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| Fotografias da minha autoria |
A magia, nem sempre possível, de calibrar expectativas em relação a um livro ou a um autor é que podemos terminar espantados com o que lemos. E foi precisamente isso que me aconteceu com Édouard Louis.
fragmentos cheios de impacto
Quem Matou o Meu Pai narra o retorno do autor «à sua cidade natal, um local feio e cinzento numa das regiões mais pobres de França». Este regresso implica um reencontro com a casa (e figura) paterna, palco de «uma infância assombrada pela violência, a homofobia e a vergonha», mas onde parece existir espaço para uma «tentativa de reconciliação».
Há memórias demasiado duras e o tom de Louis fez-me recordar o Leme, de Madalena Sá Fernandes, porque é impressionante como a mesma pessoa pode despertar sentimentos tão antagónicos dentro de nós, como tem a capacidade de nos magoar, de nos destruir e, ao mesmo tempo, ser conforto (ainda que por segundos), ser alguém cuja presença queremos prolongar. Mas depois, como se se retirasse uma camada protetora, percebemos o quanto o narrador precisou de se anular, de quase deixar de existir para caber. Por isso é que também entendemos o motivo de desejar tanto a ausência do progenitor.
O declínio físico do pai é o ponto de partida para, transitando entre passado e presente, compor fragmentos da relação entre ambos, de uma forma muito honesta e intimista, impactando-me pelos contrastes, pelos momentos de ternura que não deveriam ser substituídos por violência e rejeição, pelas expectativas desajustadas que não respeitam a individualidade do autor, deixando feridas expostas.
«Observei-te, e no teu rosto consegui ler os anos que passei longe de ti»
A postura deste pai deixou-me a pensar na facilidade com que se perpetuam estereótipos e como os contextos em que nos inserimos condicionam os nossos valores, a pessoa em quem nos tornamos. Não creio que tudo possa ser uma escolha, caso contrário, seriam menos os casos de tirania e opressão. Se bastasse querer, os traumas do passado e a educação negativa, proporcionados por um ambiente tóxico, não seriam uma hipótese replicada. Longe de querer justificar o comportamento do pai do autor, a verdade é que crescer dentro de determinados moldes pode levar-nos a acreditar que qualquer relação deve florescer daquela forma, daí ser tão importante haver exemplos positivos, exemplos que reforcem a urgência de quebrar este ciclo de violência.
É triste e duro perceber tudo o que poderiam ter sido, mas achei comovente que Édouard Louis tentasse justificar a génese deste abismo. Apesar de toda a mágoa que lhe provocou, a sua lucidez traçou um retrato quanto à influência do poder político nesta relação. Se dúvidas existissem em relação a tudo ser política, este texto desconstrói-as, porque cada uma das componentes contribuiu para a degradação do pai e, por consequência, da ligação entre os dois. Portanto, na metáfora do título, entendemos que «a casta privilegiada» condenou sempre à morte os mais desfavorecidos, contaminando tudo ao seu redor.
Quem Matou o Meu Pai lê-se num sopro, mas deixa marcas. Abraçando uma espécie de contradição emocional, gostei muito que o autor nos fizesse balançar entre um atribuir de culpas e uma tentativa de compreensão, que talvez permita fechar a porta.
notas literárias
- Lido a: 5 de fevereiro
- Formato de leitura: Digital
- Género: Não ficção
- Banda sonora: My Heart Will Go On, Céline Dion







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