96 ao infinito: ou como o legado do passado abre portas ao futuro

Fotografia da minha autoria

O Expresso do Submundo fez a sua primeira viagem em 1996, quando o Pentágono — DJ Guze, Expeão, Fuse, Maze e Mundo Segundo — gravou o EP de estreia, em cassete, e «o foi distribuir de mão em mão pelas ruas de Vila Nova de Gaia e do Porto», cidades de onde são naturais. E eu tenho a forte convicção de que o meu fascínio por margens, por estas margens em concreto, e pela escrita poética despertou graças a este vínculo.

Perdi a hora da partida, porque em 1996 tinha quatro anos, mas os Dealema deixaram a porta aberta para quem os quisesse acompanhar e, já mais velha, enraizada por uma passagem de testemunho silenciosa, tal como partilhei aqui, apanhei boleia e passei a falar no mesmo dialeto, a sentir na pele o contexto e o impacto de cada referência.

A minha definição de arte começou a ser moldada com e pelos cinco. Entre o Bloco 24, em Ramalde, e o Segundo Piso, em Gaia, unidos pelo amor à cultura Hip Hop, foram a voz do que se passava no mundo nos anos 90, nos planos tecnológico, social e político. Portanto, o «grupo de amigos» criou «sintonia com o [n]osso coração» e traduziu muito daquilo que nos ia por dentro, evidenciando as raízes, os lugares que os formaram, as pessoas que lhes deram a mão, enquanto espelhavam sonhos, medos e metamorfoses.

Trinta anos depois, há mudanças inegáveis, mas a alquimia permaneceu inquebrável, até porque o legado do passado, que foram cultivando a pulso, abre portas ao futuro.


 96 ao infinito

O nome do álbum remete-nos para o dos Soul Of Mischief, 93 ‘Til Infinity, atendendo a que, como confidenciaram em entrevista, é um conceito que representa não só aquilo que criaram, mas também continuidade. E esse sempre foi um dos propósitos maiores do grupo: reinventar-se, firmando a identidade que lhes permite explorar novas rotas.

Quando escutei 96 ao Infinito, num misto de entusiasmo e nervosismo, afinal, o último longa duração tinha sido lançado em 2013, reconheci esse diálogo íntimo, consistente, como se entre este disco e o Alvorada da Alma não existisse uma história de treze anos, como se o silêncio pertencesse apenas à ocasião em que a última nota ecoa e fazemos um compasso de espera para avançarmos para a seguinte. O regresso trouxe a magia de soar ao abrigo de sempre, mas revestido com uma energia fresca, atual e irreverente.

Assumindo-o como espinha dorsal dos Dealema, este álbum interliga, por um lado, os temas mais underground, sustentados em melodias orquestrais e sombrias, na rima e na técnica, e, por outro, temas mais emocionais, mais introspetivos. Esta força e atenção encontram impulso na atualidade, na forma como observam o mundo e o comunicam e na consciência de que o lado pessoal, construído entre quedas e conquistas, lhes foi afiando a caneta. Numa entrevista recente, o Maze referiu algo que, creio, resume este pensamento: embora estejamos perante o mesmo grupo de 1996, «não estamos perante o mesmo grupo de 1996». Reconhecemos-lhe as origens, as raízes, a linguagem inicial, mas o Pentágono tem «mais horas de estrada, mais cicatrizes e mais coisas a dizer» — e há uma geração inteira que continua a querer escutar tudo aquilo que têm a partilhar.

A ponte entre passado, presente e futuro não só foi conseguida através da produção do Menfis, que entendeu «a energia dos primeiros discos» e a elevou a outros patamares, mas também graças às colaborações que integram 96 ao Infinito: ACE e Manel Cruz já pertencem à história do grupo, estreitando os laços entre diferentes géneros artísticos, reforçando que é possível cruzar visões com elementos de bandas que chegaram antes, sem margem para alimentar competições; Bezegol, Zacky Man e David Cruz, por seu lado, marcam um novo capítulo, que há muito queriam levar para as canções. O mais fascinante é ouvir o resultado e perceber que existe harmonia, que a essência artística e criativa de cada um encaixou na perfeição, fazendo com que tudo soasse a poesia.

Diretamente da escola dos 90, há aspetos que continuam a ser a imagem de marca dos Dealema, razão pela qual preservam relevância: as letras incisivas, cheias de camadas, que nos obrigam a ir ao lado mais profundo da mensagem. Além disso, a componente lírica, que não cedeu à pressão do imediatismo, fomenta a pluralidade da intervenção, sempre com verdade, alicerçada à consciência social e política que nunca perderam.

96 ao Infinito tem, no meu parecer, uma das entradas mais incríveis, revestindo-se de nostalgia, maturidade e resistência. Esta assinatura embalou as músicas do álbum e marcou o tom para a celebração da «terceira década seguida sem descer da primeira».


 o pentágono reunido num coliseu esgotado

Uma das salas mais emblemáticas da cidade Invicta abriu os portões para receber um dos nomes maiores do Hip Hop português. Este reconhecimento de parte a parte é a prova inequívoca do quanto a consistência promove a permanência e a lembrança, do quanto a continuidade permite escrever memórias tão bonitas. Se dúvidas existissem, ter um Coliseu do Porto esgotado para pertencer a este momento dissipou-as a todas.

Não o verbalizei, mas houve alguma inquietação a pontuar as horas que antecederam o concerto, não porque temesse que ficasse aquém das expectativas, mas por saber que seria para revisitar uma parte da minha história, de recordações muito particulares e, como isto não é sobre mim, para comemorar o culminar de 30 anos de carreira de um dos meus grupos favoritos. Portanto, apesar de estar igualmente entusiasmada, sabia que eram bastante fortes as probabilidades de me comover nesta viagem intemporal.

As lágrimas ficaram recolhidas, posso sossegar-vos, porém, o coração falhou algumas batidas, a pele eriçou e voltei ao passado, só para embarcar numa travessia épica pela obra tão vasta dos Dealema e comprovar, na primeira pessoa, que as raízes são fortes, mas que nunca os impediram de voar. Aliás, a simbiose entre passado e presente é tão cirúrgica que qualquer uma das músicas podia integrar qualquer álbum sem destoar, mostrando que estão constantemente a reinventar o modo como constroem as rimas.

O concerto foi escalando, com recursos audiovisuais, espontaneidade e, muito graças ao Expeão, dinâmicas cómicas. Apesar de ter acusado um certo cansaço (porque foram quase três horas de espetáculo, depois de um dia de trabalho), parte de mim até queria que fosse tudo em câmara lenta, como na canção, para parar o tempo, para não ter de me despedir, para continuar comovida com a energia da sala, na qual as nossas vozes se uniram como se fossemos parte do coletivo e permanecêssemos, juntos, na Sala 101.

As colaborações saíram do álbum para o palco, o quinteto trouxe as suas ramificações a solo e apresentaram formas distintas para recordarmos os temas que compõem o seu património musical. De alma e coração, além da arte que lhes corre no sangue, aquilo que sobressai é a amizade e a chama que se mantém acesa desde o primeiro dia. Já que entre amigos não há filtros, absorvemos cada extensão de cumplicidade, essa semente que floresce num terreno que procuraram trabalhar e cuidar para que se tornasse fértil.

Os Dealema cantam que «nada dura para sempre, ninguém vive eternamente», mas «já são 30 anos a enganar a morte», por isso, tendo em conta a história escrita no Coliseu, creio que são a exceção. O Expresso do Submundo ainda tem muitas viagens pela frente.

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