Entre Margens



Um dos meus traços de personalidade é (tentar) encontrar sempre um ângulo cómico nas situações menos leves, talvez na tentativa de lhes retirar o peso que possam ter e, dessa forma, ser capaz de me gerir emocionalmente. Neste sentido, brinco muito com o facto de a minha memória ser péssima, mas depois, refletindo com cuidado, sei que me assusta a possibilidade de, no futuro, isso representar algo sério, com implicações para quem me rodeia. E no livro da Rute Simões Ribeiro regressei a essa sombra.


 o terreno pantanoso da memória

O Homem Sem Mim intercala uma certa névoa com fragmentos de lucidez, isto porque retrata a vida de João, um carpinteiro septuagenário «diagnosticado com a doença de Alzheimer». É Carminho, esposa e fortaleza do narrador-personagem, que conduz os seus passos, sendo «surpreendida por uma versão passada do marido a cada novo dia».

Os capítulos são curtos e creio que essa abordagem evidencia o quanto é breve o fluxo da lembrança, o quanto é frágil o nosso património mnésico e, por isso, sabendo que é fundamental para construirmos a nossa história e identidade, também sentimos que é tudo ténue e oscilamos nesse terreno pantanoso. Além disso, sendo honesta, sinto que tornou a leitura um pouco mais angustiante, por ser tão evidente a fragilidade humana.

O quotidiano deste homem comoveu-me pela necessidade de fazer um luto constante à pessoa que foi/que era e pela «cisão entre sujeito e corpo», como se fossem dois seres independentes, desconexos, num permanente desencontro. Numa rotina imprevisível, foi a forma como a autora descreveu cada momento que me impactou, porque trouxe um tom lírico, mas sem camuflar a mágoa, a frustração, a sensação de perda e, até, a vontade de desmoronar. E, confesso, desmoronei em algumas passagens: pela dureza, mas, sobretudo, pela sensibilidade e pela dignidade com que retratou o protagonista.

«A minha mulher é casa, é edifício, é tudo que é permanente. Ela fica. Eu vou. Eu não dou conta da partida, ela vê-me todo o caminho»

Avançamos neste livro conscientes de que é uma doença que corrói e que deixa tudo fora do lugar, que os dias se sucedem, no entanto, as memórias podem não pertencer exatamente àquela janela temporal. No fundo, sentimo-nos dentro de um labirinto, a afastarmo-nos do mundo exterior, porque a aparente normalidade vivida por João e pela sua família não deixa de ser ilusória, destoando do presente, do que permanece.

Por outro lado, é uma história que torna visível o cuidador, o amor que resiste a todas as privações e ausências. Embora seja escrita na primeira pessoa, ao inferirmos aquilo que Carminho e os filhos passam, percebemos que «o tecido afetivo [é] abalado» e que há uma camada a complexificar estas relações, porque tudo fica intermitente. Sofrem em silêncio, mas João percebe, mesmo que seja por pouco tempo. Existe tristeza e, no entanto, é como se se tornassem mais ágeis a encontrar pontos de luz — e de fuga —, para que o agora não se sustente só em areias movediças, desequilibrando o futuro.

O Homem Sem Mim é uma viagem íntima, é uma conversa entre o protagonista e as diferentes versões que, sem controlar, o compõem, que desfazem a sua identidade e a reorganizam, fazendo da memória um lugar turvo, estilhaçado, mas ainda a subsistir.


 notas literárias
  • Desafio: Alma Lusitana
  • Lido a: 6 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Banda sonora: Baile de São Simão, Os Quatro e Meia | Restolho, Mafalda Veiga



A voz de Sérgio Godinho, em Lisboa Que Amanhece, ecoa pela casa sem que identifique o cenário de imediato, mas a tentar transportá-lo para a minha realidade, vendo na sua sombra não o Tejo, mas um Douro onde até a neblina se reveste como se fosse um poema.

Em sonhos, é sabido, não se morre parece encerrar em si um prenúncio, um murmúrio que repetimos até nos convencermos da sua verdade, trazendo conforto e esperança. E, já que estamos a salvo nos nossos sonhos, porque não fazer deles um impulso que nos deixe menos à deriva, mais perto de quem somos?

O xtinto fez isso, depois de ver «pairar sobre [si] uma nuvem densa que [o] empurrava para fora do [seu] sonho». Entre a vontade de desistir e de procurar «outro ofício», também a história do artista de Ourém me deixou a pensar em todas as vezes que esmorecemos, sem anúncio prévio, porque parece existir algo a quebrar o encanto, «o sentimento basilar»; porque parece que aquilo que se torna maior é a profissionalização, o lado burocrático — se o posso colocar nestes termos —, obrigando-nos a focar em tudo menos na arte pela arte. E, por vezes, é difícil sair desse lugar, dessa espiral cheia de névoa.

Este álbum nasce como resposta ao reencontro com a música, ao reapaixonar-se por ela, abraçando uma metamorfose que apurou, ainda mais, a forma como observa o mundo. Naturalmente, há particularidades que não saberia se não o lesse em entrevistas (e na edição especial do disco), no entanto, é maravilhoso perceber aquilo que despertou essa reaproximação, que tanto pode ser o acorde de uma guitarra, como a voz de um artista amigo. Por isso é que acho tão inspirador partilharmos e conversarmos sobre as nossas paixões, sobretudo pelo brilho que nos provocam, porque alargam horizontes, porque nos trazem novas perspetivas, porque nos convidam a olhar para algo que esteve sempre à nossa frente, mas com o qual nos precisamos de alinhar, quase como se déssemos um passo atrás para ganhar balanço.

Divagações à parte, uma característica que sempre me impressionou no xtinto foi a capacidade para brincar com as palavras, para as desconstruir, levando-nos numa viagem auditiva que é imagem de marca e que amplia a versatilidade da nossa língua. Aqui, encontramos essa abordagem, mas acho que é percetível que a amadureceu, que essa vertente abriu espaço para que «a escrita se pareça com o diálogo que [teria] a falar com alguém». E a verdade é que este álbum conversou bastante comigo.

Sem nos apropriarmos das suas experiências, fragilidades e emoções, sinto que há uma linha transversal onde nos conseguimos rever, porque todos nós já sofremos por amor, desamor e saudades; porque todos nós já tivemos dúvidas, quisemos desistir, ficamos presos nos mesmos pensamentos; porque, ainda que de maneiras distintas, encontramos conforto nas nossas raízes, nos amigos, na família. Creio, portanto, que este álbum é sobre todos os lugares — físicos e íntimos — onde regressamos, nos fixamos e renascemos.

Em sonhos, é sabido, não se morre cativou-me, também, pela coesão entre faixas, pela parte instrumental que as funde, sem que percam identidade e autonomia, pelo som das guitarras e pelo saxofone (que momento precioso). E, claro, sendo o xtinto um homem de palavras, «que abraça as melodias sem nunca descurar o texto», com a ponta da caneta sempre afiada, deixou-me a orbitar em versos como tão a ganhar força onde eu não vi verdade (Dividir), eu guardo-te o teu espaço no meu colo (Sofá), se eu só sei ser sozinho deixa-me estar/a sós a dar abrigo ao mau estar (Tempestade), mas basta olhares por mim a dentro para veres que moro só (Fora d'Horas), mas tu sabias ser melhor que a solidão então ficaste (Vento) e o que faz falta a esta cidade/são os teus olhos sobre ela (Cidade) — aliás, foram estes dois últimos versos que espoletaram a publicação para celebrar o Dia Mundial da Poesia: Versos que gostava de ter escrito.

Oscilando entre um tom mais emocional e um tom mais ousado, agrupando utopias/ideias coletivas e individuais, o álbum também adquire força na simbiose com os artistas convidados. E achei particularmente interessante ver que a parte do ed une várias músicas. Admito que posso estar a ver coisas onde não existem, mas senti que nos seus versos, para além da Sofá, encontramos a Vento, a Tempestade, a Nunca Mais e, até a Fora d'Horas. Esta capacidade de ter as músicas a conversarem entre si é outro dos aspetos que me entusiasma neste trabalho.

Em sonhos, é sabido, não se morre é, talvez, sobre ficar em «silêncio numa casa barulhenta», combater a inércia, lutar contra os nossos fantasmas e as nuvens que vão pairando; é sobre ver beleza onde mais ninguém a reconhece. Agora que sabe «que o sonho é bem maior do que [ele]», só espero que o xtinto continue a sonhar cada vez mais alto. Este álbum é uma excelente profecia.



A figura de Maria Teresa Horta é incontornável. Primeiro, conheci-a através do olhar de terceiros e das lutas que a moviam — e das quais, enquanto mulher, eu acabava por beneficiar — e não tanto pela sua obra. Isso fi-lo depois, fascinada pela possibilidade que as suas palavras pareciam acolher. Mas parti nessa missão de um modo comedido, porque ainda acalento a esperança de ver a sua poesia compilada num único exemplar.

Não tenho o hábito de ler biografias, no entanto, prefiro lê-las com um pouco mais de conhecimento acerca dos livros do respetivo autor antes de mergulhar na sua vida, nos traços de personalidade que podem não ser tão evidentes. Só que, neste caso, senti que não seria possível adiar mais e o livro da Patrícia Reis veio comigo da última edição da Feira do Livro do Porto, com o propósito de o deixar para março: tendo em conta tudo o que se celebra este mês, pareceu-me adequado — mas abril também assentaria bem.


 reivindicar a liberdade

A Desobediente, mais do que construir um retrato sobre Maria Teresa Horta, permite-nos conhecer Teresinha, filha de um prestigiado médico de Lisboa e de uma mulher «descendente dos marqueses de Alorna». E esta referência é importante, porque fica claro que a infância e a adolescência da poetisa são peças centrais da sua história, «à beira do abismo», marcada pelas cicatrizes da dor e do abandono. Assim, avancei na leitura consciente de que essas duas partes seriam as mais desenvolvidas: por um lado, achei interessante, já que permitem compreender os ideais que começou a cimentar desde muito nova, mas, por outro, fiquei com uma sensação agridoce, uma vez que gostava de ter acesso a uma abordagem mais sólida da idade adulta e de determinados acontecimentos — pessoais, sociais e profissionais — que se revelaram formadores.

A menina que encontrou nas palavras uma forma de se expressar, de se encontrar, de fazer prevalecer as suas lutas floresceu, ainda que tivesse havido alturas em que não podia fazer mais do que sobreviver. Porém, um aspeto que achei fascinante é que em nenhum momento se tornou amarga. Talvez tenha perdido a esperança, talvez tenha olhado em frente com dúvidas e hesitações, como todos nós, em alguma ocasião, mas há uma inocência e uma generosidade que parecem ter quebrado a inevitabilidade de um coração pouco disponível. Quis abraçar Maria Teresa Horta em várias passagens destas conversas, porque foi demasiado sofrimento para uma pessoa só, mas também sorri pela força com que defendeu cada uma das suas decisões, pela capacidade de se manter fiel aos seus princípios, apesar dos dissabores que isso lhe possa ter trazido.

É neste ritmo oscilante, por vezes frenético, de uma vida tão cheia de acontecimentos, de convívios, de interações com pessoas do meio literário e político, que vemos a sua voz ativista cada vez mais audível, rejeitando qualquer tipo de submissão. Deste modo, em simultâneo, é impressionante como a história desta mulher agrega a vida de tantos de nós e, acima de tudo, permite traçar um retrato esclarecedor do que se passava em Portugal, sobretudo no que diz respeito aos anos da ditadura, às perseguições da PIDE e ao 25 de abril. A sua história não é indissociável do contexto histórico do país, até porque as suas movimentações contribuíram, e muito, para influenciar o seu curso.

«Para trabalhar o poema, partir do coração do poema para uma versão final, a Teresa escreve à mão, depois transcreve o poema e nesse exercício de fixação existem outras possibilidades criativas, o poema fala-lhe de outra forma em letra impressa»

Assim, não deixa de ser curioso que alguém com tanta expressão na sociedade tenha ficado, gradualmente, invisível, que os prémios e as menções tenham chegado tarde, que o seu feminismo tenha provocado tanta inquietação e, por isso mesmo, tenham encontrado uma forma subtil de a ir afastando. De facto, a arte — e a arte criada por mulheres — pode ser perigosa para aqueles que nos pretendem calados, a colaborar.

Já me tinham alertado que esta biografia se lia como um romance e acredito que, em parte, isso se deve à intimidade entre a poetisa e Patrícia Reis, porque é uma partilha franca, sem pruídos, onde só acedem aqueles em quem confiamos. Gostei muito deste tom, porque acho que humaniza as vivências, aproximando-nos do seu real impacto. Não obstante, devo confessar que não adorei a maneira como alguns capítulos foram construídos, porque senti que o fio condutor foi quebrado em partes chave, nas quais seria necessário abrandar e explorar melhor a situação, em vez de haver repetições ou um foco em detalhes que não me pareceram relevantes. Se isso interfere com a fluidez da leitura? Não creio, contudo, o texto beneficiaria mais com essa coesão e equilíbrio.

A Desobediente abre-nos a porta para um lugar íntimo, sem que haja, aqui, qualquer tentativa de esmiuçar a sua vida de forma gratuita. Pelo contrário, evidencia toda a dignidade que guiou o percurso de Maria Teresa Horta, a sua arte, as suas causas. E o mais interessante é perceber que, apesar de conhecermos tanto da mulher e da obra, há partes que permanecem ocultas. A poetisa abraçou diferentes facetas, tão únicas e tão complementares, mas talvez a liberdade seja o elo que as interliga a todas, porque a reivindicou sempre, mesmo quando tentaram impedir que a plantasse em todos nós.


 notas literárias
  • Lido entre: 24 e 29 de março
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Tous Les Garçons et Les Filles, Françoise Hardy | A Solidão da Mulher e Mulheres Guerrilheiras, Tereza Paula Brito



A imagem de remendos de papel anotados, com frases, pensamentos, ideias para o futuro, traz um um toque romântico ao processo criativo, sempre tão caótico e tão fascinante, permanente antítese de estados de alma.

A minha secretária sempre foi organizada dentro da sua desorganização, espelho convicto dos fios invisíveis que florescem entre temas, entre fragmentos que não quero perder, entre tudo o que possa auxiliar a minha escrita. Com o tempo, passei a procurar um cenário menos confuso visualmente e passei a ter essas ideias espalhadas noutros lugares: na agenda, em páginas do notion, em monólogos no whatsapp. E, claro, como seres autónomos, sobrevivem sem precisarem da minha aprovação, da minha rega constante, da minha supervisão, podendo ficar descansada, porque sei sempre onde as encontrar.

Inspirada por Carlos Ruiz Zafón, que me abriu a porta do Cemitério dos Livros Esquecidos, percebi, dentro de um contexto muito mais humilde, que estava a compilar material para o meu próprio universo mágico, paralelo, não com obras literárias, mas com publicações que ficaram apenas a existir nestas plataformas, anonimamente.

Sei de onde vieram a maior parte das ideias, a intenção com que as anotei, a vontade de as tirar da gaveta... mas foram permanecendo ocultas, paradas no mesmo lugar: algumas porque deixaram de fazer sentido (apenas não as quis eliminar), algumas porque percebi que não tinha assim tanto a desenvolver, algumas (poucas) porque ainda havia esperança para as recuperar. Às vezes, quando a inspiração oscila, volto ali para perceber se algum dos tópicos me impulsiona a escrever, contudo, faço o caminho inverso com folhas em branco. Talvez um dia.

Ter uma espécie de banco de ideias traz-me um certo conforto, por um lado, porque continua a ser um sinal concreto do quanto esta casa digital me faz sentido e, por outro, porque é a desculpa perfeita para continuar entre palavras escritas. No fundo, sinto que estou a amealhar possibilidades dentro da possibilidade maior que é criar.

Como não sei quando, ou se, irei desenvolver os temas acumulados, quis agrupá-los por aqui. Assim, sejam bem-vindos ao meu Cemitério das Publicações Perdidas.


 o cemitério das publicações perdidas


ter ou não ter rubricas no blogue
Apontei esta a partir de uma pergunta que me fizeram, há uns anos, com o intuito de refletir sobre o facto de ajudarem ou condicionarem a criatividade. Uma vez que fiquei a boiar num depende, deixei de ter o impulso para algo longo: em parte, acho que as rubricas nos ajudam a cimentar a identidade dos nossos projetos, espelhando aquilo que poderão ser; em parte, sinto que podem afunilar tanto o nosso conteúdo, que ficamos apenas numa bolha pouco curiosa para explorar novos horizontes. Pender para um dos lados dependerá sempre do nosso propósito, do quanto nos colocamos inteiros — e esta abordagem pode mudar consoante a fase da vida em que estamos.

os palavrões: desrespeito ou meras expressões?
Há quem adore, há quem repudie o seu uso. Eu, nascida e criada numa das margens do Douro, sempre os encarei como advérbios de intensidade. Claro que tudo tem o seu momento, o seu contexto e, dependendo do modo como são utilizados, rapidamente escalam de uma expressão inocente para uma afronta, no entanto, partindo de um cenário consciente, que não pisa limites, não há advérbios mais satisfatórios do que estes, aos quais recorro com regularidade, sem culpas.

No meu whatsapp, tinha começado o texto assim: Não me refiro a palavras grandes, mas ao vernáculo que ofende sempre um grupo muito específico de pessoas, como se dizer palavrões fosse repugnável ou nos tornasse criminosos — a quantidade de bem falantes que andam por aí a estragar a vida de terceiros é que as deveria preocupar, mas isso não é assunto para agora. Um bom palavrão, dito no momento certo, é libertador. E é por isso que não confio em quem afirma que não os pronuncia. Nem quando batem com o mindinho num móvel? Psicopatas! Foda-se e filha da putice estão no topo das minhas preferências. Mas também não fecho a porta a um caralho. É preciso interpretar a energia e ver o que encaixa melhor. A parte engraçada da questão é que só digo palavrões entre amigos. Com os meus pais e restante família não. E é isto que me fascina, porque somos pessoas dadas à arte do vernáculo. Não em demasia, mas com a utilidade que o palavrão tem: pontuar frases (a partir daqui ficou vazio).

os meus anticorpos
Na realidade, é só um: brincar com os assuntos. Sempre senti que o riso era um aliado de peso para iluminar zonas cinzentas, por vezes sombrias. Encontrar o ângulo cómico de cada situação sempre foi a minha forma de estar na vida, mas sem que isso me impedisse de as sentir, apenas com a intenção de não me afundar nelas, porque haveria uma forma para as ultrapassar.

falar em voz alta os assuntos que nos incomodam/inquietam
Como nem sempre o faço, achei que seria hipócrita da minha parte avançar com um texto destes. Um dia, quem sabe, volto aqui.

a literatura como lazer ou como impulso de mudança?
Pode ser ambos, por isso, deixou de ser uma questão. Aliás, até acho que este tópico se interliga a outro que anotei, também em modo de pergunta: será que todos os conteúdos têm de ser educativos? Todos temos responsabilidade social e as nossas escolhas, ainda que inconscientemente, refletem isso mesmo. No entanto, isso não tem de eliminar um dos lados da equação: posso ler por prazer ou para aprender/provocar mudanças internas; posso consumir ou criar conteúdo educativo ou que não passe de entretenimento. Ambos são válidos, ambos nos acrescentam, o importante é encontrarmos o nosso equilíbrio.

campa literária
Os tópicos dentro deste universo são em maior quantidade, por isso, achei que os podia compilar no mesmo parágrafo: é que deixar livros a meio deixou de ser um problema, as metas literárias, para mim, sempre foram uma fonte de motivação e não de pressão, lidar com críticas negativas aos livros que adoramos faz parte do processo (e escolher não as ler é válido/aceitável/uma excelente decisão) e a minha estratégia para manter a pilha de livros por ler controlada passou por, simplesmente, saber que não tenho de comprar tudo para ontem, que priorizar os títulos já adquiridos não quebra o mundo encantado das possibilidades — e como já tenho uma publicação sobre ser mais consciente na hora de comprar livros, senti que não valia a pena voltar a este tema. Quanto aos outros, não queria que os textos viessem com um tom condescendente, como se quisesse dar uma lição de moral, porque a minha intenção nunca foi essa. Uma vez que não tenho uma conclusão brilhante para acrescentar a tudo o que já foi dito, preferi remetê-los ao silêncio.

publicar todos os dias ou dosear as publicações
Na qualidade de pessoa que já publicou todos os dias, durante alguns anos, e que, agora, doseia este calendário de conteúdos, volto a socorrer-me do depende, porque haverá alturas para tudo, porque a nossa vontade pode pender mais para uma das opções, porque podemos querer desafiar-nos ou sentir que precisamos de abrandar. Os motivos podem ser variados, sem grande ciência que nos obrigue a explicá-los detalhadamente.

será que queremos ou não queremos mesmo uma coisa?
Joana Bértholo, no seu A História de Roma, e Ana Pessoa, no seu Desvio, abriram a porta para uma questão que me ficou a ecoar por dentro, porque existem alturas em que dizemos/fazemos algo, mas, depois, questionamo-nos se isso partiu mesmo de nós ou se, inconscientemente, reagimos a um estímulo de terceiros — será que eu quero mesmo ser mãe? será que quero mesmo não ser? será que a minha resposta não passa de um contra a uma ideia enraizada pela sociedade? Como não cheguei a um consenso para desenvolver, este tópico ficou perdido.

a necessidade de tudo ter significado
E tem, mas sinto que a obsessão para que tudo tenha um significado profundo, transcendente, tem escalado. Às vezes um só porque sim é significado suficiente. Pronto, era só isto que tinha para dizer.

vidas pinterest
Não preciso de ver pessoas a chorar na internet para saber que sofrem e que a vida consegue ser uma filha da putice, nem preciso que deixem de filtrar aquilo que partilham. Aliás, percebo perfeitamente que queiram fazer das suas redes um refúgio, um álbum de boas memórias (também o faço). Preciso, isso sim, é que diminuam o tom de vidas pinterest e parem de romantizar atrasos, falta de tempo, exaustão, ausência, dor, a falta de limites.

ideias de wc
Se vocês soubessem a quantidade de textos que já desbloqueei só com uma ida à casa de banho! Não sei que fenómeno é este, mas será que resultava ter um caderno e uma caneta nesta divisão da casa ou ia acabar por dar ao mesmo? Será que é a mudança de espaço que influencia a fluidez? 



Um dia como qualquer outro e ocorreu-me que devia começar um diário. Diário talvez não seja o termo correto, mas irei apropriar-me dele só pelo lado prático de ter um espaço concreto onde anotar o momento exato em que comecei a ouvir determinado artista — e que música é que me abriu esse caminho —, para ter sempre presente que fases da minha vida é que acompanhou e/ou quais é que uniu através de fios invisíveis. Por outro lado, a magia talvez esteja em não decorar, em fazer o exercício de tentar regressar a esse momento, a saber, simplesmente, que o nosso caminho se cruzou com aquele artista e ele foi ficando.

Isso aconteceu-me com o Dengaz. Sem certezas inalteráveis, creio que foi Rainha o primeiro contacto e, a partir daí, fui regressando sempre que lançou algo novo, até se tornar daqueles nomes insubstituíveis na minha playlist. Por isso, não é de admirar que o hiato entre o seu último trabalho e o mais recente tenha deixado um vazio, uma sensação de orfandade, ainda que esta designação soe exagerada, já que não deixei de ter as suas músicas para escutar. Sinto, no entanto, que isto é uma consequência de querermos acompanhar a evolução do artista, de querermos perceber como é que a sua música representa a pessoa em que se vai transformando. Não obstante, dez anos de intervalo podem trazer uma maturidade diferente, que não seria descoberta sem esta espécie de silêncio.

No meio destes pensamentos, dei por mim a divagar por outro aspeto: a importância de vermos os artistas a respeitarem o seu tempo, a não cederem a pressões externas, a permitirem-se parar ou, então, a continuarem a trabalhar longe dos holofotes, redescobrindo-se, reinventando-se. Claro que isso não é um privilégio transversal a todos, claro que esse afastamento pode não ser intencional, mas forçado por uma infinidade de camadas complexas, ainda assim, é bom sentir que, neste caso concreto, não houve pressa e que, independentemente dos motivos, não se perdeu o mais importante, demonstrando um profundo respeito pela sua arte, pela sua identidade e pelo seu público. Se calhar, o regresso adquire outro brilho por causa disso.

Não escondo, contudo, que sentia falta de novidades do Dengaz, de mergulhar numa discografia longa, com várias ramificações. E, na primeira sexta-feira de fevereiro, com O Que Não se Vê é Eterno em repetição, até consegui sentir o sol do lado de fora da janela.


 focar no mais importante

O Que Não se Vê é Eterno deixou-me logo a pensar no título, porque o significado parece ser amplo e, ao mesmo tempo, muito claro, direto à mensagem. No fundo, são estas subtilezas que nos agregam, que fomentam os nossos laços, que trazem propósito à nossa jornada e não precisam de ser visíveis de um modo público, basta que sejam evidentes para nós, orientando o percurso.

Às vezes, é preciso afastar para entender melhor e foi isso que o Dengaz fez: afastou-se para descobrir aquilo que o entusiasma, o tipo de música que quer continuar a fazer e acho que se sente neste álbum o pulsar de algo novo, ainda que converse com trabalhos anteriores. Aliás, depois da primeira audição, senti que podíamos estabelecer uma correspondência direta entre as canções deste disco e das do Para Sempre, como se víssemos um antes e um depois, um crescimento inevitável e comovente.

É nesta dualidade que, acredito, também descobrimos um lado mais vulnerável e intimista do artista. Ao encerrar um ciclo, avançando para uma nova fase, permitiu-se explorar diferentes sonoridades e inspirações, sem se limitar. Acho mesmo que esta cadência musical — e o próprio alinhamento do álbum — espelham uma maior liberdade criativa, priorizando a vontade «de fazer a música que quer ouvir».

Outro aspeto interessante de O Que Não se Vê é Eterno é o facto de se dividir em dois planos, tanto nas melodias, como na estética, recuperando a energia do Brasil e a do Japão, tão influentes no processo de construção do disco. Como o Dengaz referiu em entrevista, queria incluir, por um lado, algo mais orgânico, «com aquelas guitarras acústicas (...) aquele samba antigo e triste» e, por outro, um traço «mais noturno, com luzes e BPM mais acelerados». A forma natural e coesa como conseguiu articular estas duas visões é, para mim, o culminar de uma jornada de autodescoberta, onde se torna quase palpável a sua metamorfose e maturidade emocional.

É notório que chegou a lugares diferentes, que há subtilezas aqui que reconhecemos de outras viagens, porque continuam a ser parte de si, mas este equilíbrio entre quem foi e quem é evidencia o salto artístico que deu. Recuou, continuou a criar sem lançar e voltou com uma consciência ainda maior. Por isso é que O Que Não se Vê é Eterno é, em simultâneo, inovador e familiar: porque compreendeu que é possível desbravar novas rotas sem largar a mão daquilo que, mesmo invisível, por toda a importância que tem, nos permite permanecer no nosso lado certo.



A nossa história é feita de fragmentos: dos que colhemos através de fios invisíveis, dos que se renovam, dos que nos deixam menos inteiros, a lamber as feridas. Por isso, nem sempre queremos regressar onde deixamos partes de nós, porque nos libertamos dessa bagagem, encontrando-nos noutros lugares, noutras pessoas, noutras formas de estar na vida. Talvez fosse bom voltar para colar, para fazer as pazes com o que se quebrou, para sentir que há algo a florescer da sombra. Ou talvez só precisemos de fechar tudo em caixas. Foi por estes pensamentos que deambulei no livro de Isabela Figueiredo.


 uma aparente invisibilidade

Um Cão no Meio do Caminho transporta-nos para «as histórias de um homem e de uma mulher que sofrem, cada um à sua maneira, um dos grandes males da vida moderna: a solidão». Embora não tenha sido uma escolha completamente intencional, mas, antes, uma maneira de responderem «aos violentos acidentes com que a vida os agrediu», os dois protagonistas aprenderam a recusar a violência e a construir os seus percursos de acordo com as suas convicções. Vizinhos, José Viriato e Beatriz cruzaram-se por acaso e a narrativa cresceu a partir desse encontro, fazendo-nos questionar aquilo que pode acontecer «quando se juntam duas solidões» — e o simbolismo que o cão tem aqui.

A aparente invisibilidade das personagens cativou-me, uma vez que, sem heroísmos, é uma abordagem que nos permite ver até onde o lado mundano, transversal a tantos de nós, escala, o que oculta, de quantas ramificações se constrói sem que se perceba. Por outro lado, cativou-me pelo contraste, pela sensação que deixa em relação a essa falsa invisibilidade: é que ela parece existir, primeiro, porque a sociedade ainda ofusca tudo o que fuja dos padrões considerados como norma e, segundo, porque se torna menos angustiante lidar com expectativas alheias se nos isolarmos na nossa bolha, vivendo só ao nosso ritmo, cada vez menos preocupados com os rótulos que nos poderão atribuir.

É nesse limbo, entre causa e consequência, entre os comportamentos que moldam as nossas reações, que vamos descobrindo o passado de José e de Beatriz. Recorrendo a analepses, fica evidente que nenhum deles pretende obter qualquer tipo de aprovação por parte do meio onde se inserem, mas que todos nós, em algum momento da nossa vida, precisamos de ser ouvidos, precisamos de conversar, de exteriorizar, de largar o que nos prende e nos mantém reféns de memórias dolorosas. Visto que não procuram dar grande confiança aos vizinhos, é fácil fazer suposições erradas, enviesadas; é fácil supor que tiveram passados serenos, só que recuamos no tempo e entendemos tudo o que sofreram, quais as feridas que ainda carregam no peito. E é fascinante perceber como, sem cerimónias e cobranças, a amizade entre eles evolui e os vai apaziguando.

«Sou capaz de encontrar soluções para reaproveitar tudo. Vejo nas coisas o que são, mas também o que poderão vir a ser, limpas, viradas do avesso, acrescentadas. Ressuscito objetos. Não me custa nada»

É uma narrativa sobre solidão, no entanto, sinto que se expande, falando-nos não só da coragem que precede a tomada de decisões complexas, que interferem com o curso dos nossos dias, mas também da liberdade que, mais tarde, nasce dessas decisões, que nunca foram sustentadas pelo conformismo de ser o que os outros ambicionam. Além disso, creio que é, igualmente, um enredo sobre preconceitos e sobre como estes, por mais subtis que sejam, se manifestam em detalhes do quotidiano e podem condicionar a vivência em sociedade. A partir de duas personagens distintas, que recolhem da vida o que os outros parecem descartar, creio que reforçamos uma mensagem preciosa: não termos de nos diminuir para caber. E, desta maneira, também nos fala sobre aceitação.

Um Cão no Meio do Caminho tem uma história simples, mas cheia de camadas. Através de confidências, sem rodeios, somos levados a pensar sobre fragilidade e força, sobre a capacidade que o ser humano tem de colar os seus estilhaços e de cuidar do outro. Há pessoas que entram na nossa vida com o propósito de acrescentar e nunca é por acaso.


 notas literárias
  • Desafio: Alma Lusitana
  • Lido entre: 16 e 20 de março
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Romance
  • Banda sonora: Um Cão no Meio do Caminho, de Paula Cristina Baptista (playlist que criou a partir do som ambiente disponibilizado pela autora).



Os ciclos de lavagem articulam diferentes fatores, adaptando-se ao tipo de tecido e de sujidade. Por esse motivo, a duração do programa também difere. Contudo, aquilo que aparenta ser só um processo mecânico, automático, será pano de fundo de um crime.

Algodão a Frio, que começou por ser um nome provisório, mas que acabou por «ajudar a cimentar o conceito da série», abre as portas de uma lavandaria self-service, onde sete desconhecidos ficam presos, «por consequência de um violento atropelamento e fuga». Sara é a única testemunha desta ocorrência e «esconde o paradeiro da vítima de Jorge, um homem misterioso que procura o atropelado por motivos sinistros». Peça a peça, ficamos a conhecer todas personagens e as linhas paralelas que se cruzam neste local.

Uma vez que as cenas centrais são gravadas, na sua maioria, no mesmo cenário, sem grandes «estímulos externos», é interessante descortinar as soluções pensadas pelos argumentistas para justificar certas escolhas/situações. Já não é a primeira vez que o refiro, mas acho mesmo entusiasmante esta dinâmica, porque obriga a ver para além do óbvio, a elevar a criatividade e a chegar a respostas «mirabolantes». É neste jogo de mergulhar às profundezas que descobrimos uma proposta com traços de originalidade.

André Barbosa, um dos argumentista, destacou algo que, para mim, é o tom da série, porque há, aqui, «uma mensagem de permanência da natureza humana», que é muito «ligada à sobrevivência». Neste caso, não «de um ponto de vista fisiológico, mas de um ponto de vista moral». Através das sete personagens, que espelham estratos sociais e realidades tão distintas, perante um contexto tenso, a transbordar de suspeitas, vemos como é que se aliam para se desembaraçarem da situação, de preferência, isentos de complicações que condicionem toda a sua vida futura. O problema talvez sejam as revelações inesperadas, atendendo a que nem todos são tão inocentes como apregoam.

Algodão a Frio foi escalando na intensidade, transmitindo a sensação de estarmos a um passo do abismo ou de termos uma bomba-relógio nas mãos. Aliás, os planos fechados contribuíram bastante para esse efeito, porque nos sentimos enclausurados, tal como as personagens. Com episódios que acompanham as etapas deste ciclo de lavagem, é impressionante como o crime ramifica e refletimos sobre prioridades, sobre intenções e sobre valores. Incluindo um toque de comédia, adorei o cinismo, a oscilação entre inocência e insanidade e a capacidade de transformar o silêncio numa encruzilhada.



A luta feminista implica, forçosamente, combater o machismo, porque promove desigualdades, uma supremacia bacoca e estereótipos, limitando o papel da mulher enquanto ser autónomo e parte de uma sociedade. Mas importa referir que lutar contra o machismo é diferente de lutar contra os homens: primeiro, porque não é esse o propósito do feminismo e, segundo, porque não «são só os homens que têm atitudes machistas». Ruth Manus convida-nos a refletir sobre o assunto.


 uma luta coletiva

Guia Prático Antimachismo é, tal como descrito, uma introdução ao debate, visto que o assunto não se esgota, mas pode ser analisado a partir de vários ângulos e situações. Portanto, é um livro que pretende identificar problemas da sociedade, promover a (auto)crítica e reconhecer que somos todos machistas — a diferença reside em querer perpetuar essa ideologia patriarcal ou querer desconstruir comportamentos e discursos, «contribuindo ativamente para uma sociedade mais justa».

É o segundo livro que leio da autora e voltei a ficar impressionada com a abordagem clara e prática. Por muito que até possamos estar bem informados sobre os assuntos em questão, há sempre um apontamento distinto que consegue fazer sobressair e deixar a ecoar; consegue sempre mostrar-nos que, antes de avançarmos para aquilo que nos rodeia, precisamos de olhar para nós e identificar o que precisamos de mudar, de melhorar, porque a aprendizagem é urgente e constante. Além disso, sinto que assenta numa ideia de progressão: começar num raio mais próximo e ir alargando, talvez faça a diferença desta forma, porque vamos à estrutura podar e permitir que se cresça com uma visão mais saudável.

Um aspeto que achei muito pertinente na obra, para além da necessidade de permanecermos vigilantes, mesmo que pareça que «as coisas estão a melhorar», foi a ideia de usarmos o nosso privilégio para alertar, mas sem que a nossa voz diminua a voz dos protagonistas. É fácil apropriarmo-nos de certas lutas, reivindicá-las, torná-las nossas por empatia — e ainda bem que isso acontece em muitas delas, para que sejam visíveis e discutidas —, mas não podemos ignorar quem tem mais a dizer-nos sobre elas, quem as sente na pele e nos pode demonstrar a verdadeira extensão do problema. Por isso, lutemos lado a lado, sem sobreposições.

«Talvez o segredo esteja em abandonarmos os nossos rótulos e conclusões precipitadas, estando mais interessados em ouvir do que em formular sentenças que nunca nos foram solicitadas»

O oposto do machismo, como Ruth Manus afirmou, é a liberdade, uma liberdade que serve tanto para mulheres como para homens. Embora o primeiro grupo seja o maior prejudicado, o certo é que o machismo em nada beneficia o segundo, condicionando-o a uma narrativa que oprime. Quanto mais depressa compreendermos isso, mais depressa poderemos unir-nos para mudar mentalidades e reerguer um mundo com menos abismos.

Assim, O mundo já não é assim tão machista... As coisas estão a melhorar. Não? abre a discussão, questionando as eventuais melhorias neste padrão viciado; Homem que é homem não chora nem faz exame à próstata centra-se na masculinidade tóxica; Eu já não posso fazer sequer uma piada? leva-nos a falar sobre limites e sobre preconceitos camuflados em ditos comentários cómicos; Isso é doidice. A empresa onde eu trabalho tem muitas, muitíssimas mulheres destaca a diversidade, a representatividade, sobretudo no plano profissional, tantas vezes diminuída, inexistente; Será que o problema mora mesmo tão longe? é uma pergunta que se responde de imediato, porque, na maior parte dos casos, mora ao nosso lado (às vezes, debaixo do mesmo teto); Tu és doida. Tu falas demasiado. Tu não sabes do que estás a falar exemplifica conceitos como mansplaining ou manterrupting, tudo formas para retirar credibilidade à mulher; Essa aí não é mulher, é travesti diferencia sexo biológico, identidade de género e orientação sexual, mostrando a urgência de sermos inclusivos; Nem toda mulher quebra o padrão, porque não somos todas iguais; O que podem as mulheres fazer? amplia o conceito de sororidade; Se fosse mulher feia tava tudo certo, mulher bonita mexe com o meu coração não só alerta para a ditadura da imagem, como também comprova que o machismo está entranhado até naquilo que parece inofensivo; Mas eu ajudo muito nas tarefas de casa é um clássico que incomoda, até porque a responsabilidade não pode pender apenas para um dos lados; O que podem fazer os pais de meninas? E os pais de meninos? traz a parentalidade para a mesa, até porque a forma como educamos as nossas crianças pode ter consequências positivas ou negativas para a questão.

Guia Prático Antimachismo é uma porta aberta para quebrarmos barreiras, porque esta luta é coletiva.


 notas literárias
  • Lido a: 9 de março
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Born This Way, Lady Gaga | Masculino E Feminino, Pepeu Gomes



Março começou na pista de dança, levou-me para Monte Gordo e até às minhas origens; fez-se de palavras, de silêncios, de homenagens. E, com temas que ainda são tabu, terminou numa espécie de bolha a sarar feridas.


os álbuns de março


KISS ALL THE TIME. DISCO, OCCASIONALLY, HARRY STYLES

A associação talvez seja um pouco rebuscada, mas o mais recente álbum do Harry Styles transportou-me para os versos «eu não sabia que dançar era por dentro/Eu não sabia que dançar era até ao fim», da Filipa Leal: não porque faltem motivos para movermos o corpo em pistas de dança improvisadas (ou não), mas porque sinto que este gingar é mais um estado de espírito.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally chega depois de um período de pausa, para repensar, para se reencontrar enquanto artista, para compreender o que o motiva, e é interessante identificar esse contraste e, também, a sua identidade a florescer noutras direções; é interessante verificar a vontade de não cair no conforto, de fazer pelos motivos certos, sem dar o percurso por garantido. E achei mesmo bonita a forma como construiu tudo isso neste álbum.

A energia de pista de dança é a inspiração, mas adoro que este trabalho seja disco sem ser totalmente disco, ou seja, que tenha melodias que nos transportam para esse género, expandindo-se, recuperando uma certa nostalgia. Convida-nos a dançar, no entanto, sem ser de um modo frenético, explosivo, como se a música abafasse tudo ao seu redor. Acho, pelo contrário, que nos convida mais para o conceito do que para a concretização, que nos leva para a ideia que uma ida para a discoteca pressupõe: o convívio, a preparação prévia, o sentido de comunidade.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally também nos parece transportar para diferentes estados da mesma noite, numa escalada intimista, visceral. A música cresce e nós crescemos com ela. Acalma e nós acompanhamos esse desacelerar. E, depois, parece que tudo recomeça, como se tivéssemos recarregado a bateria. E voltamos a reencontrar a nossa energia no meio da multidão, neste jogo psicadélico de luzes e escuridão, sem nos preocuparmos se estamos entre amigos ou perfeitos desconhecidos.

Com várias linhas paralelas, sinto que Harry Styles está a mergulhar numa história de descoberta, sem receio de ir ao passado, mas sem ficar preso nas suas ramificações. Coming Up Roses levou-me às lágrimas, por isso, sei que este álbum nem sempre me deixou com vontade de dançar, mas acolheu-me, fez-me sentir ouvida, apagou as luzes para que estivesse à vontade. No fundo, fez-me sentir que também lhe pertenço e que posso chorar no club sempre que me apetecer, porque arranjaremos forma de exorcizar as nossas dores.



CUÍCA, MAR

A MAR foi entrando nas minhas playlists devagar, mas para ficar, porque adorei a escrita sem filtros das suas canções. E, este mês, chegou o tão desejado álbum.

Cuíca é «o nome dado às mulheres de Monte Gordo». Embora não seja «o nome oficial», é assim que se identificam e a escolha deste termo para o título do seu primeiro longa duração é uma pista para o quanto este será feito de raízes, de uma história que começou a ser escrita desde a infância e que acompanhou a menina que vemos na capa. Portanto, e recorrendo a uma das faixas do disco, temos um livro aberto para as vivências e emoções da artista.

Num registo autobiográfico, oscilando por géneros distintos, o jogo de palavras, a honestidade e os cenários tão seus impressionam-me sempre, porque acho que é preciso uma maturidade bem cimentada para transformar aquilo que é, pensa, vive e observa em arte, e um tipo de arte que se torna transversal. Este álbum, como a MAR partilhou em entrevista, «é uma viagem por tudo aquilo que [aprendeu] desde o princípio disto tudo até à última barra da última canção que [escreveu]», mas sei que falará perto com muitos de nós, por nos conseguirmos rever em certas passagens/músicas.

Cuíca é um tipo de poesia onde faço por regressar, porque também descubro novas camadas de mim.



CANTAR AS DORES BAIXINHO (VOL. 1), CAROLINA DESLANDES & RODRIGO CORREIA

As nossas vidas podem ser muito diferentes, mas todos nós carregamos dores por dentro e há alturas em que precisamos de as libertar.

Carolina Deslandes e Rodrigo Correia juntaram-se para Cantar as Dores Baixinho, num primeiro volume que chega sem filtros, com uma abordagem intimista e profundamente humana. Só «com uma voz e uma guitarra», gravado «live on take, sem edições ou correções», os dois artistas quiseram contar seis histórias que tanto podem ser as nossas, como de alguém próximo. 

Confesso que demorei um pouco a encaixar em algumas das melodias, mas achei interessante e valioso que trouxessem para um lugar mais visível problemas que permanecem silenciosos, tantas vezes julgados pela sociedade, como «a solidão associada à adição», alertando-nos para a necessidade de estarmos mais atento ao outro.



VIDA DE CÃO, EDMUNDO INÁCIO

A prova cega do Edmundo Inácio no The Voice não me foi nada indiferente e, a partir daí, passei a estar atenta ao seu percurso (dentro e fora do programa), à voz que enche a sala, à capacidade impressionante de reinventar a música popular portuguesa. E, agora, tenho mais um álbum onde posso redescobrir todo o seu talento.

Vida de Cão interliga crítica social, ironia e um tom autobiográfico, com histórias que não pretendem ser um lamento, mas que «quis muito transformar em canções», até porque é inegável o quanto todos estes elementos se cruzam, se influenciam, se condicionam. Não existimos fora do mundo, somos sempre o produto do que nos inspira e do que nos acontece, do que acreditamos e do que deixamos cair. Por isso, compilou todos estes cenários dicotómicos nesta viagem, que também explora diferentes tipos de deslocação — geográfica, social e emocional.

Entramos no comboio «procedente de Portimão», com destino a Lisboa, a todos os espaços que possibilitem o contacto com novas e melhores oportunidades de vida, cantando-nos sobre precariedade, cansaço, migração, pressões sociais, sonhos suspensos, emoções omitidas, silêncios, trabalhos invisíveis e resistência. Assim, consciente do quanto tudo isto interfere consigo, com o seu quotidiano, traça um retrato da sociedade, da apatia, do conformismo, de todas as escolhas que não partem de nós.

Vida de Cão sustenta as suas raízes na música tradicional, mas fá-lo com um revestimento de modernidade. E, neste património, não descarta a tristeza, a vulnerabilidade e o que precisa de ser adiado, enquanto se continua a lutar para que o sonho não seja só uma fantasia.



CINCO DOIS, PH, LÓJICO & TAB

Cresci a ouvir que o mais bonito de Gaia é a vista para o Porto, mas isso é porque, para além de não conhecerem a cidade, não sabem de todo o talento que habita neste lado da margem.

O hip hop faz parte das minhas origens, por isso, não podia deixar de descobrir o álbum que junta Ph, Lójico e Tab: Cinco Dois. Com uma sonoridade que mistura o lado mais underground com a intenção de explorar melodias diferentes, são as letras incisivas que nos fazem parar e perceber que é tempo de esquecer o passado e começar a trilhar o futuro.

Neste trabalho colaborativo, é interessante perceber como as raízes florescem, como há espaço para o ego e para a vulnerabilidade, como somos feitos de tantas certezas e tantas dúvidas. É bom estar em casa, a vê-los alargar horizontes.



BRUTA, RITA ONOFRE

O tema Corpo ao Mar, que integra o Volume I de Avalanche, deu-me a conhecer a voz fabulosa da Rita Onofre, que passei a acompanhar de perto. E um dos aspetos mais entusiasmantes de ser admirador de um artista é poder assistir à sua metamorfose — que bonita tem sido a da Rita.

Bruta atira-nos para o limiar, para o limbo de tudo, onde as emoções ficam sempre à flor da pele. Com uma sonoridade mais eletrónica, faz coabitar vulnerabilidade, melancolia e espiritualidade e, como a própria artista afirma, «é um álbum para levar nos phones para enfrentar o mundo, como uma experiência íntima e profunda».

O propósito destas canções não é tanto o de aconchegar, mas mais o de desafiar, de nos abanar por dentro, levando-nos a experienciar diferentes sensações, a contactar com algo mais visceral. Também por esse motivo, Bruta é um manifesto, mostrando-nos o lado poderoso de todas as nossas emoções.



FLORBELA, VÁRIOS ARTISTAS

Florbela Espanca é um dos nomes maiores da poesia portuguesa e a sua obra foi revisitada num disco-tributo.

Com direção artística de João Só, Florbela compila «14 sonetos musicados e interpretados por algumas das vozes mais relevantes da música portuguesa atual». Para tornar a homenagem ainda mais especial, o álbum saiu na véspera do Dia Mundial da Poesia, sublinhando «o caráter literário e cultural deste projeto».

Tenho regressado a estas canções pontualmente, quase como se estivesse a ouvir um poema por dia, porque tem sido maravilhoso descobrir novas camadas destes versos através da visão e da sensibilidade artística dos convidados, tendo em conta que conseguimos compreender a forma como estes sonetos lhes chegaram, qual a interpretação que fizeram, estabelecendo uma ponte entre diferentes gerações.



POR DIZER, MATILDE LEITE

O timbre da Matilde Leite conquistou-me assim que a ouvi na canção que partilha com a Rita Onofre, Medo. Mais tarde, voltou a conquistar-me na Não Não, deixando-me muito curiosa com o seu álbum de estreia.

Por Dizer diz-nos tudo o que precisamos sobre as palavras «que serviram de mecanismo para ultrapassar tempos mais difíceis», que espelham aprendizagens, dúvidas, um turbilhão de emoções e estilhaços de um coração ferido. No fundo, é como se estes temas fossem a sua catarse, a sua forma de expulsar fantasmas do passado e renascer com novas respostas — e perguntas também.

Estava a escutar a cadência deste disco e, sem conseguir explicar bem porquê, senti-me num lugar mais distante, isolado, onde paira uma certa acalmia, ao ponto de sermos capazes de ouvir os nossos pensamentos. Parece que a artista se recolheu para escrever cartas que, agora, partilha com o mundo, de um modo generoso, para que a escutemos, para que possamos encontrar nestas canções um refúgio.

Interligando o Fado e o Pop, sempre com harmonia, adorei as várias camadas destes poemas. Nem sempre dizemos as coisas nas alturas certas, por vezes precisamos de nos afastar para compreender melhor e Por Dizer é esse elo entre o silêncio e a evolução que surge com a maturidade.



ESCREVI CANÇÕES E SÃO TODAS IGUAIS, LATTE

É curioso como nos cruzamos com certos nomes, mas depois desaparecem do nosso horizonte. Isso aconteceu-me com a Latte, que fiquei a conhecer graças ao tema Se Me Vens Salvar, com a Mónica Teotónio. Após um hiato considerável, só voltei a recordar-me do seu nome quando o tema 1,2,3, com o Zarko, viralizou, novamente, o ano passado. Agora, já não a perco de vista.

Escrevi canções e são todas iguais parece um murmúrio, uma lengalenga que repetimos para nos convencermos de algo ou, então, para nos irmos libertando. Naturalmente, o título não é uma representação fiel do que encontramos no alinhamento, mas achei interessante a designação, atendendo a que há temas que se repetem, porque não deixa de ter um toque sarcástico, que brinca com a ideia de músicas mais melancólicas soarem ao mesmo. Mas não soam, até porque há sempre uma forma diferente de abordarmos o mesmo tópico e cada um terá a sua voz nesse processo.

Uma das provas maiores de que as canções não são todas iguais prende-se com a sonoridade, porque cada uma delas tem uma melodia muito própria, fazendo sobressair a sua identidade. E é nessa diferença que nos vamos descobrindo, que compreendemos os silêncios, que nos despedimos, que abraçamos e lidamos com a dor.

Escrevi canções e são todas iguais abre-nos as portas de um mundo muito íntimo, quase confessional.



Este mês, ainda ouvi os álbuns By Your Eyes, do Dinis Mota, e A Bela Paranoia, dos Bela Noia, mas preciso de me dedicar mais um pouco a estas propostas para formular uma opinião mais coesa.


O mês começou com leituras ao sol, quase como se estivesse a carregar a bateria, e comigo a não sair dos álbuns do Espama Trincana — nunca pensei dizer isto, mas o tik tok levou-me para esse buraco negro e eu tenho-me divertido imenso com isso.

Em março, sobretudo nas últimas semanas, precisei mesmo de me recolher, porque a bateria social esteve a cumprir serviços mínimos, ainda assim, houve exceções que trouxeram um pouco de fulgor a estes dias. Mas confesso que estava desejosa que o mês terminasse, já que sinto que permitirá abrandar e voltar a reorganizar algumas questões pendentes, a ver a vida para além desta lente de cansaço mental que se tem instalado.

Preciso, no entanto, de tirar este tom fatalista, uma vez que março teve coisas maravilhosas, poesia, música ao vivo e um dos melhores espetáculos a que assisti. E teve tulipas ♡


as coisas maravilhosas de março


 os fragmentos aleatórios

Chega março e o meu quarto reveste-se com tulipas, uma flor que terá sempre tanto de saudade como de colo. Curioso como encontro alento nas suas pétalas a desabrochar.

Kiss All The Time. Disco, Occasionally tem estado em repetição, no meu Spotify, e não perdi a oportunidade de adquirir esta edição especial em formato físico, que muito tem preenchido a casa. Além disso, o xtinto também lançou uma edição de livro e cd do seu Em sonhos, é sabido, não se morre e eu fui a correr à Fnac comprar um exemplar. Sou mesmo feliz a comprar discos de artistas que admiro — já preciso é de começar a pensar noutro sítio para os acomodar.

Estou muito satisfeita com os meus batons, mas precisava de um para aqueles dias em que não me apetece usar grande coisa de maquilhagem, num tom mais suave. Por isso, trouxe este do Mercadona e estou mesmo rendida ao conforto e à duração. Não prometo que aguente as 12 horas, mas a verdade é que dificilmente preciso de retocar.



 as músicas e os álbuns

A playlist de março, à semelhança do mês anterior, também parece ter acolhido tudo o que foi saindo (perdoem-me o exagero). A grande diferença é que houve temas a ficar com todo o meu coração, principalmente o do Richie, e artistas que me surpreenderam imenso, ao ponto de já não os querer largar.

As músicas que marcaram o mês: O Que Tu Quiseres, Espama Trincana | No Meu Quarto, Murta | Responso, Iolanda | Talvez, Santos, Só | Matahari, Ella Nor & Mogno | You, Richie Campbell.


Os álbuns que marcaram o mês: Kiss All The Time. Disco, Occasionally, Harry Styles | Cuíca, MAR | Bruta, Rita Onofre | escrevi canções e são todas iguais, Latte.


 as publicações

96 ao infinito: ou como o legado do passado abre portas ao futuro
O Expresso do Submundo fez a sua primeira viagem em 1996, quando o Pentágono — DJ Guze, Expeão, Fuse, Maze e Mundo Segundo — gravou o EP de estreia, em cassete, e «o foi distribuir de mão em mão pelas ruas de Vila Nova de Gaia e do Porto», cidades de onde são naturais. E eu tenho a forte convicção de que o meu fascínio por margens, por estas margens em concreto, e pela escrita poética despertou graças a este vínculo (publicação completa aqui).

combater a síndrome do impostor: ou como decidi pedir macchiatos
Uma das minhas resoluções para 2026 era silenciar esta voz pouco simpática a pairar, sobretudo no que concerne a receber dinheiro por aquilo que crio. Em 2025, quase cheguei lá, mas depois fui adiando porque me soava descabido cobrar por algo que construo a partir de casa, sobre conteúdos que leio/ouço/vejo sem pretensões de maior, apenas por gostar ou ter curiosidade em descobrir. Às vezes, existe alguma pesquisa, mas é tudo muito mais emocional (publicação completa aqui).

No meu substack poético — No Silêncio —, celebrei o Dia Mundial da Poesia com Versos Que Gostava de Ter Escrito e não estive sozinha nessa partilha. Como gostei muito da publicação, apesar de simbólica, não queria deixar de a incluir aqui.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, trago uma série, uma conversa e três episódios de podcast.

Algodão a Frio
Algodão a Frio, que começou por ser um nome provisório, mas que acabou por «ajudar a cimentar o conceito da série», abre as portas de uma lavandaria self-service, onde sete desconhecidos ficam presos, «por consequência de um violento atropelamento e fuga». Sara é a única testemunha desta ocorrência e «esconde o paradeiro da vítima de Jorge, um homem misterioso que procura o atropelado por motivos sinistros». Peça a peça, ficamos a conhecer todas personagens e as linhas paralelas que se cruzam neste local.

FILTR'd Convo de Yang com Épico
O Yang foi um dos artistas que fez o meu 2025, muito graças ao seu EP Astros e Afetos, que combina vulnerabilidade, introspeção e melodias mais dançáveis. Recentemente, e com novos trabalhos lançados, esteve à conversa com o Épico, na FILTR’d Convo. Naturalmente, os tópicos foram desencadeados pela música, desde o processo criativo até à concretização da ideia, contudo, também houve espaço para falar sobre amizade, família e basquetebol, porque existem vários paralelismos entre ser atleta e ser artista.

Podcasts: Palavrão #09 com Sara Barros Leitão | Hotel ao Vivo - O Despejo | Hotel ao Vivo - Especial História de Portugal.


 os livros

Um mês dedicado às mulheres e à poesia, que me permitiu arriscar em novas vozes literárias e regressar a algumas que já fazem parte da casa.

Os favoritos do mês: Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida | Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo | A Desobediente, Patrícia Reis.

Outros livros lidos: Alegria Para o Fim do Mundo, Andreia C. Faria (releitura) | A Bastarda de Istambul, Elif Shafak | Guia Prático Antimachismo, Ruth Manus | Sede de me beber inteira, Liana Ferraz | Oxe, Baby, Elayne Baeta | Poemas de Amor, Emily Dickinson | Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso.


 os momentos

Leituras ao sol. Ler poesia. Escrever poesia. Tulipas por todo o lado. Matar saudades das minhas pessoas. Lanches que são colo. Comprar poesia. Dançar ao som de Harry Styles. Ouvir o João Só e o Tiago Nogueira. Ficar maravilhada com o Gregório Duvivier. Ter Em sonhos, é sabido, não se morre em formato físico. Desligar. Ficar só na minha bolha. A francesinha do mês no sítio de sempre. Jantares em família. Música a curar feridas.





O Céu da Língua, Gregório Duvivier
A Inês lançou a proposta e a Sofia e eu não recusamos. Queria muito ver a peça do Gregório Duvivier e, admito, foi dificílimo calibrar as expectativas, até porque só lia maravilhas, mas a verdade é que não precisava de o fazer, porque superou-as a todas! Que texto e interpretação fabulosos, que ritmo frenético e contagiante; que bom que foi sentir todo aquele amor às palavras, a musicalidade, a mente de um criativo que não fica à superfície, que mergulha às profundezas sem qualquer receio. Ainda preciso de organizar melhor os meus pensamentos, porque o monólogo continua a ressoar em mim, mas escalou rápida e facilmente para a lista de melhores espetáculos a que assisti na vida.

João Só e Tiago Nogueira no Casino da Póvoa
O João e o Tiago construíram um alinhamento que nos permite ouvir «os temas que os ensinaram a gostar daquela que é, provavelmente, a arte mais ancestral que existe». E, assim, numa espécie de «conversa romântica» ou numa travessia por várias gerações e estilos, é um espetáculo para quem gosta de palavras, da intemporalidade das canções, da versatilidade que encontramos dentro do meio, quer nacional, quer internacional. Sei que ficaria bem a ouvi-los só aos dois, durante horas, não obstante, a Elisa trouxe outro brilho a uma noite que, já de si, nos estava a abraçar a todos. Ouvir Como é Fraco o Coração, Este Meu Jeito e Poeira interpretados por este trio encheu-me as medidas e, admito, o primeiro tema eriçou-me a pele (só não houve lágrimas por um triz). Mas o reportório estendeu-se por tantos outros que nos transmitem aconchego.


Abril, sê gentil ✨
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