em nome da filha, carla maia de almeida

Fotografia da minha autoria


A minha lista de leituras para março sustenta-se sempre a partir do mesmo propósito: incluir, maioritariamente, livros de autoras, numa celebração e homenagem simbólica pelo dia internacional da mulher. Assim, a narrativa que me acompanhou no primeiro fim de semana do mês não foi inocente, uma vez que li o retrato escrito pela jornalista Carla Maia de Almeida, em 2017, para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.


 violência na intimidade

Em Nome da Filha, com o subtítulo Retratos de Violência na Intimidade, é composto por «testemunhos de mulheres vítimas de violência doméstica». Por motivos de segurança, todas estas partilhas foram feitas sob anonimato, a partir de vários pontos do país e de diferentes contextos, sem falsos moralismos, apenas a mostrar os inúmeros ângulos de uma mesma realidade. Dividido em três partes, o livro nasceu, então, de uma urgência comum: «lutar contra um problema que não é doméstico, mas de toda a sociedade».

As estatísticas fazem-nos recuar mais de dez anos, no entanto, continuam atuais. Pior, continuam a evidenciar o aumento de casos e que, embora em Portugal a lei esteja a evoluir, ainda falta o pior: mudar mentalidades. É que «uma em cada três mulheres é vítima de agressões físicas, psicológicas e sexuais, pelo simples facto de ser mulher». Números à parte, ainda que sejam amplamente ilustrativos da situação, o que choca, o que revolta, é sentir que a impunidade prevalece, que o discurso só muda de tom, visto que reproduz argumentos que vamos conhecendo de cor, como se legitimassem ações.

Já canta o xinto que «entre marido e mulher é que se faz um país», no entanto, parece que insistimos na narrativa de não ser assunto nosso — e o ditado é antigo. Apesar de, por vezes, existir uma infinidade de condicionantes, porque há limites para aquilo que podemos fazer, o cenário talvez fosse diferente se não perpetuássemos certos ideais, se não fechássemos os olhos, assobiando para o lado que convém, parafraseando Sérgio Godinho. E, enquanto lemos os testemunhos, somos confrontados com esta dualidade.

«Mas a verdade é que a Fernanda já tinha morrido há mais tempo, debaixo das telhas que escondiam muita coisa, no silêncio indigno das mulheres maltratadas»

Acredito que a maior valência da obra seja alertar, levar-nos a questionar o que precisa de ser reestruturado, quais as desigualdades que precisamos de combater, o que é que permanece invisível e a corroer a estabilidade e a segurança destas mulheres. Quando cheguei à segunda parte, lembrei-me da série Casa-Abrigo, porque estes locais têm um papel preponderante enquanto rede de apoio e porque, à semelhança do que senti ao assistir aos episódios, voltou a pairar uma sensação de injustiça: por um lado, é vital que estes espaços existam, para que as vítimas de violência encontrem um pouco de paz e consigam, pouco a pouco, recuperar a autonomia, mas, por outro, não parece lógico que seja a vítima a alterar toda a sua vida, a afastar-se daquilo que conhece, a recomeçar noutro lugar. Uma vez mais, as consequências pendem para o lado errado.

Sem condescendência, com sensibilidade e margem para escutar diferentes pontos de partida, realidades e formas de encarar a situação, achei interessante a abordagem e o facto de as partilhas serem complementadas com pareceres profissionais, uma vez que nos ajudam a compreender melhor a extensão deste flagelo e do impacto que têm as suas ramificações. Portanto, ao cruzar números, estatísticas e as histórias de cada uma destas protagonistas, é fácil — e doloroso — constatar que o caminho ainda é longo.

Em Nome da Filha mostra-nos que existem ciclos que se repetem, que a manipulação é um dialeto bastante audível, que há verdades demasiado enraizadas; mostra-nos que é usual encontrar justificações para certas reações. Enquanto sociedade, temos de fazer mais, educar melhor, questionar, denunciar, porque não podemos ficar indiferentes. O livro é forte e impactante, sobretudo, por ficar claro que continua a ser tão necessário.


 notas literárias
  • Desafio: Ler FFMS
  • Lido entre: 7 e 8 de março
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não Ficção
  • Banda sonora: Tempestade e Não Me Importo, Carolina Deslandes

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