Entre Margens



Março leu-se no feminino e com particular foco na poesia, combinando, desta forma, duas comemorações simbólicas, que me fazem todo o sentido. Fugi um pouco da minha zona de conforto ao arriscar em nomes desconhecidos, mas também regressei a autoras que coexistem nesta casa.

Desta vez, não terminei o mês com poesia, mas acabei por a encontrar espelhada por todos estes livros.


a tbr de março
  • Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo (alma lusitana);
  • A Bastarda de Istambul, Elif Shafak (3 autoras para 2026);
  • Alegria Para o Fim do Mundo, Andreia C. Faria (12 meses, 12 livros de poesia);
  • A Desobediente, Patrícia Reis;
  • Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida (ler ffms);
  • Guia Prático Antimachismo, Ruth Manus;
  • Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso.

 o que li em março

Para além da tbr definida, li:
  • Sede de me beber inteira, Liana Ferraz;
  • Oxe, Baby, Elayne Baeta;
  • Poemas de Amor, Emily Dickinson.


 algumas curiosidades

Em março, li
  • 10 livros: poesia (4), romance (2), não ficção (3) e crónica (1);
  • 10 autoras: portuguesas (5), turco-britânicas (1), brasileiras (3) e norte-americanas (1);
  • 4 autoras pela primeira vez: Carla Maia de Almeida, Liana Ferraz, Elayne Baeta e Emily Dickinson.

Favoritos do mês
  • Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida;
  • Um Cão no Meio do Caminho, Isabela Figueiredo;
  • A Desobediente, Patrícia Reis.


 vamos a contas?

Tinha dois livros na lista e acabei a encomendar mais um do que tinha pensado, porque não dava para não aproveitar as promoções da FNAC para o Dia Mundial da Poesia, mas tudo controlado no orçamento.

  • Comprei 3 livros (As Filhas do Capitão, O Olhar Diagonal das Coisas, Poemas Completos) e gastei 86,38€;
  • Ativei a subscrição do Kobo Plus, que me custou 7,99€. Li 6 eBooks, poupando 74,96€;
  • Comecei março com 80€ na Apparte. No total, amealhei 18€, transitando para abril com 98€.


 banda sonora



 a tbr de abril
  • O Homem Sem Mim, Rute Simões Ribeiro (alma lusitana);
  • As Filhas do Capitão, María Dueñas (3 autoras para 2026);
  • Jóquei, Matilde Campilho (12 meses, 12 livros de poesia);
  • A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone (ler ffms);
  • A Malcriada, Beatrice Salvioni;
  • Notas Para John, Joan Didion.



O entrelinhas de março só inclui dois livros e, por isso, estive quase para os agregar ao entrelinhas do mês seguinte, mas desisti da ideia. Dos dez livros que me acompanharam, um deles foi uma releitura (aqui), três foram lidos para ir celebrando o dia mundial da Poesia (aqui) e os restantes terão reviews individuais.


entrelinhas de março


A Bastarda de Istambul, Elif Shafak

A autora Elif Shafak foi levada a tribunal, na Turquia, acusada de «insultar a identidade turca» num dos seus livros, no qual aborda, de forma indireta, o conflito Arménio-Turco, cujo genocídio nunca foi assumido pela República da Turquia. Sendo a nossa autora de março, parti para a leitura bastante intrigada.

A Bastarda de Istambul oscila entre memórias e esquecimento, entre a «necessidade de reavaliar o passado e o desejo de o apagar». Certo dia, uma mulher solteira de 19 anos entra num consultório médico, declarando que precisa de fazer um aborto. A partir desse momento, a sua vida mudará para sempre. Vinte anos depois, em linhas que se cruzam de uma forma quase mística, os segredos do passado reaparecem.

É impressionante como a escrita tão melódica e sensorial de Elif nos transporta para lugares e realidades que desconhecemos — ou que, pelo menos, não nos são tão próximos. No entanto, devo confessar que esta história não resultou muito bem comigo: primeiro, porque achei os saltos temporais demasiado céleres, deixando pontas soltas, e, segundo, porque senti que algumas partes precisavam de ser mais aprofundadas, justificando escolhas para além das marcas do passado. Naturalmente, há feridas que parecem nunca sarar e isso pesa, apenas gostava de ter visto a narrativa a escalar para outros patamares, a explorar camadas menos óbvias.

Por oposição, interessou-me muito a sensação de ser forasteira, revelada por uma das personagens, que me recordou de Sasha, uma das protagonistas de A Casa de Pineapple Street, e do esforço para pertencer a uma família que nunca lhe abriu a porta; interessou-me a dinâmica familiar e o quanto os seus elementos podem ter particularidades curiosas, pouco adaptáveis, mas que fazem funcionar; interessou-me a amizade das personagens mais novas, coração desta narrativa, que gostava que tivesse um desenvolvimento mais calmo, estruturado, para que sentíssemos na pele o verdadeiro impacto do legado que carregam.

A Bastarda de Istambul deixou-me a pensar sobre crenças e tradições, sobre o quanto é fascinante perceber que o mesmo acontecimento pode ser defendido por duas verdades: a que não esquece e a que omite. Acima de tudo, fez-me questionar até que ponto é justo cobrarmos a quem não fez parte da História, apenas por ser filha de um dos lados. Este livro traz temas preponderantes para o debate, só fiquei com a sensação agridoce de que precisava de atar melhor os seus nós, porque os ingredientes estão cá todos.



Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso

As crónicas de Dulce Maria Cardoso foram compiladas num primeiro volume que me comoveu pela transparência e pela intimidade. Por esse motivo, adicionei o segundo à minha lista de desejos, assim que anunciaram o lançamento, mas, por uma qualquer razão que não sei explicar, adiei sempre a sua compra. No início do ano, precisei de ir trocar livros e achei que era a altura ideal para o trazer comigo. Além disso, como em março tento ler apenas autoras, integrei-o na tbr mensal e deambulei nas suas visões.

Autobiografia Não Autorizada 2 volta a unir histórias verdadeiras com relatos ficcionais, numa proposta de auto-ficção particular, cirúrgica e com um olhar sensível acerca dos assuntos que explora. Assim, viajamos muito à infância, a Angola, a eventos literários, a amores, a feridas, mas questionando a veracidade das descrições, questionando se o que está a ser contado serve apenas o texto ou se é um espelho fiel dos acontecimentos.

O meu exemplar veio com um defeito — tinha crónicas repetidas e outras em falta — e, enquanto aguardava a chegada de um novo, curiosamente, regressei muitas vezes a esta capacidade de Dulce Maria Cardoso, porque acho fascinante a abordagem e, mais do que isso, acho fascinante o processo de plantar a dúvida e de estimular o nosso lado crítico, relembrando-nos que é fundamental permanecermos alerta: é que as histórias podem ter várias versões e quem as conta usa sempre as palavras a seu favor. A destreza de partir de certos elementos e revesti-los de um contexto que pode só existir no papel e/ou na imaginação é o que nos permite oscilar por distintos planos narrativos.

Por um lado, senti que as crónicas ficarão datadas, porque é evidente o período a que pertencem, mas, por outro, senti que tinham um tom mais melancólico, a interpretar o que podia ter sido, o que ficou ausente. Embora não tenha ficado tão impactada como fiquei no primeiro volume, é sempre maravilhoso regressar à escrita desta autora.

Fotografia da minha autoria


A minha lista de leituras para março sustenta-se sempre a partir do mesmo propósito: incluir, maioritariamente, livros de autoras, numa celebração e homenagem simbólica pelo dia internacional da mulher. Assim, a narrativa que me acompanhou no primeiro fim de semana do mês não foi inocente, uma vez que li o retrato escrito pela jornalista Carla Maia de Almeida, em 2017, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.


 violência na intimidade

Em Nome da Filha, com o subtítulo Retratos de Violência na Intimidade, é composto por «testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica». Por motivos de segurança, todas estas partilhas foram feitas sob anonimato, a partir de vários pontos do país e de diferentes contextos, sem falsos moralismos, apenas a mostrar os inúmeros ângulos de uma mesma realidade. Dividido em três partes, o livro nasceu, então, de uma urgência comum: «lutar contra um problema que não é doméstico, mas de toda a sociedade».

As estatísticas fazem-nos recuar mais de dez anos, no entanto, continuam atuais. Pior, continuam a evidenciar o aumento de casos e que, embora em Portugal a lei esteja a evoluir, ainda falta o pior: mudar mentalidades. É que «uma em cada três mulheres é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher». Números à parte, ainda que sejam amplamente ilustrativos da situação, o que choca, o que revolta, é sentir que a impunidade prevalece, que o discurso só muda de tom, visto que reproduz argumentos que vamos conhecendo de cor, como se legitimassem ações.

Já canta o xinto que «entre marido e mulher é que se faz um país», no entanto, parece que insistimos na narrativa de não ser assunto nosso — e o ditado é antigo. Apesar de, por vezes, existir uma infinidade de condicionantes, porque há limites para aquilo que podemos fazer, o cenário talvez fosse diferente se não perpetuássemos certos ideais, se não fechássemos os olhos, assobiando para o lado que convém, parafraseando Sérgio Godinho. E, enquanto lemos os testemunhos, somos confrontados com esta dualidade.

«Mas a verdade é que a Fernanda já tinha morrido há mais tempo, debaixo das telhas que escondiam muita coisa, no silêncio indigno das mulheres maltratadas»

Acredito que a maior valência da obra seja alertar, levar-nos a questionar o que precisa de ser reestruturado, quais as desigualdades que precisamos de combater, o que é que permanece invisível e a corroer a estabilidade e a segurança destas mulheres. Quando cheguei à segunda parte, lembrei-me da série Casa-Abrigo, porque estes locais têm um papel preponderante enquanto rede de apoio e porque, à semelhança do que senti ao assistir aos episódios, voltou a pairar uma sensação de injustiça: por um lado, é vital que estes espaços existam, para que as vítimas de violência encontrem um pouco de paz e consigam, pouco a pouco, recuperar a autonomia, mas, por outro, não parece lógico que seja a vítima a alterar toda a sua vida, a afastar-se daquilo que conhece, a recomeçar noutro lugar. Uma vez mais, as consequências pendem para o lado errado.

Sem condescendência, com sensibilidade e margem para escutar diferentes pontos de partida, realidades e formas de encarar a situação, achei interessante a abordagem e o facto de as partilhas serem complementadas com pareceres profissionais, uma vez que nos ajudam a compreender melhor a extensão deste flagelo e do impacto que têm as suas ramificações. Portanto, ao cruzar números, estatísticas e as histórias de cada uma destas protagonistas, é fácil — e doloroso — constatar que o caminho ainda é longo.

Em Nome da Filha mostra-nos que existem ciclos que se repetem, que a manipulação é um dialeto bastante audível, que há verdades demasiado enraizadas; mostra-nos que é usual encontrar justificações para certas reações. Enquanto sociedade, temos de fazer mais, educar melhor, questionar, denunciar, porque não podemos ficar indiferentes. O livro é forte e impactante, sobretudo, por ficar claro que continua a ser tão necessário.


 notas literárias
  • Desafio: Ler FFMS
  • Lido entre: 7 e 8 de março
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não Ficção
  • Banda sonora: Tempestade e Não Me Importo, Carolina Deslandes

Fotografias da minha autoria


As tradições não se multiplicam nos metros quadrados que me edificam, mas encontro conforto em pequenos rituais que parecem acrescentar um pouco mais de cor à banalidade dos dias. E gosto, sobretudo, quando surgem de um modo desprendido e fazem todo o sentido — é a vida a tentar alinhar todas as suas facetas.

Quando assumi que um dos meus propósitos para 2026 era ser mais consistente a escrever poesia, devia ter complementado a afirmação com um «e a lê-la também», porque não só me faz falta, como também me acrescenta, e preciso de a tornar mais expressiva na minha vida e, por consequência, nas minhas estantes.

Tenho adorado o hábito de começar o mês a ler poesia e, embalada por este pensamento, consciente de que março é poesia por excelência, decidi escolher três livros de três autoras que nunca li, para ir celebrando esta efeméride para além da data em que é assinalada. Embora não tenham escalado para a lista de favoritos, o mais importante, para mim, foi a possibilidade de descobrir outras vozes, outras formas de escrever poemas, de bordar emoções às palavras. E a verdade é que em todas elas encontrei versos que me comoveram.

Tinha outras opções, mas aventurei-me nas obras de Liana Ferraz, Elayne Baeta e Emily Dickinson.


 sede de me beber inteira, liana ferraz

A vontade de abraçarmos o mundo (de dentro para fora ou vice-versa) pode manifestar-se por uma sede metafórica, que sorvemos devagar ou com sofreguidão, dependendo do estado de espírito.

Ao partir de uma chávena de chá, de café ou de uma taça de vinho, Liana Ferraz procura «beber sem medo a própria essência» e, assim, ser capaz de se compreender, de se amar inteira, de estender as margens que traçam os seus (e os nossos) limites, observando o que a rodeia com outro entendimento.

Recorrendo a jogos de palavras, a estruturas menos rígidas, numa aproximação mais livre da poesia visual, Sede de me beber inteira lê-se muito bem e tem versos encantadores — acho que quando se aventura em propostas mais longas é onde me conquista —, ainda assim, não sinto que me tenha impactado.

«quem me dera viver o presente
como a intensidade da saudade que eu sinto»


 oxe, baby, elayne baeta

A ideia de um caderno de poesia roubado parece quebrar réstias de segurança e expor uma intimidade da qual não temos qualquer pertença. Apesar disso, com toda a sinceridade e ousadia, é a autora Elayne Baeta que nos proporciona este roubo, convidando-nos a descobrir o seu primeiro livro de poemas.

Oxe, Baby, «entre metáforas com casulos, morcegos e borboletas», é um espelho da autora e das «suas experiências como uma menina que ama meninas», o que a firma como «uma das vozes mais influentes da literatura jovem adulta LGBTQ+ no Brasil». Descobri-a por acaso, mas, como «para entender uma pessoa basta outra», permiti-me mergulhar nestes amores e nestas dores.

Achei que os versos eram vulneráveis, honestos, preocupados em demonstrar que é necessário destapar o que insistem cobrir como se fosse errado, vergonhoso. No entanto, a partir de certo ponto, senti que se tornaram repetitivos. Há um tom de revolta e de afirmação, que nos impulsiona a pensar sobre desigualdades e injustiça, que se perde por isso mesmo, afastando-nos das várias camadas que compõem o livro e que seria interessante ver exploradas de outros prismas.

«quantas coisas
eu sou por dia
sem que ninguém
— sequer
perceba?»


 poemas de amor, emily dickinson

Emily Dickinson levou uma vida de reclusão, escrevendo, ao que tudo indica, «mais de mil poemas com metáforas surpreendentes, uso não convencional de pontuação e observações extraordinárias sobre muitos temas». Uma vez que já me tinham sugerido a sua escrita, fui descobri-la entre versos.

Poemas de Amor é uma coletânea dedicada ao seu grande amor secreto: a cunhada Susan Gilbert. Com uma curadoria que pretende evidenciar esse amor e todo o seu afeto, deambulamos por 40 poemas que nos mostram diferentes perspetivas, passando pela imortalidade, pela não correspondência, pela dor, pelo afastamento e, até, por apontamentos que a entrelaçam à natureza.

A afeição é notória e transversal. Confesso, ainda assim, que não me relacionei com os seus versos, porque senti que havia sempre um muro a distanciar-nos, a impedir-me de perceber a sua real mensagem — talvez me falte o contexto, para melhor entender as referências, os lugares, as memórias. Por outro lado, se calhar a intenção é mesmo essa, mostrando-nos fragmentos sem relevar toda a essência, mas faltou-me algo.

«Agora eu sabia que a tinha perdido
Não que ela tivesse ido
Mas o afastamento passeou
Por seu rosto e sua língua»

Fotografia da minha autoria


O livro de André Tecedeiro, cujo título despertou sempre um certo fascínio em mim, veio morar cá para casa sem data para ser descoberto. Contudo, com a última semana de fevereiro a ser um pequeno caos de cansaço, precisei de recuperar energias no meio da poesia e estes versos foram, sem qualquer margem para dúvida, um grande amparo.


 encontrar o poema que temos em nós

A Axila de Egon Schiele remete-nos para um pintor austríaco e para o expressionismo, ao qual está ligado. Esta referência, como se vai percebendo ao longo da obra, não é inocente, até porque o movimento caracteriza-se, em traços gerais, por se focar numa componente subjetiva das emoções, no sentir do artista. Para além de termos poemas que parecem saídos de um quadro — ou que dão vontade de ser emoldurados num —, é notório que o autor mergulha no lado mais humano e mais íntimo das nossas almas.

Como Tecedeiro escreveu, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e este verso talvez seja tudo o que esbate a fronteira entre a leitura e a sensação de nos estarmos a ver ao espelho. Aliás, houve vários momentos em que divaguei para longe, quer por ter representados pensamentos e estados de espírito recorrentes, quer por ter encontrado e revisitado situações cravadas no meu peito — desde a urgência da escrita ao luto. É capaz de ser egocêntrico querer tanto este vínculo entre a palavra escrita e as nossas emoções, mas foi impossível passar por estes poemas sem me sentir neles, sem sentir que são, eles próprios, uma travessia de crescimento, de descoberta, de transformação.

Ao colocar-se a nu nestas linhas que vão muito além do que é visível, cujas entrelinhas trazem tantas camadas desarmantes, incentiva-nos a fazer o mesmo, mas sem que haja desconforto. Aqui, somos todos vulneráveis, observadores, curiosos; aqui, todos temos de aprender a escutar, a cuidar, a lidar com perdas, dificuldades, dúvidas e solidão. Sou capaz de ter mentido ao afirmar que não há desconforto, porque ele existe, no sentido em que o autor imprime em nós parecer crítico, uma necessidade de levantar a cabeça para ver aquilo que nos rodeia. A realidade nem sempre apazigua as nossas dores, nem sempre atenua a culpa e o desencanto, no entanto, entranha-se em cada poro, por isso, reconhecê-la pode quebrar a nossa bolha, impulsionando-nos a sentir. Assim, sem «ter medo de mexer nas zonas que outros evitam», mostra-nos que não há temas interditos.

«E ninguém o compreende
porque quanto mais urgente
a escrita
mais ilegível a letra»

Nesta obra, que compila seis capítulos, André Tecedeiro brinca com as palavras, fá-las oscilar entre a intimidade e a exposição, entre o corpo e a casa, entre o ir e o ficar (ou entre a fuga e a permanência), entre a desilusão e o querer, mas nem sempre neste laço de contrastes, muitas vezes como se fossem sequências de um mesmo passo, rituais a ocuparem o seu espaço neste palco mundano, onde há sempre algo a florescer. Sinto que o que mais me cativou na escrita do autor, para além da proximidade e do quanto consegue ser visual, foi mesmo o modo cirúrgico com que plantou cada palavra em cada um dos poemas, construindo-os de várias formas, ora breves, ora longas, sempre na medida certa para provocar reações, para retirarmos o que, de facto, precisamos.

Foi, igualmente, bonito perceber que a sua profundidade não larga a mão de uma certa utopia: ainda que consciente das sombras, não perde a oportunidade de se deslumbrar e convida-nos a fazer o mesmo, mas, não nos iludamos, basta um verso para nos puxar o tapete e deixar aquela mensagem a ressoar por tempo indefinido. Além disso, ao dar voz a um corpo que se habita e que se modifica, que se molda, como uma plasticina, às nossas múltiplas identidades, creio que formula um retrato precioso sobre diversidade.

A Axila de Egon Schiele, cujo último capítulo integra uma conversa notável entre André Tecedeiro e Laura Falé, ramifica-se, adapta-se e transforma-se. Sem o querer reduzir, é um livro sobre cuidar, nutrir e ser lar; é sobre ser o que nos veste de dentro para fora.


 notas literárias
  • Lido entre: 23 e 24 de fevereiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Banda sonora: Nada Dura Para Sempre, Dealema | Praia de Tinto, Mallina | Origami, VSP AST | Pode Alguém Ser Quem Não É?, Sérgio Godinho
Fotografia da minha autoria


A síndrome do impostor planta a sua semente, florescendo que nem ramos de magnólias. Entra, senta-se à mesa sem pedir licença e transforma-se numa companhia fiel, consistente, estável, enquanto faz pulsar as nossas emoções. E, como um poema que se constrói em silêncio, permanece.

Há muitas ocasiões em que parece ausente, mas basta um olhar vacilante, um pensamento mais profundo, e cruzamos energias. Quase como um lembrete de que manter-se oculta não significa ter-se ausentado por tempo indefinido. Portanto, consciente de que se divide em mil sombras, aprendi a recebê-la em casa — mesmo que a sua presença não seja simples e leve.

Acredito, até, que escrever sobre a síndrome do impostor é uma estratégia para a desmistificar, para lhe retirar peso e poder, mas ela habita em mim e arranja sempre forma de recuperar, principalmente quando racionalizo mais de perto algum passo criativo próximo. Aí, o embate é certeiro e é como se acendesse uma luz a mostrar que outros chegaram antes de mim, que não terão qualquer dificuldade para seguir aquela narrativa. E eu que só queria o peso pluma de uma ideia que me motiva sinto a insegurança a bater à porta para se juntar a esta festa privada.

Inconscientemente, encolho-me no canto da sala para respirar fundo, para ganhar balanço, ainda que ligeiro, e não permitir que enevoe a intenção, fazendo-me recuar. Já o fiz imensas vezes e, sem querer dar margem para arrependimentos, não é agradável a sensação que fica, porque sentimos mesmo que diminuímos para encaixar numa visão que nem nos pertence bem, que apenas inflama por uma síndrome que nos rouba a voz.

Ponderar, hesitar, equacionar e, inclusive, reestruturar são passos que me parecem imprescindíveis quando queremos avançar com um projeto novo, independentemente da sua magnitude, mas sinto que há sempre um esforço acrescido para combater a síndrome do impostor e não deixar que o condene ainda antes de sair da gaveta. Nesta dança descoordenada, dei por mim a regressar aos pensamentos do costume assim que decidi criar conta no Buy Me a Coffee. Mas foi neste ponto que percebi que a minha reserva em avançar não estava só dependente da síndrome do impostor — ou, então, ela só encontrou outra maneira de se camuflar.


 parecer descabido cobrar por aquilo que criamos

Uma das minhas resoluções para 2026 era silenciar esta voz pouco simpática a pairar, sobretudo no que concerne a receber dinheiro por aquilo que crio. Em 2025, quase cheguei lá, mas depois fui adiando porque me soava descabido cobrar por algo que construo a partir de casa, sobre conteúdos que leio/ouço/vejo sem pretensões de maior, apenas por gostar ou ter curiosidade em descobrir. Às vezes, existe alguma pesquisa, mas é tudo muito mais emocional.

Logo aqui identifiquei e desconstruí um problema, porque parece que só há um certo tipo de projetos a merecer este estatuto de ser pago, quando nem é uma visão com a qual concorde. Aliás, sempre defendi que se podemos ter um extra com as ideias que desenvolvemos é de aproveitar, porque aliamos o melhor de dois mundos. Portanto, se defendo isso para os outros, porque é que coloco tantos entraves quando sou eu na mesma posição? Talvez seja uma sensação de não merecimento a precisar de ser trabalhada.

Outro aspeto que me fazia recuar eram as mensalidades que me pareciam inflexíveis. Como não queria cobrar aqueles valores, voltei a adiar. Pelo meio, conversei muito sobre o assunto e cheguei ao compromisso que se apresentou mais confortável, o Buy Me a Coffee, que é uma plataforma que permite pagar a um criador de conteúdo de forma regular ou esporádica, na qual as pessoas escolhem o valor que consideram mais adequado dentro do seu orçamento. Assim, na lógica de me pagarem um café — preferi pedir um macchiato —, decidi incluir essa opção na Portugalid[Arte], a minha newsletter cultural.

Quando, no início do ano, anexei esse recado, percebi que havia mais questões pendentes a atrasarem esse passo em frente, alimentando as dúvidas.


 rentabilizar um hobby ou deixá-lo ser só um hobbie?

A proliferação de projetos pagos deixou-me a deambular por um receio muito palpável, isto porque, ao cobrar um valor para me lerem, temia que se quebrasse a liberdade para criar. Se as pessoas aceitam pagar, inevitavelmente, tenho de corresponder, não posso permitir que se sintam defraudadas com aquilo que estão a receber. Preços à parte, é uma preocupação que me acompanha em todos os conteúdos que publico (para um seguidor ou vários), mas integrar uma mensalidade parece-me trazer uma pressão acrescida.

Por um lado, isso pode ser bom para nos desafiarmos, para procurarmos a criatividade em todos os poros da nossa rotina/existência, para, como referiu o Dengaz a propósito do seu mais recente álbum, nos lembrarmos «dessa forme e da vontade de fazer as cenas». Mas, por outro, temo que escale para um patamar tão assoberbante que comecemos a perder o brilho, o gosto de criar apenas pelo prazer que isso nos dá. No fundo, de perdermos a capacidade de nos espantarmos com o que nos impulsiona a criar só porque não queremos falhar, nem queremos que sintam que não estamos a cumprir a promessa de entregar algo diferente, que justifique estabelecer um preço.

Neste seguimento, também compreendi que a minha reserva estava muito ligada à vontade de manter os meus hobbies exatamente como tal. A beleza de investirmos nos nossos projetos está em sabermos que são um escape, uma forma de «dar a folga para não dar a fuga», como canta o Lhast, sem a responsabilidade de alimentarmos um negócio. Escrevo na internet há demasiado tempo sem qualquer retorno financeiro e isso nunca foi um problema, porque o propósito sempre foi alimentar o meu lado criativo. Ter esta divisória, sem estar preocupada em rentabilizar o meu conteúdo, sossegou um coração inquieto, onde a síndrome do impostor fez morada.

Escrever organiza-me por dentro e, por isso, ao refletir sobre estas questões e hesitações fui entendendo que não são conceitos que se excluem e que é possível rentabilizar um hobbie sem que ele se transforme em algo que não queríamos.


 combater a síndrome do impostor. fazer as pazes. repetir

O ponto que transformou a narrativa foi, precisamente, encontrar o Buy Me a Coffee, porque eu continuo a criar sem impor mensalidades fixas, enquanto as pessoas podem continuar a ler gratuitamente. A diferença é que, agora, se fizer sentido, se gostarem do meu trabalho na newsletter, podem fazer uma contribuição. Sinto que este método é mesmo o melhor para mim, já que serena todas as questões ambíguas que mencionei antes e que, à sua maneira, deixam o caminho um pouco mais turvo.

As verdades e as técnicas nunca são absolutas e nós vamos reproduzindo o que se adequa mais a nós, à nossa intenção, à nossa identidade. Eu fecho a porta de casa e sei que a síndrome do impostor permanece no lado de dentro, a fazer-me questionar algo tão simples como a pertinência de pedir que me ofereçam um macchiato. Eu puxo uma cadeira e sento-me ao seu lado, nem sempre com vontade de a olhar de frente, mas um pouco mais apaziguada, porque, neste combate, fiz as pazes com ela, sabendo que repetirei, todos os dias, os passos que me permitam ir expulsando o medo, as inseguranças, mesmo que voltem, mesmo que se façam ouvir, porque ainda sou eu a dona da casa.

Fotografia da minha autoria

A história do empresário Mário Sequeira começou a ser cantada há quase quatro anos, quando David Bruno lançou o álbum Sangue & Mármore. A estrutura de áudio novela e a narrativa das canções a focar espaços concretos de Vila Nova de Gaia, como Avintes, foram dois aspetos revolucionários no panorama musical — e o narrador François da Costa, a tentar ser o jornalista Olivier Bonamici, não só nos permite vivenciar as duas componentes, como também nos leva a conhecer toda a carga dramática que envolve um assassinato. Do disco para o ecrã, esta história adquiriu um formato audiovisual.

Sangue & Mármore, inspirada no disco homónimo do artista gaiense, é uma «telenovela musical noir». Nesta produção, o empresário de sucesso Mário Sequeira é encontrado morto «junto ao Zoo de Santo Inácio», com duas pistas: uma fotografia e uma unha de cor vermelha. Naturalmente, há várias perguntas que se destacam e, ao longo de cinco episódios, tentaremos unir as peças deste puzzle onde nem tudo é o que aparenta ser.

Um mundo de esquemas, problemas, promessas e ostentação sustenta um passado de boémia, enquanto contrasta com a inocência de quem começa do zero, se arrepende e procura por perdão. Mas o mais curioso é que o desenrolar da ação nos faz questionar se há alguma inocência a povoar estas personagens ou se é tudo um jogo de interesses. Portanto, oscilando entre um pouco de ingenuidade, lugares comuns e uma identidade muito portuguesa, percebemos que existem armadilhas onde todos nós podemos cair.

A base da história, como referiu David Bruno numa entrevista, foi imaginada, mas «os elementos que a colam são tudo coisas reais» e sinto que a beleza — e originalidade — deste argumento passa por essas referências e pela noção de ser uma situação credível, que poderia ter «acontecido na porta ao lado». As temáticas já vimos replicada noutros contextos, mas nenhum inclui as paisagens de Vila Nova de Gaia, a nossa pronuncia e aqueles que passaram pela vida do artista. Ademais, sinto que apenas David Bruno se lembraria de incluir detalhes da história do Rei dos Frangos, sócio de Luís Filipe Vieira.

Sangue & Mármore interliga «o abstrato e o corriqueiro, o erudito e o popular». Porém, gostava de ter ficado mais tempo com os protagonistas, não só para ver a elasticidade criativa, mas também para ter uma escalada menos célere — embora, contradizendo-me, creia que tem a duração ideal, face à narrativa que estava a ser contada. E, admito, faltou-me ter um pouco mais de Rui Reininho, porque o papel assenta-lhe bem. Ainda assim, voltando a socorrer-me das palavras de David Bruno, «este mistério à moda de Gaia» prova que a «arte está em todo o lado», até no que só fica visível nas entrelinhas.

Fotografia da minha autoria


O conceito de liberdade tem tanto de extensível, por se manifestar nos contextos mais diversificados, como de frágil, por sentirmos que não o podemos dar por garantido. É, portanto, imprescindível continuarmos a lutar por ele, porém, será que temos todas as ferramentas necessárias? Na novela gráfica de M. L. Vieira refletimos sobre o assunto.


 esbater fronteiras, pensar a liberdade

Danificada leva-nos para uma fábrica do futuro, onde «máquinas e meios de transporte são montados por um batalhão de clones». Lá, as mulheres são meras cópias umas das outras, tendo só um número para as identificar. Com os dias a serem, igualmente, uma replica dos anteriores, 2518 ambiciona algo diferente para si, o que parece ser um erro.

Há, aqui, várias fronteiras que se esbatem, porque deambulados entre o que é real e o que é imaginação, entre monotonia e vontade de quebrar amarras, entre o silêncio e o barulho dos nossos desejos a fervilharem. As regras daquele lugar são claras e não há uma mulher que ouse contrariá-las — porque não foram incentivadas para tal, porque não foram construídas para terem personalidade e opinião —, mas em 2518 surge uma nova luz, uma nova voz, e isso é assustador, tanto para ela, como para quem a rodeia.

Esta história distópica, que aparenta sustentar-se numa perfeita linha de montagem, pretende confrontar-nos com aquilo que tentam definir, de um modo subtil, como um ato de rebeldia que necessita de ser revisto, reparado, para que o objetivo central seja cumprido sem qualquer perigo. É evidente que o facto de ser um clone não escapa ao leitor, o que torna a reflexão ainda mais pertinente: por um lado, porque nos mostra o lado falível das máquinas e, por outro, porque nos mostra que em qualquer contexto pode existir uma tentativa de silenciar quem mostra ser oposição. Assim, num cenário que recorre à ficção científica, a autora traça uma crítica subtil, no entanto, inegável.

«Agora sei que estou verdadeiramente só. Sozinha com sonhos e esperanças demasiado grandes para esta prisão»

Aliás, um dos pontos centrais da obra, para mim, é o quanto a sua crítica consegue ser plural, porque não só nos impulsiona a pensar num mundo totalitarista, impessoal e mecanizado, no qual o sonho e o pensamento são vistos como ameaças, mas também porque abre a discussão acerca de tudo aquilo que é imposto à mulher na sociedade. Não obstante, senti que a concretização poderia ter sido mais impactante, isto porque, a dado momento da narrativa, faltou aprofundar um pouco melhor algumas questões, para que não ficassem pontas soltas, e ter diálogos que acrescentassem mais à ação.

Danificada aparenta ter uma premissa simples, mas, apesar das suas fragilidades, leva-nos a refletir sobre liberdade, individualidade e resistência. Fiquei impressionada com as ilustrações, com o quanto nos hipnotizam e nos transmitem as diferentes sensações da protagonista. Só não me arrebatou como estava à espera, uma vez que senti falta de um pouco mais de equilíbrio entre todas as componentes — mas não desgostei do que encontrei, uma vez que não deixa de ser uma obra bastante promissora e introspetiva.


 notas literárias
  • Desafio: Alma lusitana
  • Lido a: 9 de fevereiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Novela Gráfica
  • Banda sonora: Força, Da Weasel | Control, Halsey

Fotografia da minha autoria

O Expresso do Submundo fez a sua primeira viagem em 1996, quando o Pentágono — DJ Guze, Expeão, Fuse, Maze e Mundo Segundo — gravou o EP de estreia, em cassete, e «o foi distribuir de mão em mão pelas ruas de Vila Nova de Gaia e do Porto», cidades de onde são naturais. E eu tenho a forte convicção de que o meu fascínio por margens, por estas margens em concreto, e pela escrita poética despertou graças a este vínculo.

Perdi a hora da partida, porque em 1996 tinha quatro anos, mas os Dealema deixaram a porta aberta para quem os quisesse acompanhar e, já mais velha, enraizada por uma passagem de testemunho silenciosa, tal como partilhei aqui, apanhei boleia e passei a falar no mesmo dialeto, a sentir na pele o contexto e o impacto de cada referência.

A minha definição de arte começou a ser moldada com e pelos cinco. Entre o Bloco 24, em Ramalde, e o Segundo Piso, em Gaia, unidos pelo amor à cultura Hip Hop, foram a voz do que se passava no mundo nos anos 90, nos planos tecnológico, social e político. Portanto, o «grupo de amigos» criou «sintonia com o [n]osso coração» e traduziu muito daquilo que nos ia por dentro, evidenciando as raízes, os lugares que os formaram, as pessoas que lhes deram a mão, enquanto espelhavam sonhos, medos e metamorfoses.

Trinta anos depois, há mudanças inegáveis, mas a alquimia permaneceu inquebrável, até porque o legado do passado, que foram cultivando a pulso, abre portas ao futuro.


 96 ao infinito

O nome do álbum remete-nos para o dos Soul Of Mischief, 93 ‘Til Infinity, atendendo a que, como confidenciaram em entrevista, é um conceito que representa não só aquilo que criaram, mas também continuidade. E esse sempre foi um dos propósitos maiores do grupo: reinventar-se, firmando a identidade que lhes permite explorar novas rotas.

Quando escutei 96 ao Infinito, num misto de entusiasmo e nervosismo, afinal, o último longa duração tinha sido lançado em 2013, reconheci esse diálogo íntimo, consistente, como se entre este disco e o Alvorada da Alma não existisse uma história de treze anos, como se o silêncio pertencesse apenas à ocasião em que a última nota ecoa e fazemos um compasso de espera para avançarmos para a seguinte. O regresso trouxe a magia de soar ao abrigo de sempre, mas revestido com uma energia fresca, atual e irreverente.

Assumindo-o como espinha dorsal dos Dealema, este álbum interliga, por um lado, os temas mais underground, sustentados em melodias orquestrais e sombrias, na rima e na técnica, e, por outro, temas mais emocionais, mais introspetivos. Esta força e atenção encontram impulso na atualidade, na forma como observam o mundo e o comunicam e na consciência de que o lado pessoal, construído entre quedas e conquistas, lhes foi afiando a caneta. Numa entrevista recente, o Maze referiu algo que, creio, resume este pensamento: embora estejamos perante o mesmo grupo de 1996, «não estamos perante o mesmo grupo de 1996». Reconhecemos-lhe as origens, as raízes, a linguagem inicial, mas o Pentágono tem «mais horas de estrada, mais cicatrizes e mais coisas a dizer» — e há uma geração inteira que continua a querer escutar tudo aquilo que têm a partilhar.

A ponte entre passado, presente e futuro não só foi conseguida através da produção do Menfis, que entendeu «a energia dos primeiros discos» e a elevou a outros patamares, mas também graças às colaborações que integram 96 ao Infinito: ACE e Manel Cruz já pertencem à história do grupo, estreitando os laços entre diferentes géneros artísticos, reforçando que é possível cruzar visões com elementos de bandas que chegaram antes, sem margem para alimentar competições; Bezegol, Zacky Man e David Cruz, por seu lado, marcam um novo capítulo, que há muito queriam levar para as canções. O mais fascinante é ouvir o resultado e perceber que existe harmonia, que a essência artística e criativa de cada um encaixou na perfeição, fazendo com que tudo soasse a poesia.

Diretamente da escola dos 90, há aspetos que continuam a ser a imagem de marca dos Dealema, razão pela qual preservam relevância: as letras incisivas, cheias de camadas, que nos obrigam a ir ao lado mais profundo da mensagem. Além disso, a componente lírica, que não cedeu à pressão do imediatismo, fomenta a pluralidade da intervenção, sempre com verdade, alicerçada à consciência social e política que nunca perderam.

96 ao Infinito tem, no meu parecer, uma das entradas mais incríveis, revestindo-se de nostalgia, maturidade e resistência. Esta assinatura embalou as músicas do álbum e marcou o tom para a celebração da «terceira década seguida sem descer da primeira».


 o pentágono reunido num coliseu esgotado

Uma das salas mais emblemáticas da cidade Invicta abriu os portões para receber um dos nomes maiores do Hip Hop português. Este reconhecimento de parte a parte é a prova inequívoca do quanto a consistência promove a permanência e a lembrança, do quanto a continuidade permite escrever memórias tão bonitas. Se dúvidas existissem, ter um Coliseu do Porto esgotado para pertencer a este momento dissipou-as a todas.

Não o verbalizei, mas houve alguma inquietação a pontuar as horas que antecederam o concerto, não porque temesse que ficasse aquém das expectativas, mas por saber que seria para revisitar uma parte da minha história, de recordações muito particulares e, como isto não é sobre mim, para comemorar o culminar de 30 anos de carreira de um dos meus grupos favoritos. Portanto, apesar de estar igualmente entusiasmada, sabia que eram bastante fortes as probabilidades de me comover nesta viagem intemporal.

As lágrimas ficaram recolhidas, posso sossegar-vos, porém, o coração falhou algumas batidas, a pele eriçou e voltei ao passado, só para embarcar numa travessia épica pela obra tão vasta dos Dealema e comprovar, na primeira pessoa, que as raízes são fortes, mas que nunca os impediram de voar. Aliás, a simbiose entre passado e presente é tão cirúrgica que qualquer uma das músicas podia integrar qualquer álbum sem destoar, mostrando que estão constantemente a reinventar o modo como constroem as rimas.

O concerto foi escalando, com recursos audiovisuais, espontaneidade e, muito graças ao Expeão, dinâmicas cómicas. Apesar de ter acusado um certo cansaço (porque foram quase três horas de espetáculo, depois de um dia de trabalho), parte de mim até queria que fosse tudo em câmara lenta, como na canção, para parar o tempo, para não ter de me despedir, para continuar comovida com a energia da sala, na qual as nossas vozes se uniram como se fossemos parte do coletivo e permanecêssemos, juntos, na Sala 101.

As colaborações saíram do álbum para o palco, o quinteto trouxe as suas ramificações a solo e apresentaram formas distintas para recordarmos os temas que compõem o seu património musical. De alma e coração, além da arte que lhes corre no sangue, aquilo que sobressai é a amizade e a chama que se mantém acesa desde o primeiro dia. Já que entre amigos não há filtros, absorvemos cada extensão de cumplicidade, essa semente que floresce num terreno que procuraram trabalhar e cuidar para que se tornasse fértil.

Os Dealema cantam que «nada dura para sempre, ninguém vive eternamente», mas «já são 30 anos a enganar a morte», por isso, tendo em conta a história escrita no Coliseu, creio que são a exceção. O Expresso do Submundo ainda tem muitas viagens pela frente.

Fotografia da minha autoria



A sensação que acompanhou fevereiro foi diferente, porque, pela primeira vez, não senti que tivesse passado num sopro. Pelo contrário, acho que se estendeu para lá do seu tempo, mas sem que isso me pesasse.

Eu, que gosto tanto de desfrutar da casa, dei por mim a precisar de sair, para aproveitar todos os raios de sol fora das minhas paredes e, honestamente, adorei essa mudança, já que também espelha uma escolha ativa para contrariar a tendência de ficar apenas na minha bolha. Creio que ter começado a desenvolver uma ideia que andava a pairar no meu pensamento, ter pensado muito em poesia e ter ido ver artistas que admiro ajudou bastante nesse processo — ter planos culturais anima-me sempre os dias.

Como André Tecedeiro escreveu no seu A Axila de Egon Schiele, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e eu preferi contar este mês pelo colo que foram todas as coisas que li, vi e ouvi ao longo destes dias. E um sábado cheio de sol, para a despedida, só podia terminar com notícias de encher o coração.


as coisas maravilhosas de fevereiro


 os fragmentos aleatórios

A garrafa de gás que compramos cá para casa tinha manjericos desenhados.

O concerto dos Dealema levou-nos ao Casa das Tortas, para um jantar prévio. Gostei muito da sala, que parece esbater a fronteira entre os tascos tradicionais e os conceitos mais contemporâneos, que continuam a espelhar a identidade da cidade. Optamos pela francesinha e fui agradavelmente surpreendida: o molho tinha um travo evidente a mostarda, mas os sabores estavam bem conjugados e a carne era bastante saborosa. Além disso, fomos bem recebidas e atendidas durante a refeição. Pretendo voltar.

      

O McDonald's lançou a box Friends, permitindo-nos colecionar as seis personagens icónicas da série. No último dia do mês, depois de uma sessão de escrita, acabamos a almoçar por lá e, como a Sofia não fazia questão de ter o boneco, consegui trazer o Chandler e o Joey. Obviamente, sou uma criança feliz.


 as músicas e os álbuns

A playlist de fevereiro parece ter chegado a todo o lado, agregando imensos e diversos temas. No entanto, sendo honesta, não tive assim tantos a arrebatarem-me. Reconheço, ainda assim, que isso pode ter acontecido porque o meu foco estava mais direcionado para os álbuns que sabia que iam sair ao longo do mês e nos quais tenho vivido intensamente.

As músicas que marcaram o mês: Desassossego, Mariana Volker | 4 de Fevereiro, Slow J & Prodígio | Essência, Agir & Mizzy Miles | que me encontres, Latte.


Os álbuns que marcaram o mês: O Que Não Se Vê é Eterno, Dengaz | 96 ao Infinito, Dealema | Juro, Eu Caí, Mallina (EP) | The Romantic, Bruno Mars.


 as publicações

precisamos assim tanto de telemóveis em concertos?
Há umas semanas, o Alexandre Guimarães utilizou as suas histórias de Instagram para nos convidar a ler um artigo que escreveu para a VAMMU Magazine, com o intuito de refletirmos acerca da necessidade de utilizarmos telemóveis em concertos. Do lugar de alguém que já o usou bastante e tentar usar só em pontos específicos do espetáculo, aceitei o repto indireto e mergulhei num ensaio de sensibilização (aqui).


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um episódio de podcast, um ensaio, duas séries e uma conversa.

Intrusivos: Bumba na Fofinha
Sou pouco consistente a acompanhar os projetos do Tiago Almeida, devo confessar, apesar de ter adorado o seu Prisão Preventiva. No entanto, a Bumba na Fofinha foi a primeira convidada da segunda temporada de Intrusivos, um podcast onde «convida amigos e conhecidos para falarem sobre pensamentos intrusivos e coisas que fazem mais têm vergonha de admitir», e isso fez-me perceber que, se calhar, devia estar mais disponível para as suas propostas, não só por ter graça, mas também por ter aqui um conceito mesmo interessante. Chorei a rir com o escalar de insanidade destes dois — com a grande benesse de, pelo meio, abordarem questões/dúvidas super pertinentes.

Capitão Fausto: Um Ensaio Para o Futuro
Um Ensaio Para o Futuro, disponível na RTP Palco, mostrou-nos canções como Santa Ana, Amanhã Tou Melhor, Certeza ou Na Na Nada, ao mesmo tempo que nos permitiu ouvir, entre outras, partilhas sobre a coisa mais doida que lhes aconteceu em palco, a grande decisão de se dedicarem em exclusivo à música, a cumplicidade musical; sobre o disco gravado no Brasil e a necessidade de reaprenderem a fazer música a quatro.

Sangue & Mármore
Sangue & Mármore interliga «o abstrato e o corriqueiro, o erudito e o popular». Porém, gostava de ter ficado mais tempo com os protagonistas, não só para ver a elasticidade criativa, mas também para ter uma escalada menos célere — embora, contradizendo-me, creia que tem a duração ideal, face à narrativa que estava a ser contada. E, admito, faltou-me ter um pouco mais de Rui Reininho, porque o papel assenta-lhe bem. Ainda assim, voltando a socorrer-me das palavras de David Bruno, «este mistério à moda de Gaia» prova que a «arte está em todo o lado», até no que só fica visível nas entrelinhas.

Principado: Primeiro Canto
Não sei se conhecem a história do Principado da Pontinha, porém, em traços gerais, é «uma autoproclamada micronação, localizada numa rocha de 178 metros quadrados, a 70 metros da costa do Funchal, na ilha da Madeira». O dono do Ilhéu, que se intitulou como Príncipe D. Renato Barros II, ao que tudo indica, «foi forçado a deixar o [antigo] Forte São José», porque foi vendido «a emigrantes num processo de falência». Ora, o que é que António Azevedo Coutinho pensou? Obviamente, conquistar o principado.

Imperfeita Repetição: xtinto
O xtinto não deixou morrer o seu sonho e, recentemente, lançou Em sonhos, é sabido, não se morre, título inspirado num verso de Sérgio Godinho. A propósito do álbum, foi o mais recente convidado do programa Imperfeita Repetição, no qual conversou com o Alexandre Guimarães e tocou ao vivo Dividir e Nunca Mais, dois temas deste trabalho.


 os livros

Fevereiro começou e terminou com poesia. Foi um mês um pouco morno nesta área, mas encontrei dois autores que vou querer continuar a acompanhar de perto.

Os favoritos do mês: Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis | A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro.

Outros livros lidos: Exposição. Poemas e Prosímetros, Duarte Scott | Malorie, Josh Malerman | Danificada, M. L. Vieira | A Grande Magia, Elizabeth Gilbert | Oração Para Desaparecer, Socorro Acioli | Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie | O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes.


 os momentos

Gatos sempre ao colo. Avançar em novas ideias. Voltar ao cinema. Festejar os 62 do meu pai. Comprar livros. Fotografar arco-íris. Ir votar. Sofrer muito com jogos de hóquei em patins. Fazer lasanha pela primeira vez. Provar uma nova francesinha. Escrever ao sol. Magnólias. Decorar a estante com o Chandler e o Joey.

      

      

      

      

      

Conversas de Miguel
Os miúdos Pedro Teixeira da Mota e Carlos Coutinho Vilhena regressaram com uma versão mais adulta de Conversas de Miguel, centradas em assuntos aleatórios, bastante sarcasmo e uma dose equilibrada de polémica (ou talvez não). Partindo do não slogan «dois moços, uma amizade», à semelhança do que tinha acontecido em 2020, primeiro, abraçaram-nos com novos vídeos e, depois, escalaram para os espetáculos ao vivo (podem ler a experiência completa aqui).

Em Nome Próprio: Afonso Reis Cabral
A sessão começou e terminou com uma atuação musical de Rui David e foi moderada por Maria Bochicchio, estabelecendo uma ponte entre todas as partes. De facto, este é um espaço «de escuta e de revelação», que nos permite descobrir «o autor para lá das páginas». E a conversa foi fluindo com naturalidade e com uma boa dose de humor. Afonso Reis Cabral é um ótimo contador de histórias e muito generoso com o público.

Dealema no Coliseu do Porto
Uma das salas mais emblemáticas da cidade Invicta abriu os portões para receber um dos nomes maiores do Hip Hop português. Este reconhecimento de parte a parte é a prova inequívoca do quanto a consistência promove a permanência e a lembrança, do quanto a continuidade permite escrever memórias tão bonitas. Se dúvidas existissem, ter um Coliseu do Porto esgotado para pertencer a este momento dissipou-as a todas (sexta-feira trago-vos a experiência completa).


Março, sê gentil ✨
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