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| Fotografia da minha autoria |
Janeiro e a sua (aparente) dança interminável por dentro.
Sei que não trago uma perspetiva nova, porque a sensação de um mês que se multiplica é transversal, mas há qualquer coisa em janeiro que desacelera o relógio e nos mantém em câmara lenta. E, se calhar, é mesmo disso que precisamos, para não vivermos tão a correr.
Por outro lado, janeiro relembra-me sempre o filme Feitiço do Tempo, protagonizado por Bill Murray, no qual um meteorologista fica «preso num loop temporal, vivendo repetidamente o mesmo dia». Embora não esteja presa à mesma data, houve dias que pareceram apenas uma imitação dos anteriores. Mas, confesso, fui-me policiando nestas observações, porque estou ciente do privilégio que é ter apenas esta dor para combater, quando houve tempestades maiores a desolar uma parte da população. No meio de tanta angústia, ainda há a esperança, sempre acalentada por um povo que não larga a mão de ninguém.
Apropriei-me dos versos da Filipa Leal e dancei mesmo até ao fim.
as coisas maravilhosas de janeiro
os fragmentos aleatórios
O ano começou com uma ideia que fervilhava cá dentro há algum tempo: avançar com um substack de poesia, porque queria ter os meus poemas num único espaço e assumir o compromisso de tornar a escrita deste género mais regular. Assim, criei o no silêncio, enviando um poema novo todas as quintas-feiras, às 07h07.
Os batons, não é segredo, continuam a ser a minha maior perdição no mundo da maquilhagem. Por isso, estou sempre disponível para experimentar novas fórmulas e render-me àquelas que cumprem exatamente aquilo que prometem, como é o caso dos Locked Kiss Ink, da MAC. Tenho em três cores (dois tons de vermelho e um castanho) e, para além de terem uma durabilidade incrível, são bastante confortáveis, ao ponto de me esquecer que os estou a usar. O preço não é o mais simpático, mas sinto que tenho batons para a vida.

as músicas e os álbuns
Janeiro chegou com promessas e muitas descobertas musicais, trazendo novidades que tornaram os dias cinzentos mais luminosos e levantando o véu para trabalhos futuros (para os quais estou muito entusiasmada).
As músicas que marcaram o mês: Nome, Harold | Sonhos, Dengaz | Vento, xtinto | Olha P'ra Ela, Iolanda | Aperture, Harry Styles | À Tua Espera, Yang.
Os álbuns que marcaram o mês: Por Fora Ninguém Diria, Miguel Araújo | Fazer as Pazes, Rapaz Ego | Feliz(mente) Triste, Carolina de Deus | Lavoisier, ACE.
as publicações
bullet journal literário 2026
O planeamento do meu bullet journal literário é sempre uma das últimas tarefas do ano, até porque aproveito a leveza dos últimos dias para me sentar à secretária e deixar que a criatividade encontre o seu ritmo (aqui).
kobo: um ano depois
Na publicação sobre as motivações e primeiras impressões, destaquei aqueles que são, para mim, os pontos fortes e a maior fragilidade deste e-reader e, como mantenho a mesma opinião, vou-vos poupar a repetições. Quero, pelo contrário, mostrar-vos tudo o que li e analisar se fiz ou não uma grande poupança monetária (aqui).
os filmes, as séries e os podcasts
Neste segmento, trago um solo de comédia e um podcast.
Crente, Luana do Bem
O impacto deste solo, para mim, também passa pela interpretação, porque as palavras ganham vida no modo como as transfere para o público, como as reveste de um certo exagero e como as entoa. De uma forma muito natural, a sua expressividade transmite-nos a sensação de estarmos a viver aquelas histórias na mesma altura e com a mesma intensidade — de repente, é como se fossem nossas também. A Luana consegue ser bastante enérgica a contar as suas histórias e sinto que, aqui, usou isso a seu favor.
As Desobedientes
As «boas meninas vão para o céu, as más mudam a história», sinto, é o mote perfeito para o novo podcast da Rádio Observador, As Desobedientes, contado por Margarida Vila-Nova, Maria João Lopo de Carvalho e Alexandre Borges, ao longo de 12 episódios. O fio condutor que inspira estas conversas é o livro As Revolucionários, de Maria João Lopo de Carvalho, centrado em 12 personalidades femininas inspiradoras que, à sua maneira, foram fazendo as suas revoluções e quebrando barreiras na sociedade. Uma vez que queria apostar em projetos diferentes, achei que esta proposta seria uma boa forma de começar, até pela hipótese de descobrir nomes que não tenho tão presentes.
os livros
Janeiro começou com poesia e terminou com um novo verbo favorito. Como seria de esperar, nem todas as leituras se tornaram memoráveis, mas sinto que o mês começou com nota positiva.
Os favoritos do mês: Recomeçar, María Dueñas | Natureza Urbana, Joana Bértholo | Outonecer, Júlio Machado Vaz.
Outros livros lidos: Uma Falha nos Dentes, João Gesta | Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, Filipa Leal (releitura) | Na Terra dos Outros, Manuel Abrantes | As Margens e a Escrita, Elena Ferrante | Tira o Disco e Toca ao Vivo, João Gobern | Paradaise, Fernanda Melchor.
os momentos
Combinar programas com amigos. Adiar planos, por causa de constipações. Experimentar uma nova francesinha e ficar intrigada com o molho. Ir a espetáculos ao vivo. Ver vídeos de concertos. Ir votar. Combinar sessões de escrita. Voltar a receitas antigas. Escrever. Ler artigos. Responder a artigos. Avançar com novas ideias. Ver as camélias a florir. Comprar bilhetes para espetáculos futuros. Combinar lanches em casa. Voltar a ver Merlin. Janeiro teve muitas vidas dentro e eu fi-lo render em tudo o que trouxesse motivação.


Sombra, Bumba na Fofinha
Não creio que faça sentido estar a desenvolver uma consideração detalhada acerca do solo, até porque, como seria de esperar, grande parte das histórias já tínhamos ouvido e reforçaram tudo o que escrevi na newsletter 63. Não obstante, permitam-me apenas destacar o quanto continuo fascinada com a sua forma de narrar as peripécias que lhe aconteceram, o que mudou, que angústias surgiram, que lugares emocionais passou a habitar, porque fá-lo com naturalidade, a dose certa de exagero e uma graça que lhe é mesmo natural. Acho impressionante a cadência e a sua capacidade de interligar tudo como se fosse a sequência mais óbvia. Além disso, agrada-me que não tenha qualquer receio de levar o texto para uma parte mais emocional, porque não compromete o seu lado cómico, risível. Esta sensibilidade, para mim, faz com que se sobressaia no meio.
Gisela João no Coliseu do Porto Ageas
A poesia da Gisela João vai para além dos poemas que interpreta: está, claro, na sua voz cheia, nos silêncios, nas histórias que nos conta entre canções. A sua poesia está no sorriso que não vemos, quando se posiciona de costas, mas que sentimos a formar-se nas palavras. E, por falar em palavras, não podia estar mais de acordo quando dizem que ela as defende até ao último fôlego. Esta imagem não é só belíssima, é também um retrato fiel do modo como se entrega ao poema e como respeita o legado deixado no nosso cancioneiro, por artistas que usaram a arte como arma, como rosto de liberdade.
Fevereiro, sê gentil ✨




















