
Os últimos raios de sol cobriam a Casa da Música e, enquanto me deslocava para lá, a contemplar aquele horizonte, fui caminhando a pensar em quantos ângulos se divide — ou multiplica, dependendo da perspetiva — a nossa rotina; em quantos detalhes se evidenciam e quantos permanecem na sombra, como se a nossa vida fosse sempre este jogo de contrastes, de luz e de escuridão, e nós ajustássemos a lente de acordo com o momento, com o que nos parece mais urgente unir. E deixei-me só ficar neste espaço.
Um ponto de fuga cria uma noção de tridimensionalidade, de profundidade, onde há a certeza de uma interseção. Não sabemos em que lugar específico, porque não a vemos, supomos, no entanto, compreendemos que é esse o fim, que as nossas associações se cruzam, ainda que aparentem ser improváveis. Aquilo de que não estava à espera era de entrar na Sala Suggia e ficar completamente comovida com o Ponto de Fuga que o Martim Sousa Tavares concebeu e apresentou — com participação de João Barradas.
Admito que talvez não esteja a ser precisa o suficiente, porque, sendo honesta, espero sempre ficar espantada e sem palavras com as criações do Martim, uma vez que é um contador de histórias excelente, capaz de nos fazer viajar até às profundezas da nossa alma, dos nossos pensamentos, mas como não sabia o que esperar deste espetáculo, e decidi não procurar informações, tentei calibrar as expectativas para ser surpreendida, para sentir que cada instante tinha a capacidade de me levar para lugares recônditos.
Durante cinco atos, acho que o meu coração falhou algumas batidas, visto que o texto tocou em feridas que sei que nunca fecharão totalmente. Regresso com frequência ao quanto as memórias de quem não conhecemos nos moldam e creio que, ao longo dos anos, tenho feito as pazes com essa imagem, se calhar, por ter compreendido a beleza de olhar para cada uma delas não com o filtro da nostalgia, ficando refém do passado, mas com a génese certa da saudade: a que nos relembra que existiu um momento em que aquela(s) pessoa(s) fez(fizeram) parte da nossa vida, ainda que não nos lembremos, ainda que essa memória seja herdada. Eu sou todas essas pessoas que me chegam pelo olhar de terceiros, mas também sou o espaço entre elas e o que desconheço do futuro.
Este pensamento acompanhou-me enquanto decorria o espetáculo, atendendo a que é impressionante a quantidade de pormenores que abrem essa porta. Através de uma canção, de um filme, de um quadro, de versos específicos de um poema, conseguimos mergulhar dentro de nós e voltar àquela pessoa, àquela lembrança, àquele lugar. Isto talvez seja uma espécie de educação da tristeza, socorrendo-me de Valter Hugo Mãe, porque a dor começa a dar margem para que o foco se redirecione e nos seja luminoso. E, portanto, independentemente da rota, sabemos que estes fios invisíveis nos bordam.
Martim Sousa Tavares partiu das suas vivências, deu-nos a mão e levou-nos a visitar paragens especiais. Quando me sentei para escrever este texto, tentando traduzir por palavras o turbilhão de emoções que grita cá dentro, estava consciente da dificuldade, porque nenhuma faria justiça a tudo o que nos fez sentir, à sensibilidade, ao ritmo, à naturalidade com que transitou entre temas e, claro, ao humor sempre tão presente. É que houve ocasiões de comoção, mas também me ri com a sua faceta de comediante.
A beleza é o fio condutor e é fabuloso ver as suas ramificações, a sua subjetividade, o impacto que tem olhar para a vida através desse prisma, porque enriquece o caminho. Sinto que estive inteira no espetáculo, e há partes que se manterão muito próximas, no entanto, adorava que estivesse gravado e pudesse vê-lo mais tarde, para ir às camadas que não fui capaz de alcançar no momento; ou, então, que o texto ficasse eternizado num guião, para reler, sublinhar e ficar com uma memória visual desta experiência.
Num breve e inconfidente apontamento, tenho estado a escrever poemas a partir de um tema comum, porque senti necessidade de o exteriorizar e ressignificar. A ideia nasceu mais ou menos após ter partilhado este texto, porque acredito que a arte nos vai curando as feridas, já que dá voz a fragmentos que nem sempre somos capazes de racionalizar. E se o Educação da Tristeza e a Foguetes têm sido aliados nesse processo, o Ponto de Fuga veio completar a tríade e atribuir um novo fôlego àquela que creio ser a parte final do que tenho estado a escrever. É comovente como a arte nos inspira tanto e como nos relembra que existem sempre outras formas de percorrermos o caminho.
Ponto de Fuga embala-nos na sua liberdade, no seu tom cómico, emocional e grato. Foi um privilégio ocupar uma das cadeiras do coração da Casa da Música e assistir a este espetáculo que continuará a ecoar em mim. De facto, «não há vida sem histórias», por isso, estarei sempre disponível para escutar todas as que o Martim tiver para contar.



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