
A nossa história é feita de fragmentos: dos que colhemos através de fios invisíveis, dos que se renovam, dos que nos deixam menos inteiros, a lamber as feridas. Por isso, nem sempre queremos regressar onde deixamos partes de nós, porque nos libertamos dessa bagagem, encontrando-nos noutros lugares, noutras pessoas, noutras formas de estar na vida. Talvez fosse bom voltar para colar, para fazer as pazes com o que se quebrou, para sentir que há algo a florescer da sombra. Ou talvez só precisemos de fechar tudo em caixas. Foi por estes pensamentos que deambulei no livro de Isabela Figueiredo.
uma aparente invisibilidade
Um Cão no Meio do Caminho transporta-nos para «as histórias de um homem e de uma mulher que sofrem, cada um à sua maneira, um dos grandes males da vida moderna: a solidão». Embora não tenha sido uma escolha completamente intencional, mas, antes, uma maneira de responderem «aos violentos acidentes com que a vida os agrediu», os dois protagonistas aprenderam a recusar a violência e a construir os seus percursos de acordo com as suas convicções. Vizinhos, José Viriato e Beatriz cruzaram-se por acaso e a narrativa cresceu a partir desse encontro, fazendo-nos questionar aquilo que pode acontecer «quando se juntam duas solidões» — e o simbolismo que o cão tem aqui.
A aparente invisibilidade das personagens cativou-me, uma vez que, sem heroísmos, é uma abordagem que nos permite ver até onde o lado mundano, transversal a tantos de nós, escala, o que oculta, de quantas ramificações se constrói sem que se perceba. Por outro lado, cativou-me pelo contraste, pela sensação que deixa em relação a essa falsa invisibilidade: é que ela parece existir, primeiro, porque a sociedade ainda ofusca tudo o que fuja dos padrões considerados como norma e, segundo, porque se torna menos angustiante lidar com expectativas alheias se nos isolarmos na nossa bolha, vivendo só ao nosso ritmo, cada vez menos preocupados com os rótulos que nos poderão atribuir.
É nesse limbo, entre causa e consequência, entre os comportamentos que moldam as nossas reações, que vamos descobrindo o passado de José e de Beatriz. Recorrendo a analepses, fica evidente que nenhum deles pretende obter qualquer tipo de aprovação por parte do meio onde se inserem, mas que todos nós, em algum momento da nossa vida, precisamos de ser ouvidos, precisamos de conversar, de exteriorizar, de largar o que nos prende e nos mantém reféns de memórias dolorosas. Visto que não procuram dar grande confiança aos vizinhos, é fácil fazer suposições erradas, enviesadas; é fácil supor que tiveram passados serenos, só que recuamos no tempo e entendemos tudo o que sofreram, quais as feridas que ainda carregam no peito. E é fascinante perceber como, sem cerimónias e cobranças, a amizade entre eles evolui e os vai apaziguando.
«Sou capaz de encontrar soluções para reaproveitar tudo. Vejo nas coisas o que são, mas também o que poderão vir a ser, limpas, viradas do avesso, acrescentadas. Ressuscito objetos. Não me custa nada»
É uma narrativa sobre solidão, no entanto, sinto que se expande, falando-nos não só da coragem que precede a tomada de decisões complexas, que interferem com o curso dos nossos dias, mas também da liberdade que, mais tarde, nasce dessas decisões, que nunca foram sustentadas pelo conformismo de ser o que os outros ambicionam. Além disso, creio que é, igualmente, um enredo sobre preconceitos e sobre como estes, por mais subtis que sejam, se manifestam em detalhes do quotidiano e podem condicionar a vivência em sociedade. A partir de duas personagens distintas, que recolhem da vida o que os outros parecem descartar, creio que reforçamos uma mensagem preciosa: não termos de nos diminuir para caber. E, desta maneira, também nos fala sobre aceitação.
Um Cão no Meio do Caminho tem uma história simples, mas cheia de camadas. Através de confidências, sem rodeios, somos levados a pensar sobre fragilidade e força, sobre a capacidade que o ser humano tem de colar os seus estilhaços e de cuidar do outro. Há pessoas que entram na nossa vida com o propósito de acrescentar e nunca é por acaso.
notas literárias
- Desafio: Alma Lusitana
- Lido entre: 16 e 20 de março
- Formato de leitura: Digital
- Género: Romance
- Banda sonora: Um Cão no Meio do Caminho, de Paula Cristina Baptista (playlist que criou a partir do som ambiente disponibilizado pela autora).






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