gira-discos fevereiro '26



Fevereiro chegou revestido de expectativas, porque trazia novidades de artistas que me formaram enquanto ouvinte (e pessoa também) e de artistas com quem fui estreitando laços. E, depois, como há sempre margem para a surpresa, para a novidade, fui acolhendo outros álbuns pelo caminho.


os álbuns de fevereiro


OCTANE, DON TOLIVER

Don Toliver não é um artista que ouça com regularidade, mas, após ouvir alguns singles e de saber que o Frankieontheguitar produziu uma das faixas do novo álbum, foi a minha escolha para começar fevereiro.

Octane é o quinto álbum de estúdio do rapper e chega numa altura em que Don Toliver «tem estado a aprender a conciliar a sua recente paternidade [...] com o mundo da música». Sem termos de comparação, gostei da sensação de calma transmitida por alguns dos temas, como se o artista quisesse mesmo mostrar que não há pressa, que há um novo mundo para explorar devagar.

Sinto é que, por um lado, não tem sido uma experiência de audição linear e que, por outro, é um trabalho que precisa de tempo para crescer em mim. E digo isto porque, de cada vez que o ouço, parece que gosto mais. As três primeiras músicas trazem uma sonoridade distinta, como se estivesse a explorar ângulos novos, mas depois acho que regressa a um lugar de conforto que conhece bem. Não obstante, continuarei a ouvir, para perceber até onde escalará a ligação com Octane e se estas oscilações de energia só precisam de um pouco mais de atenção. Além disso, acho que é uma voz mesmo agradável para termos como companhia.



LIVRE, ALEX D'ALVA

O refrão «em cada verso/sou um universo/porque eu sou livre» é o cartão de visita para o que eu senti ao ouvir o novo projeto do Alex D'Alva.

A sonoridade eletrónica, que nos transporta logo para uma pista de dança, não me deixou indiferente. Admito que estranhei um pouco, ao início, por se distanciar do que conhecia, mas também foi esse aspeto que me conquistou logo de seguida. Acho ótimo quando um artista encontra o seu registo e o defende com todo o coração, no entanto, também adoro quando há esta vontade evidente de explorar novos territórios criativos e de chegar a lugares diferentes.

Há, aqui, uma noção de movimento clara, sem filtros e sem medos, que expande, como o próprio artista confidenciou, «a imaginação até ao infinito das possibilidades». O EP Livre tem sido um fiel companheiro em dias mais sombrios, mas sei que o escolherei em dias de sol, pela intensidade, pela liberdade de ser, pela vontade de celebrar a certeza, a utopia, as lutas que damos por garantidas.

Que bonito florescer este!



O QUE NÃO SE VÊ É ETERNO, DENGAZ

O regresso mais aguardado! Quero muito dedicar uma publicação individual ao álbum do Dengaz, por isso, não me alongarei, mas não queria deixar de salientar que tenho ouvido O Que Não Se Vê é Eterno todos os dias e que fiquei completamente rendida à sua dualidade, com inspirações que cruzam Brasil e Japão, e ao seu equilíbrio. Que bom tê-lo de volta com um longa duração deste nível.



LOBOTOMIA POP, VSP AST

Alinhei-me com a sonoridade do Vespa o ano passado e tem sido interessante descobrir todas as suas metamorfoses e o resultado do seu processo criativo. Depois de Putos Fixes Não Dormem, que me deu Origami, estava curiosa para descobrir o passo seguinte.

Lobotomia Pop tem uma estética muito particular e uma identidade que oscila entre uma fusão de estilos e um mundo interior. Com uma abordagem algo experimental, parece que passamos 13 músicas fechados dentro da sua cabeça, num universo frenético, que podia ter sido criado pelo Chapeleiro Louco. Não me interpretem mal, porque adoro esta dose certeira de insanidade e acredito que o Vespa a defende muito bem ao longo do álbum, até porque o conceito deste trabalho é cirúrgico e o artista desvenda-o de tema para tema.

Há caos, há urgência, há inovação. E eu tenho gostado muito desta viagem.



96 AO INFINITO, DEALEMA

O Expresso do Submundo trouxe-me, sem que o soubesse na altura, um dos grupos da minha vida. Os Dealema marcaram o meu crescimento e acho que não tenho palavras que traduzam tudo o que esta celebração de 30 anos está a significar. Brevemente, trarei uma opinião completa sobre 96 ao Infinito, mas permitam-me só adiantar que é extraordinário ver como este trabalho parece uma continuação, como se não tivessem passado 13 anos desde que lançaram Alvorada da Alma, ao mesmo tempo que trazem novidade e noção de futuro. Entre o clássico e o contemporâneo, eles são a prova de que é possível continuar a ser relevante quando há tanta verdade por dentro.



ÉTER, BUH BUH

Ouvi o BUH BUH, pela primeira vez, o ano passado e fui permanecendo atenta aos seus lançamentos, porque gostei da sonoridade, da forma como se foca nas palavras (e o facto de se apresentar sempre de máscara reafirma isso mesmo). Depois de alguns temas que foram preparando o futuro, eis que fevereiro trouxe o álbum.

Éter é um trabalho cheio de significados, a começar pelo nome do disco, nada inocente, visto que espelha a metamorfose do artista, a ascensão a uma região superior, mas sempre com margem para evoluir. Pessoalmente, achei mesmo interessante descobrir os temas já lançados dentro deste contexto e descobrir novos cenários, novas histórias, novas formas de sentir.

Preciso de me dedicar mais um pouco a este álbum, porque sente-se que tem várias camadas por dentro. Ainda assim, como se viesse para proporcionar uma «reciclagem energética», é um trabalho que comunica com as nossas fases mais sombrias, acolhendo-as para se transformarem em luz. Além disso, Éter vem acompanhado de uma componente visual bem definida, o que nos permite mergulhar mais fundo na mensagem, ao mesmo tempo que fortalece a solidez deste segundo longa duração de BUH BUH.



JURO, EU CAÍ, MALLINA

A fusão de estilos — Fado, Pop, Urbano — é uma marca clara na música da Mallina. Demorei bastante até chegar ao seu nome, mas rendi-me na primeira nota, até porque há algo na sua voz que inebria, que nos impulsiona a dançar e, sobretudo, a ser sem filtros.

Juro, Eu Caí é o seu mais recente EP e sinto que viverei muito tempo dentro dele, porque tão depressa abraça a melancolia, como nos mostra que as nossas fragilidades se podem «transforma[r] em território de conforto»; porque, ao explorar a sua vulnerabilidade, também cruza planos de pulsação e vertigem, num jogo de contrastes que marca a vida de todos nós — apesar das experiências de cada um.

Interligando, ainda, uma sonoridade lo-fi com influências latinas, parece afirmar que é possível ir para a pista de dança purgar o que nos dói (gosto muito disso). E, desta forma, canta-nos sobre (i)mortalidade, intimidade, amor e a relação com o desconhecido.

Juro, Eu Caí é sobre caos, medo, tristeza e indecisão, mas também é sobre aprendermos a ver as nossas quedas para além do fracasso.



EM SONHOS, É SABIDO, NÃO SE MORRE, XTINTO

A voz de Sérgio Godinho surge em primeiro plano, mas, desta vez, para inspirar aquele que será um dos meus álbuns favoritos do ano. Sim, eu sei que ainda estamos em fevereiro, mas o que o xtinto fez no Em sonhos, é sabido, não se morre é pura arte. Como também vou querer dedicar-lhe uma publicação individual, digo-vos somente que é impressionante como brinca com as palavras e como torna cada experiência tão visual. Este trabalho floresce com toda a vulnerabilidade e transparência, inspirando-nos, lendo-nos a alma.



8/80, RITA ROCHA

A primeira parte do álbum foi lançada em 2025, deixando antever o lado dicotómico que povoa as nossas vidas, porque há ocasiões em que desconhecemos o conceito de meio-termo. A menos de um mês de se estrear no Coliseu do Porto, Rita Rocha trouxe a parte que faltava à equação.

8/80 balança, então, entre um dialeto mais introspetivo e uma energia intensa, entre o tudo e o nada, entre a expectativa e a concretização. Houve momentos em que senti as melodias um pouco mais tristes, melancólicas, para depois sentir a força de quem está a crescer neste processo.

Gostei, particularmente, de sentir que está a explorar sonoridades diferentes dentro do pop, abraçando a fase de vida que está a viver, e com referências tão distintas. Além disso, acho que esta combinação mostra a sua maturidade.



THE ROMANTIC, BRUNO MARS

O novo álbum do Bruno Mars ainda não tinha saído e eu já estava a pensar sobre o seu regresso, muito impulsionada pelo I Just Might e por algumas críticas que lhe foram apontadas.

Por um lado, eu entendo o desejo de ouvirmos algo diferente de um artista que, a solo, não lançava música há dez anos, talvez por querermos ver espelhadas as mudanças que este hiato, inevitavelmente, agregou. Mas, por outro, será que seria um salto assim tão lógico regressar com uma sonoridade totalmente nova, sem preparar um pouco o terreno? Não venho com uma resposta concreta, mas acho que este debate interno me predispôs para o álbum.

The Romantic trouxe-me algo familiar, mas com uma abordagem nova: mais do que explorar géneros distintos, sinto que Bruno Mars quis partir de um tema base e mostrar como pode ser explorado de vários ângulos, como se regressasse a outras épocas. Isso cativou-me e sei que será daqueles álbuns que crescerá em mim.
 


TEMPESTADE, SARA CORREIA

A primeira coisa que me ocorre quando ouço o nome da Sara Correia é o poder da sua voz, aquele timbre que parece encher uma sala inteira, deixando-a sem fôlego, suspensa. E, que nem uma tempestade, não passa indiferente. Curiosamente, senti que o novo álbum trouxe uma versão mais serena, mas sem deixar de nos mostrar a sua magnitude.

Tempestade abre portas à transformação, a um grito que ficou preso na garganta durante demasiado tempo. Porém, a mestria deste álbum, para mim, está na forma como a artista preferiu diminuir o tom e ampliar a palavra, com letras a tocar várias feridas, a empoderar, a colocar os holofotes em temas tão urgentes.

Num permanente jogo de contrastes, Sara Correia dá corpo e voz a outros artistas, colocando a descoberto a sua própria evolução, a sua identidade que se mantém de mãos entrelaçadas no fado e abraça tanto mundo. É um trabalho mais maduro e acho que isso se sente até nos silêncios.



UM BRINDE AO AGORA, MAS E AGORA?, NENA

Um Brinde ao Agora cresceu para uma versão deluxe, com quatro músicas extra. Já tinha gostado muito da edição normal e acho que os temas novos vieram trazer um lado ainda mais emocional e intimista ao projeto, até porque nascem mesmo desta vontade de responder à pergunta «e agora?». Por outro lado, achei interessante colocar os temas novos no início, porque sinto que nos levam a descobrir os que já conhecemos com outra perspetiva.

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