as coisas maravilhosas de fevereiro

Fotografia da minha autoria



A sensação que acompanhou fevereiro foi diferente, porque, pela primeira vez, não senti que tivesse passado num sopro. Pelo contrário, acho que se estendeu para lá do seu tempo, mas sem que isso me pesasse.

Eu, que gosto tanto de desfrutar da casa, dei por mim a precisar de sair, para aproveitar todos os raios de sol fora das minhas paredes e, honestamente, adorei essa mudança, já que também espelha uma escolha ativa para contrariar a tendência de ficar apenas na minha bolha. Creio que ter começado a desenvolver uma ideia que andava a pairar no meu pensamento, ter pensado muito em poesia e ter ido ver artistas que admiro ajudou bastante nesse processo — ter planos culturais anima-me sempre os dias.

Como André Tecedeiro escreveu no seu A Axila de Egon Schiele, «cada um lê no poema/o poema que traz em si» e eu preferi contar este mês pelo colo que foram todas as coisas que li, vi e ouvi ao longo destes dias. E um sábado cheio de sol, para a despedida, só podia terminar com notícias de encher o coração.


as coisas maravilhosas de fevereiro


 os fragmentos aleatórios

A garrafa de gás que compramos cá para casa tinha manjericos desenhados.

O concerto dos Dealema levou-nos ao Casa das Tortas, para um jantar prévio. Gostei muito da sala, que parece esbater a fronteira entre os tascos tradicionais e os conceitos mais contemporâneos, que continuam a espelhar a identidade da cidade. Optamos pela francesinha e fui agradavelmente surpreendida: o molho tinha um travo evidente a mostarda, mas os sabores estavam bem conjugados e a carne era bastante saborosa. Além disso, fomos bem recebidas e atendidas durante a refeição. Pretendo voltar.

      

O McDonald's lançou a box Friends, permitindo-nos colecionar as seis personagens icónicas da série. No último dia do mês, depois de uma sessão de escrita, acabamos a almoçar por lá e, como a Sofia não fazia questão de ter o boneco, consegui trazer o Chandler e o Joey. Obviamente, sou uma criança feliz.


 as músicas e os álbuns

A playlist de fevereiro parece ter chegado a todo o lado, agregando imensos e diversos temas. No entanto, sendo honesta, não tive assim tantos a arrebatarem-me. Reconheço, ainda assim, que isso pode ter acontecido porque o meu foco estava mais direcionado para os álbuns que sabia que iam sair ao longo do mês e nos quais tenho vivido intensamente.

As músicas que marcaram o mês: Desassossego, Mariana Volker | 4 de Fevereiro, Slow J & Prodígio | Essência, Agir & Mizzy Miles | que me encontres, Latte.


Os álbuns que marcaram o mês: O Que Não Se Vê é Eterno, Dengaz | 96 ao Infinito, Dealema | Juro, Eu Caí, Mallina (EP) | The Romantic, Bruno Mars.


 as publicações

precisamos assim tanto de telemóveis em concertos?
Há umas semanas, o Alexandre Guimarães utilizou as suas histórias de Instagram para nos convidar a ler um artigo que escreveu para a VAMMU Magazine, com o intuito de refletirmos acerca da necessidade de utilizarmos telemóveis em concertos. Do lugar de alguém que já o usou bastante e tentar usar só em pontos específicos do espetáculo, aceitei o repto indireto e mergulhei num ensaio de sensibilização (aqui).


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco um episódio de podcast, um ensaio, duas séries e uma conversa.

Intrusivos: Bumba na Fofinha
Sou pouco consistente a acompanhar os projetos do Tiago Almeida, devo confessar, apesar de ter adorado o seu Prisão Preventiva. No entanto, a Bumba na Fofinha foi a primeira convidada da segunda temporada de Intrusivos, um podcast onde «convida amigos e conhecidos para falarem sobre pensamentos intrusivos e coisas que fazem mais têm vergonha de admitir», e isso fez-me perceber que, se calhar, devia estar mais disponível para as suas propostas, não só por ter graça, mas também por ter aqui um conceito mesmo interessante. Chorei a rir com o escalar de insanidade destes dois — com a grande benesse de, pelo meio, abordarem questões/dúvidas super pertinentes.

Capitão Fausto: Um Ensaio Para o Futuro
Um Ensaio Para o Futuro, disponível na RTP Palco, mostrou-nos canções como Santa Ana, Amanhã Tou Melhor, Certeza ou Na Na Nada, ao mesmo tempo que nos permitiu ouvir, entre outras, partilhas sobre a coisa mais doida que lhes aconteceu em palco, a grande decisão de se dedicarem em exclusivo à música, a cumplicidade musical; sobre o disco gravado no Brasil e a necessidade de reaprenderem a fazer música a quatro.

Sangue & Mármore
Sangue & Mármore interliga «o abstrato e o corriqueiro, o erudito e o popular». Porém, gostava de ter ficado mais tempo com os protagonistas, não só para ver a elasticidade criativa, mas também para ter uma escalada menos célere — embora, contradizendo-me, creia que tem a duração ideal, face à narrativa que estava a ser contada. E, admito, faltou-me ter um pouco mais de Rui Reininho, porque o papel assenta-lhe bem. Ainda assim, voltando a socorrer-me das palavras de David Bruno, «este mistério à moda de Gaia» prova que a «arte está em todo o lado», até no que só fica visível nas entrelinhas.

Principado: Primeiro Canto
Não sei se conhecem a história do Principado da Pontinha, porém, em traços gerais, é «uma autoproclamada micronação, localizada numa rocha de 178 metros quadrados, a 70 metros da costa do Funchal, na ilha da Madeira». O dono do Ilhéu, que se intitulou como Príncipe D. Renato Barros II, ao que tudo indica, «foi forçado a deixar o [antigo] Forte São José», porque foi vendido «a emigrantes num processo de falência». Ora, o que é que António Azevedo Coutinho pensou? Obviamente, conquistar o principado.

Imperfeita Repetição: xtinto
O xtinto não deixou morrer o seu sonho e, recentemente, lançou Em sonhos, é sabido, não se morre, título inspirado num verso de Sérgio Godinho. A propósito do álbum, foi o mais recente convidado do programa Imperfeita Repetição, no qual conversou com o Alexandre Guimarães e tocou ao vivo Dividir e Nunca Mais, dois temas deste trabalho.


 os livros

Fevereiro começou e terminou com poesia. Foi um mês um pouco morno nesta área, mas encontrei dois autores que vou querer continuar a acompanhar de perto.

Os favoritos do mês: Quem Matou o Meu Pai, Édouard Louis | A Axila de Egon Schiele, André Tecedeiro.

Outros livros lidos: Exposição. Poemas e Prosímetros, Duarte Scott | Malorie, Josh Malerman | Danificada, M. L. Vieira | A Grande Magia, Elizabeth Gilbert | Oração Para Desaparecer, Socorro Acioli | Inventário de Sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie | O Sono dos Portugueses, Sofia Gomes.


 os momentos

Gatos sempre ao colo. Avançar em novas ideias. Voltar ao cinema. Festejar os 62 do meu pai. Comprar livros. Fotografar arco-íris. Ir votar. Sofrer muito com jogos de hóquei em patins. Fazer lasanha pela primeira vez. Provar uma nova francesinha. Escrever ao sol. Magnólias. Decorar a estante com o Chandler e o Joey.

      

      

      

      

      

Conversas de Miguel
Os miúdos Pedro Teixeira da Mota e Carlos Coutinho Vilhena regressaram com uma versão mais adulta de Conversas de Miguel, centradas em assuntos aleatórios, bastante sarcasmo e uma dose equilibrada de polémica (ou talvez não). Partindo do não slogan «dois moços, uma amizade», à semelhança do que tinha acontecido em 2020, primeiro, abraçaram-nos com novos vídeos e, depois, escalaram para os espetáculos ao vivo (podem ler a experiência completa aqui).

Em Nome Próprio: Afonso Reis Cabral
A sessão começou e terminou com uma atuação musical de Rui David e foi moderada por Maria Bochicchio, estabelecendo uma ponte entre todas as partes. De facto, este é um espaço «de escuta e de revelação», que nos permite descobrir «o autor para lá das páginas». E a conversa foi fluindo com naturalidade e com uma boa dose de humor. Afonso Reis Cabral é um ótimo contador de histórias e muito generoso com o público.

Dealema no Coliseu do Porto
Uma das salas mais emblemáticas da cidade Invicta abriu os portões para receber um dos nomes maiores do Hip Hop português. Este reconhecimento de parte a parte é a prova inequívoca do quanto a consistência promove a permanência e a lembrança, do quanto a continuidade permite escrever memórias tão bonitas. Se dúvidas existissem, ter um Coliseu do Porto esgotado para pertencer a este momento dissipou-as a todas (sexta-feira trago-vos a experiência completa).


Março, sê gentil ✨

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