guia prático antimachismo, ruth manus



A luta feminista implica, forçosamente, combater o machismo, porque promove desigualdades, uma supremacia bacoca e estereótipos, limitando o papel da mulher enquanto ser autónomo e parte de uma sociedade. Mas importa referir que lutar contra o machismo é diferente de lutar contra os homens: primeiro, porque não é esse o propósito do feminismo e, segundo, porque não «são só os homens que têm atitudes machistas». Ruth Manus convida-nos a refletir sobre o assunto.


 uma luta coletiva

Guia Prático Antimachismo é, tal como descrito, uma introdução ao debate, visto que o assunto não se esgota, mas pode ser analisado a partir de vários ângulos e situações. Portanto, é um livro que pretende identificar problemas da sociedade, promover a (auto)crítica e reconhecer que somos todos machistas — a diferença reside em querer perpetuar essa ideologia patriarcal ou querer desconstruir comportamentos e discursos, «contribuindo ativamente para uma sociedade mais justa».

É o segundo livro que leio da autora e voltei a ficar impressionada com a abordagem clara e prática. Por muito que até possamos estar bem informados sobre os assuntos em questão, há sempre um apontamento distinto que consegue fazer sobressair e deixar a ecoar; consegue sempre mostrar-nos que, antes de avançarmos para aquilo que nos rodeia, precisamos de olhar para nós e identificar o que precisamos de mudar, de melhorar, porque a aprendizagem é urgente e constante. Além disso, sinto que assenta numa ideia de progressão: começar num raio mais próximo e ir alargando, talvez faça a diferença desta forma, porque vamos à estrutura podar e permitir que se cresça com uma visão mais saudável.

Um aspeto que achei muito pertinente na obra, para além da necessidade de permanecermos vigilantes, mesmo que pareça que «as coisas estão a melhorar», foi a ideia de usarmos o nosso privilégio para alertar, mas sem que a nossa voz diminua a voz dos protagonistas. É fácil apropriarmo-nos de certas lutas, reivindicá-las, torná-las nossas por empatia — e ainda bem que isso acontece em muitas delas, para que sejam visíveis e discutidas —, mas não podemos ignorar quem tem mais a dizer-nos sobre elas, quem as sente na pele e nos pode demonstrar a verdadeira extensão do problema. Por isso, lutemos lado a lado, sem sobreposições.

«Talvez o segredo esteja em abandonarmos os nossos rótulos e conclusões precipitadas, estando mais interessados em ouvir do que em formular sentenças que nunca nos foram solicitadas»

O oposto do machismo, como Ruth Manus afirmou, é a liberdade, uma liberdade que serve tanto para mulheres como para homens. Embora o primeiro grupo seja o maior prejudicado, o certo é que o machismo em nada beneficia o segundo, condicionando-o a uma narrativa que oprime. Quanto mais depressa compreendermos isso, mais depressa poderemos unir-nos para mudar mentalidades e reerguer um mundo com menos abismos.

Assim, O mundo já não é assim tão machista... As coisas estão a melhorar. Não? abre a discussão, questionando as eventuais melhorias neste padrão viciado; Homem que é homem não chora nem faz exame à próstata centra-se na masculinidade tóxica; Eu já não posso fazer sequer uma piada? leva-nos a falar sobre limites e sobre preconceitos camuflados em ditos comentários cómicos; Isso é doidice. A empresa onde eu trabalho tem muitas, muitíssimas mulheres destaca a diversidade, a representatividade, sobretudo no plano profissional, tantas vezes diminuída, inexistente; Será que o problema mora mesmo tão longe? é uma pergunta que se responde de imediato, porque, na maior parte dos casos, mora ao nosso lado (às vezes, debaixo do mesmo teto); Tu és doida. Tu falas demasiado. Tu não sabes do que estás a falar exemplifica conceitos como mansplaining ou manterrupting, tudo formas para retirar credibilidade à mulher; Essa aí não é mulher, é travesti diferencia sexo biológico, identidade de género e orientação sexual, mostrando a urgência de sermos inclusivos; Nem toda mulher quebra o padrão, porque não somos todas iguais; O que podem as mulheres fazer? amplia o conceito de sororidade; Se fosse mulher feia tava tudo certo, mulher bonita mexe com o meu coração não só alerta para a ditadura da imagem, como também comprova que o machismo está entranhado até naquilo que parece inofensivo; Mas eu ajudo muito nas tarefas de casa é um clássico que incomoda, até porque a responsabilidade não pode pender apenas para um dos lados; O que podem fazer os pais de meninas? E os pais de meninos? traz a parentalidade para a mesa, até porque a forma como educamos as nossas crianças pode ter consequências positivas ou negativas para a questão.

Guia Prático Antimachismo é uma porta aberta para quebrarmos barreiras, porque esta luta é coletiva.


 notas literárias
  • Lido a: 9 de março
  • Formato de leitura: Digital
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Born This Way, Lady Gaga | Masculino E Feminino, Pepeu Gomes

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