
Um dos meus traços de personalidade é (tentar) encontrar sempre um ângulo cómico nas situações menos leves, talvez na tentativa de lhes retirar o peso que possam ter e, dessa forma, ser capaz de me gerir emocionalmente. Neste sentido, brinco muito com o facto de a minha memória ser péssima, mas depois, refletindo com cuidado, sei que me assusta a possibilidade de, no futuro, isso representar algo sério, com implicações para quem me rodeia. E no livro da Rute Simões Ribeiro regressei a essa sombra.
o terreno pantanoso da memória
O Homem Sem Mim intercala uma certa névoa com fragmentos de lucidez, isto porque retrata a vida de João, um carpinteiro septuagenário «diagnosticado com a doença de Alzheimer». É Carminho, esposa e fortaleza do narrador-personagem, que conduz os seus passos, sendo «surpreendida por uma versão passada do marido a cada novo dia».
Os capítulos são curtos e creio que essa abordagem evidencia o quanto é breve o fluxo da lembrança, o quanto é frágil o nosso património mnésico e, por isso, sabendo que é fundamental para construirmos a nossa história e identidade, também sentimos que é tudo ténue e oscilamos nesse terreno pantanoso. Além disso, sendo honesta, sinto que tornou a leitura um pouco mais angustiante, por ser tão evidente a fragilidade humana.
O quotidiano deste homem comoveu-me pela necessidade de fazer um luto constante à pessoa que foi/que era e pela «cisão entre sujeito e corpo», como se fossem dois seres independentes, desconexos, num permanente desencontro. Numa rotina imprevisível, foi a forma como a autora descreveu cada momento que me impactou, porque trouxe um tom lírico, mas sem camuflar a mágoa, a frustração, a sensação de perda e, até, a vontade de desmoronar. E, confesso, desmoronei em algumas passagens: pela dureza, mas, sobretudo, pela sensibilidade e pela dignidade com que retratou o protagonista.
«A minha mulher é casa, é edifício, é tudo que é permanente. Ela fica. Eu vou. Eu não dou conta da partida, ela vê-me todo o caminho»
Avançamos neste livro conscientes de que é uma doença que corrói e que deixa tudo fora do lugar, que os dias se sucedem, no entanto, as memórias podem não pertencer exatamente àquela janela temporal. No fundo, sentimo-nos dentro de um labirinto, a afastarmo-nos do mundo exterior, porque a aparente normalidade vivida por João e pela sua família não deixa de ser ilusória, destoando do presente, do que permanece.
Por outro lado, é uma história que torna visível o cuidador, o amor que resiste a todas as privações e ausências. Embora seja escrita na primeira pessoa, ao inferirmos aquilo que Carminho e os filhos passam, percebemos que «o tecido afetivo [é] abalado» e que há uma camada a complexificar estas relações, porque tudo fica intermitente. Sofrem em silêncio, mas João percebe, mesmo que seja por pouco tempo. Existe tristeza e, no entanto, é como se se tornassem mais ágeis a encontrar pontos de luz — e de fuga —, para que o agora não se sustente só em areias movediças, desequilibrando o futuro.
O Homem Sem Mim é uma viagem íntima, é uma conversa entre o protagonista e as diferentes versões que, sem controlar, o compõem, que desfazem a sua identidade e a reorganizam, fazendo da memória um lugar turvo, estilhaçado, mas ainda a subsistir.
notas literárias
- Desafio: Alma Lusitana
- Lido a: 6 de abril
- Formato de leitura: Físico
- Género: Romance
- Banda sonora: Baile de São Simão, Os Quatro e Meia | Restolho, Mafalda Veiga






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