entrelinhas fevereiro



As leituras de fevereiro não foram particularmente arrebatadoras, por esse motivo, trago-vos seis das nove que fiz ao longo do mês — as restantes terão opinião individual (uma delas saiu na passada segunda-feira, aqui).


entrelinhas de fevereiro


Exposição. Poemas e Prosímetros, Duarte Scott

Senti a escrita próxima e visual, o que me agradou, pois acho maravilhoso quando os poemas têm esta capacidade de se moldarem aos nossos olhos, como se, por um lado, lhes pertencêssemos e, por outro, fossem um filme a explorar uma realidade alinhada com a nossa ou completamente distante. Em simultâneo, gostei bastante do contraste entre o que é escondido e o que é exposto e que usasse a escrita para trespassar, «para provocar algo no Outro». Simplesmente, não senti que os poemas me arrebatassem de um modo equilibrado (mas fiquei com vontade de ir ao livro mais recente do autor).

Exposição. Poemas e Prosímetros dança com a escuta atenta e a palavra, fala-nos de luto e de sedução, unindo-os num plano que nem sempre nos parece possível, e mostra-nos que nem tudo contém ensinamentos, mas que acabamos a aprender algo com todos os conteúdos que cruzamos. Sem filtros, centrando-se nos desejos, no sexo e na ausência, também retrata um «processo íntimo de construção de identidade». Avesso foi o poema que ficou com o meu coração, seguido de Abertura, Flor da Pele e Ouvido de Fora, o Sino.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #132



Malorie, Josh Malerman

O mundo parecia atravessar uma realidade alternativa, em 2020, e eu resolvi ler Às Cegas, de Josh Malerman. No ano seguinte, foi editada a sequela dessa história, mas só este ano é que senti o impulso de a descobrir, talvez por recear que levantasse mais perguntas do que respostas.

O contexto permanece feito de inúmeros perigos, até porque, «doze anos depois de Malorie ter fugido com os filhos pelo rio, a venda continua a ser a única coisa que a protege», já que falta explicações e soluções. Perante um permanente estado de sobrevivência, e um desejo profundo de «recuperar um pouco da vida antiga», há uma notícia inesperada que vem trazer um pouco de esperança — ou colocá-los ainda mais em perigo?

Apesar de ter apontamentos interessantes, sobretudo no que diz respeito à gestão de sentimentos, de emoções entre mãe e filhos, sinto que este livro poderia ter sido um capítulo extra no anterior. Não estraga a história inicial, só não acho que acrescente muito, estendendo-se em descrições desnecessárias (para mim). Acho que vale pelo final da segunda parte e pela parte final.



A Grande Magia, Elizabeth Gilbert

O reencontro com Elizabeth Gilbert não estava planeado, mas, após uma conversa sobre como O Ato Criativo não me deixou a pensar em criatividade, a Sofia trouxe-me o seu exemplar d' A Grande Magia.

Gostei muito da abordagem da autora por dois motivos: primeiro, porque reuniu várias experiências pessoais para ilustrar os seus pontos de vista, o que me agrada sempre neste género de livros (já que o processo criativo é tão diferente de pessoa para pessoa); segundo, porque ajudou a desvincular a criatividade de um processo sofrido (nem toda a arte tem de nascer de um espaço sombrio, da escuridão).

Anotei alguns tópicos, porque gostava de refletir a partir deles, e achei maravilhoso que nos levasse a pensar não só em criatividade, mas também no espaço que criamos para a vivermos em pleno, sobretudo se não nos levarmos tão a sério e assumirmos o compromisso de arriscar (com todas as quedas e recomeços que isso possa significar). Sinto é que, a certo ponto, ficou presa à mesma reflexão — mas estou a ponderar adquirir um exemplar, porque, embora não me tenha mudado a vida, não deixa de ser um livro que inspira.



Oração Para Desaparecer, Socorro Acioli

O encontro com este livro surgiu de uma necessidade. Dito assim, percebo agora, soa a algo extremo, mas foi somente uma necessidade prática, já que não queria ir carregada com o livro de Chimamanda Ngozi Adichie para a Super Bock Arena, enquanto esperava por Conversas de Miguel. Assim, requisitei este livro de Socorro Acioli que tanta curiosidade despertou.

Oração Para Desaparecer tem uma premissa fascinante, visto que uma «mulher é puxada da terra, viva, num jardim da localidade de Almofala, na fronteira entre Portugal e Espanha». Sem sabermos quem é esta mulher, rapidamente compreendemos que a sua chegada é aguardada há algum tempo, o que adensa o mistério.

Com um toque de realismo mágico, a tentar recuperar a sua identidade e a sua memória, gostei da forma como certos elementos se foram interligando, da forma como a autora cruzou tradições, crenças e raízes. No entanto, comecei a sentir que a narrativa passou a ser demasiado descritiva, sem espaço para imaginarmos o que podia ter acontecido. E confesso que, para além disso, não adorei o desfecho.

Há aspetos desta história que ficarão comigo, porque a escrita é muito bonita e Socorro Acioli trouxe reflexões pertinentes, mas não senti que as diferentes partes estivessem equilibradas.



Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie

O sorteio para o desafio 3 autoras para 2026, que tenho com a Sofia, ditou que fôssemos ao mais recente livro de Chimamanda Ngozie Adichie, em fevereiro.

Inventário de Sonhos cruza a história de quatro mulheres — Chiamaka, Zikora, Kadiatou e Omelogo — «através dos seus amores, medos e ambições». Quando as nossas ambições aparentam não estarem próximas de se concretizarem, talvez exista a necessidade de rever objetivos e prioridades e nós vamos assistindo a essa metamorfose nas protagonistas, ainda que, admita já, nem sempre sejam claros os seus propósitos.

Sem querer entrar em detalhes, para não comprometer a experiência de leitura, o livro não funcionou comigo. No fundo, gostei sem gostar muito, porque senti que a concretização não acompanhou a premissa e, inclusive, ajudou a perpetuar certos estereótipos. Compreendo que exista uma base cultural (transversal) a sustentar algumas decisões, mas senti falta de mais coerência, de mais profundidade; senti que não me acrescentou.

O livro vale muito pela escrita da autora, sempre irrepreensível, e pela parte dedicada a Kadiatou. A história em si não me prendeu, nem me permitiu relacionar com as restantes personagens, que achei com demasiado complexo de superioridade.



O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes

Fiquei satisfeita por perceber que não estava assim tão por fora do tema e de todas as suas especificidades, e que talvez fosse uma questão de aplicar os conhecimentos que já tinha adquirido. Ainda assim, não deixei de ser surpreendida com a quantidade de pontos que parecem independentes, mas que estão intimamente relacionados com a qualidade do nosso sono e com o facto de o priorizarmos — ou não — na nossa vida.

O Sono dos Portugueses potencia inúmeras reflexões e incentiva-nos a explorar outras referências, visto que, tal como reconheceram, ficaram pela superfície deste tema tão vasto. Apesar disso, fartei-me de sublinhar o livro: por um lado, porque achei os dados interessantes e, por outro, porque creio que me relembrarão do meu propósito inicial. Além disso, achei útil que incluíssem ideias chave no final de cada um dos capítulos.

↠ Opinião completa: Portugalid[Arte] #134

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