
As noites que nos caem por dentro são invisíveis. No máximo, vamos deixando breves indícios dessa escuridão sem, no entanto, revelar o quanto nos podem levar para uma zona de abismo irreversível. No seu mais recente livro, Susana Piedade espelha várias versões destes fragmentos, através de uma narrativa dura, que nos dilacera sem filtros.
diferentes tipos de perda e desencontros
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno leva-nos para a Praceta das Tílias, «onde as pessoas mal se veem na azáfama dos dias». Ali, perdidas nos seus próprios problemas, as personagens aparentam estar desligadas, mas é curioso como as histórias se cruzam mais do que aquilo que imaginam: Esmeralda esforça-se por ser «a mãe que lhe faltou em criança» e Teresa, a sua filha, «parece ter tudo para ser uma adolescente feliz»; Ana Lurdes cresce «numa casa onde o amor não entra», Sebastião e Olívia, pai e filha, são o espelho de um luto recente, amparando-se na saudade, e Lúcia vê a sua vida do avesso, quando confrontada com a certeza de «o maior perigo [vir] de onde menos esperava».
É, portanto, dentro de quatro paredes que a narrativa nasce, até porque «ninguém sabe o que acontece na porta ao lado», mas, perante cenários tão turbulentos, cada uma das personagens vai revelando as cicatrizes e os segredos que escondem, incluindo-nos no processo, nos momentos mais delicados e transformadores, que colocam em causa os vínculos afetivos e nos fazem questionar a sua resistência, a sua resiliência. E, uma vez que há perguntas que são caminhos, procuramos percorrê-los com cautela, atendendo a que existe sempre um prenúncio de algo mais, de outra camada sombria a espreitar.
A porta é aberta devagar, afinal, ainda não criamos intimidade, contudo, começamos a sentir o peso daquilo que não vemos à superfície, daquilo que vamos intuindo através de meias palavras, de ações incoerentes, de silêncios prolongados. De um modo subtil, as feridas vão-se insinuando, colando-se à nossa pele, inquietando-nos pela leveza de um início idealizado para nos fazer oscilar, para nos colocar ao lado dos protagonistas, mesmo que não sejamos capazes de entender todas as suas motivações e as suas dores. E, assim, ampliam-se as dúvidas e os receios, visto que não sabemos o que nos espera.
«As pessoas têm um lugar na nossa vida, como as coisas de casa, e se as desarrumarmos talvez nunca mais se ajustem da mesma forma»
Quando dei por isso, já estava completamente entrelaçada na realidade de Esmeralda, de Teresa, de Ana Lurdes, de Sebastião, de Olívia e de Lúcia, consciente de que cada um despertou, em mim, um lado emocional singular. Dentro das suas imperfeições, é percetível a sua humanidade. Aliás, se há algo a que a autora já nos habituou foi à sua forma de narrar assuntos que a apoquentam, resgatando retratos que poderiam ser de pessoas que nos rodeiam — ou, até, nossos. Felizmente, sei que não me revi na maior parte das situações, mas foi impossível ficar indiferente às marcas que (me) deixaram.
À medida que fui avançando na leitura, atando os fios invisíveis que Susana Piedade fez florescer, dei por mim a pensar em Tudo na Natureza Apenas Continua, de Yiyun Li, sobretudo, por causa de uma frase em específico. Num livro tão marcado pela relação entre pais e filhos (em ambos, na realidade), torna-se evidente que existem alturas em que podemos fazer tudo o que é humanamente possível para protegermos os nossos e, ainda assim, haver limites intransponíveis, muros que não conseguimos derrubar. Isso dilacera pela certeza de sermos habitados por um sentimento de impotência, por uma sensação de falha constante. E nenhum rasgo de luz parece ser capaz de o apaziguar.
A fragilidade das personagens, tão exposta no modo como enfrentam os seus traumas, as consequências de escolhas passadas, as expectativas que depositam em si e nos que as rodeiam, encontra colo na escrita da autora, sensível, poética nas passagens certas, sem floreados que desvirtuem o verdadeiro impacto das situações, porque o propósito é fazer-nos sentir, mas sem ter necessidade de enveredar por um tom melodramático. Ademais, sem passos apressados, faz-nos ouvir os silêncios que pairam nas conversas.
«A dor apropriava-se dos espaços onde antes também cabiam coisas boas, crescia desordenadamente até se sobrepor a tudo e fazer crer que não restava mais nada»
Precisei de respirar fundo em vários momentos, porque é ténue a linha que separa a lucidez da autodestruição, porque aquilo que nos mantém à tona consegue ser frágil, porque nem sempre compreendemos o abismo das nossas pessoas e o quão difícil é chegarmos até elas. Se decidirem abraçar esta obra, que aconselho vivamente, façam-no se estiverem num bom espaço mental e emocional, porque é uma história dura e há gatilhos aqui que podem mexer com situações pendentes ou desbloquear inseguranças que julgávamos resolvidas. A Susana Piedade não é gratuita na abordagem, antes pelo contrário, explora os assuntos com o máximo de respeito, mas não suaviza os cenários.
Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno reveste-se de sinais, de diferentes tipos de perda e de desencontros. Num meio onde ninguém se conhece realmente, ficamos a saber de casos de alienação parental, de doença prolongada, de abuso e de violência. Por esse motivo, este livro é plural nas suas dores, quer nas do passado que acabam a condicionar o presente, quer nas do presente que nos acompanham sem data para nos libertarem. Ao refletirmos acerca da possibilidade de nos reconstruirmos ao longo do tempo, torna-se inequívoco que uma simples descoberta estilhaça a nossa harmonia, deixando entreaberta esta porta que nos mantém equidistantes da paz e do precipício.
notas literárias
- Lido entre: 11 e 13 de junho
- Formato de leitura: Digital
- Género: Romance
- Nº de páginas: 208
- Banda sonora: Iris, Goo Goo Dolls | This Is Me Trying, Taylor Swift | Matilda, Harry Styles | em porta trancada, Maro








.png)
.png)








.png)


.png)
.png)


.png)





