entrelinhas março



O entrelinhas de março só inclui dois livros e, por isso, estive quase para os agregar ao entrelinhas do mês seguinte, mas desisti da ideia. Dos dez livros que me acompanharam, um deles foi uma releitura (aqui), três foram lidos para ir celebrando o dia mundial da Poesia (aqui) e os restantes terão reviews individuais.


entrelinhas de março


A Bastarda de Istambul, Elif Shafak

A autora Elif Shafak foi levada a tribunal, na Turquia, acusada de «insultar a identidade turca» num dos seus livros, no qual aborda, de forma indireta, o conflito Arménio-Turco, cujo genocídio nunca foi assumido pela República da Turquia. Sendo a nossa autora de março, parti para a leitura bastante intrigada.

A Bastarda de Istambul oscila entre memórias e esquecimento, entre a «necessidade de reavaliar o passado e o desejo de o apagar». Certo dia, uma mulher solteira de 19 anos entra num consultório médico, declarando que precisa de fazer um aborto. A partir desse momento, a sua vida mudará para sempre. Vinte anos depois, em linhas que se cruzam de uma forma quase mística, os segredos do passado reaparecem.

É impressionante como a escrita tão melódica e sensorial de Elif nos transporta para lugares e realidades que desconhecemos — ou que, pelo menos, não nos são tão próximos. No entanto, devo confessar que esta história não resultou muito bem comigo: primeiro, porque achei os saltos temporais demasiado céleres, deixando pontas soltas, e, segundo, porque senti que algumas partes precisavam de ser mais aprofundadas, justificando escolhas para além das marcas do passado. Naturalmente, há feridas que parecem nunca sarar e isso pesa, apenas gostava de ter visto a narrativa a escalar para outros patamares, a explorar camadas menos óbvias.

Por oposição, interessou-me muito a sensação de ser forasteira, revelada por uma das personagens, que me recordou de Sasha, uma das protagonistas de A Casa de Pineapple Street, e do esforço para pertencer a uma família que nunca lhe abriu a porta; interessou-me a dinâmica familiar e o quanto os seus elementos podem ter particularidades curiosas, pouco adaptáveis, mas que fazem funcionar; interessou-me a amizade das personagens mais novas, coração desta narrativa, que gostava que tivesse um desenvolvimento mais calmo, estruturado, para que sentíssemos na pele o verdadeiro impacto do legado que carregam.

A Bastarda de Istambul deixou-me a pensar sobre crenças e tradições, sobre o quanto é fascinante perceber que o mesmo acontecimento pode ser defendido por duas verdades: a que não esquece e a que omite. Acima de tudo, fez-me questionar até que ponto é justo cobrarmos a quem não fez parte da História, apenas por ser filha de um dos lados. Este livro traz temas preponderantes para o debate, só fiquei com a sensação agridoce de que precisava de atar melhor os seus nós, porque os ingredientes estão cá todos.



Autobiografia Não Autorizada 2, Dulce Maria Cardoso

As crónicas de Dulce Maria Cardoso foram compiladas num primeiro volume que me comoveu pela transparência e pela intimidade. Por esse motivo, adicionei o segundo à minha lista de desejos, assim que anunciaram o lançamento, mas, por uma qualquer razão que não sei explicar, adiei sempre a sua compra. No início do ano, precisei de ir trocar livros e achei que era a altura ideal para o trazer comigo. Além disso, como em março tento ler apenas autoras, integrei-o na tbr mensal e deambulei nas suas visões.

Autobiografia Não Autorizada 2 volta a unir histórias verdadeiras com relatos ficcionais, numa proposta de auto-ficção particular, cirúrgica e com um olhar sensível acerca dos assuntos que explora. Assim, viajamos muito à infância, a Angola, a eventos literários, a amores, a feridas, mas questionando a veracidade das descrições, questionando se o que está a ser contado serve apenas o texto ou se é um espelho fiel dos acontecimentos.

O meu exemplar veio com um defeito — tinha crónicas repetidas e outras em falta — e, enquanto aguardava a chegada de um novo, curiosamente, regressei muitas vezes a esta capacidade de Dulce Maria Cardoso, porque acho fascinante a abordagem e, mais do que isso, acho fascinante o processo de plantar a dúvida e de estimular o nosso lado crítico, relembrando-nos que é fundamental permanecermos alerta: é que as histórias podem ter várias versões e quem as conta usa sempre as palavras a seu favor. A destreza de partir de certos elementos e revesti-los de um contexto que pode só existir no papel e/ou na imaginação é o que nos permite oscilar por distintos planos narrativos.

Por um lado, senti que as crónicas ficarão datadas, porque é evidente o período a que pertencem, mas, por outro, senti que tinham um tom mais melancólico, a interpretar o que podia ter sido, o que ficou ausente. Embora não tenha ficado tão impactada como fiquei no primeiro volume, é sempre maravilhoso regressar à escrita desta autora.

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