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| Fotografia da minha autoria |
A educação é um dos pilares da humanidade e, por esse motivo, beneficiamos quando as componentes cívica e letiva se fundem. Infelizmente, temos assistido a um declínio da «qualidade da escola, do ensino e da formação profissional», tão vitais, nos últimos anos, o que comprova as várias ramificações da crise que continuamos a viver. É neste «contexto que nasce a série O Grito», uma obra de ficção inspirada na realidade do país.
considerações iniciais
A narrativa é construída a dois tempos: no presente, enquanto acompanhamos Sofia a investigar as causas do suicídio da irmã, Vitória, e no passado, recorrendo a flashbacks que nos permitem ter acesso à vida de Vitória, uma professora bastante dedicada à sua profissão, tantas vezes a interferir com a esfera familiar, desequilibrando interações e o modo como os laços se iam estreitando — ou ficando lassos. Através do sofrimento do filho, do marido e da irmã, descobriremos «o peso emocional que teve de pagar».
Sinto que é sempre complicado compreendermos a origem, que gatilho espoletou esta decisão tão definitiva, e que talvez seja mais simples encontrar culpados, para sermos capazes de racionalizar, de compartimentar, de unir as pontas que permanecem soltas. Só não sei se isso apazigua a culpa de sentirmos que não estivemos atentos aos sinais ou se apenas a intensifica, porque ficamos preso à noção de que falhamos às pessoas que amamos. Mas, logo de seguida, ficam a ecoar outras questões: ainda que víssemos os sinais, até onde é que poderíamos ir para impedir este desfecho? Conseguiríamos?
A saúde mental é um dos assuntos com maior foco, não obstante, partindo do contexto escolar, é uma série que nos permitirá pensar mais fundo sobre dinâmica entre pares, bullying, pertença, aparências, a necessidade de estabelecer limites, as dificuldades de um setor a estenderem-se para outras áreas e, claro, o valor da educação em Portugal.
Uma das personagens, numa determinada situação, acaba a dizer que «o pior é quando as pessoas olham para nós e não nos veem» e, tendo em conta tudo o que aconteceu no primeiro episódio e para onde poderá escalar, sinto que O Grito será muito sobre isto.
considerações finais
As fragilidades humanas podem ser profundas e, nesta série, são retratadas ao detalhe. Apesar de parecer que se divide por temas várias vezes abordados (o que não invalida a pertinência dos mesmos), é a forma como a narrativa se constrói que nos envolve no desenrolar dos acontecimentos e nos leva a questionar a integridade das personagens.
O suicídio de Vitória é o pretexto para vermos tudo aquilo que tem sido ignorado, é o gatilho para questionarmos, para lutarmos, para estarmos atentos aos sinais, por mais subtis que eles sejam. Nem todos os finais serão como o da professora, felizmente, no entanto, a sensação de uma dor tão profunda que não pode ser calada de outra forma é uma realidade bastante mais frequente do que seria desejado. E, depois, escala na sua complexidade porque nos mostra a quantidade de pormenores obscenos que esconde.
Intercalando o passado e o presente, o que nos permite traçar o retrato de cada um dos intervenientes e conhecer as suas bagagens sociais e emocionais, confesso que houve algo a fazer-me desconfiar de uma das personagens, embora a sua construção nos desperte pareceres ambíguos: por um lado, podia ser só uma impressão errada, uma má interpretação dos factos, mas, por outro, havia qualquer coisa na sua postura que era inconsistente, havia um certo desfasamento a traí-la. E este pensamento ficou a ecoar até à revelação final, sem que, contudo, prejudicasse a experiência. Aliás, creio que a forma como foram introduzindo pequenos indícios desde o início ajudou a que a dúvida aumentasse, confrontando-nos com a nossa capacidade de interpretar pessoas.
Se o contexto deste suicídio já era, por si só, uma fonte de inquietação e de revolta, dei por mim muitas vezes a replicá-las em relação ao contexto educativo, pois a figura da diretora espelha tudo aquilo que abomino e que considero errado na profissão: agir de acordo com aparências, manipular, inverter prioridades, focar-se mais nos rankings do que nas necessidades da comunidade estudantil. Como é que o futuro da educação fica assegurado se tentam que sejam estes os seus pilares? Como é que alunos, professores e funcionários podem manter a esperança se são estes os valores que veem replicados? Embora pareçam tópicos isolados, estes desafios profissionais interferem no contexto familiar e, de repente, tudo se transforma em esforço acrescido, desgaste e angústia.
As narrativas paralelas levam-nos sempre de volta ao ponto de partida: à tentativa de perceber o que levou Vitória a terminar com a sua vida. Esta procura por respostas vai levar-nos até lugares sombrios, porque não fazemos ideia do que se passa na vida das pessoas que nos rodeiam, porque aquilo que nos mostram é apenas a superfície de um mundo desconhecido. Entre negligência, desvalorização e indisciplina, a série mostra-nos como existem tantas frentes ativas quando um problema nos bate à porta, porque os problemas dos outros não desaparecem, porque uma situação tão extrema como a morte de alguém próximo não anula a precariedade, o bullying, a carência de afeto, o alcoolismo, o consumo e a venda de droga. O tempo não para quando se tenta unir as pontas soltas, muito menos diminui o sofrimento daqueles que só querem esquecer.
Achei mesmo interessantes as ramificações desta série, atendendo que nos permitem refletir sobre vulnerabilidade, perda e presença, e sobre como é possível reconstruir vínculos afetivos no meio de dias tão ambíguos e dolorosos. Além disso, terminei cada um dos episódios a pensar em situações concretas (tentarei não revelar demasiado):
- episódio um: até onde podemos ir para ajudar alguém? Qual é o limite?;
- episódio dois: há sempre alguém a impor um caminho, a coagir, a manipular, a fazer prevalecer um jogo de interesses desonesto;
- episódio três: a falta de comunicação pode ser extremamente violenta e ampliar remorsos e um sentimento de culpa. Por outro lado, é inqualificável a dor de não se ser capaz de perceber o que estava a acontecer, procurando prevenir;
- episódio quatro: há quem aparente ter tudo o que precisa, mas a sua vida está tão vazia do que é o mais importante, como o amor e a atenção dos que ama, que tudo serve se sentir menos só. No fundo, é como se já não existisse algo a perder;
- episódio cinco: como é que não se perde o encanto pela profissão se o futuro é tão incerto, se a desonestidade parece não ter limites? Como é que se segue em frente quando há tantas perguntas sem resposta e todas as pistas parecem levar a lugar nenhum? O luto parece sempre mais difícil de processar nestes termos;
- episódio seis: a dormência, a revolta, a alienação turvam o discernimento e é importante sabermos acolher a dor do outro, mas também fico a pensar que não é justo aguentar ataques de fúria ou tratamentos de silêncio. Quando alguém está em sofrimento, tudo à sua volta parece menor, menos importante e tudo é válido para preencher o vazio que ficou, mesmo que isso leve a decisões pouco seguras;
- episódio sete: há silêncios que escondem feridas profundas, traumas dos quais não se recupera. Como é que alguém consegue destruir a vida de outra pessoa e seguir os seus dias sem qualquer tipo de remorso, fingindo que nada aconteceu?
- episódio oito: nunca é fácil descobrir algo que pode aumentar ainda mais a dor de um coração ferido, sempre a um passo do abismo. A dúvida instala-se, porque decidir entre contar a verdade e esconder pode ter repercussões irreversíveis, consumindo-nos por dentro. Acho que há um caminho que nos parece óbvio, quando vemos as coisas de fora, mas nunca haverá uma decisão certa, sobretudo se a motivação for proteger quem amamos.
O Grito surpreendeu-me, mas sinto que o final foi um pouco abrupto. Há pontas soltas que mereciam um desfecho, para compreendermos o verdadeiro impacto da situação, e preferia que alguns acontecimentos não escalassem tão rápido, ficando a impressão de que houve pressa para os concluir — creio que, à semelhança do que fizeram com outros indícios, teria sido mais valioso se os fossem encaminhando mais cedo naquela direção. Apesar disso, o argumento não perde totalmente a força da sua mensagem e deixou-me a pensar que as nossas pessoas compreenderão sempre os nossos silêncios.


















