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| Fotografia da minha autoria |
A síndrome do impostor planta a sua semente, florescendo que nem ramos de magnólias. Entra, senta-se à mesa sem pedir licença e transforma-se numa companhia fiel, consistente, estável, enquanto faz pulsar as nossas emoções. E, como um poema que se constrói em silêncio, permanece.
Há muitas ocasiões em que parece ausente, mas basta um olhar vacilante, um pensamento mais profundo, e cruzamos energias. Quase como um lembrete de que manter-se oculta não significa ter-se ausentado por tempo indefinido. Portanto, consciente de que se divide em mil sombras, aprendi a recebê-la em casa — mesmo que a sua presença não seja simples e leve.
Acredito, até, que escrever sobre a síndrome do impostor é uma estratégia para a desmistificar, para lhe retirar peso e poder, mas ela habita em mim e arranja sempre forma de recuperar, principalmente quando racionalizo mais de perto algum passo criativo próximo. Aí, o embate é certeiro e é como se acendesse uma luz a mostrar que outros chegaram antes de mim, que não terão qualquer dificuldade para seguir aquela narrativa. E eu que só queria o peso pluma de uma ideia que me motiva sinto a insegurança a bater à porta para se juntar a esta festa privada.
Inconscientemente, encolho-me no canto da sala para respirar fundo, para ganhar balanço, ainda que ligeiro, e não permitir que enevoe a intenção, fazendo-me recuar. Já o fiz imensas vezes e, sem querer dar margem para arrependimentos, não é agradável a sensação que fica, porque sentimos mesmo que diminuímos para encaixar numa visão que nem nos pertence bem, que apenas inflama por uma síndrome que nos rouba a voz.
Ponderar, hesitar, equacionar e, inclusive, reestruturar são passos que me parecem imprescindíveis quando queremos avançar com um projeto novo, independentemente da sua magnitude, mas sinto que há sempre um esforço acrescido para combater a síndrome do impostor e não deixar que o condene ainda antes de sair da gaveta. Nesta dança descoordenada, dei por mim a regressar aos pensamentos do costume assim que decidi criar conta no Buy Me a Coffee. Mas foi neste ponto que percebi que a minha reserva em avançar não estava só dependente da síndrome do impostor — ou, então, ela só encontrou outra maneira de se camuflar.
parecer descabido cobrar por aquilo que criamos
Uma das minhas resoluções para 2026 era silenciar esta voz pouco simpática a pairar, sobretudo no que concerne a receber dinheiro por aquilo que crio. Em 2025, quase cheguei lá, mas depois fui adiando porque me soava descabido cobrar por algo que construo a partir de casa, sobre conteúdos que leio/ouço/vejo sem pretensões de maior, apenas por gostar ou ter curiosidade em descobrir. Às vezes, existe alguma pesquisa, mas é tudo muito mais emocional.
Logo aqui identifiquei e desconstruí um problema, porque parece que só há um certo tipo de projetos a merecer este estatuto de ser pago, quando nem é uma visão com a qual concorde. Aliás, sempre defendi que se podemos ter um extra com as ideias que desenvolvemos é de aproveitar, porque aliamos o melhor de dois mundos. Portanto, se defendo isso para os outros, porque é que coloco tantos entraves quando sou eu na mesma posição? Talvez seja uma sensação de não merecimento a precisar de ser trabalhada.
Outro aspeto que me fazia recuar eram as mensalidades que me pareciam inflexíveis. Como não queria cobrar aqueles valores, voltei a adiar. Pelo meio, conversei muito sobre o assunto e cheguei ao compromisso que se apresentou mais confortável, o Buy Me a Coffee, que é uma plataforma que permite pagar a um criador de conteúdo de forma regular ou esporádica, na qual as pessoas escolhem o valor que consideram mais adequado dentro do seu orçamento. Assim, na lógica de me pagarem um café — preferi pedir um macchiato —, decidi incluir essa opção na Portugalid[Arte], a minha newsletter cultural.
Quando, no início do ano, anexei esse recado, percebi que havia mais questões pendentes a atrasarem esse passo em frente, alimentando as dúvidas.
rentabilizar um hobby ou deixá-lo ser só um hobbie?
A proliferação de projetos pagos deixou-me a deambular por um receio muito palpável, isto porque, ao cobrar um valor para me lerem, temia que se quebrasse a liberdade para criar. Se as pessoas aceitam pagar, inevitavelmente, tenho de corresponder, não posso permitir que se sintam defraudadas com aquilo que estão a receber. Preços à parte, é uma preocupação que me acompanha em todos os conteúdos que publico (para um seguidor ou vários), mas integrar uma mensalidade parece-me trazer uma pressão acrescida.
Por um lado, isso pode ser bom para nos desafiarmos, para procurarmos a criatividade em todos os poros da nossa rotina/existência, para, como referiu o Dengaz a propósito do seu mais recente álbum, nos lembrarmos «dessa forme e da vontade de fazer as cenas». Mas, por outro, temo que escale para um patamar tão assoberbante que comecemos a perder o brilho, o gosto de criar apenas pelo prazer que isso nos dá. No fundo, de perdermos a capacidade de nos espantarmos com o que nos impulsiona a criar só porque não queremos falhar, nem queremos que sintam que não estamos a cumprir a promessa de entregar algo diferente, que justifique estabelecer um preço.
Neste seguimento, também compreendi que a minha reserva estava muito ligada à vontade de manter os meus hobbies exatamente como tal. A beleza de investirmos nos nossos projetos está em sabermos que são um escape, uma forma de «dar a folga para não dar a fuga», como canta o Lhast, sem a responsabilidade de alimentarmos um negócio. Escrevo na internet há demasiado tempo sem qualquer retorno financeiro e isso nunca foi um problema, porque o propósito sempre foi alimentar o meu lado criativo. Ter esta divisória, sem estar preocupada em rentabilizar o meu conteúdo, sossegou um coração inquieto, onde a síndrome do impostor fez morada.
Escrever organiza-me por dentro e, por isso, ao refletir sobre estas questões e hesitações fui entendendo que não são conceitos que se excluem e que é possível rentabilizar um hobbie sem que ele se transforme em algo que não queríamos.
combater a síndrome do impostor. fazer as pazes. repetir
O ponto que transformou a narrativa foi, precisamente, encontrar o Buy Me a Coffee, porque eu continuo a criar sem impor mensalidades fixas, enquanto as pessoas podem continuar a ler gratuitamente. A diferença é que, agora, se fizer sentido, se gostarem do meu trabalho na newsletter, podem fazer uma contribuição. Sinto que este método é mesmo o melhor para mim, já que serena todas as questões ambíguas que mencionei antes e que, à sua maneira, deixam o caminho um pouco mais turvo.
As verdades e as técnicas nunca são absolutas e nós vamos reproduzindo o que se adequa mais a nós, à nossa intenção, à nossa identidade. Eu fecho a porta de casa e sei que a síndrome do impostor permanece no lado de dentro, a fazer-me questionar algo tão simples como a pertinência de pedir que me ofereçam um macchiato. Eu puxo uma cadeira e sento-me ao seu lado, nem sempre com vontade de a olhar de frente, mas um pouco mais apaziguada, porque, neste combate, fiz as pazes com ela, sabendo que repetirei, todos os dias, os passos que me permitam ir expulsando o medo, as inseguranças, mesmo que voltem, mesmo que se façam ouvir, porque ainda sou eu a dona da casa.







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