
A agenda de maio ativou o modo fogo no parquinho e eu gosto desta sensação de ter programas todas as semanas — com as minhas pessoas ou sozinha —, não só por alimentar tempo de qualidade, mas também pela possibilidade de assistir a espetáculos culturais que me interessam e que trazem sempre perspetivas novas para a minha vida. E é quando sinto a energia a esmorecer pelo cansaço acumulado que mais aprecio essa dinâmica, porque me mantém à tona.
Este mês começou em tons de azul e branco, de volta ao Dragão para celebrar a conquista do campeonato, foi um arraial, teve mudanças, pontos de fuga, várias combinações com lenços, uma ida ao cinema, muita comida, descobertas, o regresso das bebidas geladas, estreias e música ao vivo. Aliás, maio começou com um dos melhores solos de comédia a que assisti e terminou com um concerto absolutamente fabuloso, que superou todas as expectativas.
Já não sei quem o referiu, nem a forma exata como o fez, mas sinto que, este mês, foi muito evidente que a minha maior fonte de produtividade foi ter um prazo. Um prazo que eu própria defini para mim, para algo que estou a escrever, mas estabelecer esse limite ajudou-me a focar e, até, a estar mais atenta a alternativas, a estar mais predisposta para ser inspirada. E, admito, sossegou-me assistir ao Ponto de Fuga e sentir que isso me permitiu desbloquear por dentro.
Em maio coube muita coisa, por isso, o baú ficou cheio de memórias bonitas.
as coisas maravilhosas de maio
os fragmentos aleatórios
O Plutonio tem uma nova edição do vinil de Carta de Alforria e a verdade é que não fiz qualquer esforço para resistir, por isso, fui à Fnac buscar um exemplar para fazer companhia ao anterior. Pessoalmente, gosto mais deste tom de azul, até porque sinto que combina melhor com a identidade visual que criou para o álbum — que continua a ser escolha recorrente cá por casa.

No departamento de coisas que não sabia que precisava, mas às quais me rendi, tenho gelo reutilizável. Estou mesmo fã do conceito e da concretização, porque, apesar de ainda não ter utilizado muito, sinto que refresca bem e que se aguenta nas bebidas.
as músicas e os álbuns
O entusiasmo era difícil de esconder, porque passei o mês em contagem decrescente para novos trabalhos de artistas que admiro, sobretudo o do Richie Campbell. Pelo meio, ainda fui surpreendida por temas soltos e alguns EP's.
As músicas que marcaram o mês: Não Disseste Nada, Icaro | Cartas na Mesa, Van Zee | Maré Cheia, Marta Lima | Azeitona, Peculiar | Abismo, Cassete Pirata.
Os EP's e os álbuns que marcaram o mês: Lusa: Ato II, Bárbara Bandeira | Latitude 40º, Gustavo Reinas | Incoerente, Elisa | Elephant In The Room, Richie Campbell.
as publicações
No blogue, não tive publicações que se destacassem, porque tenho estado menos disponível, no entanto, à semelhança do que fiz no mês anterior, quero incluir um dos poemas que publiquei no substack.
O Icaro lançou a Não Disseste Nada, que tem estado em constante repetição no Spotify, ao ponto de me inspirar a escrever um poema a partir dela. Aliás, isto é algo que gostava de passar a fazer com mais regularidade, porque já tive várias ideias a partir de canções. Além disso, acredito que é uma forma simbólica de valorizar o trabalho daquele artista.
Se tiverem curiosidade, podem ler meios sinais.
os filmes, as séries e os podcasts
Este segmento inclui um filme, uma conversa e um documentário
O Diabo Veste Prada
Perdi conta à quantidade de vezes que vi o primeiro filme, por isso, sabia que ia querer ir ver o segundo, quando saísse. Reencontrar-me com estas personagens, tantos anos depois, teve um lado emocional, mas também foi interessante perceber como se moldaram à passagem do tempo, o ponto de vida em que se encontram, quais as motivações que ainda as fazem pulsar. Ademais, gostei que abrisse tantas portas para refletirmos sobre sucesso, escolhas, fronteiras pessoais e profissionais e retribuição. Acima de tudo, achei curioso que mostrasse como há pessoas que continuam a exercer tanta influência sobre nós, mesmo que já tenha passado um vida desde que se cruzaram connosco.
Brilhantes Diamantes: xtinto
Gostei muito do escalar desta partilha, porque deu para recordar histórias de estrada, analisar sonhos, falar sobre choro, gastronomia e casas de fado. E se a conversa ainda vai recuperar referências a apanhados portugueses não tem com falhar. Brincadeiras à parte, a conversa fluiu com naturalidade e descontração e, embora existissem questões estruturadas, criando um fio condutor, em nenhum momento soou a entrevista. Aliás, sinto que facilmente poderia acontecer fora das câmaras e essa proximidade é incrível.
Elephant In The Room: The Documentary
O tempo avança, ainda assim, o tema Blame It On Me continua(rá) a ter um lugar cativo no meu coração: não só pela melodia e pela letra que toca em tantos recantos íntimos, mas também por me ter cruzado com um dos meus artistas casa, o Richie Campbell. E se, aos 17, começava a estreitar esse vínculo, aos 34, os nós estão bem firmes. Por isso, assistir a Elephant In The Room, documentário sobre o seu mais recente álbum, deixou-me com a certeza de que muita coisa se foi ajustando no caminho, mas não a essência (essa nunca se perdeu), e que tudo isto continua a ser o sonho de um miúdo a florescer.
os livros
A leitura recuperou fôlego, em maio, mas não tive assim tantas histórias que me arrebatassem. O lado bom é que pude descobrir novos autores.
O favorito do mês: A Cozinheira do Ditador, Afonso Cruz
Outros livros lidos: Poemas Quotidianos, António Reis | Lá Fora, Pedro Mexia | Marcas Que Fazem Portugal, Margarida Vaqueiro Lopes | A Cor do Hibisco, Chimamanda Ngozi Adichie | As Melhoras da Morte, Rui Cardoso Martins | Poesia Completa, Maya Angelou | Um Pouco de Cinza e Glória, Cláudia Andrade.
os momentos
Muitos poemas a serem bordados no papel. Viciar em músicas. Ficar sem palavras em espetáculos ao vivo. Celebrar o título de Campeão Nacional, no futebol, e o da Liga dos Campeões, no Hóquei em Patins. O aniversário da minha sobrinha de coração e o de casamento dos meus pais. Os Aliados vestidos de azul. Quatro andares infernais, mas que simbolizam conquistas — e eu sou mesmo muito feliz a assistir a conquistas de amigos. A Sala Suggia. A tarte de chocolate e amêndoa do IKEA. Ovos mexidos ao pequeno-almoço. Noites em concertos. Finalizar o mês de forma leve.





Arraial, Vítor Sá
Não me recordo de ter estado noutro espetáculo em que estivesse o tempo todo a rir e ele conseguiu-o. Aliás, fiquei com a sensação de que esse foi o estado geral da sala, o que corrobora o tom cirúrgico das punchline. Percebe-se que existiu trabalho «a limar cada frase», não obstante, o texto não perdeu naturalidade e isso também é uma prova da sua evolução. A fasquia está elevada, mas acredito que tem tudo para melhorar. E o mais curioso é que não o conheço, mas saí do Teatro Sá da Bandeira orgulhosa, como se tivesse assistido a uma conquista de um amigo. Se dúvidas existissem em relação ao quanto merece que lhe esgotem todas as salas, este solo veio desfazê-las uma por uma (experiência completa aqui).
Em Sede Própria, Joana Marques
As minhas expectativas para Em Sede Própria estavam elevadas, mas admito que tinha um pouco de receio que, por ser somente sobre este tema, tendo em conta que foi tão esmiuçado na comunicação social, se tornasse maçador, talvez repetitivo. No entanto, a forma como construiu o texto não deu qualquer margem para desilusões. Antes pelo contrário, sinto que conseguiu acrescentar camadas novas e intercalar a insanidade de todo o processo com situações recentes, integrando o seu humor de atualidade mordaz.
Ponto de Fuga, Martim Sousa Tavares
Durante cinco atos, acho que o meu coração falhou algumas batidas, visto que o texto tocou em feridas que sei que nunca fecharão totalmente. Regresso com frequência ao quanto as memórias de quem não conhecemos nos moldam e creio que, ao longo dos anos, tenho feito as pazes com essa imagem, se calhar, por ter compreendido a beleza de olhar para cada uma delas não com o filtro da nostalgia, ficando refém do passado, mas com a génese certa da saudade: a que nos relembra que existiu um momento em que aquela(s) pessoa(s) fez(fizeram) parte da nossa vida, ainda que não nos lembremos, ainda que essa memória seja herdada. Eu sou todas essas pessoas que me chegam pelo olhar de terceiros, mas também sou o espaço entre elas e o que desconheço do futuro (experiência completa aqui).
Graças a Neno, Sérgio Fernandes
Admito que calibrei as expectativas, uma vez que não sabia o que esperar, mas foi um excelente espetáculo: bem construído, com um texto sólido e sem quebras de ritmo. O nervosismo fez-se sentir, o que acho natural, mas não comprometeu a entrega, porque Pastor Serjão é genuinamente cómico e creio, até, que foi capaz de usar o desconforto para trazer ainda mais expressividade às partilhas/dinâmicas. Portanto, misturando as «histórias do bairro do Alto do Bexiga», com «experiências bizarras da sua vida e uma boa dose de sátira», também houve momentos musicais e um exercício de português.
Em sonhos, é sabido, não se morre: xtinto no CCOP
As expectativas para o concerto não estavam modestas, admito, e o melhor de tudo foi sair do Auditório CCOP a sentir que as superou a todas. Aliás, foi daqueles casos em que os detalhe se alinharam na perfeição, porque o xtinto tem uma presença em palco contagiante, o alinhamento ficou incrível, a entrada dos convidados foi na altura certa, o público entregou tudo e o próprio espaço contribuiu para que o espetáculo, embora bastante enérgico e dançável, não perdesse a sua componente intimista, quase familiar.
Junho, sê gentil ✨












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