a axila de egon schiele, andré tecedeiro

Fotografia da minha autoria


O livro de André Tecedeiro, cujo título despertou sempre um certo fascínio em mim, veio morar cá para casa sem data para ser descoberto. Contudo, com a última semana de fevereiro a ser um pequeno caos de cansaço, precisei de recuperar energias no meio da poesia e estes versos foram, sem qualquer margem para dúvida, um grande amparo.


 encontrar o poema que temos em nós

A Axila de Egon Schiele remete-nos para um pintor austríaco e para o expressionismo, ao qual está ligado. Esta referência, como se vai percebendo ao longo da obra, não é inocente, até porque o movimento caracteriza-se, em traços gerais, por se focar numa componente subjetiva das emoções, no sentir do artista. Para além de termos poemas que parecem saídos de um quadro — ou que dão vontade de ser emoldurados num —, é notório que o autor mergulha no lado mais humano e mais íntimo das nossas almas.

Como Tecedeiro escreveu, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e este verso talvez seja tudo o que esbate a fronteira entre a leitura e a sensação de nos estarmos a ver ao espelho. Aliás, houve vários momentos em que divaguei para longe, quer por ter representados pensamentos e estados de espírito recorrentes, quer por ter encontrado e revisitado situações cravadas no meu peito — desde a urgência da escrita ao luto. É capaz de ser egocêntrico querer tanto este vínculo entre a palavra escrita e as nossas emoções, mas foi impossível passar por estes poemas sem me sentir neles, sem sentir que são, eles próprios, uma travessia de crescimento, de descoberta, de transformação.

Ao colocar-se a nu nestas linhas que vão muito além do que é visível, cujas entrelinhas trazem tantas camadas desarmantes, incentiva-nos a fazer o mesmo, mas sem que haja desconforto. Aqui, somos todos vulneráveis, observadores, curiosos; aqui, todos temos de aprender a escutar, a cuidar, a lidar com perdas, dificuldades, dúvidas e solidão. Sou capaz de ter mentido ao afirmar que não há desconforto, porque ele existe, no sentido em que o autor imprime em nós parecer crítico, uma necessidade de levantar a cabeça para ver aquilo que nos rodeia. A realidade nem sempre apazigua as nossas dores, nem sempre atenua a culpa e o desencanto, no entanto, entranha-se em cada poro, por isso, reconhecê-la pode quebrar a nossa bolha, impulsionando-nos a sentir. Assim, sem «ter medo de mexer nas zonas que outros evitam», mostra-nos que não há temas interditos.

«E ninguém o compreende
porque quanto mais urgente
a escrita
mais ilegível a letra»

Nesta obra, que compila seis capítulos, André Tecedeiro brinca com as palavras, fá-las oscilar entre a intimidade e a exposição, entre o corpo e a casa, entre o ir e o ficar (ou entre a fuga e a permanência), entre a desilusão e o querer, mas nem sempre neste laço de contrastes, muitas vezes como se fossem sequências de um mesmo passo, rituais a ocuparem o seu espaço neste palco mundano, onde há sempre algo a florescer. Sinto que o que mais me cativou na escrita do autor, para além da proximidade e do quanto consegue ser visual, foi mesmo o modo cirúrgico com que plantou cada palavra em cada um dos poemas, construindo-os de várias formas, ora breves, ora longas, sempre na medida certa para provocar reações, para retirarmos o que, de facto, precisamos.

Foi, igualmente, bonito perceber que a sua profundidade não larga a mão de uma certa utopia: ainda que consciente das sombras, não perde a oportunidade de se deslumbrar e convida-nos a fazer o mesmo, mas, não nos iludamos, basta um verso para nos puxar o tapete e deixar aquela mensagem a ressoar por tempo indefinido. Além disso, ao dar voz a um corpo que se habita e que se modifica, que se molda, como uma plasticina, às nossas múltiplas identidades, creio que formula um retrato precioso sobre diversidade.

A Axila de Egon Schiele, cujo último capítulo integra uma conversa notável entre André Tecedeiro e Laura Falé, ramifica-se, adapta-se e transforma-se. Sem o querer reduzir, é um livro sobre cuidar, nutrir e ser lar; é sobre ser o que nos veste de dentro para fora.


 notas literárias
  • Lido entre: 23 e 24 de fevereiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Banda sonora: Nada Dura Para Sempre, Dealema | Praia de Tinto, Mallina | Origami, VSP AST | Pode Alguém Ser Quem Não É?, Sérgio Godinho

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