Entre Margens


Os meus dotes culinários não são propriamente dignos de nota, o que não invalida que as memórias mais bonitas envolvam comida e mesas redondas. Aliás, cá em casa, é um hábito recorrente mencionarmos os nossos pelas iguarias que eram/são quase imagem de marca: a minha avó materna e o seu arroz de tamboril (sem calda, por minha causa), o meu tio e as suas rabanadas de vinho, pelo Natal, e o meu pai e o seu arroz de forno. A forma como a comida nos agrega e estreita laços é poética e, até, uma manifestação de liberdade. Por isso, quando percebi que o mais recente livro de Afonso Cruz estaria a orbitar por este universo, trazendo sempre uma visão particular, fiquei entusiasmada.


 a preparar a vingança

A Cozinheira do Ditador é uma receita que se prepara com astúcia, com atenção a todos os detalhes, porque uma pitada a mais ou a menos pode alterar um sabor que se espera no ponto. Nesta história, que vai apurando os nossos sentidos, a personagem feminina «tem lábios finos, olhos de águia e nariz adunco» e a masculina tem «lábios carnudos, olhos meigos e nariz pequeno». Dito assim, talvez fosse imediato o julgamento acerca da personalidade de cada um, talvez fosse fácil iludirmo-nos, mas, tal como um prato que saboreamos devagar, para descobrirmos cada condimento, vamos percebendo que as aparências enganam e que existem segredos obscuros por «entre tachos e panelas».

A tradição de partilharmos refeições em família — de sangue e de coração — serve de pano de fundo a este «tratado de culinária e da arte de bem comer», uma vez que existe algo a ser preparado com perversidade, enquanto refletimos sobre questões sociais e políticas; enquanto compreendemos que nenhum pormenor é introduzido ao acaso — seja pelas ações das personagens, seja por determinados episódios. Logo, existe uma série de referências históricas e humanas que identificamos e que nos comprovam que a literatura é, por um lado, uma ponte para decifrarmos o mundo que habitamos e, por outro, é um alerta para os acontecimentos que se podem repetir, condicionando-nos.

O traço camaleónico de Afonso Cruz é uma das características que mais me fascina na sua escrita, porque faz com que a sua arte se ramifique e nos guie por camadas menos óbvias. Neste livro, que oscila entre um tom mordaz e cómico, sinto que é impossível não nos identificarmos com a protagonista, não sentirmos as suas dores e a vontade de querer fazer justiça pelas próprias mãos. Isto porque, sem revelar em demasia, vive em condições que não a dignificam. Portanto, nesta situação extrema, há uma revolução a acontecer por dentro, mostrando-nos uma vingança que é literária, fria e metafórica.

«Cozinhar é uma narrativa, e é provável que tenha sido ema a espoletar essa prática, a de contar, narrar, ficcionar, lembrar, oferecendo sentido à confusão do mundo»

Quis avançar no enredo sem pressas, porém, a minha missão não foi bem conseguida, já que fui inebriada pela voz da cozinheira. A maneira como orquestrou o seu plano, envolvendo-nos em cada etapa do processo, nas escolhas, nas alternativas, na ocasião mais indicada para concretizar a jogada final, deixou-me com a sensação de estar ao seu lado, a sentir na pele a angústia, o desconforto, o medo e o impacto deste jogo de poder doentio, quase absurdo. Através da sua lucidez, somos transportados para um mundo cada vez menos distópico, com regras assustadoras e valores questionáveis.

O humor negro do autor acaba por tornar a viagem um pouco mais suportável, ainda assim, quando paramos para refletir sobre tudo o que acontece nestas páginas, há algo que nos inquieta, sobretudo, por ser evidente a necessidade de sobreviver a um regime autoritário, a um ditador que, sem ter nome, conseguimos associar a rostos que tanto reconhecemos do passado, como vemos em imagens televisivas, no presente. Ademais, creio que a própria estrutura acrescenta alguma leveza a temas pesados, até porque os capítulos são sempre antecedidos por um detalhe que achei extraordinário, mostrando que a ironia é altamente recomendada para ser servida como se fosse o prato principal.

A Cozinheira do Ditador, embora tenha episódios caricatos, é credível o suficiente para não colocarmos em causa as motivações que norteiam aqueles que se querem libertar de cenários opressores e para termos sempre presente o lado humano das situações. É surpreendente como Afonso Cruz nos leva a descobrir tantos mundos dentro das suas narrativas, onde nada é uma só coisa — as entrelinhas florescem de teses. Com a dose certa de sarcasmo e estranheza, acedemos aos distintos tipos de ditadura e à maneira como cada um deles molda a nossa identidade, incitando-nos a lutar para (sobre)viver.


 notas literárias
  • Lido entre: 14 e 16 de maio
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 280
  • Banda sonora: O Circo dos Fachos, GAC - Vozes na Luta | La Llorona, Carmen Goett


Os últimos raios de sol cobriam a Casa da Música e, enquanto me deslocava para lá, a contemplar aquele horizonte, fui caminhando a pensar em quantos ângulos se divide — ou multiplica, dependendo da perspetiva — a nossa rotina; em quantos detalhes se evidenciam e quantos permanecem na sombra, como se a nossa vida fosse sempre este jogo de contrastes, de luz e de escuridão, e nós ajustássemos a lente de acordo com o momento, com o que nos parece mais urgente unir. E deixei-me só ficar neste espaço.

Um ponto de fuga cria uma noção de tridimensionalidade, de profundidade, onde há a certeza de uma interseção. Não sabemos em que lugar específico, porque não a vemos, supomos, no entanto, compreendemos que é esse o fim, que as nossas associações se cruzam, ainda que aparentem ser improváveis. Aquilo de que não estava à espera era de entrar na Sala Suggia e ficar completamente comovida com o Ponto de Fuga que o Martim Sousa Tavares concebeu e apresentou — com participação de João Barradas.

Admito que talvez não esteja a ser precisa o suficiente, porque, sendo honesta, espero sempre ficar espantada e sem palavras com as criações do Martim, uma vez que é um contador de histórias excelente, capaz de nos fazer viajar até às profundezas da nossa alma, dos nossos pensamentos, mas como não sabia o que esperar deste espetáculo, e decidi não procurar informações, tentei calibrar as expectativas para ser surpreendida, para sentir que cada instante tinha a capacidade de me levar para lugares recônditos.

Durante cinco atos, acho que o meu coração falhou algumas batidas, visto que o texto tocou em feridas que sei que nunca fecharão totalmente. Regresso com frequência ao quanto as memórias de quem não conhecemos nos moldam e creio que, ao longo dos anos, tenho feito as pazes com essa imagem, se calhar, por ter compreendido a beleza de olhar para cada uma delas não com o filtro da nostalgia, ficando refém do passado, mas com a génese certa da saudade: a que nos relembra que existiu um momento em que aquela(s) pessoa(s) fez(fizeram) parte da nossa vida, ainda que não nos lembremos, ainda que essa memória seja herdada. Eu sou todas essas pessoas que me chegam pelo olhar de terceiros, mas também sou o espaço entre elas e o que desconheço do futuro.

Este pensamento acompanhou-me enquanto decorria o espetáculo, atendendo a que é impressionante a quantidade de pormenores que abrem essa porta. Através de uma canção, de um filme, de um quadro, de versos específicos de um poema, conseguimos mergulhar dentro de nós e voltar àquela pessoa, àquela lembrança, àquele lugar. Isto talvez seja uma espécie de educação da tristeza, socorrendo-me de Valter Hugo Mãe, porque a dor começa a dar margem para que o foco se redirecione e nos seja luminoso. E, portanto, independentemente da rota, sabemos que estes fios invisíveis nos bordam.

Martim Sousa Tavares partiu das suas vivências, deu-nos a mão e levou-nos a visitar paragens especiais. Quando me sentei para escrever este texto, tentando traduzir por palavras o turbilhão de emoções que grita cá dentro, estava consciente da dificuldade, porque nenhuma faria justiça a tudo o que nos fez sentir, à sensibilidade, ao ritmo, à naturalidade com que transitou entre temas e, claro, ao humor sempre tão presente. É que houve ocasiões de comoção, mas também me ri com a sua faceta de comediante.

A beleza é o fio condutor e é fabuloso ver as suas ramificações, a sua subjetividade, o impacto que tem olhar para a vida através desse prisma, porque enriquece o caminho. Sinto que estive inteira no espetáculo, e há partes que se manterão muito próximas, no entanto, adorava que estivesse gravado e pudesse vê-lo mais tarde, para ir às camadas que não fui capaz de alcançar no momento; ou, então, que o texto ficasse eternizado num guião, para reler, sublinhar e ficar com uma memória visual desta experiência.

Num breve e inconfidente apontamento, tenho estado a escrever poemas a partir de um tema comum, porque senti necessidade de o exteriorizar e ressignificar. A ideia nasceu mais ou menos após ter partilhado este texto, porque acredito que a arte nos vai curando as feridas, já que dá voz a fragmentos que nem sempre somos capazes de racionalizar. E se o Educação da Tristeza e a Foguetes têm sido aliados nesse processo, o Ponto de Fuga veio completar a tríade e atribuir um novo fôlego àquela que creio ser a parte final do que tenho estado a escrever. É comovente como a arte nos inspira tanto e como nos relembra que existem sempre outras formas de percorrermos o caminho.

Ponto de Fuga embala-nos na sua liberdade, no seu tom cómico, emocional e grato. Foi um privilégio ocupar uma das cadeiras do coração da Casa da Música e assistir a este espetáculo que continuará a ecoar em mim. De facto, «não há vida sem histórias», por isso, estarei sempre disponível para escutar todas as que o Martim tiver para contar.



O final de A Malnascida deixou-me a ansiar por uma continuação: não só porque a história em si despertava essa vontade de a continuar a acompanhar, mas também pela escrita de Beatrice Salvioni, que nos faz sentir o impacto de cada fragmento, emoção e vivência. Por isso, fiz as minhas malas ficcionais e voei até Monza, para reencontrar personagens que ainda hoje me impactam.


 as marcas do passado

A Malcriada leva-nos até 1940, quando, «numa noite cerrada, uma rapariga corre descalça pela cidade deserta. Desesperada, raivosa, acaba por descobrir que foi traída por alguém que jamais julgara capaz de a enganar». É desta forma intensa, angustiante até, que somos recebidos no enredo, ficando claro, desde o início, que haverá um tom sombrio e feridas abertas. Só ainda não conseguimos prever a extensão do problema.

Há quatro anos que Francesca não tem notícias de Maddalena, o que, inevitavelmente, criou um fosso emocional impossível de ignorar, porque não existe só distância física, existe, também, uma certa desconfiança, dúvida e medo pela possibilidade de haver qualquer tipo de ressentimento. E se existem ligações de amizade onde parece que partimos sempre do lugar onde ficamos, aqui não o podemos afirmar com total certeza, quer pela força das circunstâncias, quer pelo historial e pela imprevisibilidade. 

O mais curioso, para mim, foi sentir que houve uma espécie de troca de papéis. Com Maddalena num plano secundário, vemos Francesca a florescer e a transformar-se numa mulher que não cai bem numa «sociedade conservadora e patriarcal». E foi neste ponto que dei por mim a pensar na culpa, nos valores que se perpetuam, naquilo que é exigido à mulher. Creio que ver Francesca a ter uma voz ativa neste sentido trouxe uma reviravolta necessária a esta história.

«— E porque andas sempre com esse recorte de jornal?
— Para me lembrar que eles podem moldar a realidade como lhes aprouver. Porque, se conheceres o pior que podem dizer de ti, nada te consegue surpreender.
— Nunca tens medo?
— O que mais me podem eles tirar?»


Quando, por fim, revemos Maddalena e nos reencontramos com a sua energia, percebendo o arco evolutivo e todas as marcas do passado, isso deu-me outra perspetiva: a perspetiva de todas as carapaças que, por vezes, temos de vestir para sobreviver, para que não nos transformem em algo que não somos, para ainda sermos capazes de ter algum controlo na narrativa que querem escrever por nós. Maddalena nunca se diminuiu para caber e sinto que, juntas, as protagonistas foram encontrando sempre uma maneira de alimentar a sua ferocidade — mesmo com quedas e decisões pouco ortodoxas pelo meio.

A consciência acerca da condição feminina, aliada a um plano político em ruínas, com a guerra a espoletar, causa um certo desconforto por ser tão lúcida, tão assertiva; por expor a necessidade constante de calar, de moldar a uma imagem que não provoque danos, que seja obediente. E isso é transversal a todo o livro, deixando evidente que não há nenhum ponto sem nó, que até a atitude mais inocente é sempre uma consequência de algo maior, enraizado na sociedade. Não existe, portanto, uma cisão entre escolhas individuais e escolhas sociais, porque há quem procure fazer prevalecer o sistema em vigor e há quem abrace a resistência. Estes mundos colidem e nós vamos assistindo ao caos e à missão de encontrar alternativas.

A Malcriada apresenta ligações e reflexões mais complexas, desarmando-me na forma como a autora interligou a consciência social e política com a amizade das protagonistas. Senti a narrativa um pouco mais previsível e isso talvez me tenha retirado o impacto do deslumbramento, mas quanto mais o tempo passa, mais sinto que este amadurecimento foi necessário. Além disso, impactou-me pelo crescimento e pelas vozes femininas que precisam de continuar a ser rebeldes.


 notas literárias
  • Lido entre: 2 e 10 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 480
  • Banda sonora: La Mia Canzone al Vento, Carlo Buti | Pippo Non So La, Trio Lescano & Silvana Foresi



A viver entre palavras, sinto-me sempre em casa quando são o tema central de uma conversa — ou o seu desenrolar nos encaminha nessa direção. Essa era, portanto, uma das razões pelas quais queria tanto assistir à peça que Gregorio Duvivier escreveu com Luciana Paes e, depois de a ver, fiquei tão apaixonada por O Céu da Língua que o passo seguinte só podia ser comprar este livro.


 imaginar a partir das palavras

À Flor da Língua nasce «da desconfiança em relação aos significantes» e funciona como um desdobramento da peça supracitada, até porque, nesta obra, coube tudo o que não coube no texto que levou a palco, ampliando «aquilo que nos une: a capacidade de falar, de imaginar a partir das palavras e de contar histórias».

Ao explorar o seu amor e obsessão pela semântica, Duvivier construiu uma espécie de dicionário, no qual cada termo adquire uma componente emocional, humana, como se fosse um organismo vivo, como se respirasse e tivesse uma forma palpável. Aqui, nenhuma expressão é dita por acaso, sem vir agregada a uma explicação e experiência particulares.

Permiti-me demorar nesta viagem, apesar de a querer ler num sopro, porque é fascinante o poder de argumentação e as associações que o humorista estabelece, despertando sensações, desbloqueando uma nova forma de olharmos para a génese e para o significado de cada palavra. E fá-lo sempre com graça e sensibilidade. Se dúvidas existissem quanto à inteligência e cultura de Gregorio Duvivier, neste livro ficam desfeitas.

«Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida. Se a saudade é a presença de uma ausência, a despedida é a presença antes da ausência: se despedir é tornar presente aquilo que não estará»

Entre palavras mais kiki ou mais boubas, também consegue a proeza de abordar as subtilezas que aproximam e diferenciam o português de Portugal e o português do Brasil. Isso é mágico e, por vezes, quase que podia jurar que o estava a ouvir a dizer os textos — aqueles que se cruzam na peça, então, podia jurar que estava de volta ao Coliseu do Porto a viver a experiência de assistir ao espetáculo. Apesar de serem propostas que funcionam em separado, acredito que este livro prolonga a peça com mais intimidade, deixando-a a ecoar em nós (mas leiam-no mesmo que não tenham visto o monólogo, porque não compromete o vínculo).

À Flor da Língua desperta o nosso sentido crítico e convida-nos a pensar mais fundo. Uma vez que se foca na linguagem, mostra-nos que esta é uma ponte para compreendermos a cultura em que nos inserimos, para reconhecermos uma identidade que é coletiva e, sobretudo, para nunca esquecermos que as palavras nos colam ao mundo. Hei-de regressar para me (re)descobrir nesta pluralidade contagiante.


 notas literárias
  • Lido entre: 7 e 13 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Humor
  • Banda sonora: Trem das Onze, Maria Gadu | Meu Bem Meu Mal, Caetano Veloso


O meu texto precisava de começar com uma confissão: a primeira vez que ouvi o Vítor Sá não encaixei com a sua energia. Na altura, ainda não acompanhava Cubinho de uma forma assídua e creio que incompatibilizei com ele por não ter compreendido o tom, por me parecer que havia uma postura de superioridade, sobretudo, em relação a um dos colegas. Contudo, o lado bom das primeiras impressões é que podem ser mudadas e bastou-me estar mais atenta ao seu percurso para perceber o quanto estava errada.

Para além do podcast que divide com o António Azevedo Coutinho e o Ricardo Maria, assisti ao especial de comédia que disponibilizou no Youtube, Incerto, e, mais tarde, vi-o a abrir o Não Faz Sentido, do Guilherme Fonseca. Se, após esse espetáculo, dissessem que eu ia acabar por comprar bilhetes para um solo seu, talvez não acreditasse, porque até achei que embalou bem o público, mas que a construção do texto se socorreu mais de palavrões (e eu adoro palavrões). Claro que é injusto reduzir o trabalho do artista ao tempo de abertura, ainda assim, foi uma primeira interação que me deixou oscilante.

Corta para novembro, de 2025, quando Vítor Sá anuncia o novo espetáculo de stand-up e, com uma perceção diferente, tive de me apressar a comprar bilhetes, já que estavam a desaparecer num ápice. E a curiosidade foi aumentando: pelo conceito do solo, pelos novos ângulos que traria à sua comédia e pela quantidade de histórias hilariantes que teria acumulado, afinal, atendendo a que tanto o podemos ver «disfarçado de Zorro na Festa dos Arcos de Paços de Paços de Brandão», como a ser «tesoureiro e dançarino no Rancho Folclórico e Etnográfico das Terras de Santa Maria em Rio Meão», sem, claro, esquecer que foi «praticante de skate amador», não lhe faltam peripécias na bagagem.

Conclui-se, portanto, que «uma boa parte da vida de Vítor Sá foi passada num Arraial» e não haveria melhor nome para o espetáculo. Com um cenário, em palco, que nos leva mesmo para um ambiente festivo, a noite começou com a atuação do Chimpas, que se revelou uma excelente surpresa. Não sabia o que esperar, sendo honesta, porque ainda não tinha visto trabalhos dele, mas sinto que entregou tudo e que deixou a plateia no ponto certo. Logo de seguida, ainda tivemos a visita de Carlos Contente, que fez total justiça ao apelido. Se o início da festa já prometia, o resto da noite cumpriu em pleno.

Não quero entrar em pormenores, para não comprometer a experiência a quem possa ir ver Arraial, mas permitam-me realçar o quanto a evolução do Vítor Sá é admirável: o texto nem parecia o de um primeiro solo, de tão bom e coeso que estava. Uniu todas as pontas soltas com mestria e sem quebrar o ritmo — nem quando teve de gerir aquelas situações imprevisíveis. Se existia nervosismo, nunca o transpareceu, atuando seguro, conseguindo o equilíbrio certo entre o cómico e o javardo. Há, aqui, histórias que só podiam ser contadas por ele, que talvez só nos levem a chorar a rir por serem dele, no entanto, a entrega em cada momento foi irrepreensível, espelhando toda a qualidade.

Não me recordo de ter estado noutro espetáculo em que estivesse o tempo todo a rir e ele conseguiu-o. Aliás, fiquei com a sensação de que esse foi o estado geral da sala, o que corrobora o tom cirúrgico das punchline. Percebe-se que existiu trabalho «a limar cada frase», não obstante, o texto não perdeu naturalidade e isso também é uma prova da sua evolução. A fasquia está elevada, mas acredito que tem tudo para melhorar. E o mais curioso é que não o conheço, mas saí do Teatro Sá da Bandeira orgulhosa, como se tivesse assistido a uma conquista de um amigo. Se dúvidas existissem em relação ao quanto merece que lhe esgotem todas as salas, este solo veio desfazê-las uma por uma.

Sinto que nenhum outro Arraial foi tão extraordinário, porque este fica para a história!



Abril começou na companhia de um álbum que, na realidade, já tinha saído no mês anterior e ainda me levou de volta a 2025, porque fiquei rendida à voz da Libra, ao seu Everyone's First Breath e à declamação poética que ganha outro fôlego musicada. Este mês, também deambulei entre vulnerabilidade e um tom mais combativo. Celebrei abril, reforcei a importância de ver beleza nas pequenas coisas e terminei ao som de folk.


os álbuns de abril


THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE, RAYE

A sensação de que a arte é tão maior do que nós pode ser sufocante ou estimulante, pelo simples facto de sabermos que nos faltarão sempre referências, mas talvez seja nesse ponto que entra o lado emocional, deixando-nos em paz com isso.

Nunca acompanhei a Raye com particular atenção, até a Where Is My Husband aparecer em vários contextos. E, ainda que com algumas reticências, aventurei-me no seu mais recente trabalho, confirmando algo que pairou no meu pensamento: que ia sentir-me à deriva, sem ser capaz de atar todos os nós e de estabelecer todas as associações possíveis, enquanto me deixaria contagiar pela voz, pela linguagem melódica.

Ao longo de 17 canções, senti que estava a assistir a uma produção cinematográfica, a uma história longa com espaço para mergulharmos até às profundezas da nossa alma, conhecendo todos os recantos tristes e sombrios; com espaço para preencher vazios e silêncios e traçar uma nova rota. Neste álbum, a artista oscila emocionalmente, mas é de uma composição tão coesa que tudo parece encaixar no sítio certo: não porque seja calculado, mas porque sentimos verdade na partilha.

This Music May Contain Hope acertou-me em cheio e já não o dispenso.



DOBERMANN, ELLA NOR & MOGNO

A voz da Leonor Andrade não me passou despercebida no The Voice. Ainda a acompanhei um pouco para lá do programa, mas depois os nossos caminhos desencontraram-me. Anos depois, e já a responder pelo alter ego artístico Ella Nor, estava muito curiosa para descobrir a sua nova identidade musical.

Foi o Santa que me abriu a porta do Dobermann e de uma sonoridade que me cativou pela junção de pop, eletrónica e ritmos latinos. Aliás, cativou-me pela possibilidade de ser tanta coisa, de explorar diferentes estados de intimidade e, até, de combatividade. Sinto que este trabalho é um espelho das diferentes facetas que podemos assumir, dependendo do momento e das circunstâncias que estamos a viver, sem ignorar o quanto as relações, independentemente da sua natureza, têm influência no processo.

O próprio nome do disco é a metáfora perfeita para essa dicotomia, para o facto de ser ténue a linha que separa a vulnerabilidade e a necessidade de reagir. No fundo, como referiu a artista, é um trabalho que representa «a ocasião em que deixa[mos] de sobreviver em silêncio e começa[mos] a proteger quem realmente [somos]».

Dobermann é, talvez, o manifesto de Ella Nor, porque «defende a sua própria identidade». Sempre que o ouço, há uma força que parece renascer por dentro.



APENAS ABRIL, INÊS APENAS

Inês Apenas, uma das vozes mais promissoras do panorama musical português, quis prestar uma homenagem a Zeca Afonso, compilando versões contemporâneas de alguns dos seus temas mais emblemáticos.

Apenas Abril integra sete canções e conta, ainda, com a participação de Sérgio Onze, Inês Monstro e Bia Maria. Que forma bonita de celebrar a liberdade e músicas que, de algum modo, nos moldaram enquanto sociedade, mantendo sempre acesa a chama da intervenção.



A BELEZA DE TODAS AS COISAS, LUAR

A primeira vez que ouvi falar do LUAR foi através do Volume I, da Avalanche, e fui-me mantendo atenta a eventuais trabalhos posteriores a solo. Por isso, foi com grande expectativa que recebi a notícia de que editaria o seu álbum de estreia.

A beleza de todas as coisas tem uma sonoridade intimista, de quem observa o que o rodeia com a calma e a atenção que merece. Com sensibilidade e introspeção, acolhe-nos na sua viagem de autodescoberta, de contemplação face às vivências que o habitam, ao que necessita de exteriorizar, ao quotidiano que consegue ser tão mundano e imprevisível.

Sinto que os seus poemas nos convidam a abrandar, a respirar fundo e a explorar as nossas incertezas. Partindo dos seus problemas, dos pensamentos onde fica a pairar, encontrou na escrita uma forma de verbalizar «o encanto que [gosta] de encontrar entre as rotinas».

A beleza de todas as coisas é plural na sonoridade, entrelaçando «música alternativa, indie e bedroom pop», porque espelha o quanto podemos ser várias coisas em simultâneo.



THE GREAT DIVIDE: THE LAST OF THE BUGS, NOAH KAHAN

O tik tok pode ser um universo fascinante. E digo isto porque bastou-me ver um vídeo de uma rapariga a falar com todo o entusiasmo da música Deny Deny Deny para a querer ouvir na sua versão completa. Gostei tanto dela que o passo seguinte só podia ser escutar o álbum novo do Noah Kahan.

The Great Divide: The Last Of The Bugs cativou-me de imediato pela sonoridade intimista e vulnerável. Sei que nos encaminhamos para o tempo quente, mas fez-me sentir naqueles dias enevoados, onde corre uma brisa ligeira e só nos apetece ficar enroscados no sofá, com uma chávena de café ou de chá ao lado, se calhar, porque a sua concretização veio de um lugar ambivalente, a oscilar entre «o medo, a pressão, a alegria».

Sinto que as músicas nos vão retirando da escuridão, levando-nos para espaços mais luminosos, mostrando-nos que «nunca estamos verdadeiramente sozinhos», mas que há lugares onde precisamos de ir sem essa companhia. Tenho regressado sempre que preciso de revestir os dias com um pouco mais de quietude.


Menções honrosas: 94, do LON3ER JOHNY, porque houve músicas que me conquistaram. Para mim, não foi um álbum consistente, razão pela qual não tenho sentido o impulso de o escutar na íntegra; Pop Luso Flamenco, do Lucas Maia, porque gostei da fusão de estilos e da infinidade de camadas que cabem em seis canções, quase como se tivéssemos uma opção para distintos estados de espírito; Equilibrivm, da Anitta, porque achei interessante o facto de ser tão diferente dos trabalhos anteriores. Ainda só ouvi uma vez na integra e algumas canções soltas, mas quero continuar a explorar este álbum.



A ideia andava a pairar e optei por não prolongar a dinâmica até ao final do ano, porque, honestamente, já não me estava a divertir com a rubrica Notas Literárias, nem a sentir que se mantivesse relevante para justificar uma publicação individual. Por isso, decidi agregá-la ao Entrelinhas, numa espécie de nota introdutória antes de partilhar as reviews.

Em abril, quis rodear-me de autores-casa, de livros sobre livros e que fossem uma forma de celebrar a liberdade. No total, li dois de poesia, três romances, um de humor e três de não ficção, e fiz duas releituras (Jóquei e Vem à Quinta-Feira). Descobri três autores novos — Gregorio Duvivier, Carlos Maria Bobone e Tiago Fernandes — e, de acordo com as estatísticas do The StoryGraph, fiz leituras mais reflexivas e emocionais. O Homem Sem Mim e À Flor da Língua levaram a medalha de favoritos do mês


 entrelinhas de abril

A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone

Os leitores praticam várias modalidades e uma que creio ser transversal é o gosto em lermos livros sobre livros, talvez por ser uma forma de orbitarmos mais tempo neste universo, descobrindo novas camadas e pretextos para nos deslumbrarmos. Num mês em que celebramos este portal mágico para infinitas histórias, decidi ler o ensaio que o alfarrabista Carlos Maria Bobone tem na Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A Religião dos Livros mostra-nos um retrato sobre «a vida dos livreiros e das livrarias», que, certamente, encapsularão «historietas rocambolescas» dentro da normalidade dos dias. Há uma imagem romântica que lhes associamos, mas estava curiosa com «o lado iniciático, o cenário algo apocalíptico e o papel do livreiro como guardião da cultura e de preciosidades esquecidas». Além do mais, estava intrigada com o olhar acerca dos alfarrabistas, uma vez que continua a ser um mundo bastante desconhecido para mim.

Sinto que, ao desromantizar todo o processo, nos deixa mais próximos da realidade, da dificuldade que paira em algumas situações, da necessidade de resistir, de modernizar, de encontrar estratégias estimulantes que permitam vender. É que, embora possa ser um cenário idílico para a maior parte dos comuns mortais, existe uma componente de negócio que não se pode descurar, por isso, achei particularmente interessante que o autor partilhasse informações sobre os leilões, a compra de bibliotecas particulares e a relação preço-objeto, pois ajuda-nos a refletir sobre a complexidade destas questões.

Reconheço, ainda assim, que não adorei a escrita e o tom, que me pareceu um pouco condescendente em certas passagens. Mas, se calhar, esta sensação vem do facto de me ter faltado mais paixão no discurso: os dados e a contextualização são importantes para compreendermos o propósito e este universo que exige intuição e calculismo, só que, por ser alguém que o conhece com proximidade, esperava um lado menos formal.

A Religião dos Livros abre-nos a janela para que espreitemos os bastidores e, por isso, é uma leitura que permite satisfazer curiosidades e entender que o futuro se reveste de esperança, até porque, «enquanto houver livros, haverá muito mais do que leitores».



As Filhas do Capitão, María Dueñas

A escrita da María Dueñas deixa-me sempre com uma sensação de aconchego, porque consegue retratar vidas comuns de uma forma muito natural, quase como se pudessem ser pessoas próximas, com dilemas e sonhos semelhantes aos nossos. Por esse motivo, e por saber que é baseada numa história real, estava muito curiosa com esta obra.

As Filhas do Capitão transporta-nos para uma «grande cidade americana», quando Emilio Arenas morre num acidente e «as suas filhas indomáveis assumem as rédeas do [seu] negócio, enquanto nos tribunais se revolve a herança». Perante a necessidade de sobreviver e de fazer o luto pelo pai, Victoria, Mona e Luz veem-se envoltas num quotidiano de adversidades, que coloca à prova os seus temperamentos e a própria relação entre elas.

Talvez não tenha sido o meu tempo certo para descobrir esta história, razão pela qual quero relê-la mais tarde, mas, de facto, não me consegui relacionar com o enredo e as personagens. A primeira parte até estava a fluir e a intrigar-me, mas depois senti que a ação ficou algo confusa, a perder-se em pormenores que não me pareceram assim tão essenciais para a construção da narrativa.



Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes

O marco mais bonito da nossa história, enquanto país, continua a ter vários contornos que merecem ser descobertos: não só pela total pertinência da data, mas também para que nunca esqueçamos que precisa de ser cuidada/protegida todos os dias. Para além de tudo o que reconhecemos, ao pós-25 de abril acresce o facto de ser «historicamente raro uma revolução levar diretamente a um regime democrático», sendo este o foco do retrato que Tiago Fernandes escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Revolução, Contrarrevolução e Democracia parte de um estudo comparado da revolução portuguesa «com outros processos revolucionários europeus do séc. XX». A intenção, que fica clara desde o início, é perceber os motivos que permitem que as revoluções se transformem num regime democrático. Assim, responde a duas questões centrais: (1) «por que razão Portugal não sofreu um golpe militar de direita apoiado por segmentos da elite do anterior regime» e (2) «por que não sucumbiu à ascensão de um regime de partido único revolucionário apoiado por segmentos dos militares». Focar o contexto português espelha um simbolismo duplo, porque a revolução portuguesa marcou «o início da terceira vaga de democratização» e foi «uma revolução social pacífica».

A obra divide-se em três capítulos, cada um deles responsável por analisar um período específico — a crise do Estado Novo, o 25 de abril e a consolidação da democracia —, o que nos ajuda a compreender melhor o arco evolutivo, quer em relação aos valores defendidos pelo regime, quer em relação às incoerências que pautavam esse sistema político, à oposição e ao papel dos militares, socorrendo-se de dados e de gráficos para termos uma noção mais visual daquelas que eram as condições da sociedade nacional.

Confesso que esperava encontrar um diálogo mais estreito com o dia da revolução em si, porém, privilegia mais o antes e o depois desse acontecimento, evidenciando que o «predomínio das forças liberais/moderadas […] ocorre quando aquelas têm capacidade de organização cívica e aliados nos militares». Embora tivesse precisado de calibrar as minhas expectativas, achei Revolução, Contrarrevolução e Democracia muito elucidativo e interessante, por me permitir explorar um tópico sobre o qual nunca tinha lido antes e por sentir que abre a porta para que continuemos a informarmo-nos sobre o assunto. É uma leitura para fazer sem pressas, porque há muita informação para assimilarmos.



Notas Para John, Joan Didion

O monólogo baseado n' O Ano do Pensamento Mágico foi a minha porta de entrada para o universo Joan Didion. Anos mais tarde, quando tive a oportunidade de ler o livro, fiquei embevecida pela intensidade do relato, da escrita sem filtros e, ainda assim, com tantas sombras. Por isso, quis continuar a aventurar-me na não ficção da autora.

Notas Para John é um diário «comovente do dilema doloroso de uma mulher, de uma corajosa escritora reconhecida pela capacidade de examinar meticulosamente as camadas de uma história». Em 1999, começou a ser acompanhada por um psiquiatra e, durante mais de um ano, «descreveu as sessões clínicas» através de entradas que dirigiu ao marido, John Gregory Dunne.

Foi um pouco sufocante ler esta obra, devo admitir, porque se percebe o medo da perda, a preocupação constante, a fragilidade que se entrelaça ao querer proteger quem amamos. Não sei é se a compilação destas notas teve a sensibilidade que merecia, porque são demasiado íntimas. 



 tbr de maio
  • Poemas Quotidianos, António Reis (12 meses, 12 livros de poesia);
  • Lá Fora, Pedro Mexia (alma lusitana);
  • A Cor do Hibisco, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
  • Marcas Que Fazem Portugal, Margarida Vaqueiro Lopes (ler ffms);
  • A Cozinheira do Ditador, Afonso Cruz;
  • As Melhoras da Morte, Rui Cardoso Martins;
  • Um Pouco de Cinza e Glória, Cláudia Andrade.



As expectativas para abril nunca são modestas, porque espero o melhor deste mês: para além do meu aniversário, não me faltam motivos para celebrar as pessoas que amo, os livros e a liberdade. A cidade está florida e eu sinto que «cá dentro tem sol».

Começou Bon Vivan, foi Malandrim e teve muitas palavras a sustentar a viagem. Sinto que me permitiu encontrar uma das minhas histórias favoritas do ano e abraçar muitos regressos — gastronómicos, literários e geográficos —, bem como descobrir espaços novos (onde talvez não volte, mas que valeram a pena pela novidade, pelo satisfazer da curiosidade). Abril também abriu o caminho para traçar programas para os meses seguintes e recentrar. Sair à rua e ver tantos cravos na rua deu-me o alento certo para continuar a dar passos firmes, porque será sempre um assunto nosso, porque seremos sempre muitos mais, unidos, a resistir.

O meu mês reveste-me, incondicionalmente, de poesia ♡


as coisas maravilhosas de abril


 os fragmentos aleatórios

Voltei, depois de tantos anos, ao Conga e é incrível como há coisas que permanecem iguais. As bifanas continuam tão picantes como me recordava, mas sem que isso impeça de sentir o verdadeiro sabor da carne. Além disso, a simpatia da equipa, por muito que possa ter mudado (estou a mandar-me para fora de pé nesta observação), conquista sempre.


Recebi muito amor no meu aniversário e, por mais que não sejam o principal, a verdade é que os bens materiais podem demonstrar o quanto algumas pessoas nos conhecem bem, surpreendendo-nos com prendas que são a nossa cara. E houve três que tiveram entrada direta no meu coração, precisamente por irem buscar detalhes que me definem: uma carteira efeito palha, uma travel mug lilás e um marcador de livro de decoração.

O xtinto anunciou concerto no Porto e isso também fez o meu mês.


 as músicas e os álbuns

A playlist de abril esteve recheada, mas confesso que a maior parte dos temas não teve muito espaço, culpa do Lhast que trouxe novidades em dose dupla. Ainda assim, pude descobrir registos diferentes e viciar por completo na voz da Libra.

As músicas que marcaram o mês: Bon Vivan, Lhast | DVL, Pedro do Vale | Mau Olhado, Bárbara Bandeira | Dou, Jüra | Deixo o Número Aqui, Gustavo Reinas.


Os álbuns que marcaram o mês: Dobermann, Ella Nor | a beleza de todas as coisas, Luar | The Great Divide: The Last Of The Bugs, Noah Kahan.


 as publicações

o cemitério das publicações perdidas: ou como nem todas as ideias saem da gaveta
Inspirada por Carlos Ruiz Zafón, que me abriu a porta do Cemitério dos Livros Esquecidos, percebi, dentro de um contexto muito mais humilde, que estava a compilar material para o meu próprio universo mágico, paralelo, não com obras literárias, mas com publicações que ficaram apenas a existir nestas plataformas, anonimamente (publicação completa aqui).

No meu substack poético, partilhei um poema inspirado na música Bon Vivan. Adoro quando o trabalho de um artista nos impacta de tal forma que nos impulsiona a criar. Ainda que esteja a anos-luz da caneta cirúrgica do Lhast, deu-me muito gozo escrever este poema. Se vos interessar, encontram-no aqui.


 os filmes, as séries e os podcasts

Este segmento inclui uma conversa, um videoclipe duplo e um filme

Papillon no Imperfeita Repetição
O risco não compensa sempre, no entanto, quando as coisas são feitas com o coração no sítio certo, é provável que se desbloqueiem possibilidades maravilhosas. Embora não acompanhe o percurso do Papillon desde o início, de um modo regular, tem sido fascinante ver a sua evolução enquanto artista — e entre álbuns — e saber que isso culminou num Coliseu dos Recreios esgotado, porque a dedicação acaba a dar frutos. 

No Imperfeita Repetição, o Alexandre Guimarães conversou com o Papillon antes e depois dessa noite, creio eu, memorável e o que mais se destacou para mim, além do talento óbvio, foi a falta de deslumbramento, a gratidão agregada às suas palavras, a vontade de desfrutar de cada momento e, apesar disso, sentir que ainda há tanto para explorar. A vontade de o ver ao vivo já era imensa e esta conversa só a aumentou.

Bon Vivan / Malandrim
A semana primeira semana de abril foi santa, mas o Lhast chegou sem inocência ao lançar duas músicas novas, Bon Vivan e Malandrim: «pensados como duas peças complementares, os dois temas exploram diferentes estados e atmosferas, refletindo contrastes que fazem parte da [sua] identidade artística». Além disso, vieram acompanhados por um videoclipe que evidencia bem essa dualidade na sua forma de criar, interligando passado e presente.

Sei que sou bastante suspeita ao falar do Lhast, mas adoro a sua versatilidade e o facto de nunca sabermos qual é o seu próximo passo. Depois de um Violetta que explora um lado mais intimista, estava curiosa para descobrir a que outros horizontes apontaria e foi interessante perceber que estes dois temas, apesar de terem uma energia própria e independente, conseguem funcionar como uma extensão de projetos anteriores. Aliás, Bon Vivan é azul, enquanto Malandrim é vermelho e essa combinação resulta num tom violeta, o que me deixa com a sensação de que se estas canções tivessem sido incluídas no álbum não destoariam. Depois, pela associação das cores e de partes das melodias, foi impossível não regressar ao AMOR’FATI e ao ALK — e, até, ao EP com o Chaylan.

Já estou a divagar, mas acho mesmo fascinante como consegue cruzar estes contrastes, como é capaz de estabelecer tantas pontes e, no entanto, levar-nos até novas paragens. É o Lhast a elevar a fasquia uma música de cada vez: sorte a nossa por virem aos pares.

O Drama
O milagre aconteceu: voltei a uma sala de cinema e não para ver filmes infantis, em contexto de trabalho. Desta vez, fui ver O Drama, com a Sofia, o Diogo e o Ricardo, e aquilo que mais me surpreendeu no filme foi o tom de provocação e o facto de nos deixar a pensar sobre limites, sobre aquilo que, para nós, é o fim da linha, o intransponível. E, também, sobre o quanto os nossos pensamentos nos podem consumir.


 os livros

Senti-me a abrandar, ainda que, na quantidade, esteja na minha média habitual, porque acho que fiquei mais tempo em certos livros — alguns, poucos, de um modo intencional; outros, porque, de facto, a minha atenção não estava completamente alinhada com a história e o próprio ritmo da narrativa.

Os favoritos do mês: O Homem Sem Mim, Rute Simões Ribeiro | À Flor da Língua, Gregorio Duvivier.

Outros livros lidos: Jóquei, Matilde Campilho (releitura) | A Malcriada, Beatrice Salvioni | A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone | Vem à Quinta-Feira, Filipa Leal (releitura) | As Filhas do Capitão, María Dueñas | Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes | Notas Para John, Joan Didion.


 os momentos

Idas ao parque. Pintar ovos de Páscoa. Ouvir Bon Vivan em loop. Experimentar o Mila Jardim e o Jardim Viriato e visitar o Grande Museu da Casinha das Bonecas. Aniversários. Lanches e jantares de família — de sangue e de coração. Tulipas. Comprar vários livros. Voltar ao Dragão. Muita música a encher a casa.






Verificando Se Você é Humano
O imprevisível aconteceu: Ricardo Araújo Pereira anunciou a sua estreia num solo de stand-up comedy e nós não quisemos perder a oportunidade de assistir a esse momento.

Sem querer entrar em destalhes, para não comprometer a experiência de quem ainda o for ver, Verificando Se Você é Humano cruza tecnologia, comportamentos da sociedade e a linha que «nos distingue das máquinas», com o tom sarcástico que reconhecemos no humorista. Honestamente, acho que a maior prova da sua humanidade foi senti-lo um pouco nervoso e vulnerável em determinadas ocasiões, como se estivesse a ir para fora de pé. Creio que isso também nos aproxima, porque percebemos que está a correr riscos, a desafiar-se, a explorar outras formas de criar e que não dá nada por garantido.

Entre episódios caricatos e ideias, talvez, descabidas, acho mesmo fascinante como o texto desconstrói por completo a imagem com que se apresenta. Gostei bastante de o ver neste registo e de andar à deriva, sem antever para onde escalaria a piada. Sentir que continua a apurar o seu humor e a capacidade de nos surpreender é extraordinário.


 Maio, sê gentil ✨
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