o que fui lendo para celebrar o dia mundial da poesia

Fotografias da minha autoria


As tradições não se multiplicam nos metros quadrados que me edificam, mas encontro conforto em pequenos rituais que parecem acrescentar um pouco mais de cor à banalidade dos dias. E gosto, sobretudo, quando surgem de um modo desprendido e fazem todo o sentido — é a vida a tentar alinhar todas as suas facetas.

Quando assumi que um dos meus propósitos para 2026 era ser mais consistente a escrever poesia, devia ter complementado a afirmação com um «e a lê-la também», porque não só me faz falta, como também me acrescenta, e preciso de a tornar mais expressiva na minha vida e, por consequência, nas minhas estantes.

Tenho adorado o hábito de começar o mês a ler poesia e, embalada por este pensamento, consciente de que março é poesia por excelência, decidi escolher três livros de três autoras que nunca li, para ir celebrando esta efeméride para além da data em que é assinalada. Embora não tenham escalado para a lista de favoritos, o mais importante, para mim, foi a possibilidade de descobrir outras vozes, outras formas de escrever poemas, de bordar emoções às palavras. E a verdade é que em todas elas encontrei versos que me comoveram.

Tinha outras opções, mas aventurei-me nas obras de Liana Ferraz, Elayne Baeta e Emily Dickinson.


 sede de me beber inteira, liana ferraz

A vontade de abraçarmos o mundo (de dentro para fora ou vice-versa) pode manifestar-se por uma sede metafórica, que sorvemos devagar ou com sofreguidão, dependendo do estado de espírito.

Ao partir de uma chávena de chá, de café ou de uma taça de vinho, Liana Ferraz procura «beber sem medo a própria essência» e, assim, ser capaz de se compreender, de se amar inteira, de estender as margens que traçam os seus (e os nossos) limites, observando o que a rodeia com outro entendimento.

Recorrendo a jogos de palavras, a estruturas menos rígidas, numa aproximação mais livre da poesia visual, Sede de me beber inteira lê-se muito bem e tem versos encantadores — acho que quando se aventura em propostas mais longas é onde me conquista —, ainda assim, não sinto que me tenha impactado.

«quem me dera viver o presente
como a intensidade da saudade que eu sinto»


 oxe, baby, elayne baeta

A ideia de um caderno de poesia roubado parece quebrar réstias de segurança e expor uma intimidade da qual não temos qualquer pertença. Apesar disso, com toda a sinceridade e ousadia, é a autora Elayne Baeta que nos proporciona este roubo, convidando-nos a descobrir o seu primeiro livro de poemas.

Oxe, Baby, «entre metáforas com casulos, morcegos e borboletas», é um espelho da autora e das «suas experiências como uma menina que ama meninas», o que a firma como «uma das vozes mais influentes da literatura jovem adulta LGBTQ+ no Brasil». Descobri-a por acaso, mas, como «para entender uma pessoa basta outra», permiti-me mergulhar nestes amores e nestas dores.

Achei que os versos eram vulneráveis, honestos, preocupados em demonstrar que é necessário destapar o que insistem cobrir como se fosse errado, vergonhoso. No entanto, a partir de certo ponto, senti que se tornaram repetitivos. Há um tom de revolta e de afirmação, que nos impulsiona a pensar sobre desigualdades e injustiça, que se perde por isso mesmo, afastando-nos das várias camadas que compõem o livro e que seria interessante ver exploradas de outros prismas.

«quantas coisas
eu sou por dia
sem que ninguém
— sequer
perceba?»


 poemas de amor, emily dickinson

Emily Dickinson levou uma vida de reclusão, escrevendo, ao que tudo indica, «mais de mil poemas com metáforas surpreendentes, uso não convencional de pontuação e observações extraordinárias sobre muitos temas». Uma vez que já me tinham sugerido a sua escrita, fui descobri-la entre versos.

Poemas de Amor é uma coletânea dedicada ao seu grande amor secreto: a cunhada Susan Gilbert. Com uma curadoria que pretende evidenciar esse amor e todo o seu afeto, deambulamos por 40 poemas que nos mostram diferentes perspetivas, passando pela imortalidade, pela não correspondência, pela dor, pelo afastamento e, até, por apontamentos que a entrelaçam à natureza.

A afeição é notória e transversal. Confesso, ainda assim, que não me relacionei com os seus versos, porque senti que havia sempre um muro a distanciar-nos, a impedir-me de perceber a sua real mensagem — talvez me falte o contexto, para melhor entender as referências, os lugares, as memórias. Por outro lado, se calhar a intenção é mesmo essa, mostrando-nos fragmentos sem relevar toda a essência, mas faltou-me algo.

«Agora eu sabia que a tinha perdido
Não que ela tivesse ido
Mas o afastamento passeou
Por seu rosto e sua língua»

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