precisamos assim tanto de telemóveis em concertos? [baseado no artigo do Alexandre Guimarães]

Fotografia da minha autoria

A emotividade agregada a um concerto pode reunir diversos motivos e, seguindo essa lógica, ter várias formas de se manifestar. Durante um longo período da minha vida, não cultivei o hábito de marcar presença nestes espetáculos ao vivo, apesar de ter na música uma aliada fiel, mas quando passei a fazer disso uma prioridade, dentro das minhas possibilidades, procurei sempre guardar recordações do momento. Como? Recorrendo a fotografias e a vídeos, guardados num álbum de memórias intemporal.

Há umas semanas, o Alexandre Guimarães utilizou as suas histórias de Instagram para nos convidar a ler um artigo que escreveu para a VAMMU Magazine, com o intuito de refletirmos acerca da necessidade de utilizarmos telemóveis em concertos. Do lugar de alguém que já o usou bastante e tentar usar só em pontos específicos do espetáculo, aceitei o repto indireto e mergulhei num ensaio de sensibilização — sem moralismos.


 o limite entre eternizar e condicionar

Começando por responder à questão que serve de mote para o debate — Precisamos assim tanto de telemóveis em concertos? —, sinto que depende. Por um lado, creio que não, não é algo imprescindível, porque o propósito será sempre minimizar aquilo que «desvirtua a experiência», elevando-a, mas, por outro, não sou capaz de fechar a resposta num não redondo e inflexível, atendendo a que compreendo quem o faça. E há tantos motivos associados: o querer eternizar, ser um lembrete de que se realizou um sonho, o lado saudosista que nos fará querer reviver aquele momento mais tarde.

Naturalmente, há, aqui, outro ponto que não pode ser retirado da equação, porque a minha experiência não é mais valiosa do que a de quem me rodeia, ainda para mais se estivermos a falar de concertos pagos. O bom senso tem de imperar em qualquer das circunstâncias, no entanto, seria ingénuo achar que este aspeto não pesa muito mais num espetáculo em que qualquer elemento do público adquiriu um bilhete para lá estar, sobretudo, porque o preço não inclui visibilidade reduzida por braços alheios. Portanto, seja qual for o impulso que nos leva a usar um aparelho tecnológico, nunca poderá ser maior do que o respeito por quem quer viver aquela experiência como nós.

A premissa não passa por «algemar a liberdade individual», nem por encaminhar a conduta para o «extremismo d[a] proibição», mas, antes, trazer para a mesa o impacto da passividade. Talvez o exemplo utilizado pelo Alexandre choque, se o retirarmos do contexto, porém, revela a força necessária para nos prender a atenção e para nos levar a questionar aquilo que implica. No fundo, ao sinalizar que não é novidade que a mão humana trave «a força das máquinas», impulsiona-nos a olhar para lá de uma camada superficial. Reparem, se assumir que é normal alguém passar uma hora, duas, o tempo que for de telemóvel em riste, condicionando quem está atrás, isso legitima que todas as pessoas da sala façam o mesmo. E, de repente, deixa de existir um palco, um artista e um concerto a acontecer, porque não somos mais do que uma continuação de ecrãs.

Confesso, no entanto, que consigo identificar um toque poético neste gesto coletivo: da mesma forma que me comove ouvir tantas vozes a cantar a mesma canção, também acho que há uma certa beleza em tantos braços que se elevam para eternizar um tema nas suas galerias, visto que demonstra que a mensagem chegou de um modo plural — ainda que, depois, cumpra propósitos distintos para cada um. Agora, claro, isto não pode ser um convite. Esta romantização que preferi traçar, reconheço, não pode servir como argumento para sermos permissivos em relação a um comportamento que acaba sempre por inibir e condicionar quem se encontra próximo. Aliás, a pessoa atrás de mim pode ter preferido não filmar e isso não indica que a música a emocione menos. Por isso, volto ao ponto central de tudo isto: não nos esquecermos de ter bom senso.


 arco evolutivo

O Alexandre refere, e bem, que «é importante não menosprezarmos aquele que é um ato de cultura a acontecer». Uma vez que sempre fui mais atenta à nossa — com maior incidência na música e na literatura —, escudei-me muitas vezes neste argumento, na vontade de partilhar aqueles que me inspiram, de partilhar aquele momento que, por ser ao vivo, se revestiu de uma aura única, impossível de reproduzir, estreitando laços com o artista. No blogue, isso já acontecia, contudo, tomou outras proporções com a newsletter. Embora não anexe os vídeos, gosto sempre de intercalar as palavras com registos fotográficos. Se tenho, forçosamente, de o fazer? Não tenho, apenas sinto que ajudam a ilustrar melhor a ocasião, mas procuro não perder a decência pelo caminho.

Eu sei que o ensaio não é para apontar dedos, não é uma crítica gratuita e transversal. Eu sei que o problema não está em quem doseia e é consciente no modo como vive o concerto, permitindo que os demais o vivam também, mas refletir acerca deste arco evolutivo ajuda-me a entender melhor as razões que me levam a determinadas ações.

Quando, há mais de dez anos, fui à Gafanha da Nazaré ver Os Aurora, sei que gravei todas as músicas (e ainda as tenho disponíveis no Youtube), com uma qualidade de imagem e de som péssimas, mas fi-lo, primeiro, porque estava na primeira fila e não corria o risco de incomodar terceiros e, segundo, por estar a guardar memórias. Anos mais tarde, quando vi Kaiser Chiefs, na Queima das Fitas do Porto, não fiz qualquer registo e isso entristece-me, apesar de as recordações permanecerem. A diferença, se calhar, prende-se com a maneira como posso minimizar as saudades: Os Aurora já não existem enquanto banda, mas sei que terei sempre aqueles vídeos a transportarem-me para épocas muito felizes; quanto aos Kaiser Chiefs, como não sei se os voltarei a ver ao vivo mais alguma vez, faz-me falta essa memória quase palpável onde regressar, para diminuir a distância. A minha envolvência com a música de um grupo e/ou artista não depende destes mecanismos, apenas gosto desta ideia de poder recordar, de ir aos álbuns no telemóvel e no disco externo e perder-me numa viagem sempre emocional.

Creio que, em parte, a vontade de gravar/fotografar estes momentos se vincula muito, por um lado, ao não querer perder fragmentos do que vivi e, por outro, ao facto de não dar por garantida a presença em concertos. E isto, com mais ou menos consciência, foi validando as minhas ações. Como é que passei a sentir que isto se podia transformar num problema? Quando parei para pensar do prisma de quem está em cima do palco, a dar corpo e alma ao espetáculo, e ressoou que não queria passar a vê-lo de um ecrã.

Nunca concordei com aquela máxima de que as melhores coisas não são registadas, já que, como refleti nesta publicação, não acho que registar os momentos nos impeça de os vivermos na sua plenitude, porque é a nossa presença que dita isso. Não obstante, é necessário equilíbrio, como em tudo, e em concertos, sem ter passado a abraçar uma visão antagónica, aceitei que podia explorar alternativas que condicionassem o menos possível quem me rodeia. Continuo a elevar os braços para apanhar menos cabeças, só que já não o faço durante uma música inteira (ou faço-o apenas naquelas que me leem por dentro) e retiro o brilho do ecrã. Se é o suficiente? Reconheço que talvez não seja, mas é um barómetro que me aproxima mais do bom senso do qual não quero abdicar.

A experiência de ouvir músicas que nos curam as feridas é sempre transformadora, no entanto, isso só é possível se estivermos investidos no concerto. Pessoalmente, adoro ir observando a sala e ver que somos tão diferentes na forma como o vivemos, mas que continuamos unidos por um fio invisível que só a arte sabe bordar. E, sim, não ver os telemóveis é agradável, porque parece que deixa de haver um filtro, mas qual será a solução para este flagelo? Proibir não acho que seja viável, continuar a depender do bom senso da humanidade soa-me a um trunfo imprevisível, mas, ainda assim, menos invasivo. Por outro lado, o Alexandre propôs uma abordagem que é capaz de garantir um pouco mais de qualidade: os artistas, sem que seja obrigatório, assegurarem «uma equipa focada em criar conteúdo digital». Desta maneira, «quem quiser rever o que ali aconteceu, terá essa hipótese». Sinto que é um bom compromisso, mas não há almoços grátis e este investimento pode acabar por implicar outro tipo de custos e de entraves.

Colocando de lado o vínculo afetivo, existe outro aspeto sobre o qual fico a pensar: o fator surpresa. Quando vamos a uma peça de teatro ou vamos ver um solo de stand up, por exemplo, há um cuidado maior com aquilo que partilhamos, para não estragarmos o texto, nem as dinâmicas, para não comprometermos a experiência aos que forem ver. Então, porque é que num concerto essas balizas parecem não existir? Porque motivo é mais aceitável documentá-lo com vídeos e fotografias que podem revelar parte daquilo que o artista queria que fosse surpresa? E, atenção, zero moralismos nestas perguntas, porque não me excluo do problema, trouxe-as para que sejam mais um foco de debate e para que me sirvam como mais um impulso para ser consciente no modo como vivo a arte ao vivo. No testemunho que concedeu ao locutor, Bárbara Tinoco destacou este cenário e creio que é difícil lermos as suas palavras sem pensarmos no quanto deve ser frustrante construir um espetáculo de raiz, compor cada detalhe e sentir que apenas o primeiro público será surpreendido. Se, por um lado, a partilha nas redes pode atrair ouvintes, por outro, pode levar a que parte do encanto se perca. Será que compensa?


 filmamos, fotografamos, partilhamos... mas revemos?

Recuperando uma ideia anterior, embora continue a defender que registar momentos não nos impede de os vivermos, concordo com o Alexandre quando declara que «há uma espuma de distração que arrasta a total entrega», atendendo a que «tudo continua a acontecer, mas não é igual». Nem poderia ser, já que há uns breves segundos em que o nosso foco se altera, quebrando a envolvência, o olhar cúmplice, a comoção. E dou por mim a pensar em todas as músicas que gravei, no compasso em que não estive tão presente para as eternizar; e dou por mim a pensar num cenário hipotético, onde teria a possibilidade de escutar a Foguetes ao vivo, por tudo o que significa e partilhei aqui, e sei que não, não quereria perder um segundo que fosse ou, melhor, não quereria que a minha atenção ficasse dividida entre pegar no telemóvel e a magia da canção. Agora, também acredito que possamos recuperar caso não desvirtuemos o propósito final.

Não sei até que ponto estamos a tentar ser videógrafos amadores, mas quero ir aqui: «percebermos que não vamos voltar a ver assim tantas vezes aquelas gravações», isto porque eu vejo. Não sei que valor representa este «tantas vezes», porém, regresso com regularidade aos vídeos que gravei, sobretudo se estiver há muito tempo ser ver aquele artista. O que filmei, sem qualquer espaço para dúvida, não ficou extraordinário, mas basta-me o primeiro acorde para ser transportada, para reviver (com outro impacto) o que senti, para estar grata pelo privilégio de ter assistido àquele momento, ainda para mais se o julgava impossível, como no caso dos Silence 4 ou dos Dealema. Regresso a vídeos que me enviaram, porque não pude estar presente, como o caso do concerto do Lhast no Meo Marés Vivas, porque esse cuidado atenua um pouco a ausência. Rever nunca será igual, é certo, mas apazigua qualquer coisa cá dentro que não sei definir.

Acredito que «haverá sempre mais brio ao optar por ser um espectador ativo», por isso é que fui diminuindo o tempo que passo de braços esticados, por isso é que já fiz as pazes com esta vontade de registar ao máximo com receio que se perca, porque existe magia no silêncio, nas luzes apagadas que nos envolvem numa intimidade particular.

Sei que não deixarei de gravar, da mesma maneira que sei que viverei cada concerto com a liberdade e energia que me exige, porque, sem demonizar práticas, sem elevar muros, não deixo de estar presente, nem de sentir que «estou [ali] com o artista e que, naquele momento, «não há nada mais importante» do que sentir na pele cada pedaço de história que nos está a contar — através das canções e da narrativa do espetáculo.

Debater este paradoxo parece-me sempre valioso. E se algum artista quiser alinhar «[n]uma sala sem telemóveis», como propôs o Alexandre, repitam-no no Porto, uma vez que tenho a certeza de que será uma oportunidade com memórias insubstituíveis.

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