gira-discos janeiro '26



A música é uma das maiores constantes da minha vida, através de canções e de discos, através dos nomes que me chegam como novidade ou dos artistas que me preenchem todas as medidas. Por esse motivo, um dos propósitos que quis incluir em 2026 foi o de dedicar um pouco mais de atenção aos álbuns que ouço por mês.

Sei que nem todos despertarão o impulso para que escreva publicações longas, no entanto, desta forma consigo parar e refletir melhor sobre as suas múltiplas sonoridades e o que me fizeram sentir.


os álbuns de janeiro


POR FORA NINGUÉM DIRIA, MIGUEL ARAÚJO

A viragem do ano trouxe um novo álbum do Miguel Araújo e eu escolhi-o como banda sonora para o primeiro dia. O cantautor nunca falha e, por mais que me alinhe com outros nomes, acabo sempre por regressar, à procura desta familiaridade que lhe sei de cor. E o que mais me impressionou neste trabalho foi a leveza, foi a sensação de aconchego que nos convida a ir devagar.

Ouvir estas canções é ter a impressão de que vamos diminuir o ruído do mundo, a urgência desmedida, e escutar os detalhes que se ofuscam pela pressa. Além disso, sustentando-se na pluralidade (e mistério) do título, Por Fora Ninguém Diria concede-nos espaço para pensarmos em vários assuntos — mais ou menos pessoais, mais ou menos transversais a todos nós.

Sinto que é um álbum que pode soar a um abraço.



RAPHANUS RAPHANISTRUM, FILIPA MON SANT

Um álbum sobre a vida da artista, mas inspirado na vida e obra de José Saramago, o que achei particularmente curioso. Com uma sonoridade trap lo-fi, sinto que a Filipa não se socorreu de qualquer filtro, por isso, há rimas que nos impactam, que nos desorganizam por dentro, que nos confrontam com as nossas visões/crenças.

O álbum saiu em outubro de 2025, mas só agora é que o descobri e foi uma ótima surpresa, até porque pretendo acompanhar mais artistas femininas no hip hop nacional.



MOGNO, DENISE

A Denise, que também só descobri este ano, diz que Mogno é «um álbum que carrega a densidade, a resistência e a elegância da madeira nobre que lhe dá nome». Pessoalmente, acrescentaria que também é feito de silêncios e vulnerabilidade, encontrando a sua força no equilíbrio entre esses pólos.

Tenho regressado a este trabalho com regularidade, porque sinto que há temas que conversam connosco, que apaziguam algumas dúvidas — quanto mais não seja por não nos sentirmos sós. Achei-o muito honesto e só tenho pena de não o ter descoberto mais cedo, mas já não o largo.



BOLA DE BILHAR, NUNCA MATES O MANDARIM

O primeiro longa duração da banda traz um tom amadurecido, continuando a privilegiar a veia indie que os caracteriza. A parte mais fascinante é que, pelo meio, vão arriscando em sonoridades que nos impulsionam a dançar, enquanto outras conversam diretamente com o nosso lado mais emocional.

Bola de Bilhar aborda temas como a dispersão geográfica, a rotina, os papéis de género, a infidelidade, a toxicidade, a linha tão fina entre jogo e paixão. É daqueles álbuns que, sinto, crescerá com o tempo e onde quererei regressar com regularidade, até porque há um dialeto que se torna familiar, um sotaque portuense que me permite permanecer em casa.



BAIRRO DAS FLORES, BANDIDOS DO CANTE

A primeira impressão que tive a ouvir este álbum é que tem uma sonoridade melancólica, de quem reuniu todas as suas feridas e decidiu navegar fundo em cada uma delas. Embora não estivesse totalmente a contar com este registo, gostei da surpresa e deste lado pouco óbvio, digamos assim.

O cante alentejano não é protagonista, no entanto, «as raízes estão lá», criando uma ponte entre o tradicional e o moderno. Além disso, é o amor que compõe este Bairro das Flores, mostrando-nos diferentes vertentes do mesmo. E, partindo de situações comuns, torna-o ainda mais relacionável, porque conseguimos identificar-nos em algumas passagens.

Neste disco, que terá uma versão deluxe mais tarde, participaram várias pessoas, o que lhe acrescentou novas visões e experiências. No entanto, é a identidade dos Bandidos que se evidencia e acho bonito ver como conseguiram entrelaçar cada camada de um modo tão harmonioso.



BOSSA SEMPRE NOVA, LUÍSA SONZA

A Luísa Sonza não é uma artista que acompanhe com atenção, mas estava a par deste lançamento e bastante curiosa com o resultado. Quando a Sofia o elogiou, encarei isso como um sinal para o ir ouvir e rendi-me ao primeiro acorde.

A sonoridade embala-nos com serenidade, num misto de descontração, sonhos e corações partidos que nos traz um certo alento. Senti, de imediato, que será uma escolha regular, para escrever ou para ficar só a desfrutar do meu silêncio. Além disso, gosto mesmo da intemporalidade que reveste algumas canções, deslumbrando-me sempre pela pertinência, porque comprova que continuam a ter espaço, adaptando-se a qualquer toque de modernidade.

Bossa Sempre Nova não deixa margem para dúvidas, porque bossa nova cai sempre bem.



FAZER AS PAZES, RAPAZ EGO

O Luís-Montenegro-Que-Interessa, como diz a Capicua, lançou um disco novo e eu tenho gostado, cada vez mais, de me perder na sonoridade de Rapaz Ego.

Com um registo assumidamente mais intimista, pretende, como o nome do álbum espelha, fazer as pazes consigo — até porque só dessa forma será possível «fazer as pazes com os outros». Assim, abraçando uma catarse emocional, com muito pop e experimentação à mistura, também nos mostra que existe um certo alívio na maneira como observa o que o rodeia e, principalmente, o que lhe vem de dentro. No fundo, ao aceitar imperfeições, dúvidas e inseguranças, é como se renascesse e florescesse numa nova metamorfose.

Fazer as Pazes acolhe-nos como se nos lesse, como se nos partilhasse um segredo, enquanto o vemos a quebrar padrões música após música.



SO MUCH HAS CHANGED, MARO

A voz da Maro escalou muito rápido para a minha lista de favoritas, porque é de uma delicadeza que acalma, porque aquele tom rouco traz conforto e um pouco de luz para os dias mais cinzentos. Por isso, vou acompanhando com atenção os seus lançamentos musicais, ficando fascinada com a forma como se vai reinventando.

So Much Has Changed tem a sensibilidade de sempre, mas com uma sonoridade mais madura. Tem tristeza dentro e creio que falará com bastante propriedade com quem possa estar de coração ferido, mas sem largar a mão da esperança, até porque este trabalho nasce de uma fase de profunda «transformação [e] otimismo», apesar «das tantas escuridões da atualidade». Escutando o escalar das narrativas, percebe-se que é necessário enfrentar as dores de frente, mas que o caminho não tem de ser apenas feito de mágoa. Há raízes que nos permitem aceitar quem fomos e avançar, crescer, compreender e evoluir, sem nunca perder esse olhar de encanto pelo que nos rodeia.

A música pode «proteger-nos da desesperança» e, portanto, acredito que este disco se torne num refúgio.



FELIZ(MENTE) TRISTE, CAROLINA DE DEUS

O tom do disco adivinhava-se triste, por tudo o que Carolina de Deus partilhou, o ano passado, no Casino da Póvoa, mas adoro perder-me nestes trabalhos e perceber que não há somente um lado.

Feliz(mente) Triste floresce numa dicotomia constante, a começar pelo título, que nos mostra que o nosso caminho se ramifica entre força e fragilidade, entre avanços e recuos, entre inseguranças e o que nos deixa seguros. Nenhum dia é isento de nuvens, mais ou menos passageiras, mais ou menos carregadas, e nós vamos oscilando nesse limbo.

Talvez precise de organizar melhor os meus pensamentos sobre o álbum, mas gostei muito deste jogo de contrastes, de ser triste e, ao mesmo tempo, poderoso, quase como se estivesse a passar pelas várias fases de um luto e a tentar curar essas feridas. Sinto que a Carolina de Deus cresceu enquanto artista e que nos trouxe histórias vulneráveis, honestas, que marcam uma despedida e um recomeço.



LAVOISIER, ACE

A lei de Lavoisier, ou Lei da Conservação das Massas, resume que «na Natureza, nada se cria, nada se perde tudo se transforma», o que parece ser mesmo o mote certeiro para o novo álbum do ACE.

Numa combinação entre músicas conhecidas do seu espólio, agora editadas, e temas inéditos (alguns escritos há anos), criou uma sonoridade mais jazzy, concretizando, assim, uma «fantasia que vinha dos anos 90». E que bom que foi fechar janeiro desta maneira, na companhia de um artista que também moldou o meu crescimento e contribuiu para que encontrasse o meu lugar no hip hop (apenas enquanto ouvinte, claro).

Tudo neste Lavoisier aparenta resultar de uma metamorfose, até o processo criativo, e acho que é esse estímulo que torna o álbum tão apetecível, tão diferente, mas familiar. Sempre com letras incisivas, centradas naquilo que nos distingue enquanto sociedade e no poder que as nossas vivências imprimem na arte, há, também, um lado dançável e emocional que contagia.

Espero, de coração, que este não seja o último trabalho de uma longa carreira, como partilhou em entrevista, mas fico grata por nos trazer tanto.

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