
O gira-discos de maio esteve sempre em rotação, mas admito que não quis voltar para uma segunda ou terceira audição na maior parte dos álbuns que adicionei na biblioteca do Spotify, talvez por não estar bem alinhada com a energia que me estavam a transmitir ou, então, por sentir necessidade de ouvir outras coisas, o que não significa que não posso fazê-lo mais tarde.
Em maio, ouvi Soy Louco (Nininho Vaz Maia), Jab (Vilas Boas), Primavera (Isaura), Capacete Preto (SleepyThePrince), Transparente (Velhote do Carmo), Vendavais (Picas), Hormonal (Bárbara Tinoco), Já Não Posso Ficar Aqui (Trêsporcento), Quer Sequeira Quer Não (Luís Sequeira), Linguagem (Guga), unsent from london (Pipa), Será Que Lhe Descobres a Poesia? (Teresinha Landeiro) e Relatos de Um Coração Confuso (Marisa Liz) e é provável que, quando a poeira assentar, até recupere alguns dos títulos desta lista, porque creio que só não nos cruzamos na melhor altura. Não obstante, o meu entusiasmo estava todo concentrado na última semana de maio, já que trazia novidades do Richie Campbell, da Rita Vian e do Gui Aly, artistas que me enchem as medidas.
Posto isto, deixo-vos o que colhi musicalmente.
os álbuns de maio
CONSUMIR PREFERENCIALMENTE ANTES DO APOCALIPSE, JOÃO MAIA FERREIRA
As metamorfoses do João Maia Ferreira têm sido interessantes de acompanhar. Embora não faça parte do seu público mais atento, sinto que trouxeram sempre algo novo ao panorama musical português, limando arestas até encontrar a sua voz, o seu lugar. A celebrar dez anos de carreira, presenteou-nos com um novo trabalho.
Consumir Preferencialmente Antes do Apocalipse aparenta ter um tom fatalista, mas creio que a sua movimentação traz, pelo contrário, uma vontade de explorar novos caminhos. Ao mesmo tempo que faz uma espécie de retrospetiva pelo seu percurso, atando todos esses nós passados, vai abrindo portas ao futuro — seja através da sonoridade, seja por certos detalhes nas letras.
Tenho consumido o álbum em doses moderadas, mas apetece-me sempre voltar para o redescobrir e perder-me na sua caneta afiada, ora mordaz, ora vulnerável.
LSD, PROFJAM
A Sozinho foi a minha porta de entrada para o novo trabalho do ProfJam. Apesar de não ser a maior consumidora da sua arte, ouço-o pontualmente e este tema deixou-me bastante curiosa com a sonoridade que esteve a construir.
Love Songs Die — LSD — quebra um pouco essa visão, já que as letras exploram o amor em diferentes vertentes. O conceito pareceu-me fascinante desde o início, mas confesso que tive uma viagem oscilante, porque demorei a entrar em algumas canções. Ou, melhor, em algumas delas parecia haver sempre um pormenor que não estava a resultar em pleno comigo. Por esse motivo é que acho importante darmos tempo para que as músicas cresçam em nós, permitindo-nos chegar a outras paragens, sem forçarmos esse vínculo.
Há um lado luminoso que aparenta contrastar com os trabalhos anteriores e estou a gostar de perceber até onde consegue escalar, identificando camadas que me escapariam caso não regressasse a LSD com atenção e regularidade. Além disso, gosto que as letras tão depressa sejam vulneráveis, como sejam mais descomprometidas, retirando peso a certas questões.
ID, NENNY
A Sushi e a Bússola, a certo ponto, repetiram muitas vezes nas minhas playlists, mas depois distanciei-me do percurso da Nenny. Só com o tema Delulu, que integrou o álbum do Mizzy Miles, é que me reencontrei com a sua sonoridade e fui ficando expectante, para ouvir o seu novo trabalho.
ID é exatamente aquilo que promete: um bilhete de identidade que interliga as raízes, as lutas e as ambições da artista, num misto de vulnerabilidade e leveza, até porque há algo de fascinante em expiarmos as nossas feridas através de ritmos mais dançáveis. Sem limitações na forma como se expressa, este álbum explora diferentes sonoridades, que nos ajudam a conhecê-la melhor.
Essência, sobrevivência, superação, pertença, saudade são tudo peças deste puzzle musical que construiu de um modo tão equilibrado, emocional e identitário. O mais bonito, para mim, é sentir que cabem inúmeras histórias aqui dentro e que todas elas gritam liberdade.
LUSA: ATO II, BÁRBARA BANDEIRA
O Ato II é dedicado à portugalidade, à língua portuguesa e, sinto, aos detalhes que nos tornam tão nós.
Sem querer ser injusta a estabelecer comparações, até porque cada parte deste projeto da Bárbara Bandeira terá a sua identidade, funcionando com autonomia, achei que o Lusa: Ato II está mais coeso, mais maduro e menos óbvio. As referências e as homenagens à nossa cultura estão bem presentes, mas sinto que as abordou de um modo diferente, distanciando-se de um lado tradicional comum e incorporando a sua imagem de marca.
Esta parte é, também ela, uma viagem de autodescoberta e gosto de perceber como as músicas conversam entre si.
DE CORPO INTEIRO, MATILDA
Foi com o tema meu norte, lançado em fevereiro, que fiquei a conhecer a Matilda. Entretanto, lançou o seu álbum de estreia, por isso, não perdi a oportunidade de o ir descobrir.
De Corpo Inteiro cruza melodias de Pop e R&B, sendo percetível o seu lado mais intimista, introspetivo. De facto, o nome do álbum não podia ter sido melhor escolhido, já que há tanto da artista em cada um dos temas. Tenho voltado aqui sempre que preciso de abrandar, de respirar e de olhar um pouco mais para dentro.
LATITUDE 40º, GUSTAVO REINAS
Acompanhei o percurso do Gustavo Reinas no The Voice, completamente fascinada com a sua voz. Após ter vencido o programa e ter lançado músicas em nome próprio, estava curiosa para o descobrir numa versão mais longa, que saiu em forma de EP.
Latitude 40º parece-me uma estreia bastante sólida, com letras profundas e uma sonoridade que espelha o seu amadurecimento enquanto artista. Nesta viagem pelo lado emocional do ser humano, é curioso como há coordenadas que nos cruzam a todos, seja enquanto ponto de partida, seja enquanto paragem mais ou menos extensa.
Sinto que o futuro é promissor.
INCOERENTE, ELISA
A Elisa tem uma das minhas vozes favoritas, por isso, estou sempre disponível para novidades musicais da sua parte. Na última sexta-feira de maio, lançou o seu segundo álbum, o que me deixou bastante feliz.
Incoerente reúne quatro anos de «criação, experimentação e silêncio», porque o coração precisa de se recolher para sarar, porque há momentos em que precisamos de abraçar o caos e potenciar a mudança. É por esse motivo que o disco, ainda que se revista de melodias mais leves, não deixa de ter planos nostálgicos e, até, sombrios nas letras. Além disso, há um caminho que se ramifica, que nos permite avançar e recuar conforme as nossas oscilações emocionais.
As histórias que nos conta através das suas canções são sempre próximas e intensas, acolhendo-nos na sua asa, como se nos mostrasse que não estamos sozinhos nas dúvidas, nos medos, nas falhas. Achei a proposta muito humana, muito honesta, a relembrar-nos que nenhuma viagem é linear.
THIS IS WHAT LOVE FEELS LIKE, GUI ALY
Há qualquer coisa de aconchegante na voz do Gui Aly e achei particularmente poético que o seu mais recente EP quisesse acompanhar essa vertente de «porto seguro».
This Is What Love Feels Like espelha, em cinco faixas, diferentes versões do amor, com todos os abrigos e imperfeições que o revestem. Entre ritmos mais dançáveis, «lembra o que realmente importa», porque se foca nos pequenos gestos, nas pessoas, na empatia e naquilo que nos cura por dentro.
Sinto que este EP combinará muito bem com noites de verão.
LIGA DURA, RITA VIAN
A Rita Vian borda canções com uma assertividade impressionante, porque parece que nada lhe escapa, que a atenção ao mundo que a rodeia a predispõe a sentir com outra propriedade. Quando partilhou que vinha aí álbum novo, é claro que isso me fez o dia.
Liga Dura chega com uma identidade mais interventiva, a tocar em feridas e incoerências do ser humano: não com o intuito de dar lições de moral, mas, talvez, com uma certa urgência para nos alertar sobre o tempo que perdemos em coisas banais, que pouco nos acrescentam; para nos incentivar a questionar. Além disso, ao focar-se «no que não se vê por fora», faz-nos pensar em todas as vivências que nos moldam, que nos permitem amadurecer e construir a nossa identidade.
Confesso que, inicialmente, fiquei com a impressão de que não seria uma trabalho que fosse ouvir muitas vezes de seguida, porque precisa do estado de espírito certo. E a verdade é que tenho de passar mais tempo com estas músicas, mas é maravilhoso perceber como a Rita Vian usa a palavra como arma, como colo, como casa e como transforma todos estes poemas através de melodias que misturam eletrónica com «canto tradicional português e urbano». Talvez não o consiga encaixar em todas as partes do meu dia, por ser visceral e nem sempre querer ir para esse lugar, no entanto, faz-nos ver «o mundo com mais lucidez e empatia».
Propositadamente, fica a faltar-me aquele que escalou para o álbum do mês, Elephant In The Room, do Richie Campbell, não só porque quero passar mais tempo na sua companhia antes de concretizar a minha opinião, mas também porque ainda preciso de organizar melhor os meus pensamentos e aquilo que estas músicas me estão a transmitir. Correndo tudo bem, acabarei por lhe dedicar uma publicação individual.



















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