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| Fotografia da minha autoria |
Um dos aspetos que mais me fascina no conceito é sentir que a partilha flui por serem amigos e haver sempre margem para a espontaneidade — e para a insanidade também —, mas que isso não representa falta de planeamento. Aliás, ser dividido por rubricas, que os levam a estruturar dinâmicas e argumentos, parece-me um ótimo indicativo do quanto não quiseram relaxar e assumir que as suas trocas de ideias chegariam para ter graça. Além disso, sinto que esta postura ajudou a que diferenciassem o seu conteúdo.
Estava, portanto, curiosa para perceber como é que o formato poderia crescer ao vivo. Na primeira vez que o trouxeram ao Porto não consegui estar presente, mas desta vez deu para alinhar agendas e desfrutar do que tinham preparado, dos novos ângulos que trariam para a sala e da eventualidade de se fazerem acompanhar por convidados. Fui na primeira data e cheguei a uma conclusão, um pouco enviesada porque não deixa de ser consequência de algo que não controlo: fico mais impactada por ser a estreia, não só pelo facto de ser uma novidade para o público, mas também por ser uma novidade para eles, já que estão a descobrir como é que o texto chega a quem está do outro lado. Creio que, ainda que de um modo indireto, há uma dose de vulnerabilidade a pairar e é mesmo interessante perceber como é que a confiança de ambos se vai fortalecendo.
O Pedro e o Carlos estão habituados a pisar o palco e a apresentarem os seus solos de comédia, só que existem diferenças quando o conceito se transforma numa dinâmica em dupla: é preciso dividir o tempo, os holofotes, a interação, até, as emoções. E acho que é, precisamente, aqui que a amizade os agarra, porque há uma provocação mútua, uma vontade de puxar pelo outro e, acredito, de o tentar surpreender. Por mais que as intervenções sejam polidas a cada novo espetáculo, o fator surpresa, sinto, prevalece.
O facto de também ficarmos sempre na dúvida em relação ao que faz parte do guião e ao que sai dessa linha é outro fator que torna o momento único, sobretudo, tendo em conta que são fluentes na arte do sarcasmo. Ademais, fico sempre surpreendida com a capacidade de não perderem o norte, encarando com naturalidade os percalços, e essa é mais uma das razões para gostar tanto de ir às primeiras datas. Naturalmente, já que são dois artistas de quem gosto muito, torço para que nada falhe e tenham a noite que merecem, mas é normal existirem detalhes a precisarem de ser limados, que só ficam claros com a presença de uma plateia, e vê-los a lidar com leveza é um excelente sinal.
Não duvido que o último espetáculo seja a sua melhor versão, mas, mais do que focar os seus segmentos, permitam-me antes referir que a estreia de Conversas de Miguel foi a prova de que a amizade é um gatilho poderoso, porque só ela permite honestidade e momentos de desconforto, porque só ela permite entender os silêncios, os olhares e as pontes. E acredito que o projeto resulta tão bem em qualquer formato que o queiram manter por causa disso, por serem dois amigos a dedicarem-se ao que fazem melhor.
O espetáculo esteve bastante alinhado com aquilo que já conhecemos, mas é notória a atenção à narrativa, o critério e a coerência. Sem prometerem nada, entregaram tudo e foi impossível não me rir do início ao fim. Não obstante, posso ter ficado emocionada com o final de Conversas de Miguel, uma vez que eles sabem tirar-nos o tapete e deixar-nos boquiabertos. Voltem sempre que puderem, porque não dispenso estas conversas.







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