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As pessoas chegam e ocupam o seu lugar, sempre em movimento. As conversas não se fazem em silêncio, ainda assim, há qualquer coisa que apenas é dita através de olhares inquietos, deslumbrados, curiosos com o que se passa ao seu redor. E, tal como Inês Lourenço, não sei «de onde irradia mais calor»: se desta representação de comunidade, se da Avenida das Tílias que se parece transformar numa interminável mesa de café, para que nos voltemos a encontrar e a descobrir perto dos livros, à volta das palavras.
Foi neste clima caloroso que a Feira do Livro do Porto retornou aos Jardins do Palácio de Cristal, durante mais de duas semanas, combinando o recolhimento que a leitura nos proporciona com a capacidade de nos conectarmos com os outros, atendendo a que, «quando fechamos o livro, a leitura continua nas conversas que gera e na vontade de passar aquele segredo a outra pessoa». Por esse motivo, a programação foi pensada ao detalhe, «com lugar para todos», porque a «malha das relações» só faz sentido assim.
Nesta cidade-livro, identidade reforçada com BABELL, procura-se olhar para dentro e construir o evento em torno de um nome que esteja intimamente ligado ao Porto. Este ano, a homenageada foi Inês Lourenço, nascida na Rua de Camões, autora que escreve «a cidade com ternura e ironia, a partir das suas entranhas». Visto que reconhece na Invicta «uma pessoa de família», é maravilhoso saber que poeta e cidade se criam em simultâneo, «poema a poema, verso a verso, palavra a palavra». Ademais, como referiu Pedro Duarte, Presidente da Câmara Municipal do Porto, os livros «nascem do mundo e criam mundos, como uma matriosca sem fim», por isso, convidam-nos a olhar para a obra da artista e a experienciar todos os rasgos de magia que nela possamos encontrar.
A programação teve a curadoria de Teresa Coutinho e, socorrendo-me das palavras de Jorge Sobrado, Vereador da Cultura e Património da Câmara Municipal do Porto, com uma «face mais feminista (…) humanista e inconformada», pretendia alargar o debate ao convocar temas «como a guerra, a violência de género, a resistência através da escrita, o poder da leitura e da representação, a participação cívica», entre outros. Portanto, nada melhor do que nos escudarmos na literatura, «que sempre se constituiu como o território privilegiado para pensar e imaginar o mundo, a sua justiça e a existência».
A acompanhar este ato de resiliência encontramos a poesia, que nesta edição da Feira do Livro do Porto não se afigurou somente como género literário, mas como ponto que «contamina toda a programação proposta», mostrando como é «uma língua com carga viral», o que me entusiasmou, já que é entre versos que encontro muito de quem sou.
A alma e o sotaque estiveram de braços abertos para acolher todas as riquezas fugidias.

as sessões a que assisti
A entrada mudou de lugar, como se quisessem prolongar a curiosidade e a expectativa, no entanto, a magia de regressar aos Jardins do Palácio de Cristal com a Feira do Livro do Porto (FLP) a decorrer permanece inalterável, porque há sítios que são sentimento puro.
Voltamos a ir no primeiro dia, para uma viagem de reconhecimento, para desfrutar da Avenida das Tílias sem pressas, para descobrir eventuais mudanças e revisitar o que já nos é familiar. E foi impressionante ver a quantidade de pessoas que andava pela FLP, em passeio, a ver os stands, a participar nas sessões e a criar memórias. Retirando um pouco do romantismo, sei que também se pode tornar confuso, sobretudo, se formos com a intenção de ver/comprar livros, ainda assim, o cenário não deixa de ser entusiasmante, uma vez que demonstra interesse, uma vez que espelha aquele que é um dos motes do evento: ser um lugar com lugar para todos.
No sábado, para além de percorrer os stands para aproveitar um livro do dia (e extras), fui assistir à cerimónia de Atribuição da Tília de Homenagem a Inês Lourenço, o que me parece sempre um momento de enorme comoção por tudo o que representa: ter o nome de um(a) autor(a) perto de uma árvore tão distinta é simbólico, porém, o que me entusiasma é a sensação de permanência, de vitalidade. As palavras podem perder-se com o tempo, mesmo que nunca se esqueçam na totalidade, mas aquela representação eterniza, de um modo muito mais evidente, o vínculo entre o artista e a sua cidade. É por isso que, para mim, passear pela Avenida das Tílias é tão especial, porque existem, ali, vários nomes a contar histórias, mesmo quando precisamos de ir à procura deles.
Posteriormente, assisti à sessão Um Poema é Sempre Uma Pergunta Sem Resposta, com Inês Lourenço, José Manuel Teixeira, Rosa Maria Martelo, Teresa Coutinho, Jorge Sobrado e a leitura de poemas por Isaque Ferreira e Raquel Marinho. Confesso que estava à espera de encontrar uma conversa e não tento uma análise formal, na falta de melhor descrição, sobre a obra da poeta, porque sinto que isso traria um ritmo mais fluído e estimulante à sessão — que, infelizmente, começou bem mais tarde e teve quase o dobro do tempo que era suposto. Concordo que há iniciativas que merecem prolongar-se, mas isso pode interferir com a restante programação e impedir que o público consiga aproveitar o início das sessões seguintes, a decorrer noutros pontos da Feira do Livro. Apesar disso, é sempre maravilho ver a poesia a ter tanto destaque.

A Música Vinha Duma Mansidão de Consciência
A voz da Malva e a guitarra da Beatriz Madruga preencheram a Concha Acústica num final de tarde muito bonito. Uma vez que só conhecia o trabalho da Malva — e adoro a sua voz —, aproveitei o evento para diminuir as distâncias e fiquei impressionada com esta dupla, com a forma como combinam tão bem e nos levam a viajar entre canções.
Ancestralidade e Identidade
A conversa entre a Gisela Casimiro e o Dino D’Santiago fez morada em mim, porque a forma como nos fizeram chegar o impacto de cada assunto, de cada memória, de cada cicatriz foi inspiradora e emocional. Há uma realidade que nunca sentirei na pele, por mais que tente colocar-me naquele lugar, mas acabei por me rever em várias questões — não deixa de ser curiosa a transversalidade das vivências. Naquele palco, debateram sobre dificuldades, medos, escassez, vulnerabilidade, o peso do lugar onde nascemos, racismo, padrões que se repetem, culpa e casa. Mas também criaram espaço para falar sobre amor, futuro e todas as pontes que nos salvam e nos permitem curar as feridas.
Na Lâmina Implacável do Tempo
A exposição «propõe uma aproximação ao universo poético de Inês Lourenço através do percurso literário, da atividade editorial e das múltiplas redes de criação e amizade que moldaram uma das vozes mais singulares da poesia portuguesa contemporânea». Estará patente no foyer do Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett até ao dia 10 de outubro, proporcionando uma excelente oportunidade para estreitar laços.
A Música Vinha Duma Mansidão de Consciência
O S. Pedro e a Elisa são artistas com entrada direta nas minhas playlists. Talvez não os ouça todos os dias, mas faço questão de os acompanhar de perto: não só por adorar as vozes, mas também por ficar sempre rendida à forma como escrevem as canções e nos levam numa viagem emocional. Por esse motivo, não podia perder a oportunidade de os ver juntos, num concerto tão intimista como o que deram na Concha Acústica. Foi uma partilha generosa e com alguma provocação à mistura (depois de ver um S. Pedro mais tímido na Maia, confesso que gostei muito da sua versão desbocada). Já só espero por um dueto no futuro, porque acredito que a energia dos dois combina na perfeição.
Liderança e Afetividade
O programa da Feira do Livro inclui uma sessão com o Martim Sousa Tavares? Estarei lá! Já não é a primeira vez que o menciono, mas gosto mesmo muito da forma como o maestro comunica, como consegue partir dos seus contextos e incluir-nos a todos nas suas observações, construindo pontes e nunca muros. Neste ciclo de conversas, esteve acompanhado por Guilherme Blanc, com quem abriu um debate interessante sobre as várias formas de liderar um grupo e a necessidade de sermos empáticos com aqueles que nos rodeiam. Recorrendo a exemplos audiovisuais para ilustrar as práticas que queriam analisar, sinto que conseguiram uma partilha ampla e muito rica, mostrando que a genialidade nunca será inteira se olharmos para os outros com desigualdade.
Edição Independente do Porto
Admito que estava à espera de uma partilha um pouco mais concreta em relação ao tema que trouxeram para esta Mesa Redonda, isto porque ser editor independente, neste mercado tão complexo, implica outras concretizações. Ainda assim, gostei de os ouvir conversar sobre o que se aprende entre projetos (nem sempre com a intenção de corrigir, por vezes para saber que lugares ocupar), a estabilidade que permite pensar noutras ramificações e a paixão que os move, que os faz continuar a lutar por isto.

Apresentação do Livro Cassiopeia, de Francisca Camelo
O primeiro livro da Francisca Camelo esteve esgotado durante muito tempo e, agora, renasce numa segunda edição. A apresentação revelou-se um momento de aconchego e confesso que o que ecoou em mim foi a partilha da poeta, quando lhe perguntaram se ainda se revia nestes poemas antigos, tendo em conta que os escreveu numa idade precoce do seu percurso, porque foi muito honesta e empática. Naturalmente, ela já não é aquela pessoa que os escreveu, mas percebeu que o seu «ego ferido» não podia ser maior do que a vontade que as pessoas tinham de a ler. Achei isso muito generoso.
A Música Vinha Duma Mansidão de Consciência
A dupla João Só e Tiago Nogueira encheu a Concha Acústica com todo o seu talento e energia contagiantes. Gosto bastante de ambos e acho fascinante como combinam tão bem em palco — para além do talento, para mim, inegável, são naturalmente cómicos e conseguem criar um ambiente agradável para o público, enquanto nos recordam de temas deles e de artistas que os moldaram. Além disso, contaram com a participação de João Castilho, Mariana Nogueira e João Almeida. Corro o risco de ser injusta, mas não posso deixar de dizer que ouvir Falésia do Amor, dos Santamaria, foi o ponto alto.
Mesas Redondas: As Cidades dos Livros e os Livros das Cidades
O tema desta mesa redonda talvez fosse bastante amplo, mas creio que essa amplitude é entusiasmante, tendo em conta que nos permite compreender de que forma cada um dos intervenientes o interpretou. Por esse motivo é que se construíram pontes entre o passado, a educação, a poesia, a alma do Porto e a capacidade que a Invicta tem para criar espaços alternativos aos espaços institucionais. Sei que a conversa escalou para pontos que não tinha idealizado, porque fiquei mais centrada no plano literário, não obstante, achei muito interessante as análises que trouxeram para a discussão, já que, como referiu Mário Cláudio, o Porto é infinito e motivador de grandes reflexões.
Na minha programação, ainda inclui as sessões de autógrafos da Bruna Martiolli e do Hugo Gonçalves, que são sempre bastante generosos na forma como nos acolhem.

algumas considerações
A Feira do Livro do Porto é um dos meus eventos favoritos da cidade, o que surpreende um total de zero pessoas. Ainda assim, apesar de todo o amor que lhe tenho, consigo reconhecer que há margem para melhorar, garantindo uma experiência mais gratificante para todos. Assim, reuni alguns aspetos que gostava de ver colmatadas em edições futuras
Divulgar o programa com mais antecedência: Quando vi os concertos a serem anunciados com bastante antecedência, tive esperança que o programa e a lista de livros do dia seguissem a mesma energia, porque é um aspeto importante. Nem todos os visitantes da FLP são do Porto, nem todos estão de férias em agosto, por isso, as visitas precisam de ser geridas com outra atenção (mesmo para quem é da zona, existem sempre questões logísticas e faz sentido haver margem para nos organizarmos). Acho que algumas sessões interessantes podem perder público, porque a divulgação acontece perto do evento.
Horário das sessões e levantamento de bilhetes: Já fui a edições em que abriam as portas 15 minutos antes das sessões começarem. Este ano, optaram por abrir a sala à hora da sessão e isso não me parece errado. O problema é terem as sessões marcadas para determinadas horas e começarem com 15 minutos de atraso, já para não falar quando as sessões se estendem bem para lá da hora em que deveriam terminar. Às vezes, é difícil colocar um fim quando a conversa está a fluir tão bem, mas, a partir do momento que existem outras propostas no programa, convém haver essa sensibilidade, para que não se cruzem momentos e as pessoas não cheguem atrasadas ao que querem ver. Por outro lado, achei interessante que a masterclass tivesse inscrição online e acho que podiam adotar esse sistema para todas as sessões maiores que requerem levantamento de bilhetes. Nem sempre é exequível estar na feira três horas antes para levantar o bilhete e, assim, conseguiam ter uma noção mais imediata da lotação esperada.
Hidratação: Este aspeto talvez não seja exclusivo da feira, mas seria importante haver mais bebedouros ao longo do jardim.
Gerir o espaço: A FLP tem crescido ao longo dos anos, o que é ótimo, mas sinto que é necessário repensar a disposição dos stands. Talvez estendê-los por mais zonas da Avenida/dos Jardins, colocar a restauração perto do Pavilhão, aproveitar o Terreiro (perto da Biblioteca) para ter outros stands e deixar o Jardim das Cidades Geminadas para as atividades infantis, por exemplo. Além disso, a acessibilidade aos stands também poderia receber uma reformulação, porque seria interessante podermos circular lá dentro e garantir que não há tanta confusão acumulada, com pessoas a tentarem ver os livros e a não conseguirem, porque os corredores são estreitos e editoras maiores acabam sempre por atrair mais atenção.
Inês Lourenço, num dos seus poemas, traçou duas pessoas a conversarem «sobre livros de poesia à mesa de um café no Porto». Talvez não exista imagem mais representativa daquilo que a Feira do Livro pode ser, como mencionou Pedro Duarte, uma vez que nos remete para a partilha e para a beleza dos mundos que escalam entre as palavras.
Uma nova edição deste evento chegou ao fim e acho que, ainda hoje, não sou capaz de traduzir o quão feliz sou a percorrer a Avenida das Tílias nesta altura do ano. No entanto, não faltei à chamada e deixei-me envolver pelo aroma dos dois cimbalinos escaldados, que imagino. É esta a magia da Feira. E, nela, sinto-me sempre em casa.



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