
As expectativas para abril nunca são modestas, porque espero o melhor deste mês: para além do meu aniversário, não me faltam motivos para celebrar as pessoas que amo, os livros e a liberdade. A cidade está florida e eu sinto que «cá dentro tem sol».
Começou Bon Vivan, foi Malandrim e teve muitas palavras a sustentar a viagem. Sinto que me permitiu encontrar uma das minhas histórias favoritas do ano e abraçar muitos regressos — gastronómicos, literários e geográficos —, bem como descobrir espaços novos (onde talvez não volte, mas que valeram a pena pela novidade, pelo satisfazer da curiosidade). Abril também abriu o caminho para traçar programas para os meses seguintes e recentrar. Sair à rua e ver tantos cravos na rua deu-me o alento certo para continuar a dar passos firmes, porque será sempre um assunto nosso, porque seremos sempre muitos mais, unidos, a resistir.
O meu mês reveste-me, incondicionalmente, de poesia ♡
as coisas maravilhosas de abril
os fragmentos aleatórios
Voltei, depois de tantos anos, ao Conga e é incrível como há coisas que permanecem iguais. As bifanas continuam tão picantes como me recordava, mas sem que isso impeça de sentir o verdadeiro sabor da carne. Além disso, a simpatia da equipa, por muito que possa ter mudado (estou a mandar-me para fora de pé nesta observação), conquista sempre.

Recebi muito amor no meu aniversário e, por mais que não sejam o principal, a verdade é que os bens materiais podem demonstrar o quanto algumas pessoas nos conhecem bem, surpreendendo-nos com prendas que são a nossa cara. E houve três que tiveram entrada direta no meu coração, precisamente por irem buscar detalhes que me definem: uma carteira efeito palha, uma travel mug lilás e um marcador de livro de decoração.
O xtinto anunciou concerto no Porto e isso também fez o meu mês.
as músicas e os álbuns
A playlist de abril esteve recheada, mas confesso que a maior parte dos temas não teve muito espaço, culpa do Lhast que trouxe novidades em dose dupla. Ainda assim, pude descobrir registos diferentes e viciar por completo na voz da Libra.
As músicas que marcaram o mês: Bon Vivan, Lhast | DVL, Pedro do Vale | Mau Olhado, Bárbara Bandeira | Dou, Jüra | Deixo o Número Aqui, Gustavo Reinas.
Os álbuns que marcaram o mês: Dobermann, Ella Nor | a beleza de todas as coisas, Luar | The Great Divide: The Last Of The Bugs, Noah Kahan.
as publicações
o cemitério das publicações perdidas: ou como nem todas as ideias saem da gaveta
Inspirada por Carlos Ruiz Zafón, que me abriu a porta do Cemitério dos Livros Esquecidos, percebi, dentro de um contexto muito mais humilde, que estava a compilar material para o meu próprio universo mágico, paralelo, não com obras literárias, mas com publicações que ficaram apenas a existir nestas plataformas, anonimamente (publicação completa aqui).
No meu substack poético, partilhei um poema inspirado na música Bon Vivan. Adoro quando o trabalho de um artista nos impacta de tal forma que nos impulsiona a criar. Ainda que esteja a anos-luz da caneta cirúrgica do Lhast, deu-me muito gozo escrever este poema. Se vos interessar, encontram-no aqui.
os filmes, as séries e os podcasts
Este segmento inclui uma conversa, um videoclipe duplo e um filme
Papillon no Imperfeita Repetição
O risco não compensa sempre, no entanto, quando as coisas são feitas com o coração no sítio certo, é provável que se desbloqueiem possibilidades maravilhosas. Embora não acompanhe o percurso do Papillon desde o início, de um modo regular, tem sido fascinante ver a sua evolução enquanto artista — e entre álbuns — e saber que isso culminou num Coliseu dos Recreios esgotado, porque a dedicação acaba a dar frutos.
No Imperfeita Repetição, o Alexandre Guimarães conversou com o Papillon antes e depois dessa noite, creio eu, memorável e o que mais se destacou para mim, além do talento óbvio, foi a falta de deslumbramento, a gratidão agregada às suas palavras, a vontade de desfrutar de cada momento e, apesar disso, sentir que ainda há tanto para explorar. A vontade de o ver ao vivo já era imensa e esta conversa só a aumentou.
Bon Vivan / Malandrim
A semana primeira semana de abril foi santa, mas o Lhast chegou sem inocência ao lançar duas músicas novas, Bon Vivan e Malandrim: «pensados como duas peças complementares, os dois temas exploram diferentes estados e atmosferas, refletindo contrastes que fazem parte da [sua] identidade artística». Além disso, vieram acompanhados por um videoclipe que evidencia bem essa dualidade na sua forma de criar, interligando passado e presente.
Sei que sou bastante suspeita ao falar do Lhast, mas adoro a sua versatilidade e o facto de nunca sabermos qual é o seu próximo passo. Depois de um Violetta que explora um lado mais intimista, estava curiosa para descobrir a que outros horizontes apontaria e foi interessante perceber que estes dois temas, apesar de terem uma energia própria e independente, conseguem funcionar como uma extensão de projetos anteriores. Aliás, Bon Vivan é azul, enquanto Malandrim é vermelho e essa combinação resulta num tom violeta, o que me deixa com a sensação de que se estas canções tivessem sido incluídas no álbum não destoariam. Depois, pela associação das cores e de partes das melodias, foi impossível não regressar ao AMOR’FATI e ao ALK — e, até, ao EP com o Chaylan.
Já estou a divagar, mas acho mesmo fascinante como consegue cruzar estes contrastes, como é capaz de estabelecer tantas pontes e, no entanto, levar-nos até novas paragens. É o Lhast a elevar a fasquia uma música de cada vez: sorte a nossa por virem aos pares.
O Drama
O milagre aconteceu: voltei a uma sala de cinema e não para ver filmes infantis, em contexto de trabalho. Desta vez, fui ver O Drama, com a Sofia, o Diogo e o Ricardo, e aquilo que mais me surpreendeu no filme foi o tom de provocação e o facto de nos deixar a pensar sobre limites, sobre aquilo que, para nós, é o fim da linha, o intransponível. E, também, sobre o quanto os nossos pensamentos nos podem consumir.
os livros
Senti-me a abrandar, ainda que, na quantidade, esteja na minha média habitual, porque acho que fiquei mais tempo em certos livros — alguns, poucos, de um modo intencional; outros, porque, de facto, a minha atenção não estava completamente alinhada com a história e o próprio ritmo da narrativa.
Os favoritos do mês: O Homem Sem Mim, Rute Simões Ribeiro | À Flor da Língua, Gregorio Duvivier.
Outros livros lidos: Jóquei, Matilde Campilho (releitura) | A Malcriada, Beatrice Salvioni | A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone | Vem à Quinta-Feira, Filipa Leal (releitura) | As Filhas do Capitão, María Dueñas | Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes | Notas Para John, Joan Didion.
os momentos
Idas ao parque. Pintar ovos de Páscoa. Ouvir Bon Vivan em loop. Experimentar o Mila Jardim e o Jardim Viriato e visitar o Grande Museu da Casinha das Bonecas. Aniversários. Lanches e jantares de família — de sangue e de coração. Tulipas. Comprar vários livros. Voltar ao Dragão. Muita música a encher a casa.




Verificando Se Você é Humano
O imprevisível aconteceu: Ricardo Araújo Pereira anunciou a sua estreia num solo de stand-up comedy e nós não quisemos perder a oportunidade de assistir a esse momento.
Sem querer entrar em destalhes, para não comprometer a experiência de quem ainda o for ver, Verificando Se Você é Humano cruza tecnologia, comportamentos da sociedade e a linha que «nos distingue das máquinas», com o tom sarcástico que reconhecemos no humorista. Honestamente, acho que a maior prova da sua humanidade foi senti-lo um pouco nervoso e vulnerável em determinadas ocasiões, como se estivesse a ir para fora de pé. Creio que isso também nos aproxima, porque percebemos que está a correr riscos, a desafiar-se, a explorar outras formas de criar e que não dá nada por garantido.
Entre episódios caricatos e ideias, talvez, descabidas, acho mesmo fascinante como o texto desconstrói por completo a imagem com que se apresenta. Gostei bastante de o ver neste registo e de andar à deriva, sem antever para onde escalaria a piada. Sentir que continua a apurar o seu humor e a capacidade de nos surpreender é extraordinário.
Maio, sê gentil ✨





