as margens e a escrita, elena ferrante

Fotografia da minha autoria



O meu apreço pelas letras manifestou-se cedo e foi logo acompanhado por uma perdição por cadernos, blocos e tudo o que estivesse relacionado com escrita. Tenho presente memórias da minha secretária em frente à janela com várias folhas espalhadas e o gosto tremendo de me sentar nas cadeiras da minha sala da primária. Por oposição, não tenho qualquer lembrança relativa aos tormentos escondidos pelas margens vermelhas dos cadernos. Honestamente, acho que nunca tiveram esse efeito em mim, mas acho curioso que duas experiências possam levar-nos para lugares tão distantes.

Não estava nos meus planos regressar tão rápido a Elena Ferrante, tendo em conta que o ano passado li cinco livros da autora, mas foi a primeira proposta do Marginália, clube de leitura da Raquel Dias da Silva, e senti que fazia todo o sentido abraçar um livro com conceitos que me dizem tanto.


 nota introdutória

As Margens e a Escrita compila três palestras da autora, a convite de Constantino Marmo, «por ocasião das Umberto Eco Lectures», com o propósito de se debruçar no seu papel enquanto escritora, partindo de experiências individuais e visões mais amplas acerca desta arte. Além disso, inclui um ensaio focado em Dante, que encerrou o Congresso Dante e Alti Classici.

Parti à descoberta de mente aberta e fiquei logo surpreendida com o tom intimista dos textos, porque gosto muito mais quando o escritor partilha os seus pensamentos, as suas estratégias, os conhecimentos que vai adquirindo pela rotina ou no momento em que a decide transpor. 

Reunir um conjunto de dicas pode ser interessante (e muito válido), mas, para mim, tem mais impacto quando não enveredam por esse caminho e nos permitem aceder a um espaço privado, sempre único, até porque as vivências são diferentes para cada escritor. E, assim, fui avançando com ainda mais entusiasmo.


 a pena e a pluma

Elena Ferrante começa por refletir sobre a sua relação com a escrita, convidando-nos a fazer o mesmo. Neste ponto, achei delicioso como um aspeto simples teve a capacidade de despertar tantos debates internos. Como comecei por referir, não tenho qualquer memória de as «linhas verticais, uma à esquerda, outra à direita» dos cadernos terem sido um problema, mas isso mostra-nos como a mesma circunstância tem impactos distintos e acredito que é nesta partilha plural que compreendemos a extensão dos assuntos — e, também por isso, chegamos a lugares diferentes.

Pessoalmente, sempre achei graça a desenhar as letras e a mantê-las entre as margens, mas as linhas, para Ferrante, foram castradoras, atendendo a que havia uma consequência caso as ultrapassasse. Este retrato deixou-me a pensar no quanto é importante haver limites, mas que a forma como os procuramos impor nem sempre é a mais correta, adequada, até mesmo benéfica. Talvez seja uma visão dramática, mas este ponto de partida podia ter sido um motivo para que a autora se afastasse da escrita e, hoje, não termos este livro para debater (e, provavelmente, podia ter criado barreiras noutras áreas da sua vida). Quantas pessoas desistiram de algo pelo poder dos castigos, dos reforços negativos?

Nesta palestra escrita, também achei interessante a sua visão sobre a questão do pensamento, não só por ser uma prova da nossa identidade e individualidade, mas também por despertar um contraste entre disciplina e liberdade, entre domínio e quebra de normas.

Organizar o pensamento, torná-lo concretizável através das palavras, nem sempre é uma tarefa simples, no entanto, é no (des)equilíbrio do eu que vamos encontrando a nossa voz literária.


 água marinha

As margens podem ser uma forma de nos guiarmos, de nos orientarmos, mas transpô-las pode ser igualmente valioso, porque temos acesso a outros horizontes.

Nesta palestra, achei curioso como narrar a realidade consegue ser algo complexo, visto que somos um produto de vários estímulos. Portanto, quando tentamos descrever aquilo que vemos, por mais isentos que procuremos ser, isso será sempre condicionado por fatores distintos, desde crenças a estados emocionais. Fazer este exercício pode revestir-se de uma pontada de frustração, mas sinto que tem uma certa poesia, porque comprova que todos nós temos o poder de deixar uma pegada no mundo.

Transpondo este cenário para a escrita, Ferrante foi-se debatendo acerca da multiplicidade da escrita e da necessidade de nos inscrevermos no mundo para podermos escrever sobre ele. E esta imagem é mesmo fascinante, porque acho que também nos impulsiona a sermos inteiros naquilo que fazemos.


 histórias, eu

As palavras nunca são bem nossas, mas são as trocas com o mundo que ativam a imaginação, a subjetividade do olhar; são essas trocas que nos desbloqueiam, que nos constroem «enquanto sujeito e enquanto [autores]».

Partindo, talvez, de um «sentimento de inadequação», há, neste texto, uma perceção mais nítida daquilo que a influencia, do património literário que marcou a sua voz — porque o eu que escreve não se dissocia do eu que leu — e a constatação de que esse património ser maioritariamente masculino a encaminhou por uma rota diferente. Assim, percebe-se que a escrita, para além de tudo o resto, se transformou num ato de resistência, numa forma de metamorfosear a herança.

Outro ponto que retive foi que «escrever é tomar assento entre tudo aquilo que já foi escrito», por concordar, mas sobretudo por sentir que foi nesta palestra que nos abriu a porta para o seu momento de viragem, para a importância do «eu feminino que muda a História». Acompanhar esta transição foi inspirador.


 a costela de dante

Uma vez que nunca li Dante, foi a parte com que me relacionei menos. Sei que me falharam referências, ainda que consiga entender a pertinência da reflexão, porque Elena Ferrante é clara no discurso, é lógica nos seus raciocínios, mas acredito que terá outro impacto para quem estiver familiarizado com a sua obra.

Não obstante, retiro deste texto, por um lado, o quanto o amor em toda a sua pluralidade pode ter uma força visceral na escrita e, por outro, o impacto de uma figura feminina ocupar um espaço que lhe era vedado, incluindo na literatura. Além disso, achei mesmo curioso que, de um modo subtil, a autora nos vá confrontando com as quebras do cânone (ou como há aspetos que parecem resistir à passagem do tempo) e nos alerte para esse libertar da costela que vem de um legado tão enraizado, sobretudo para as mulheres.


As Margens e a Escrita será um livro para regressar, para absorver as camadas onde não fui capaz de chegar neste primeiro contacto, até porque fiquei mesmo rendida à(s) narrativa(s). O conceito de margem fascina-me, ou não tivesse um projeto com essa palavra no título, principalmente pela multiplicidade de contextos/significados e por oscilar num contexto que nos orienta num determinado curso, que nos dá amparo, mas que também nos pode restringir, caso nunca avancemos. E Ferrante impulsiona-nos a avançar.


 notas literárias
  • Desafio: Marginália
  • Lido entre: 15 e 16 de janeiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Ensaio
  • Banda sonora: sLo-Fi, Slow J (álbum) 

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