retrato que faltava da grande paixão nacional», propõe-se a traçar a evolução deste desporto, desde a essência de espetáculo até à componente de negócio: o que começou como um jogo amigável, para divertir os trabalhadores das fábricas, escalou para algo sério, profissional e sujeito a pressões externas. Isso fez-me questionar se a profissionalização foi a responsável por essa mudança ou se, por outro lado, foi a necessidade de tornar o futebol numa fonte financeira rentável que alterou a maneira como o encaramos. Sem apresentar uma resposta inflexível, é inegável que a «transformação fora das quatro linhas» acaba por influenciar a sua estrutura interna.

Compreendo, portanto, quando o autor afirma que este desporto se transformou numa poderosa indústria, já que «tem adeptos, mas também accionistas», já que se joga num estádio, mas a televisão permite que possa ser visto em todo o mundo, em simultâneo. O futebol expandiu, modificou-se, abriu portas e isto não deixa de ser uma resposta a essas alterações, com tudo o que têm de positivo e negativo — mas este cenário não é exclusivo do mundo desportivo, acontece na música, na literatura, nos nossos hobbies.

Tal como na arte, existem momentos em que parece que o futebol pelo futebol já não é suficiente, que é sempre preciso um pouco mais para que subsista. Numa visão idílica, acho que qualquer adepto gostava de sentir que o futebol continua a ser uma forma de entreter quem o vê, sem escândalos, sem fronteiras, sem desigualdades. No fundo, que fosse simples e não um jogo de poder político, que desvirtua a sua verdadeira essência. Ainda assim, por mais que possa ser uma observação ingénua, não creio que se passou de um extremo ao outro, ainda acredito que a magia deste desporto está em campo, na equipa, nas jogadas imprevisíveis, na euforia de um golo que é marcado ao minuto 92.

Por oposição, não me revi no tom fatalista, por vezes condescendente e contraditório, do autor, tão centrado nos números (mais comerciais do que estatísticos). Uma vez que assume a nostalgia do «jogo bonito», de dribles e fintas, em vez de um «sistema táctico rígido e defensivo», esperava um discurso mais emotivo, ainda que não perdesse o lado racional, do jornalista que analisa os factos. Aliás, sinto que seria mais interessante se se tivesse desvinculado dos extremos, visto que os interesses económicos não mudam, por si só, aquilo que é o futebol, visto que apresentar um sistema tático sólido não tem de impedir que exista poesia nas jogadas. Hoje, focamo-nos em aspetos que não eram uma prioridade e, não nos iludamos, há situações que nos desagradam e revoltam, mas nem todas as mudanças implicaram uma perda de identidade: a essência ainda resiste.

Futebol, o Estádio Global foi-se perdendo no seu propósito a partir do momento em que Fernando Sobral afunilou o tema central. Embora crítico do espetáculo de massas, não alargou o debate e teria sido interessante trazer realidades distintas, porque os clubes não lidam todos com o mesmo tipo de adversidades. As vitórias são fundamentais, no entanto, reduzir o futebol a esse fim parece-me distanciá-lo daquilo que é suposto ser: «uma linguagem comum», o espetáculo que faz vibrar multidões. Quando recordamos um jogo, o resultado até pode surgir, mas não sei se essa será a primeira memória ou a que guardamos com fervor: os números acabarão por ficar turvos, com o tempo, mas o voo sobre os centrais, a defesa impossível, os cânticos partilhados com desconhecidos não e isso, sim, é a definição de estádio global, porque há emoções universais, para lá do emblema que apoiamos, que nos deixam apaixonados por aquilo que não se explica.



Cidade Infecta, Teresa Veiga

As personagens comuns, que se confundem com a trivialidade do quotidiano, cativam-me, porque transportam uma essência mais próxima da realidade. Não pretendo que a literatura seja apenas uma representação fiel do que presencio dentro e fora da minha bolha, mas, como sinto que escrever a normalidade não é assim tão simples e intuitivo, gosto de me perder em narrativas que a façam sobressair e que nos permitam reparar noutros ângulos. Era isso que estava à espera de encontrar neste livro de Teresa Veiga.

Cidade Infecta leva-nos para uma cidade do interior, na qual «a vida segue os trilhos da tradição» e cuja tranquilidade dos seus moradores «é violentamente interrompida pelo assassínio de uma mulher». Este cenário sombrio e suspeito povoa as ruas de Oliveira, onde Raquel e Anabela se conhecem num curso de informática. Aparentemente, nada têm em comum, mas a amizade é imediata, movida «por uma determinação férrea em conduzir a vida familiar». Cada vez mais unidas, é quando «estão prestes a desvendar uma à outra os seus segredos mais inconfessáveis» que acontece uma nova tragédia.

A premissa intriga, não só pelo mistério, mas também pelos elementos transversais à vida das protagonistas, o que me deixou a pensar no facto de nenhuma experiência ser individual: podem mudar o contexto e os contornos, no entanto, existem situações que se repetem dentro de várias casas, em simultâneo, sem que nos ocorra. Dito assim, sei que parece que estou apenas a constatar o óbvio, porque nós sabemos a multiplicidade dos casos, podemos não ter o número da porta, mas reconhecemos que não é isolado, só que não ser verbalizado faz com que permaneça invisível. Quando identificamos os mesmos comportamentos, os mesmos padrões, isso pode ajudar a despertar vínculos.

Esta aproximação pelo trauma é capaz de, por um lado, contribuir para ver o problema com clareza, mas, por outro, talvez contribua para que se torne algo maior e sufocante, pela impossibilidade de sair do abismo. E eu fui ficando presa neste limbo, a assistir à mesquinhez dos casamentos, por causa de descrições e não tanto pela narrativa em si, atendendo a que a senti demasiado à superfície, como se não nos pudéssemos demorar.

A leitura avança a bom ritmo, ainda assim, confesso, tive dificuldade em compreender para onde a autora nos queria levar. Creio que Raquel e Anabela espelham a angústia de viver relacionamentos construídos na base da conveniência, da violência, da ofensa, por esse motivo, achei que a amizade entre elas fosse um gatilho de mudança, mas até este ponto central se perdeu, ficando a sensação de que foi somente um pretexto, uma frincha de sol num dia cinzento, para nos iludir. Além disso, não consegui entender a pertinência do assassínio da mulher, porque não tem um impacto substancial na ação.

Parece, inclusive, que o livro é só um conjunto de acontecimentos suspensos, como se a qualquer momento a história fosse começar e adiassem o seu início. Tendo em conta as temáticas e toda a sua potencialidade, há um sabor agridoce a pairar, visto que teria sido mais interessante se tivesse mexido com as nossas emoções de um modo visceral, se tivesse aprofundado as situações e a carga sombria, para não ficarmos dormentes.

Cidade Infecta talvez pretenda demonstrar a sobrevivência, as vidas geridas através dos danos e tudo o que fica pendente perante dilemas diários, que nos obrigam a recuar, a ceder, a desistir, até que tudo se esqueça e fique em silêncio. A história é interessante, mas a concretização não resultou comigo, porque gostava de ter sentido inquietação.



Mau Género, Chloé Cruchaudet

A capa da novela gráfica de Chloé Cruchaudet chamou-me logo à atenção, mas acabei por adiar a leitura. Quando vi que estava disponível na BiblioLED, fiz a reserva e comecei a lê-la no mesmo dia.

Mau Género é inspirado na história verídica de «um desertor que se torna travesti nos loucos anos 1920». Paul e Louise, os protagonistas, conheceram-se, apaixonaram-se, casaram e, depois, tiveram de se separar por causa da Primeira Guerra Mundial. Perante um cenário de profundo terror, Paul «deseja escapar de lá a qualquer custo, acabando por desertar e encontrar a mulher em Paris». Apesar de estar a salvo, permanece condenado a viver «escondido num quarto de hotel».

A estratégia para sair da clandestinidade passa por se vestir de mulher e, quando a amnistia é concedida aos desertores e pode voltar à sua verdadeira identidade, os dramas entre o casal amplificam-se, destacando questões fulcrais sobre sexualidade e identidade de género, mas também sobre os traumas que interferem com todas as dinâmicas individuais e sociais.

A história em si é interessante e bastante angustiante, sobretudo, por sabermos que não é ficção, porque nos deixa a pensar em todas as adaptações que temos de fazer para sobreviver — e o quanto isso pode não ser suficiente, por um lado, devido às marcas profundas provocadas por experiências agressivas e, por outro, por causa de preconceitos demasiado dolorosos. Ainda assim, não me relacionei totalmente com a cadência do texto, porque sinto que houve partes um pouco confusas (ou onde precisava de ter um pouco mais de contexto).



As Vinhas de La Templanza, María Dueñas

Uma nova volta na roleta ditou que eu e a minha amiga Sofia regressássemos a María Dueñas, em julho. Tendo em conta que a autora é espanhola e foi Espanha a ganhar a Copa do Mundo, achei uma coincidência curiosa. Se esse facto e a obra se cruzam por alguma circunstância? Não, de todo, estou só a divagar.

Voltando ao que interessa, As Vinhas de La Templanza é sobre a história de Mauro Larrea, cuja fortuna conquistada graças a «anos de luta e perseverança» se desmorona de repente, obrigando-o a recomeçar, a procurar uma alternativa que o permita reerguer-se. Assim, da Cidade do México até Havana, das Antilhas a Jerez, vê-se num impasse que o cruzará com «minas de prata, intrigas de família, vinhas» e Soledad Montalvo.

Achei a narrativa interessante, até porque levanta questões morais pertinentes e leva-nos a refletir sobre os limites que estamos dispostos a transpor para alcançarmos determinado fim — o que é que legitima o nosso comportamento? — e de que forma usamos as pessoas para nosso proveito. Além disso, tendo em conta o jogo de aparências, também me deixou a pensar nas histórias que não conhecemos dos lugares que habitamos ou por onde passamos. Só não me relacionei totalmente com o livro porque não senti o ritmo entre as diferentes partes equilibrado e o final pareceu-me um pouco apressado, com certas pontas soltas a serem atadas de um modo previsível.

Continuo fascinada com a forma como Dueñas torna as suas personagens tão humanas.



tbr de agosto

Tenho alguns títulos que gostava de ler em agosto, no entanto, como ainda não estou certa da logística do meu mês e quero aproveitá-lo para ver séries e filmes, optei por compilar apenas os livros dos desafios.

  • Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão (alma lusitana);
  • O Dever de Deslumbrar, Filipa Martins (alma lusitana);
  • Alentejo Prometido, Henrique Raposo (ler ffms);
  • A Coisa à Volta do Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • Poemas Completos, Herberto Helder (12 meses, 12 livros de poesia).


A poesia entrelaça-nos de um modo mais ou menos umbilical, por isso, voltar ao livro de Ana Freitas Reis foi reconhecer que, nesse processo de proximidade, tudo pode ser um recomeço, uma vontade de ir e de explorar a imensidão do que nos é desconhecido.


 reiniciar a travessia

Cordão manifesta a encenação do ato de nascer, uma vez que é um evento inacabado e um (re)início constante da travessia. Assim, concede «espaço à fatalidade da condição de recém-nascida» e estende a fundamental paisagem «a partir da dolorosa viagem do corpo que a há-de desenhar». Nestas páginas, coabitam inquietações e silêncio, entre múltiplas respirações que «suscitam deformação [e o] desdobramento dos percursos».

A palavra vai-se renovando, neste fio que interliga encontros e pulsões, e encaixando diferentes sensações, como se, por nos movimentarmos ao mesmo tempo que a autora, pisássemos territórios amplos, ambíguos e imprevistos; como se, nesta simbiose, nos descobríssemos enquanto a pessoa «que acolhe o mundo» e a pessoa «que o habita». É por esse motivo que «cada verso vai tateando os obstáculos e as alegrias» do processo.

Voltar aqui renovou-me a certeza de que existe um olhar que nos transcende. Através de anseios, memórias e um interessante jogo de palavras, que planta imagens na nossa interpretação, evidencia a liberdade, o assombro de estar viva, o desejo, a melancolia e a necessidade de nos moldarmos àquilo que nos rodeia. Ademais, com um tom quase minimalista, que camufla emoções profundas e as faz ecoar em momentos específicos, expõe as «condicionantes da poesia no feminino» e todas as transformações da mulher.

«Ainda não tinha visto a Primavera cá de casa
No terraço ao lado há uma grande nespereira.
Lembro-me de comer nêsperas e gostar
do sabor meio doce, meio azedo,
e de a minha mãe dizer que as nêsperas
faziam nódoas
Há certas pessoas
que são como as nêsperas que comemos —
não sabemos porque falamos delas
se há toda uma vasta botânica»


Parafraseando uma etapa da sua vida, influenciada pelo nascimento da filha, leva-nos para um universo onde oscilamos entre o que é dito e o que continua oculto, se calhar, para nos fazer refletir sobre a quantidade de sombras presas aos nossos passos, sobre o que não somos capazes de controlar e sobre as sucessivas perdas que sofremos e que podem (ou não) renascer noutras concretizações, dependendo das nossas escolhas ou das circunstâncias. Relacionei-me muito mais com esta segunda leitura, uma vez que entendi que Ana Freitas Reis borda «um estado de alma a um estado de observação».

Cordão intercala poemas mais curtos e mais extensos, mostrando-nos que não existem medidas estanques quando pensamos sobre mudanças, afetos e vivências. Neste «livro-ponto-de-escuta» e caminho, creio que encontramos versos feitos de pessoas: as que o sujeito poético imaginou, as que persistem nas suas lembranças e as que homenageia.


 notas literárias
  • Lido a: 15 de julho
  • Formato de leitura: Físico (releitura)
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 63
  • Banda sonora: Suzanne, Leonard Cohen | Parto Sem Dor, Capicua


A porta do Ramalhete abriu-se, mas não me demorei na visita quando se fechou. Quer dizer, permaneci, descobri relações complexas, segredos e cicatrizes, só que o peso da obrigatoriedade e, sobretudo, a limitação temporal não permitiram que lesse Os Maias com a devida disposição. Anos mais tarde, fiz paragem n’ A Cidade e as Serras, que me mostrou a componente sagaz e irónica da escrita do autor, e, já com outra maturidade literária, voltei à propriedade e perdi-me de amores pela sua história, que oscila entre o esplender e a decadência. Portanto, andava há demasiado tempo a prometer voltar à obra do Eça e, por isso, decidi que seria um dos autores do meu desafio Alma Lusitana.


 o impacto da indiferença

O Primo Basílio faz-nos recuar à Lisboa de finais do século XIX, para conhecermos um modelo de casal burguês: Luísa e Jorge. A dinâmica da casa sofre um revés, quando o marido se vê forçado a partir para o Alentejo, «durante algumas semanas», deixando a Luísa entediada, aborrecida «por estar sozinha em casa», até porque não seria de bom tom receber a sua grande amiga, com um rótulo da sociedade pouco favorável. É com a chegada de Basílio, «que antes de emigrar para o Brasil a cortejara», que tudo muda.

O desfecho é claro desde o início. Aliás, partimos para este enredo a saber tudo aquilo que precisamos sobre a parte central do arco narrativo, mas desconhecemos a maneira como tudo se processará e isso, para mim, é um dos traços mais entusiasmantes desta história, porque parece que estamos a transpor um jogo de sombras, onde tudo nos é dito e, mesmo assim, permanecemos à deriva, expectantes, a entrelaçar pontas soltas. E se existe algo que aprendemos é que as subtilezas escondem camadas profundas.

Inicialmente, há aspetos que vamos decifrando pelo facto de reconhecermos em Eça um olhar incisivo acerca da sociedade, a funcionar como uma denúncia de atitudes questionáveis e das diferenças entre grupos sociais. É importante não esquecermos a época em que se contextualiza a narrativa, com a burguesia a ser a voz mais audível, porque creio que, sem justificar, permite que compreendamos melhor a mentalidade. Além disso, torna ainda mais impressionante a leitura que o autor faz, uma vez que permanece atual e que, através de metáforas provocadoras, desmancha a mediocridade e a pobreza que não se limita à esfera financeira, que engloba valores e emoções. E, pouco a pouco, percebemos que as entrelinhas contam outras ramificações do enredo.

«Estava só; pôs-se a olhar em roda, como idiota. O silêncio da sala parecia-lhe enorme»

A escrita pareceu-me fácil de acompanhar, não só pelo traço visual, mas também pelo tom sarcástico, de quem observa por dentro e leva as incoerências para um lugar mais luminoso. Contudo, fiquei sempre com a impressão de que precisava de ter outra base para compreender os significados de certos detalhes, visto que é uma história cheia de simbolismos. Por esse motivo, decidi fazer a oficina da Bruna Martiolli sobre O Primo Basílio e, assim, chegar às camadas que não decifraria sem ter esta orientação literária.

Não pretendo que todas as minhas leituras sejam feitas nestes moldes, mas senti que esta beneficiaria se o fizesse, porque seria capaz de perceber a amplitude do texto de Eça. As minhas interpretações não estiveram muito longe do que foi abordado, mas é inegável que passaria ao lado de várias referências. Aliás, não teria sensibilidade para reconhecer que certas descrições não são inocentes, que há ali um propósito maior e isso permitiu-me desfrutar melhor da intertextualidade da obra e levantar questões que não me ocorreriam de outra forma. No fundo, desenvolver um olhar mais crítico.

É curioso como este texto se molda em contrastes, como segue diferentes transições e como nos faz pensar naquilo que consideramos natural e naquilo que nos incomoda. À semelhança das obras que influenciam O Primo Basílio, o autor foca-se no adultério, na decadência do casamento e no desejo, abrindo espaço para debatermos a hipocrisia e a fixação pela beleza. Em simultâneo, confronta-nos com a invisibilidade e o jogo de manipulação que vemos a formar-se em várias frentes. Sem querer entrar em detalhes que comprometam a leitura, permitam-me apenas realçar que é o tom de indiferença e a banalidade do quotidiano que mais interferem com a nossa perceção de humanidade.

«(...) Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. — Ele partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!»

As personagens, tão comuns, complexas e credíveis, deixaram-me sempre no limbo, já que não me parece fácil empatizar com as suas intenções. Até quando as suas atitudes aparentam vir de um lugar benigno, ficamos de pé atrás, porque são convenientes — e coniventes — com o seu egoísmo. Não obstante, é essa essência ambígua que as torna inebriantes. Irritei-me com o calculismo de Basílio, com a futilidade de Luísa, com o cinismo de Juliana, com o conservadorismo de Jorge e com a necessidade que tinham de se intrometerem na vida uns dos outros, mas elas não são só estas características: escondem camadas de solidão, de revolta, de procura por algo que lhes dê propósito, de tentativas, ainda que questionáveis, para conseguirem melhores condições de vida. Acredito que se ficasse somente pela minha leitura perderia a noção do quanto estas personagens possuem uma dimensão tridimensional, assim pude alargar horizontes.

Outra situação que me deixou apreensiva foi o final: pelo desfecho em si, pelo sufoco, pela obsessão e, uma vez mais, pela indiferença, que vem retirar todas as dúvidas que pudessem existir em relação às personagens — aqui, é como se as máscaras caíssem. Além disso, torna-se evidente o quanto este livro é feito de inúmeros simbolismos, já que Eça não deixa nada ao acaso, antes pelo contrário, tudo encaixa na medida certa.

O Primo Basílio é uma construção narrativa ficcional, sem que perca um traço real. Ao oscilar entre o luxo e a intimidade, entre o paraíso e o terror psicológico, agrega-nos a «uma teia de (…) chantagem e tragédia» e a um ambiente pensado para sentirmos tudo.


 notas literárias
  • Desafio: Alma Lusitana
  • Lido entre: 15 e 19 de junho
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 392
  • Banda sonora: Valsa do Danúbio, Johann Strauss II, David Parry & London Philharmonic Orchestra | Chopin: The Nocturnes, Frédéric Chopin & Maria João Pires


As noites que nos caem por dentro são invisíveis. No máximo, vamos deixando breves indícios dessa escuridão sem, no entanto, revelar o quanto nos podem levar para uma zona de abismo irreversível. No seu mais recente livro, Susana Piedade espelha várias versões destes fragmentos, através de uma narrativa dura, que nos dilacera sem filtros.


 diferentes tipos de perda e desencontros

Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno leva-nos para a Praceta das Tílias, «onde as pessoas mal se veem na azáfama dos dias». Ali, perdidas nos seus próprios problemas, as personagens aparentam estar desligadas, mas é curioso como as histórias se cruzam mais do que aquilo que imaginam: Esmeralda esforça-se por ser «a mãe que lhe faltou em criança» e Teresa, a sua filha, «parece ter tudo para ser uma adolescente feliz»; Ana Lurdes cresce «numa casa onde o amor não entra», Sebastião e Olívia, pai e filha, são o espelho de um luto recente, amparando-se na saudade, e Lúcia vê a sua vida do avesso, quando confrontada com a certeza de «o maior perigo [vir] de onde menos esperava».

É, portanto, dentro de quatro paredes que a narrativa nasce, até porque «ninguém sabe o que acontece na porta ao lado», mas, perante cenários tão turbulentos, cada uma das personagens vai revelando as cicatrizes e os segredos que escondem, incluindo-nos no processo, nos momentos mais delicados e transformadores, que colocam em causa os vínculos afetivos e nos fazem questionar a sua resistência, a sua resiliência. E, uma vez que há perguntas que são caminhos, procuramos percorrê-los com cautela, atendendo a que existe sempre um prenúncio de algo mais, de outra camada sombria a espreitar.

A porta é aberta devagar, afinal, ainda não criamos intimidade, contudo, começamos a sentir o peso daquilo que não vemos à superfície, daquilo que vamos intuindo através de meias palavras, de ações incoerentes, de silêncios prolongados. De um modo subtil, as feridas vão-se insinuando, colando-se à nossa pele, inquietando-nos pela leveza de um início idealizado para nos fazer oscilar, para nos colocar ao lado dos protagonistas, mesmo que não sejamos capazes de entender todas as suas motivações e as suas dores. E, assim, ampliam-se as dúvidas e os receios, visto que não sabemos o que nos espera.

«As pessoas têm um lugar na nossa vida, como as coisas de casa, e se as desarrumarmos talvez nunca mais se ajustem da mesma forma»

Quando dei por isso, já estava completamente entrelaçada na realidade de Esmeralda, de Teresa, de Ana Lurdes, de Sebastião, de Olívia e de Lúcia, consciente de que cada um despertou, em mim, um lado emocional singular. Dentro das suas imperfeições, é percetível a sua humanidade. Aliás, se há algo a que a autora já nos habituou foi à sua forma de narrar assuntos que a apoquentam, resgatando retratos que poderiam ser de pessoas que nos rodeiam — ou, até, nossos. Felizmente, sei que não me revi na maior parte das situações, mas foi impossível ficar indiferente às marcas que (me) deixaram.

À medida que fui avançando na leitura, atando os fios invisíveis que Susana Piedade fez florescer, dei por mim a pensar em Tudo na Natureza Apenas Continua, de Yiyun Li, sobretudo, por causa de uma frase em específico. Num livro tão marcado pela relação entre pais e filhos (em ambos, na realidade), torna-se evidente que existem alturas em que podemos fazer tudo o que é humanamente possível para protegermos os nossos e, ainda assim, haver limites intransponíveis, muros que não conseguimos derrubar. Isso dilacera pela certeza de sermos habitados por um sentimento de impotência, por uma sensação de falha constante. E nenhum rasgo de luz parece ser capaz de o apaziguar.

A fragilidade das personagens, tão exposta no modo como enfrentam os seus traumas, as consequências de escolhas passadas, as expectativas que depositam em si e nos que as rodeiam, encontra colo na escrita da autora, sensível, poética nas passagens certas, sem floreados que desvirtuem o verdadeiro impacto das situações, porque o propósito é fazer-nos sentir, mas sem ter necessidade de enveredar por um tom melodramático. Ademais, sem passos apressados, faz-nos ouvir os silêncios que pairam nas conversas.

«A dor apropriava-se dos espaços onde antes também cabiam coisas boas, crescia desordenadamente até se sobrepor a tudo e fazer crer que não restava mais nada»

Precisei de respirar fundo em vários momentos, porque é ténue a linha que separa a lucidez da autodestruição, porque aquilo que nos mantém à tona consegue ser frágil, porque nem sempre compreendemos o abismo das nossas pessoas e o quão difícil é chegarmos até elas. Se decidirem abraçar esta obra, que aconselho vivamente, façam-no se estiverem num bom espaço mental e emocional, porque é uma história dura e há gatilhos aqui que podem mexer com situações pendentes ou desbloquear inseguranças que julgávamos resolvidas. A Susana Piedade não é gratuita na abordagem, antes pelo contrário, explora os assuntos com o máximo de respeito, mas não suaviza os cenários.

Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno reveste-se de sinais, de diferentes tipos de perda e de desencontros. Num meio onde ninguém se conhece realmente, ficamos a saber de casos de alienação parental, de doença prolongada, de abuso e de violência. Por esse motivo, este livro é plural nas suas dores, quer nas do passado que acabam a condicionar o presente, quer nas do presente que nos acompanham sem data para nos libertarem. Ao refletirmos acerca da possibilidade de nos reconstruirmos ao longo do tempo, torna-se inequívoco que uma simples descoberta estilhaça a nossa harmonia, deixando entreaberta esta porta que nos mantém equidistantes da paz e do precipício.


 notas literárias
  • Lido entre: 11 e 13 de junho
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 208
  • Banda sonora: Iris, Goo Goo Dolls | This Is Me Trying, Taylor Swift | Matilda, Harry Styles | em porta trancada, Maro
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andreia morais

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a escrever entre margens, poesia e sobre cultura portuguesa


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