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| Fotografia da minha autoria |
A possibilidade de ficarmos a conhecer melhor áreas que adoramos é sempre valiosa e entusiasmante, isto porque, de repente, é como se abríssemos todas as janelas da casa e víssemos as coisas com outra luz. E, por isso, mergulhei no desconhecido e fui tentar saber mais acerca dos meandros do panorama musical, que João Gobern trouxe para o ensaio da Fundação Francisco Marques dos Santos, sendo a minha escolha de janeiro.
a indústria musical em portugal
Tira o Disco e Toca ao Vivo, tal como um álbum que escutamos devagar, leva-nos numa análise pela musica industrial, em Portugal, e mostra-nos vários lados da equação. Se, antes, se «faziam concertos para vender discos», agora, o cenário parece ter invertido, uma vez que se «editam discos para conseguir concertos». Este arco evolutivo é já um indicativo interessante de como «a música mudou, até na forma como a consumimos».
O que é menos visível para quem é somente ouvinte, como é o meu caso, assume, aqui, um lugar de destaque. E o que achei curioso — talvez, pouco esperançoso, admito — é ver como algumas componentes continuam tão atuais. Seria expectável que, ao longo destes anos, as condições se tornassem mais seguras para os músicos, que existisse um respeito maior pela sua arte, no entanto, há linhas narrativas inalteráveis. O mercado está em expansão e, mesmo assim, é impressionante como os problemas/as carências parecem orbitar sempre nos mesmos planos, até porque aquilo que a evolução trouxe de bom continua a não ser utilizado, em primeira instância, para benefício dos artistas.
Quando João Gobern menciona como prática a ida a discotecas para comprar discos e ficar a par das novidades, num exercício de comparação com os tempos atuais, essa imagem transportou-me, de imediato, para as ocasiões em que entrava na Fnac e ia às secções com auscultadores para ouvirmos o que tinha saído e/ou para explorarmos o catálogo à disposição. Há uma parte de mim que tem saudades dessa magia; já a outra, acha espetacular que, ao ser mais fácil de aceder a trabalhos discográficos (nacionais e internacionais), o processo seja mais célere. Como alguém que continua a adquirir cd’s e vinis, queria ter ficado mais um pouco nesta memória preciosa que o autor partilhou.
Numa oscilação entre prós e contras, Gobern fez uma análise extremamente completa, focando-se em temas como o Napster, a transição do físico para o digital, os concursos de talentos, os streamings e os preços dos bilhetes para os concertos (e o descontrolo das revendas), entre outros, mostrando a pluralidade da indústria. No entanto, houve duas ideias que ficaram a ressoar cá dentro, porque penso nelas com regularidade.
«A progressiva perda de identidade cultural não parece incomodar os grandes decisores»
Num determinado ponto do ensaio, que me cativou logo pelos títulos dos capítulos, o autor focou-se na atenção que dispensamos às letras das músicas, porque existe quem acredite e defenda que a qualidade tem decrescido, argumentando-o com o recurso a um léxico que «elimina em vez de acrescentar». É certo que temos uma língua com um vocabulário rico e que usamos bem menos termos do que aqueles que existem, porém, sinto que este discurso só perpetua, ainda que de forma camuflada, um certo elitismo e a tentativa de transportar a música para um espaço onde ela não pertence, que é ser inacessível. Além disso, como Gobern referiu, e bem, essa visão é enviesada, porque, se fosse assim, «não teríamos excelentes desempenhos poéticos» em áreas como o rap.
Outro dos temas onde permaneci, por ser uma questão com a qual me debato sempre, foi nas quotas de música portuguesa a passar nas rádios nacionais. Primeiro, porque a necessidade de regular uma quota parece-me, já de si, um problema e não a solução e, segundo, porque faz-me genuína confusão vedar-se tanto o acesso aos nossos artistas — ou apenas se alargar o horizonte a meia dúzia de nomes. Acho importante que as playlists das rádios nos mostrem artistas internacionais (muitos deles, se calhar, não conheceríamos de outra maneira), porque esta abordagem cria pontes, porque é uma maneira de termos uma visão mais ampla das sonoridades, mas quantos muros estas quotas erguem a artistas nacionais? Quantos artistas nacionais passam despercebidos porque não existe uma curadoria equilibrada? Naturalmente, escutar mais ou menos música portuguesa não está unicamente dependente do que nos chega das rádios, até porque temos alternativas, mas é menos uma plataforma a estabelecer esse contacto.
Tira o Disco e Toca ao Vivo trouxe-me várias reflexões e sei que é daqueles livros onde quererei regressar: por um lado, porque gostava de perceber que existiram aspetos que ficaram datados e, por outro, porque João Gobern conseguiu elencar um retrato muito transversal deste universo, que terá sempre peso — e pertinência — pela sua história.
notas literárias
- Desafio: Ler ffms
- Lido entre: 19 e 21 de janeiro
- Formato de leitura: Digital
- Género: Não ficção
- Banda sonora: Impressões Digitais, GNR | Rio-me de Janeiro, They're Heading West & JP Simões | Há-de Passar, Deolinda







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