sangue & mármore

Fotografia da minha autoria

A história do empresário Mário Sequeira começou a ser cantada há quase quatro anos, quando David Bruno lançou o álbum Sangue & Mármore. A estrutura de áudio novela e a narrativa das canções a focar espaços concretos de Vila Nova de Gaia, como Avintes, foram dois aspetos revolucionários no panorama musical — e o narrador François da Costa, a tentar ser o jornalista Olivier Bonamici, não só nos permite vivenciar as duas componentes, como também nos leva a conhecer toda a carga dramática que envolve um assassinato. Do disco para o ecrã, esta história adquiriu um formato audiovisual.

Sangue & Mármore, inspirada no disco homónimo do artista gaiense, é uma «telenovela musical noir». Nesta produção, o empresário de sucesso Mário Sequeira é encontrado morto «junto ao Zoo de Santo Inácio», com duas pistas: uma fotografia e uma unha de cor vermelha. Naturalmente, há várias perguntas que se destacam e, ao longo de cinco episódios, tentaremos unir as peças deste puzzle onde nem tudo é o que aparenta ser.

Um mundo de esquemas, problemas, promessas e ostentação sustenta um passado de boémia, enquanto contrasta com a inocência de quem começa do zero, se arrepende e procura por perdão. Mas o mais curioso é que o desenrolar da ação nos faz questionar se há alguma inocência a povoar estas personagens ou se é tudo um jogo de interesses. Portanto, oscilando entre um pouco de ingenuidade, lugares comuns e uma identidade muito portuguesa, percebemos que existem armadilhas onde todos nós podemos cair.

A base da história, como referiu David Bruno numa entrevista, foi imaginada, mas «os elementos que a colam são tudo coisas reais» e sinto que a beleza — e originalidade — deste argumento passa por essas referências e pela noção de ser uma situação credível, que poderia ter «acontecido na porta ao lado». As temáticas já vimos replicada noutros contextos, mas nenhum inclui as paisagens de Vila Nova de Gaia, a nossa pronuncia e aqueles que passaram pela vida do artista. Ademais, sinto que apenas David Bruno se lembraria de incluir detalhes da história do Rei dos Frangos, sócio de Luís Filipe Vieira.

Sangue & Mármore interliga «o abstrato e o corriqueiro, o erudito e o popular». Porém, gostava de ter ficado mais tempo com os protagonistas, não só para ver a elasticidade criativa, mas também para ter uma escalada menos célere — embora, contradizendo-me, creia que tem a duração ideal, face à narrativa que estava a ser contada. E, admito, faltou-me ter um pouco mais de Rui Reininho, porque o papel assenta-lhe bem. Ainda assim, voltando a socorrer-me das palavras de David Bruno, «este mistério à moda de Gaia» prova que a «arte está em todo o lado», até no que só fica visível nas entrelinhas.

0 Comments