
Abril começou na companhia de um álbum que, na realidade, já tinha saído no mês anterior e ainda me levou de volta a 2025, porque fiquei rendida à voz da Libra, ao seu Everyone's First Breath e à declamação poética que ganha outro fôlego musicada. Este mês, também deambulei entre vulnerabilidade e um tom mais combativo. Celebrei abril, reforcei a importância de ver beleza nas pequenas coisas e terminei ao som de folk.
os álbuns de abril
THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE, RAYE
A sensação de que a arte é tão maior do que nós pode ser sufocante ou estimulante, pelo simples facto de sabermos que nos faltarão sempre referências, mas talvez seja nesse ponto que entra o lado emocional, deixando-nos em paz com isso.
Nunca acompanhei a Raye com particular atenção, até a Where Is My Husband aparecer em vários contextos. E, ainda que com algumas reticências, aventurei-me no seu mais recente trabalho, confirmando algo que pairou no meu pensamento: que ia sentir-me à deriva, sem ser capaz de atar todos os nós e de estabelecer todas as associações possíveis, enquanto me deixaria contagiar pela voz, pela linguagem melódica.
Ao longo de 17 canções, senti que estava a assistir a uma produção cinematográfica, a uma história longa com espaço para mergulharmos até às profundezas da nossa alma, conhecendo todos os recantos tristes e sombrios; com espaço para preencher vazios e silêncios e traçar uma nova rota. Neste álbum, a artista oscila emocionalmente, mas é de uma composição tão coesa que tudo parece encaixar no sítio certo: não porque seja calculado, mas porque sentimos verdade na partilha.
This Music May Contain Hope acertou-me em cheio e já não o dispenso.
DOBERMANN, ELLA NOR & MOGNO
A voz da Leonor Andrade não me passou despercebida no The Voice. Ainda a acompanhei um pouco para lá do programa, mas depois os nossos caminhos desencontraram-me. Anos depois, e já a responder pelo alter ego artístico Ella Nor, estava muito curiosa para descobrir a sua nova identidade musical.
Foi o Santa que me abriu a porta do Dobermann e de uma sonoridade que me cativou pela junção de pop, eletrónica e ritmos latinos. Aliás, cativou-me pela possibilidade de ser tanta coisa, de explorar diferentes estados de intimidade e, até, de combatividade. Sinto que este trabalho é um espelho das diferentes facetas que podemos assumir, dependendo do momento e das circunstâncias que estamos a viver, sem ignorar o quanto as relações, independentemente da sua natureza, têm influência no processo.
O próprio nome do disco é a metáfora perfeita para essa dicotomia, para o facto de ser ténue a linha que separa a vulnerabilidade e a necessidade de reagir. No fundo, como referiu a artista, é um trabalho que representa «a ocasião em que deixa[mos] de sobreviver em silêncio e começa[mos] a proteger quem realmente [somos]».
Dobermann é, talvez, o manifesto de Ella Nor, porque «defende a sua própria identidade». Sempre que o ouço, há uma força que parece renascer por dentro.
APENAS ABRIL, INÊS APENAS
Inês Apenas, uma das vozes mais promissoras do panorama musical português, quis prestar uma homenagem a Zeca Afonso, compilando versões contemporâneas de alguns dos seus temas mais emblemáticos.
Apenas Abril integra sete canções e conta, ainda, com a participação de Sérgio Onze, Inês Monstro e Bia Maria. Que forma bonita de celebrar a liberdade e músicas que, de algum modo, nos moldaram enquanto sociedade, mantendo sempre acesa a chama da intervenção.
A BELEZA DE TODAS AS COISAS, LUAR
A primeira vez que ouvi falar do LUAR foi através do Volume I, da Avalanche, e fui-me mantendo atenta a eventuais trabalhos posteriores a solo. Por isso, foi com grande expectativa que recebi a notícia de que editaria o seu álbum de estreia.
A beleza de todas as coisas tem uma sonoridade intimista, de quem observa o que o rodeia com a calma e a atenção que merece. Com sensibilidade e introspeção, acolhe-nos na sua viagem de autodescoberta, de contemplação face às vivências que o habitam, ao que necessita de exteriorizar, ao quotidiano que consegue ser tão mundano e imprevisível.
Sinto que os seus poemas nos convidam a abrandar, a respirar fundo e a explorar as nossas incertezas. Partindo dos seus problemas, dos pensamentos onde fica a pairar, encontrou na escrita uma forma de verbalizar «o encanto que [gosta] de encontrar entre as rotinas».
A beleza de todas as coisas é plural na sonoridade, entrelaçando «música alternativa, indie e bedroom pop», porque espelha o quanto podemos ser várias coisas em simultâneo.
THE GREAT DIVIDE: THE LAST OF THE BUGS, NOAH KAHAN
O tik tok pode ser um universo fascinante. E digo isto porque bastou-me ver um vídeo de uma rapariga a falar com todo o entusiasmo da música Deny Deny Deny para a querer ouvir na sua versão completa. Gostei tanto dela que o passo seguinte só podia ser escutar o álbum novo do Noah Kahan.
The Great Divide: The Last Of The Bugs cativou-me de imediato pela sonoridade intimista e vulnerável. Sei que nos encaminhamos para o tempo quente, mas fez-me sentir naqueles dias enevoados, onde corre uma brisa ligeira e só nos apetece ficar enroscados no sofá, com uma chávena de café ou de chá ao lado, se calhar, porque a sua concretização veio de um lugar ambivalente, a oscilar entre «o medo, a pressão, a alegria».
Sinto que as músicas nos vão retirando da escuridão, levando-nos para espaços mais luminosos, mostrando-nos que «nunca estamos verdadeiramente sozinhos», mas que há lugares onde precisamos de ir sem essa companhia. Tenho regressado sempre que preciso de revestir os dias com um pouco mais de quietude.
Menções honrosas: 94, do LON3ER JOHNY, porque houve músicas que me conquistaram. Para mim, não foi um álbum consistente, razão pela qual não tenho sentido o impulso de o escutar na íntegra; Pop Luso Flamenco, do Lucas Maia, porque gostei da fusão de estilos e da infinidade de camadas que cabem em seis canções, quase como se tivéssemos uma opção para distintos estados de espírito; Equilibrivm, da Anitta, porque achei interessante o facto de ser tão diferente dos trabalhos anteriores. Ainda só ouvi uma vez na integra e algumas canções soltas, mas quero continuar a explorar este álbum.
























