
A imagem de remendos de papel anotados, com frases, pensamentos, ideias para o futuro, traz um um toque romântico ao processo criativo, sempre tão caótico e tão fascinante, permanente antítese de estados de alma.
A minha secretária sempre foi organizada dentro da sua desorganização, espelho convicto dos fios invisíveis que florescem entre temas, entre fragmentos que não quero perder, entre tudo o que possa auxiliar a minha escrita. Com o tempo, passei a procurar um cenário menos confuso visualmente e passei a ter essas ideias espalhadas noutros lugares: na agenda, em páginas do notion, em monólogos no whatsapp. E, claro, como seres autónomos, sobrevivem sem precisarem da minha aprovação, da minha rega constante, da minha supervisão, podendo ficar descansada, porque sei sempre onde as encontrar.
Inspirada por Carlos Ruiz Zafón, que me abriu a porta do Cemitério dos Livros Esquecidos, percebi, dentro de um contexto muito mais humilde, que estava a compilar material para o meu próprio universo mágico, paralelo, não com obras literárias, mas com publicações que ficaram apenas a existir nestas plataformas, anonimamente.
Sei de onde vieram a maior parte das ideias, a intenção com que as anotei, a vontade de as tirar da gaveta... mas foram permanecendo ocultas, paradas no mesmo lugar: algumas porque deixaram de fazer sentido (apenas não as quis eliminar), algumas porque percebi que não tinha assim tanto a desenvolver, algumas (poucas) porque ainda havia esperança para as recuperar. Às vezes, quando a inspiração oscila, volto ali para perceber se algum dos tópicos me impulsiona a escrever, contudo, faço o caminho inverso com folhas em branco. Talvez um dia.
Ter uma espécie de banco de ideias traz-me um certo conforto, por um lado, porque continua a ser um sinal concreto do quanto esta casa digital me faz sentido e, por outro, porque é a desculpa perfeita para continuar entre palavras escritas. No fundo, sinto que estou a amealhar possibilidades dentro da possibilidade maior que é criar.
Como não sei quando, ou se, irei desenvolver os temas acumulados, quis agrupá-los por aqui. Assim, sejam bem-vindos ao meu Cemitério das Publicações Perdidas.
o cemitério das publicações perdidas
ter ou não ter rubricas no blogue
Apontei esta a partir de uma pergunta que me fizeram, há uns anos, com o intuito de refletir sobre o facto de ajudarem ou condicionarem a criatividade. Uma vez que fiquei a boiar num depende, deixei de ter o impulso para algo longo: em parte, acho que as rubricas nos ajudam a cimentar a identidade dos nossos projetos, espelhando aquilo que poderão ser; em parte, sinto que podem afunilar tanto o nosso conteúdo, que ficamos apenas numa bolha pouco curiosa para explorar novos horizontes. Pender para um dos lados dependerá sempre do nosso propósito, do quanto nos colocamos inteiros — e esta abordagem pode mudar consoante a fase da vida em que estamos.
os palavrões: desrespeito ou meras expressões?
Há quem adore, há quem repudie o seu uso. Eu, nascida e criada numa das margens do Douro, sempre os encarei como advérbios de intensidade. Claro que tudo tem o seu momento, o seu contexto e, dependendo do modo como são utilizados, rapidamente escalam de uma expressão inocente para uma afronta, no entanto, partindo de um cenário consciente, que não pisa limites, não há advérbios mais satisfatórios do que estes, aos quais recorro com regularidade, sem culpas.
No meu whatsapp, tinha começado o texto assim: Não me refiro a palavras grandes, mas ao vernáculo que ofende sempre um grupo muito específico de pessoas, como se dizer palavrões fosse repugnável ou nos tornasse criminosos — a quantidade de bem falantes que andam por aí a estragar a vida de terceiros é que as deveria preocupar, mas isso não é assunto para agora. Um bom palavrão, dito no momento certo, é libertador. E é por isso que não confio em quem afirma que não os pronuncia. Nem quando batem com o mindinho num móvel? Psicopatas! Foda-se e filha da putice estão no topo das minhas preferências. Mas também não fecho a porta a um caralho. É preciso interpretar a energia e ver o que encaixa melhor. A parte engraçada da questão é que só digo palavrões entre amigos. Com os meus pais e restante família não. E é isto que me fascina, porque somos pessoas dadas à arte do vernáculo. Não em demasia, mas com a utilidade que o palavrão tem: pontuar frases (a partir daqui ficou vazio).
os meus anticorpos
Na realidade, é só um: brincar com os assuntos. Sempre senti que o riso era um aliado de peso para iluminar zonas cinzentas, por vezes sombrias. Encontrar o ângulo cómico de cada situação sempre foi a minha forma de estar na vida, mas sem que isso me impedisse de as sentir, apenas com a intenção de não me afundar nelas, porque haveria uma forma para as ultrapassar.
falar em voz alta os assuntos que nos incomodam/inquietam
Como nem sempre o faço, achei que seria hipócrita da minha parte avançar com um texto destes. Um dia, quem sabe, volto aqui.
a literatura como lazer ou como impulso de mudança?
Pode ser ambos, por isso, deixou de ser uma questão. Aliás, até acho que este tópico se interliga a outro que anotei, também em modo de pergunta: será que todos os conteúdos têm de ser educativos? Todos temos responsabilidade social e as nossas escolhas, ainda que inconscientemente, refletem isso mesmo. No entanto, isso não tem de eliminar um dos lados da equação: posso ler por prazer ou para aprender/provocar mudanças internas; posso consumir ou criar conteúdo educativo ou que não passe de entretenimento. Ambos são válidos, ambos nos acrescentam, o importante é encontrarmos o nosso equilíbrio.
campa literária
Os tópicos dentro deste universo são em maior quantidade, por isso, achei que os podia compilar no mesmo parágrafo: é que deixar livros a meio deixou de ser um problema, as metas literárias, para mim, sempre foram uma fonte de motivação e não de pressão, lidar com críticas negativas aos livros que adoramos faz parte do processo (e escolher não as ler é válido/aceitável/uma excelente decisão) e a minha estratégia para manter a pilha de livros por ler controlada passou por, simplesmente, saber que não tenho de comprar tudo para ontem, que priorizar os títulos já adquiridos não quebra o mundo encantado das possibilidades — e como já tenho uma publicação sobre ser mais consciente na hora de comprar livros, senti que não valia a pena voltar a este tema. Quanto aos outros, não queria que os textos viessem com um tom condescendente, como se quisesse dar uma lição de moral, porque a minha intenção nunca foi essa. Uma vez que não tenho uma conclusão brilhante para acrescentar a tudo o que já foi dito, preferi remetê-los ao silêncio.
publicar todos os dias ou dosear as publicações
Na qualidade de pessoa que já publicou todos os dias, durante alguns anos, e que, agora, doseia este calendário de conteúdos, volto a socorrer-me do depende, porque haverá alturas para tudo, porque a nossa vontade pode pender mais para uma das opções, porque podemos querer desafiar-nos ou sentir que precisamos de abrandar. Os motivos podem ser variados, sem grande ciência que nos obrigue a explicá-los detalhadamente.
será que queremos ou não queremos mesmo uma coisa?
Joana Bértholo, no seu A História de Roma, e Ana Pessoa, no seu Desvio, abriram a porta para uma questão que me ficou a ecoar por dentro, porque existem alturas em que dizemos/fazemos algo, mas, depois, questionamo-nos se isso partiu mesmo de nós ou se, inconscientemente, reagimos a um estímulo de terceiros — será que eu quero mesmo ser mãe? será que quero mesmo não ser? será que a minha resposta não passa de um contra a uma ideia enraizada pela sociedade? Como não cheguei a um consenso para desenvolver, este tópico ficou perdido.
a necessidade de tudo ter significado
E tem, mas sinto que a obsessão para que tudo tenha um significado profundo, transcendente, tem escalado. Às vezes um só porque sim é significado suficiente. Pronto, era só isto que tinha para dizer.
vidas pinterest
Não preciso de ver pessoas a chorar na internet para saber que sofrem e que a vida consegue ser uma filha da putice, nem preciso que deixem de filtrar aquilo que partilham. Aliás, percebo perfeitamente que queiram fazer das suas redes um refúgio, um álbum de boas memórias (também o faço). Preciso, isso sim, é que diminuam o tom de vidas pinterest e parem de romantizar atrasos, falta de tempo, exaustão, ausência, dor, a falta de limites.
ideias de wc
Se vocês soubessem a quantidade de textos que já desbloqueei só com uma ida à casa de banho! Não sei que fenómeno é este, mas será que resultava ter um caderno e uma caneta nesta divisão da casa ou ia acabar por dar ao mesmo? Será que é a mudança de espaço que influencia a fluidez?








.png)





.png)





