Entre Margens



Julho precisou que cuidasse da minha energia, mas senti-o leve. Acho que não consigo identificar os motivos exatos dessa sensação, mas encontrar equilíbrio entre as coisas que acrescentam valor à minha rotina, desde ler meia dúzia de páginas de um livro até assistir a um jogo de futebol, foi o gatilho perfeito para encarar este mês para lá do caos e do cansaço que o reveste.

Saber que as férias estão perto, reconheço, também ajuda. Não obstante, entre regressos e fins de semana de ronha, tive vários momentos de silêncio que me ajudaram a reorganizar por dentro e a colocar em dia conteúdos que são regulares no meu dia a dia — e isso pesou de uma forma bastante positiva. 

Acho sempre que este mês fica um pouco turvo, porque é tão longo que parece passar uma vida entre todos os acontecimentos em que se divide. Desta vez, a agenda não esteve preenchida, mas não faltaram coisas maravilhosas para registar.


as coisas maravilhosas de julho


 os fragmentos aleatórios

A minha máquina de café é Dolce Gusto e tenho usufruído bastante de algumas novidades que vão surgindo. No entanto, sinto que a Nespresso acaba por ter uma variedade maior e, como gosto de preparar as minhas bebidas, tanto no verão, como no inverno, há sabores que não posso provar por não ter uma máquina compatível. Por esse motivo, no início do mês, decidi investir nesta máquina de café expresso portátil, que dá para café em cápsula ou moído, e estou bastante satisfeita. A bateria não é a mais duradoura (tem dado para três cafés, talvez por usar sempre a capacidade máxima e nem sempre aquecer a água), mas é prática e intuitiva, e tem sido uma excelente aliada ao pequeno-almoço e/ou ao lanche.


Outros fragmentos aleatórios: a Bola de Berlim da Oficina do Pão, ser surpreendida com a caneca Book Lover e comprar a versão física do cd do Noah Kahan, The Great Divide.


 as músicas e os álbuns

A playlist mensal esteve menos mexida e, curiosamente, não fiz morada em nenhum álbum, mas tenho estado a ouvir o do Espama Trincana, Bad Bitches Ouvem Espama, a Mixtape.

As músicas que marcaram o mês: Não Entendo, Espama Trincana | Ressaca, bapcat & xtinto | Na Raiz, Xico Gaiato & Bia Maria | Rosa, Rodrigo 13 & Icaro.



 as publicações

No meu substack poético — No Silêncio —, partilhei um poema inspirado no tema Festa Bem Louca, da Pikika. Se vos interessar, podem ler dança lenta.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um podcast e um filme

Na saúde e na doença
A dupla que faltava aventurou-se num projeto comum e isso deixou-me entusiasmada, já que acompanho o Guilherme Geirinhas e a Margarida Santos em separado, nas suas vertentes profissionais tão distintas, mas que eles interligam na perfeição. Aliás, adoro como a Margarida conversa sobre saúde de uma forma tão descomplicada e acessível e como o Geirinhas é tão ágil a dinamizar conteúdos que, não sendo sobre comédia, têm sempre um caráter cómico. E acho que é no humor que encontram o meio do caminho.

Na saúde e na doença conquistou-me logo na introdução, porque sinto que estabelece o tom do que podemos encontrar ao longo do episódio: num misto de ironia, provocação e brincadeira, porque há coisas que são sérias, mas não é necessário encarar tudo com formalidade. Através de temas que os inquietam — ou que, pelo menos, lhes suscitam algum tipo de debate —, encontraram espaço para conversarem sobre tudo com leveza e sem que um dos lados tivesse de diminuir a sua voz. Gostei bastante da dinâmica, do facto de combinarem dúvidas, curiosidades e estatísticas e de serem tão sinceros nas suas intervenções. Claro que há planeamento no modo como conduzem os segmentos, no entanto, sinto que teriam o mesmo discurso caso as câmaras estivessem desligadas.

A Sibila
O filme, como afirmou Eduardo Brito, contém a matriz do romance de Agustina, mas não procura «ter a sua sombra» e talvez por esse motivo haja uma imagem um pouco mais exacerbada da personalidade de cada uma destas mulheres — tia e sobrinha —, uma convivência marcada por «sentimentos de ciúme, admiração e magnetismo» nem sempre imediatos, mas que identificamos em movimentos, olhares, pensamentos que nunca chegam a ser verbalizados: provocam, sim, uma reação física subtil. Para mim, o mais curioso foi ver como «cresceu para dentro de si», porque o mistério de Quina prende-se com essa interioridade, com aquilo que viveu em criança e transformou na sua identidade. Apaixonada «por corrigir, comandar, ser notável», viu em Germa uma continuação do seu legado e isso deixou bem claro o contraste entre o ser e o possuir.

Já não me recordo do que li, devo confessar, apenas da sensação pesada de avançar as páginas, porque havia uma carga sombria densa. Também a encontrei no argumento, mas ter um rosto para associar permitiu-me humanizar a história e manter presente que, apesar do cinismo e da frieza, nenhum daqueles comportamentos era gratuito. É certo que podemos questionar a intenção, a moralidade, mas percebemos que vêm em consequência de algo passado. Além disso, achei fascinante a conveniência do afeto, a dureza do caráter a contrastar com a generosidade do cuidado e a noção de abandono.


 os livros

Habituei-me a definir uma tbr mensal, por ser uma forma de orientação que resulta comigo. Não obstante, se nos outros meses não encaro essa lista como algo estanque, em julho ainda menos. Por isso, fui lendo sem pressa e a priorizar sempre o que o meu estado de espírito estava a pedir no momento.

Os favoritos do mês: O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral | Linhas de Valor Acrescentado, Inês Meneses.

Outros livros lidos: Benjamim, Chico Buarque | Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral | Cidade Infecta, Teresa Veiga | Mau Género, Chloé Cruchaudet | Cordão, Ana Freitas Reis | As Vinhas de La Templanza, María Dueñas.


 os momentos

Jogar matraquilhos humanos. Ver Rent. Estender a toalha. Estrelas do mar. Visitar o Pink Palace. Hey, Jude. Ir a um centro de equitação. Visitar a Casa da Música (o nosso guia era extraordinário). Voltar à Arquivo. 







Rent
O musical Rent, um dos maiores sucessos da Broadway, numa «adaptação moderna da ópera “La Bohème”, de Puccini», regressou aos palcos portugueses e conquistou-me.

A acompanhar um grupo de amigos, durante um ano, «no auge dos boémios anos 90», transmite-nos a importância de aproveitarmos o tempo com aqueles que amamos. Por esse motivo, vemos os protagonistas a lutarem pela sua sobrevivência, a celebrarem os laços que os unem, a esforçarem-se para superar dificuldades, reverberando condições precárias, os malefícios do consumo de drogas e vários problemas de comunicação.

Os contextos e as circunstâncias são diferentes, mas dei por mim a pensar no grupo de amigos de Sinais de Fumo, porque há muito das suas histórias que se cruzam; a pensar na força necessária para não sucumbir, para não desistir, perante tantas adversidades. Nem sempre a vontade é motor suficiente para avançar, contudo, haver um propósito pode ser o impulso que precisamos para valorizar «cada momento» e vermos além da desesperança, do orgulho, dos constantes entraves que se colocam no caminho — por mais que isso seja difícil, porque não existe, aqui, qualquer tentativa de romantização.

A homossexualidade, a SIDA, a dependência, os parcos apoios para o meio artístico e a crise da habitação são temas explorados na peça, estabelecendo uma ponte «entre a sociedade de há 30 anos e a de hoje». Felizmente, evoluímos em muitos aspetos, mas é fascinante como, tanto tempo depois, ainda conseguimos elencar tantas semelhanças.

Fiquei completamente rendida ao talento e à forma como me fizeram sentir cada fragmento. Tenho pena que a qualidade do som interfira com experiência (dependendo o local, pode não ser fácil distinguir tudo o que está a ser dito), ainda assim, arrepiei-me em vários momentos.


Agosto, sê gentil ✨
(reencontramo-nos em setembro)



A leitura é um refúgio e sinto que se transforma numa espécie de bolha de oxigénio, durante o mês de julho, para não sucumbir ao cansaço e manter-me minimamente funcional. E é, também, neste período que olho menos para a tbr mensal, já que acabo por priorizar os livros para os desafios e o resto vai-se compondo, ainda que tenha sempre alguns títulos extra em mente.

Até ao momento, li sete livros (três romances, um de não ficção, uma novela gráfica e dois de poesia), mas ainda quero ir ao Linhas de Valor Acrescentado, da Inês Meneses. Descobri dois autores novos — Fernando Sobral e Chloé Cruchaudet —, fiz uma releitura (Cordão, da Ana Freitas Reis) e, sem ter sido particularmente arrebatada pelas obras que escolhi para julho, O Olhar Diagonal das Coisas, de Ana Luísa Amaral foi a minha favorita.


 entrelinhas de julho


Benjamim, Chico Buarque

A voz de Chico Buarque vai ecoando, cá em casa, de um modo pontual. Em 2020, abri a porta para que a sua prosa deixasse de me ser desconhecida e, seis anos depois, senti que estava na altura de regressar à sua escrita.

Benjamim «narra a história de um ex-modelo fotográfico que, com uma câmara invisível, vê o mundo desfilar diante dos seus olhos sob uma atmosfera opressiva». Obcecado pela morte de uma mulher, o protagonista deixa de conseguir distinguir o passado e o que vê à sua frente e isso encaminha-o «em direção ao destino trágico que a sua obsessão lhe reserva».

A proposta pareceu-me interessante e a escrita cinematográfica entrelaça-nos à divagação deste homem assombrado pelos seus fantasmas. No entanto, a concretização não me prendeu como estava à espera — faltou algo que me ligasse profundamente ao tumulto interior, à nostalgia e à ambiguidade da personagem. Ainda assim, achei curioso que, por entre as suas divagações, também nos deixasse à deriva, a tentar compreender o que fica no meio do caos, das pontas soltas, do que tentamos, a todo o custo, compreender para resgatarmos alguma lucidez.



Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral

A Seleção Portuguesa perdeu com a Espanha, nos oitavos de final, sendo eliminada do Mundial. Por esse motivo, começar a ler o ensaio que Fernando Sobral escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos logo no dia a seguir é capaz de não ter sido o ideal. Contudo, indo à boleia de um desporto que me fascina desde miúda, não resisti.

Futebol, o Estádio Global parte de uma paixão universal. Ainda que não existam estudos que corroborem este facto, «em 10 milhões de portugueses, não será arriscado afirmar que 10 milhões já viram um jogo». Inclusive, talvez seja possível afirmar que temos um pouco de treinador de bancada em nós, que sobressai em ocasiões concretas: há quem passe a época sem estar atento a resultados, no entanto, a energia modifica-se quando o assunto é a seleção nacional. Enquanto elemento que tem a capacidade de agregar a comunidade, acho maravilhoso ver como as pessoas se unem por uma equipa comum, pondo de parte qualquer barreira. Por isso é que o futebol é de todos. Ou será que não?

O livro, que se assume como «o retrato que faltava da grande paixão nacional», propõe-se a traçar a evolução deste desporto, desde a essência de espetáculo até à componente de negócio: o que começou como um jogo amigável, para divertir os trabalhadores das fábricas, escalou para algo sério, profissional e sujeito a pressões externas. Isso fez-me questionar se a profissionalização foi a responsável por essa mudança ou se, por outro lado, foi a necessidade de tornar o futebol numa fonte financeira rentável que alterou a maneira como o encaramos. Sem apresentar uma resposta inflexível, é inegável que a «transformação fora das quatro linhas» acaba por influenciar a sua estrutura interna.

Compreendo, portanto, quando o autor afirma que este desporto se transformou numa poderosa indústria, já que «tem adeptos, mas também accionistas», já que se joga num estádio, mas a televisão permite que possa ser visto em todo o mundo, em simultâneo. O futebol expandiu, modificou-se, abriu portas e isto não deixa de ser uma resposta a essas alterações, com tudo o que têm de positivo e negativo — mas este cenário não é exclusivo do mundo desportivo, acontece na música, na literatura, nos nossos hobbies.

Tal como na arte, existem momentos em que parece que o futebol pelo futebol já não é suficiente, que é sempre preciso um pouco mais para que subsista. Numa visão idílica, acho que qualquer adepto gostava de sentir que o futebol continua a ser uma forma de entreter quem o vê, sem escândalos, sem fronteiras, sem desigualdades. No fundo, que fosse simples e não um jogo de poder político, que desvirtua a sua verdadeira essência. Ainda assim, por mais que possa ser uma observação ingénua, não creio que se passou de um extremo ao outro, ainda acredito que a magia deste desporto está em campo, na equipa, nas jogadas imprevisíveis, na euforia de um golo que é marcado ao minuto 92.

Por oposição, não me revi no tom fatalista, por vezes condescendente e contraditório, do autor, tão centrado nos números (mais comerciais do que estatísticos). Uma vez que assume a nostalgia do «jogo bonito», de dribles e fintas, em vez de um «sistema táctico rígido e defensivo», esperava um discurso mais emotivo, ainda que não perdesse o lado racional, do jornalista que analisa os factos. Aliás, sinto que seria mais interessante se se tivesse desvinculado dos extremos, visto que os interesses económicos não mudam, por si só, aquilo que é o futebol, visto que apresentar um sistema tático sólido não tem de impedir que exista poesia nas jogadas. Hoje, focamo-nos em aspetos que não eram uma prioridade e, não nos iludamos, há situações que nos desagradam e revoltam, mas nem todas as mudanças implicaram uma perda de identidade: a essência ainda resiste.

Futebol, o Estádio Global foi-se perdendo no seu propósito a partir do momento em que Fernando Sobral afunilou o tema central. Embora crítico do espetáculo de massas, não alargou o debate e teria sido interessante trazer realidades distintas, porque os clubes não lidam todos com o mesmo tipo de adversidades. As vitórias são fundamentais, no entanto, reduzir o futebol a esse fim parece-me distanciá-lo daquilo que é suposto ser: «uma linguagem comum», o espetáculo que faz vibrar multidões. Quando recordamos um jogo, o resultado até pode surgir, mas não sei se essa será a primeira memória ou a que guardamos com fervor: os números acabarão por ficar turvos, com o tempo, mas o voo sobre os centrais, a defesa impossível, os cânticos partilhados com desconhecidos não e isso, sim, é a definição de estádio global, porque há emoções universais, para lá do emblema que apoiamos, que nos deixam apaixonados por aquilo que não se explica.



Cidade Infecta, Teresa Veiga

As personagens comuns, que se confundem com a trivialidade do quotidiano, cativam-me, porque transportam uma essência mais próxima da realidade. Não pretendo que a literatura seja apenas uma representação fiel do que presencio dentro e fora da minha bolha, mas, como sinto que escrever a normalidade não é assim tão simples e intuitivo, gosto de me perder em narrativas que a façam sobressair e que nos permitam reparar noutros ângulos. Era isso que estava à espera de encontrar neste livro de Teresa Veiga.

Cidade Infecta leva-nos para uma cidade do interior, na qual «a vida segue os trilhos da tradição» e cuja tranquilidade dos seus moradores «é violentamente interrompida pelo assassínio de uma mulher». Este cenário sombrio e suspeito povoa as ruas de Oliveira, onde Raquel e Anabela se conhecem num curso de informática. Aparentemente, nada têm em comum, mas a amizade é imediata, movida «por uma determinação férrea em conduzir a vida familiar». Cada vez mais unidas, é quando «estão prestes a desvendar uma à outra os seus segredos mais inconfessáveis» que acontece uma nova tragédia.

A premissa intriga, não só pelo mistério, mas também pelos elementos transversais à vida das protagonistas, o que me deixou a pensar no facto de nenhuma experiência ser individual: podem mudar o contexto e os contornos, no entanto, existem situações que se repetem dentro de várias casas, em simultâneo, sem que nos ocorra. Dito assim, sei que parece que estou apenas a constatar o óbvio, porque nós sabemos a multiplicidade dos casos, podemos não ter o número da porta, mas reconhecemos que não é isolado, só que não ser verbalizado faz com que permaneça invisível. Quando identificamos os mesmos comportamentos, os mesmos padrões, isso pode ajudar a despertar vínculos.

Esta aproximação pelo trauma é capaz de, por um lado, contribuir para ver o problema com clareza, mas, por outro, talvez contribua para que se torne algo maior e sufocante, pela impossibilidade de sair do abismo. E eu fui ficando presa neste limbo, a assistir à mesquinhez dos casamentos, por causa de descrições e não tanto pela narrativa em si, atendendo a que a senti demasiado à superfície, como se não nos pudéssemos demorar.

A leitura avança a bom ritmo, ainda assim, confesso, tive dificuldade em compreender para onde a autora nos queria levar. Creio que Raquel e Anabela espelham a angústia de viver relacionamentos construídos na base da conveniência, da violência, da ofensa, por esse motivo, achei que a amizade entre elas fosse um gatilho de mudança, mas até este ponto central se perdeu, ficando a sensação de que foi somente um pretexto, uma frincha de sol num dia cinzento, para nos iludir. Além disso, não consegui entender a pertinência do assassínio da mulher, porque não tem um impacto substancial na ação.

Parece, inclusive, que o livro é só um conjunto de acontecimentos suspensos, como se a qualquer momento a história fosse começar e adiassem o seu início. Tendo em conta as temáticas e toda a sua potencialidade, há um sabor agridoce a pairar, visto que teria sido mais interessante se tivesse mexido com as nossas emoções de um modo visceral, se tivesse aprofundado as situações e a carga sombria, para não ficarmos dormentes.

Cidade Infecta talvez pretenda demonstrar a sobrevivência, as vidas geridas através dos danos e tudo o que fica pendente perante dilemas diários, que nos obrigam a recuar, a ceder, a desistir, até que tudo se esqueça e fique em silêncio. A história é interessante, mas a concretização não resultou comigo, porque gostava de ter sentido inquietação.



Mau Género, Chloé Cruchaudet

A capa da novela gráfica de Chloé Cruchaudet chamou-me logo à atenção, mas acabei por adiar a leitura. Quando vi que estava disponível na BiblioLED, fiz a reserva e comecei a lê-la no mesmo dia.

Mau Género é inspirado na história verídica de «um desertor que se torna travesti nos loucos anos 1920». Paul e Louise, os protagonistas, conheceram-se, apaixonaram-se, casaram e, depois, tiveram de se separar por causa da Primeira Guerra Mundial. Perante um cenário de profundo terror, Paul «deseja escapar de lá a qualquer custo, acabando por desertar e encontrar a mulher em Paris». Apesar de estar a salvo, permanece condenado a viver «escondido num quarto de hotel».

A estratégia para sair da clandestinidade passa por se vestir de mulher e, quando a amnistia é concedida aos desertores e pode voltar à sua verdadeira identidade, os dramas entre o casal amplificam-se, destacando questões fulcrais sobre sexualidade e identidade de género, mas também sobre os traumas que interferem com todas as dinâmicas individuais e sociais.

A história em si é interessante e bastante angustiante, sobretudo, por sabermos que não é ficção, porque nos deixa a pensar em todas as adaptações que temos de fazer para sobreviver — e o quanto isso pode não ser suficiente, por um lado, devido às marcas profundas provocadas por experiências agressivas e, por outro, por causa de preconceitos demasiado dolorosos. Ainda assim, não me relacionei totalmente com a cadência do texto, porque sinto que houve partes um pouco confusas (ou onde precisava de ter um pouco mais de contexto).



As Vinhas de La Templanza, María Dueñas

Uma nova volta na roleta ditou que eu e a minha amiga Sofia regressássemos a María Dueñas, em julho. Tendo em conta que a autora é espanhola e foi Espanha a ganhar a Copa do Mundo, achei uma coincidência curiosa. Se esse facto e a obra se cruzam por alguma circunstância? Não, de todo, estou só a divagar.

Voltando ao que interessa, As Vinhas de La Templanza é sobre a história de Mauro Larrea, cuja fortuna conquistada graças a «anos de luta e perseverança» se desmorona de repente, obrigando-o a recomeçar, a procurar uma alternativa que o permita reerguer-se. Assim, da Cidade do México até Havana, das Antilhas a Jerez, vê-se num impasse que o cruzará com «minas de prata, intrigas de família, vinhas» e Soledad Montalvo.

Achei a narrativa interessante, até porque levanta questões morais pertinentes e leva-nos a refletir sobre os limites que estamos dispostos a transpor para alcançarmos determinado fim — o que é que legitima o nosso comportamento? — e de que forma usamos as pessoas para nosso proveito. Além disso, tendo em conta o jogo de aparências, também me deixou a pensar nas histórias que não conhecemos dos lugares que habitamos ou por onde passamos. Só não me relacionei totalmente com o livro porque não senti o ritmo entre as diferentes partes equilibrado e o final pareceu-me um pouco apressado, com certas pontas soltas a serem atadas de um modo previsível.

Continuo fascinada com a forma como Dueñas torna as suas personagens tão humanas.



tbr de agosto

Tenho alguns títulos que gostava de ler em agosto, no entanto, como ainda não estou certa da logística do meu mês e quero aproveitá-lo para ver séries e filmes, optei por compilar apenas os livros dos desafios.

  • Descolonizar o Sujeito Poético, Sara Duarte Brandão (alma lusitana);
  • O Dever de Deslumbrar, Filipa Martins (alma lusitana);
  • Alentejo Prometido, Henrique Raposo (ler ffms);
  • A Coisa à Volta do Pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • Poemas Completos, Herberto Helder (12 meses, 12 livros de poesia).


A poesia entrelaça-nos de um modo mais ou menos umbilical, por isso, voltar ao livro de Ana Freitas Reis foi reconhecer que, nesse processo de proximidade, tudo pode ser um recomeço, uma vontade de ir e de explorar a imensidão do que nos é desconhecido.


 reiniciar a travessia

Cordão manifesta a encenação do ato de nascer, uma vez que é um evento inacabado e um (re)início constante da travessia. Assim, concede «espaço à fatalidade da condição de recém-nascida» e estende a fundamental paisagem «a partir da dolorosa viagem do corpo que a há-de desenhar». Nestas páginas, coabitam inquietações e silêncio, entre múltiplas respirações que «suscitam deformação [e o] desdobramento dos percursos».

A palavra vai-se renovando, neste fio que interliga encontros e pulsões, e encaixando diferentes sensações, como se, por nos movimentarmos ao mesmo tempo que a autora, pisássemos territórios amplos, ambíguos e imprevistos; como se, nesta simbiose, nos descobríssemos enquanto a pessoa «que acolhe o mundo» e a pessoa «que o habita». É por esse motivo que «cada verso vai tateando os obstáculos e as alegrias» do processo.

Voltar aqui renovou-me a certeza de que existe um olhar que nos transcende. Através de anseios, memórias e um interessante jogo de palavras, que planta imagens na nossa interpretação, evidencia a liberdade, o assombro de estar viva, o desejo, a melancolia e a necessidade de nos moldarmos àquilo que nos rodeia. Ademais, com um tom quase minimalista, que camufla emoções profundas e as faz ecoar em momentos específicos, expõe as «condicionantes da poesia no feminino» e todas as transformações da mulher.

«Ainda não tinha visto a Primavera cá de casa
No terraço ao lado há uma grande nespereira.
Lembro-me de comer nêsperas e gostar
do sabor meio doce, meio azedo,
e de a minha mãe dizer que as nêsperas
faziam nódoas
Há certas pessoas
que são como as nêsperas que comemos —
não sabemos porque falamos delas
se há toda uma vasta botânica»


Parafraseando uma etapa da sua vida, influenciada pelo nascimento da filha, leva-nos para um universo onde oscilamos entre o que é dito e o que continua oculto, se calhar, para nos fazer refletir sobre a quantidade de sombras presas aos nossos passos, sobre o que não somos capazes de controlar e sobre as sucessivas perdas que sofremos e que podem (ou não) renascer noutras concretizações, dependendo das nossas escolhas ou das circunstâncias. Relacionei-me muito mais com esta segunda leitura, uma vez que entendi que Ana Freitas Reis borda «um estado de alma a um estado de observação».

Cordão intercala poemas mais curtos e mais extensos, mostrando-nos que não existem medidas estanques quando pensamos sobre mudanças, afetos e vivências. Neste «livro-ponto-de-escuta» e caminho, creio que encontramos versos feitos de pessoas: as que o sujeito poético imaginou, as que persistem nas suas lembranças e as que homenageia.


 notas literárias
  • Lido a: 15 de julho
  • Formato de leitura: Físico (releitura)
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 63
  • Banda sonora: Suzanne, Leonard Cohen | Parto Sem Dor, Capicua


A porta do Ramalhete abriu-se, mas não me demorei na visita quando se fechou. Quer dizer, permaneci, descobri relações complexas, segredos e cicatrizes, só que o peso da obrigatoriedade e, sobretudo, a limitação temporal não permitiram que lesse Os Maias com a devida disposição. Anos mais tarde, fiz paragem n’ A Cidade e as Serras, que me mostrou a componente sagaz e irónica da escrita do autor, e, já com outra maturidade literária, voltei à propriedade e perdi-me de amores pela sua história, que oscila entre o esplender e a decadência. Portanto, andava há demasiado tempo a prometer voltar à obra do Eça e, por isso, decidi que seria um dos autores do meu desafio Alma Lusitana.


 o impacto da indiferença

O Primo Basílio faz-nos recuar à Lisboa de finais do século XIX, para conhecermos um modelo de casal burguês: Luísa e Jorge. A dinâmica da casa sofre um revés, quando o marido se vê forçado a partir para o Alentejo, «durante algumas semanas», deixando a Luísa entediada, aborrecida «por estar sozinha em casa», até porque não seria de bom tom receber a sua grande amiga, com um rótulo da sociedade pouco favorável. É com a chegada de Basílio, «que antes de emigrar para o Brasil a cortejara», que tudo muda.

O desfecho é claro desde o início. Aliás, partimos para este enredo a saber tudo aquilo que precisamos sobre a parte central do arco narrativo, mas desconhecemos a maneira como tudo se processará e isso, para mim, é um dos traços mais entusiasmantes desta história, porque parece que estamos a transpor um jogo de sombras, onde tudo nos é dito e, mesmo assim, permanecemos à deriva, expectantes, a entrelaçar pontas soltas. E se existe algo que aprendemos é que as subtilezas escondem camadas profundas.

Inicialmente, há aspetos que vamos decifrando pelo facto de reconhecermos em Eça um olhar incisivo acerca da sociedade, a funcionar como uma denúncia de atitudes questionáveis e das diferenças entre grupos sociais. É importante não esquecermos a época em que se contextualiza a narrativa, com a burguesia a ser a voz mais audível, porque creio que, sem justificar, permite que compreendamos melhor a mentalidade. Além disso, torna ainda mais impressionante a leitura que o autor faz, uma vez que permanece atual e que, através de metáforas provocadoras, desmancha a mediocridade e a pobreza que não se limita à esfera financeira, que engloba valores e emoções. E, pouco a pouco, percebemos que as entrelinhas contam outras ramificações do enredo.

«Estava só; pôs-se a olhar em roda, como idiota. O silêncio da sala parecia-lhe enorme»

A escrita pareceu-me fácil de acompanhar, não só pelo traço visual, mas também pelo tom sarcástico, de quem observa por dentro e leva as incoerências para um lugar mais luminoso. Contudo, fiquei sempre com a impressão de que precisava de ter outra base para compreender os significados de certos detalhes, visto que é uma história cheia de simbolismos. Por esse motivo, decidi fazer a oficina da Bruna Martiolli sobre O Primo Basílio e, assim, chegar às camadas que não decifraria sem ter esta orientação literária.

Não pretendo que todas as minhas leituras sejam feitas nestes moldes, mas senti que esta beneficiaria se o fizesse, porque seria capaz de perceber a amplitude do texto de Eça. As minhas interpretações não estiveram muito longe do que foi abordado, mas é inegável que passaria ao lado de várias referências. Aliás, não teria sensibilidade para reconhecer que certas descrições não são inocentes, que há ali um propósito maior e isso permitiu-me desfrutar melhor da intertextualidade da obra e levantar questões que não me ocorreriam de outra forma. No fundo, desenvolver um olhar mais crítico.

É curioso como este texto se molda em contrastes, como segue diferentes transições e como nos faz pensar naquilo que consideramos natural e naquilo que nos incomoda. À semelhança das obras que influenciam O Primo Basílio, o autor foca-se no adultério, na decadência do casamento e no desejo, abrindo espaço para debatermos a hipocrisia e a fixação pela beleza. Em simultâneo, confronta-nos com a invisibilidade e o jogo de manipulação que vemos a formar-se em várias frentes. Sem querer entrar em detalhes que comprometam a leitura, permitam-me apenas realçar que é o tom de indiferença e a banalidade do quotidiano que mais interferem com a nossa perceção de humanidade.

«(...) Tinham palpitado no mesmo amor, tinham cometido a mesma culpa. — Ele partia alegre, levando as recordações romanescas da aventura; ela ficava, nas amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!»

As personagens, tão comuns, complexas e credíveis, deixaram-me sempre no limbo, já que não me parece fácil empatizar com as suas intenções. Até quando as suas atitudes aparentam vir de um lugar benigno, ficamos de pé atrás, porque são convenientes — e coniventes — com o seu egoísmo. Não obstante, é essa essência ambígua que as torna inebriantes. Irritei-me com o calculismo de Basílio, com a futilidade de Luísa, com o cinismo de Juliana, com o conservadorismo de Jorge e com a necessidade que tinham de se intrometerem na vida uns dos outros, mas elas não são só estas características: escondem camadas de solidão, de revolta, de procura por algo que lhes dê propósito, de tentativas, ainda que questionáveis, para conseguirem melhores condições de vida. Acredito que se ficasse somente pela minha leitura perderia a noção do quanto estas personagens possuem uma dimensão tridimensional, assim pude alargar horizontes.

Outra situação que me deixou apreensiva foi o final: pelo desfecho em si, pelo sufoco, pela obsessão e, uma vez mais, pela indiferença, que vem retirar todas as dúvidas que pudessem existir em relação às personagens — aqui, é como se as máscaras caíssem. Além disso, torna-se evidente o quanto este livro é feito de inúmeros simbolismos, já que Eça não deixa nada ao acaso, antes pelo contrário, tudo encaixa na medida certa.

O Primo Basílio é uma construção narrativa ficcional, sem que perca um traço real. Ao oscilar entre o luxo e a intimidade, entre o paraíso e o terror psicológico, agrega-nos a «uma teia de (…) chantagem e tragédia» e a um ambiente pensado para sentirmos tudo.


 notas literárias
  • Desafio: Alma Lusitana
  • Lido entre: 15 e 19 de junho
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 392
  • Banda sonora: Valsa do Danúbio, Johann Strauss II, David Parry & London Philharmonic Orchestra | Chopin: The Nocturnes, Frédéric Chopin & Maria João Pires


As noites que nos caem por dentro são invisíveis. No máximo, vamos deixando breves indícios dessa escuridão sem, no entanto, revelar o quanto nos podem levar para uma zona de abismo irreversível. No seu mais recente livro, Susana Piedade espelha várias versões destes fragmentos, através de uma narrativa dura, que nos dilacera sem filtros.


 diferentes tipos de perda e desencontros

Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno leva-nos para a Praceta das Tílias, «onde as pessoas mal se veem na azáfama dos dias». Ali, perdidas nos seus próprios problemas, as personagens aparentam estar desligadas, mas é curioso como as histórias se cruzam mais do que aquilo que imaginam: Esmeralda esforça-se por ser «a mãe que lhe faltou em criança» e Teresa, a sua filha, «parece ter tudo para ser uma adolescente feliz»; Ana Lurdes cresce «numa casa onde o amor não entra», Sebastião e Olívia, pai e filha, são o espelho de um luto recente, amparando-se na saudade, e Lúcia vê a sua vida do avesso, quando confrontada com a certeza de «o maior perigo [vir] de onde menos esperava».

É, portanto, dentro de quatro paredes que a narrativa nasce, até porque «ninguém sabe o que acontece na porta ao lado», mas, perante cenários tão turbulentos, cada uma das personagens vai revelando as cicatrizes e os segredos que escondem, incluindo-nos no processo, nos momentos mais delicados e transformadores, que colocam em causa os vínculos afetivos e nos fazem questionar a sua resistência, a sua resiliência. E, uma vez que há perguntas que são caminhos, procuramos percorrê-los com cautela, atendendo a que existe sempre um prenúncio de algo mais, de outra camada sombria a espreitar.

A porta é aberta devagar, afinal, ainda não criamos intimidade, contudo, começamos a sentir o peso daquilo que não vemos à superfície, daquilo que vamos intuindo através de meias palavras, de ações incoerentes, de silêncios prolongados. De um modo subtil, as feridas vão-se insinuando, colando-se à nossa pele, inquietando-nos pela leveza de um início idealizado para nos fazer oscilar, para nos colocar ao lado dos protagonistas, mesmo que não sejamos capazes de entender todas as suas motivações e as suas dores. E, assim, ampliam-se as dúvidas e os receios, visto que não sabemos o que nos espera.

«As pessoas têm um lugar na nossa vida, como as coisas de casa, e se as desarrumarmos talvez nunca mais se ajustem da mesma forma»

Quando dei por isso, já estava completamente entrelaçada na realidade de Esmeralda, de Teresa, de Ana Lurdes, de Sebastião, de Olívia e de Lúcia, consciente de que cada um despertou, em mim, um lado emocional singular. Dentro das suas imperfeições, é percetível a sua humanidade. Aliás, se há algo a que a autora já nos habituou foi à sua forma de narrar assuntos que a apoquentam, resgatando retratos que poderiam ser de pessoas que nos rodeiam — ou, até, nossos. Felizmente, sei que não me revi na maior parte das situações, mas foi impossível ficar indiferente às marcas que (me) deixaram.

À medida que fui avançando na leitura, atando os fios invisíveis que Susana Piedade fez florescer, dei por mim a pensar em Tudo na Natureza Apenas Continua, de Yiyun Li, sobretudo, por causa de uma frase em específico. Num livro tão marcado pela relação entre pais e filhos (em ambos, na realidade), torna-se evidente que existem alturas em que podemos fazer tudo o que é humanamente possível para protegermos os nossos e, ainda assim, haver limites intransponíveis, muros que não conseguimos derrubar. Isso dilacera pela certeza de sermos habitados por um sentimento de impotência, por uma sensação de falha constante. E nenhum rasgo de luz parece ser capaz de o apaziguar.

A fragilidade das personagens, tão exposta no modo como enfrentam os seus traumas, as consequências de escolhas passadas, as expectativas que depositam em si e nos que as rodeiam, encontra colo na escrita da autora, sensível, poética nas passagens certas, sem floreados que desvirtuem o verdadeiro impacto das situações, porque o propósito é fazer-nos sentir, mas sem ter necessidade de enveredar por um tom melodramático. Ademais, sem passos apressados, faz-nos ouvir os silêncios que pairam nas conversas.

«A dor apropriava-se dos espaços onde antes também cabiam coisas boas, crescia desordenadamente até se sobrepor a tudo e fazer crer que não restava mais nada»

Precisei de respirar fundo em vários momentos, porque é ténue a linha que separa a lucidez da autodestruição, porque aquilo que nos mantém à tona consegue ser frágil, porque nem sempre compreendemos o abismo das nossas pessoas e o quão difícil é chegarmos até elas. Se decidirem abraçar esta obra, que aconselho vivamente, façam-no se estiverem num bom espaço mental e emocional, porque é uma história dura e há gatilhos aqui que podem mexer com situações pendentes ou desbloquear inseguranças que julgávamos resolvidas. A Susana Piedade não é gratuita na abordagem, antes pelo contrário, explora os assuntos com o máximo de respeito, mas não suaviza os cenários.

Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno reveste-se de sinais, de diferentes tipos de perda e de desencontros. Num meio onde ninguém se conhece realmente, ficamos a saber de casos de alienação parental, de doença prolongada, de abuso e de violência. Por esse motivo, este livro é plural nas suas dores, quer nas do passado que acabam a condicionar o presente, quer nas do presente que nos acompanham sem data para nos libertarem. Ao refletirmos acerca da possibilidade de nos reconstruirmos ao longo do tempo, torna-se inequívoco que uma simples descoberta estilhaça a nossa harmonia, deixando entreaberta esta porta que nos mantém equidistantes da paz e do precipício.


 notas literárias
  • Lido entre: 11 e 13 de junho
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 208
  • Banda sonora: Iris, Goo Goo Dolls | This Is Me Trying, Taylor Swift | Matilda, Harry Styles | em porta trancada, Maro


O reencontro com Leiria implica sempre um regresso à Livraria Arquivo e, no ano passado, levava um título da Elif Shafak para comprar. Dias depois, rumamos a Bragança e levei-o na mala como leitura extra e porque o queria fotografar no Lago de Sanabria, cuja paisagem e história senti muito alinhadas com aquilo que poderia encontrar no livro. Acabei por não o ler lá e, já de volta a casa, entre narrativas que se foram tornando mais urgentes e um planeamento com bastante antecedência para o desafio literário com a Sofia, adiei-o para 2026. Estas voltas fascinam-me pela imprevisibilidade, mas estava longe de imaginar que poderiam ser um reflexo curioso da transversalidade desta história.


 uma gota a conectar estes mundos

Também Há Rios no Céu leva-nos até à «antiga cidade de Ninive, nas margens do rio Tigre», onde o rei Assurbanípal da Mesopotâmia «construiu uma grande biblioteca que se desmoronaria com o fim do seu reinado». É destas ruinas que surge um poema, a Épica de Gilgameš, e o fio que une três personagens, em três períodos históricos distintos: Arthur (1840), que nasceu em Londres e trabalhou «numa das principais editoras de tipografias de Inglaterra», Narin (2014), uma menina turca de 10 anos que foi «diagnosticada com uma doença rara», e Zaleekbah (2018), uma hidrologista a refazer a sua vida depois de se divorciar.

É, também, um elemento na natureza que cruza as suas vidas, sem que o saibam. Inalterável, resistindo à passagem do tempo, ainda que falemos de séculos, uma gota de água evidencia a importância que este recurso tem para a humanidade, independentemente do seu estado, da sua utilização. Compreender a forma como influencia os protagonistas, como se manifesta nas suas ações e decisões foi uma das partes mais fascinantes da obra.

A estrutura da narrativa não é linear, atendendo a que vamos alternando o ponto de vista e o espaço, mas fez-me todo o sentido a sequência, até porque revela, por um lado, o quanto os mundos de Arthur, de Narin e de Zaleekbah estão conectados e o poder que esse vínculo assume nas entrelinhas, e, por outro, a mestria da autora, porque vai recuperando subtilezas, porque nenhum detalhe é desprovido de simbolismo e porque, com naturalidade, nos implica emocionalmente em cada acontecimento. Elif Shafak sabe para onde nos quer levar e a que ritmo, ampliando as nossas dúvidas, a urgência da descoberta e a vontade de debater certos assuntos.

«Um poema é uma andorinha em voo. É possível observá-la enquanto se guinda no céu infinito, é possível até sentir o vento passar sobre as suas asas, mas nunca se consegue apanhá-la, e muito menos encerrá-la numa gaiola. Os poemas não são de ninguém»

Tal como os rios que se desviam do seu curso e, nessa viagem, alargam os limites temporais, geográficos e identitários, cada uma destas personagens carrega um mundo por dentro, que alberga cicatrizes, injustiças, rasgos de esperança, heranças culturais e perguntas que procuram respostas concretas. Enquanto existem aspetos que tentamos esquecer, pela dor que provocam, a água relembra, porque retém todas estas memórias de sofrimento, amor e resiliência.

Há sempre uma figura de referência, talvez para não nos esquecermos das nossas origens; talvez para ficar claro que nunca estaremos completamente sós na nossa travessia e que, embora possamos transbordar, há uma forma de retomarmos à nascente. Não obstante, também são estas figuras de referência que nos confrontam com a nossa ética, os limites da nossa moralidade e até onde estaremos dispostos a ir para preservarmos aquilo em que acreditamos.

Também Há Rios no Céu comove e revolta com a mesma intensidade. Sem pontas soltas e com uma sensibilidade fascinante para retratar elementos históricos verídicos, é daquelas histórias que nos desarmam, mas que continuarão a ter margem para crescer em nós. A água recorda-se, no entanto, confesso, adorava poder esquecer-me do que li só para voltar a estas páginas e descobri-las com o espanto da primeira vez. Que poema extraordinário!


 notas literárias
  • Desafio: 3 autoras para 2026
  • Lido entre: 7 e 10 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 424
  • Banda sonora: Belonging, Muted | Lull, Vraell & Rosie H Sullivan



As leituras de junho permitiram-me cruzar narrativas como já não fazia há algum tempo, porque houve três que senti complementares, a abordar distintas camadas de um tema comum. Encontrar estas pontes entre livros deixa-me sempre entusiasmada, até porque possibilitam o contacto com perspetivas amplas, que talvez não tivesse sensibilidade para distinguir se isso não se verificasse. Os grandes responsáveis foram Tudo na Natureza Apenas Continua (Yiyun Li), Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno (Susana Piedade) e As Pequenas Chances (Natalia Timerman).

A título de curiosidade, li oito livros (um de poesia, dois de não ficção, quatro romances e um de auto ficção), comprei dois (As Pequenas Chances e o guião do espetáculo O Céu da Língua) e descobri quatro autores novos — Yiyun Li, Ricardo Peixoto, Natalia Timerman e Alex Couto. Os favoritos do mês foram Tudo na Natureza Apenas Continua, Também Há Rios no Céu e Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno.


 entrelinhas de junho


Avós e Netos, Ricardo Peixoto

Os versos «as estrelas são avós/vogando em trenós de prata/lá em cima a velar por nós» povoaram o meu pensamento, assim que defini o livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ler este mês. Uma vez que junho é, para mim, símbolo de família, quis descobrir mais sobre um vínculo tão especial e optei pelo retrato do Ricardo Peixoto.

Avós e Netos é construído a partir «das contradições de muitos estudos existentes sobre [esta] relação (…) para questionar as condições» em que têm sido realizados, bem como «os factores e variáveis privilegiados». Por esse motivo, encontramos o ensaio dividido em três capítulos: o primeiro, focado nas hipóteses que a literatura reconhece como as que mais influenciam esta relação; o segundo, dedicado à análise da perceção que avós e netos têm do seu vínculo familiar e afetivo; o terceiro, pensado para entender a razão pela qual «tantos estudos apresentam resultados tão diversos», quase sem consenso.

É interessante verificar que «os avós e os netos desenvolvem uma relação diferente de todas as outras existentes numa família», talvez por cruzarem uma noção de passado e de presente, talvez por entrelaçarem «juventude e experiência (…) realidade e fantasia», talvez por continuar a existir uma figura de referência que incute responsabilidades e rotinas, mas de um modo mais despreocupado, equilibrando regras e brincadeira. Foi neste último ponto que dei por mim a pensar no quanto isso pode ser uma benção ou um problema, caso não exista uma comunicação franca, sobretudo, entre pais e avós, porque é fácil quebrar o fio educativo que os progenitores tentam construir. O ditado «os pais educam e os avós deseducam» tem o seu tom cómico, mas se não for levado à letra, porque as crianças precisam de estrutura e de uma dinâmica complementar.

Não conheci os meus avôs (o paterno faleceu, salvo erro, quando eu tinha dez meses e o materno faleceu no dia em que fiz quatro anos), mas tive uma relação próxima com as minhas avós (mais com a materna, porque vivíamos com ela), por isso, é curioso ler este livro agora, enquanto adulta que já perdeu todas estas pessoas, e tentar enquadrar as nossas vivências em alguns dos dados apresentados. Além disso, é interessante ver a quantidade de variantes que, sem que nos apercebamos, influenciam estes elos e as repercussões que podem ter. Portanto, é natural que os estudos divirjam, porque nós próprios divergimos: as minhas avós tinham visões semelhantes sobre vários assuntos, mas a mesma situação desencadearia sempre reações diferentes — ainda que, visto de fora, até parecessem iguais. Herdei características distintas de cada uma delas e dei-lhes versões diferentes de mim, porque uma estava comigo todos os dias e a outra via-me quando a íamos visitar. E por mais que isso fosse frequente, «a proximidade física» implicava uma quebra (pouco visível) no que entregávamos a este estreitar de laços.

Os avós têm múltiplos papéis no decorrer do nosso crescimento, porque são mentores, cuidadores, parceiros de brincadeira, porto de abrigo e, até, almas gémeas e esta visão é fascinante pelo que deixa implícito: ao assumirem estas funções, despertam em nós um conjunto de valências afetivas e relacionais que tornaremos transversais noutras relações, independentemente da sua natureza. Esta «transmi[ssão] de ensinamentos», que pode ser mais ou menos consciente, talvez seja uma das heranças mais bonitas.

Avós e Netos é acerca de tudo aquilo que pode aproximar e afastar esta relação, durante várias fases de desenvolvimento, alertando-nos para o quanto esse vínculo é moldado pelas construções sociais, por mudanças pessoais e por dinâmicas particulares, uma vez que também nunca dissociamos o lado emocional do lado racional. Apesar de ter gostado deste retrato, senti que algumas ideias se tornaram um pouco repetitivas — ou que a justificação para determinado aspeto orbitava sempre nos mesmos padrões. Ademais, acho que a obra beneficiaria se trouxesse testemunhos na primeira pessoa.



As Pequenas Chances, Natalia Timerman

O luto será sempre um terreno pantanoso. Talvez nenhuma experiência seja totalmente individual, porque há pontos comuns, há dores que se tornam transversais, há sinais que reconhecemos dentro desse quarto escuro que nos dilacera, mas a verdade é que ninguém vive o luto da mesma forma, porque precisamos de mecanismos diferentes para não descermos ao abismo ou para assumirmos que ficaremos por lá indefinidamente. E ler o livro da Natalia Timerman corroborou esta perceção. 

As Pequenas Chances é um romance de auto ficção «sobre o luto de uma filha após a morte do pai». À espera do seu voo, a narradora «cruza-se no aeroporto com o médico de cuidados paliativos que acompanhou o seu pai nos últimos tempos de vida». É este encontro inesperado que recupera memórias, «o assombro do tempo, a saudade» e todas as inquietações que a revestiram durante esse período de declínio, de tristeza, de oscilação.

Fartei-me de sublinhar passagens, sobretudo, das duas primeiras partes, porque me revi naqueles pensamentos, na sensação de vazio, na injustiça que nos ferve por dentro, mas também na tentativa constante de não ferir a figura paterna (neste caso) com um tom de mágoa, como se tudo o que se viveu antes não tivesse acontecido e não tivesse sido feliz. Sinto que este limbo será sempre estranho e difícil de gerir, mas, tendo em conta que é «uma história sobre vida, sobre estarmos aqui, mais sobre o que fica do que sobre o que passa», encontramos um discurso muito terno e lúcido, que nos mostra que o legado permanece.

As Pequenas Chances é um retrato bastante emocional e próximo, entre um processo longo de cuidados paliativos e os lugares que contam a história das nossas pessoas (incluindo a nossa). Confesso que dispensava a terceira parte, não porque não seja valiosa, mas por sentir que ficou um pouco desconexa das anteriores, ainda assim, não me esquecerei deste livro.



Sinais de Fumo, Alex Couto

Os últimos dias de junho estavam a pedir uma leitura menos densa, até porque vinha de algumas dentro do mesmo tema — luto — e precisava de uma narrativa diferente. Por esse motivo, arrisquei no livro do Alex Couto, que já queria ter lido o ano passado.

Sinais de Fumo leva-nos para «um dos bairros mais problemáticos de Setúbal», o Bairro do Viso, durante o tempo da Troika, quando este «se vê sem fornecimento de cannabis e derivados». O que aparentava ser uma situação complexa, revelou-se, pelo contrário, uma oportunidade de negócio, porque um grupo de amigos decidiu criar uma startup, a Green, com o intuito de ser ele a fornecer a erva na iminência de não chegar. Esta visão empreendedora, ainda assim, teve de enfrentar várias complicações e dilemas morais.

O enredo acompanha os protagonistas, mas fascina-me que um lugar seja capaz de ser tão central nas ações, como se fosse uma personagem e a sua identidade fosse uma voz de comando. Aliás, acredito que uma das reflexões mais pertinentes da obra é sobre o impacto que o sítio onde nascemos tem no nosso futuro, na pessoa que nos tornamos. As nossas decisões também se moldam nessas circunstâncias, mesmo que não seja de um modo consciente, uma vez que fazemos parte daquele contexto. Isso não significa que não seja possível alcançar novos horizontes, porém, há marcas que permanecem.

Admito que estava um pouco reticente com a abordagem, porque sinto que é fácil cair em descrições estereotipadas, redutoras, mas a construção inicial da narrativa e, até, a linguagem utilizada desfizeram esse receio: sem a revestir de lugares comuns, o autor tornou a história próxima, facilmente reconhecida, mas sem dar a entender que só há aquele caminho, aquele fim. É certo que algumas vivências se repetem, pelo contexto ou apesar dele, mas não é algo que se verifique como linear, muito menos inflexível.

Outro aspeto valioso é o tom crítico que o texto assume. Através destes protagonistas, a debaterem-se com questões de identidade, relacionamentos disfuncionais, dúvidas e períodos de solidão, mostra-nos que existem movimentações duvidosas, de profundo aproveitamento político, porque nem sempre há sentido de honra e o grupo acabará por perceber isso no meio de todo o fumo que lhes tolda o discernimento — mas que, de certa maneira, os deixa alerta para certos detalhes e jogadas turvas. Portanto, este livro é feito de simbolismos, sobretudo, quando nos parece que há partilhas inocentes.

Sinais de Fumo, apesar do seu caráter próximo e de trazer temas tão importantes para a discussão, não me prendeu totalmente, talvez por ter sentido que se alongou em partes menos relevantes e pela reta final da narrativa um pouco confusa. Não obstante, vale por todas as reflexões e por nos fazer pensar na necessidade de termos um propósito. Via este enredo a sair do papel para o ecrã, porque a escrita do autor é muito visual. 



 tbr de julho
  • Cidade Infecta, Teresa Veiga (alma lusitana);
  • As Vinhas de La Templanza, María Dueñas (3 autoras para 2026);
  • O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral (12 meses, 12 livros de poesia);
  • Benjamim, Chico Buarque;
  • Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral (ler ffms).
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