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| Fotografia da minha autoria |
A melancolia do outono prefiro vê-la de perto, como se fosse a extensão de um verso, a quietude de uma palavra suspensa num pensamento a ser processado ou que deixamos partir. E Júlio Machado Vaz, com a sua sapiência que não larga a mão da sensibilidade com que encara o Outro e a Vida, levou-me para esse quadro intimo no seu novo livro.
a viver todas as estações interiores
Outonecer, escrito como quem nos conta um segredo valioso, como quem nos embala na melodia de um verbo que só ele poderia bordar, é feito de partilha e de introspeção. O médico psiquiatra trouxe para a mesa algo «que se aproxima, passo a passo» e para o qual «não há fuga possível»: o envelhecimento e os medos que traz no regaço. Só que esta reflexão confessional, por vezes sombria, também arranja espaço para prosperar e ser um «hino a todas as estações do ano», porque, mesmo sabendo que não é eterno, a vida continua a sorrir-lhe e há qualquer coisa de inebriante no amanhã que se escreve.
O que mais me fascina em Júlio Machado Vaz, para além do conhecimento e de toda a generosidade, para além da abertura para debater vários assuntos e quebrar muros, é a sua capacidade de seguir associações livres e dar espaço a pensamentos que «nunca se [lhe] ofereceram alinhados». Já tinha adorado essa abordagem no livro que li antes, À Escuta dos Amantes, porque acompanha o tom que reconhecemos em projetos como O Amor É (com Inês Meneses) ou Old Friends (com Manuel Sobrinho Simões), mas, acima de tudo, porque, tal como um ouvinte lhe disse, «enquanto o doutor hesita, eu penso».
«O mirandês pode ser difícil, mas o tripeiro, por uma estranha alquimia, não descobrindo o ouro conseguiu transformar em interjeições palavras ofensivas da honra de quem as ouve e da boa educação de quem as profere. Também por isso o Porto é uma «naçom», carago!»
Nesta obra, transita entre o passado, o presente e o futuro, recupera as memórias «dos que já não estão», aclama o amor pelos filhos, pelos netos e pelos animais, sem deixar de parte as amizades, a música, as viagens e todos os vínculos que as estreitam, até os menos óbvios. Em simultâneo, partindo de cenários pessoais, leva-nos a refletir sobre sexualidade, atualidade política, inseguranças e, inclusive, inteligência artificial, sem guiões, sem filtros, como se estivéssemos só a participar numa conversa entre amigos.
Outonecer mostra-nos que «o outono chega depressa», que existem medos e angústias transversais e que a passagem do tempo nos «convida a olhar para dentro», mas Júlio Machado Vaz borda palavras como quem transforma a vida num permanente poema, como quem olha para o Porto e sabe que, nos seus incontáveis tons de cinzento, existe sempre beleza. Sem ocultar receios, mas escudando-se nas diversas formas de amor — e das recordações que nos acalentam —, sinto que encontrei um novo verbo favorito, porque, se for para outonecer desta maneira, haverá sempre um horizonte para onde olhar. Eugénio de Andrade afirmaria que é urgente o amor. Júlio Machado Vaz, creio, concordaria, completando que é urgente vivermos todas as nossas estações interiores.
notas literárias
- Lido entre: 25 e 27 de janeiro
- Formato de leitura: Físico
- Género: Não ficção
- Banda sonora: Eu Vim de Longe, Eu Vou Pra Longe, José Mário Branco | Walk On The Wild Side, Lou Reed | Penny Lane, The Beatles







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