a desobediente, patrícia reis



A figura de Maria Teresa Horta é incontornável. Primeiro, conheci-a através do olhar de terceiros e das lutas que a moviam — e das quais, enquanto mulher, eu acabava por beneficiar — e não tanto pela sua obra. Isso fi-lo depois, fascinada pela possibilidade que as suas palavras pareciam acolher. Mas parti nessa missão de um modo comedido, porque ainda acalento a esperança de ver a sua poesia compilada num único exemplar.

Não tenho o hábito de ler biografias, no entanto, prefiro lê-las com um pouco mais de conhecimento acerca dos livros do respetivo autor antes de mergulhar na sua vida, nos traços de personalidade que podem não ser tão evidentes. Só que, neste caso, senti que não seria possível adiar mais e o livro da Patrícia Reis veio comigo da última edição da Feira do Livro do Porto, com o propósito de o deixar para março: tendo em conta tudo o que se celebra este mês, pareceu-me adequado — mas abril também assentaria bem.


 reivindicar a liberdade

A Desobediente, mais do que construir um retrato sobre Maria Teresa Horta, permite-nos conhecer Teresinha, filha de um prestigiado médico de Lisboa e de uma mulher «descendente dos marqueses de Alorna». E esta referência é importante, porque fica claro que a infância e a adolescência da poetisa são peças centrais da sua história, «à beira do abismo», marcada pelas cicatrizes da dor e do abandono. Assim, avancei na leitura consciente de que essas duas partes seriam as mais desenvolvidas: por um lado, achei interessante, já que permitem compreender os ideais que começou a cimentar desde muito nova, mas, por outro, fiquei com uma sensação agridoce, uma vez que gostava de ter acesso a uma abordagem mais sólida da idade adulta e de determinados acontecimentos — pessoais, sociais e profissionais — que se revelaram formadores.

A menina que encontrou nas palavras uma forma de se expressar, de se encontrar, de fazer prevalecer as suas lutas floresceu, ainda que tivesse havido alturas em que não podia fazer mais do que sobreviver. Porém, um aspeto que achei fascinante é que em nenhum momento se tornou amarga. Talvez tenha perdido a esperança, talvez tenha olhado em frente com dúvidas e hesitações, como todos nós, em alguma ocasião, mas há uma inocência e uma generosidade que parecem ter quebrado a inevitabilidade de um coração pouco disponível. Quis abraçar Maria Teresa Horta em várias passagens destas conversas, porque foi demasiado sofrimento para uma pessoa só, mas também sorri pela força com que defendeu cada uma das suas decisões, pela capacidade de se manter fiel aos seus princípios, apesar dos dissabores que isso lhe possa ter trazido.

É neste ritmo oscilante, por vezes frenético, de uma vida tão cheia de acontecimentos, de convívios, de interações com pessoas do meio literário e político, que vemos a sua voz ativista cada vez mais audível, rejeitando qualquer tipo de submissão. Deste modo, em simultâneo, é impressionante como a história desta mulher agrega a vida de tantos de nós e, acima de tudo, permite traçar um retrato esclarecedor do que se passava em Portugal, sobretudo no que diz respeito aos anos da ditadura, às perseguições da PIDE e ao 25 de abril. A sua história não é indissociável do contexto histórico do país, até porque as suas movimentações contribuíram, e muito, para influenciar o seu curso.

«Para trabalhar o poema, partir do coração do poema para uma versão final, a Teresa escreve à mão, depois transcreve o poema e nesse exercício de fixação existem outras possibilidades criativas, o poema fala-lhe de outra forma em letra impressa»

Assim, não deixa de ser curioso que alguém com tanta expressão na sociedade tenha ficado, gradualmente, invisível, que os prémios e as menções tenham chegado tarde, que o seu feminismo tenha provocado tanta inquietação e, por isso mesmo, tenham encontrado uma forma subtil de a ir afastando. De facto, a arte — e a arte criada por mulheres — pode ser perigosa para aqueles que nos pretendem calados, a colaborar.

Já me tinham alertado que esta biografia se lia como um romance e acredito que, em parte, isso se deve à intimidade entre a poetisa e Patrícia Reis, porque é uma partilha franca, sem pruídos, onde só acedem aqueles em quem confiamos. Gostei muito deste tom, porque acho que humaniza as vivências, aproximando-nos do seu real impacto. Não obstante, devo confessar que não adorei a maneira como alguns capítulos foram construídos, porque senti que o fio condutor foi quebrado em partes chave, nas quais seria necessário abrandar e explorar melhor a situação, em vez de haver repetições ou um foco em detalhes que não me pareceram relevantes. Se isso interfere com a fluidez da leitura? Não creio, contudo, o texto beneficiaria mais com essa coesão e equilíbrio.

A Desobediente abre-nos a porta para um lugar íntimo, sem que haja, aqui, qualquer tentativa de esmiuçar a sua vida de forma gratuita. Pelo contrário, evidencia toda a dignidade que guiou o percurso de Maria Teresa Horta, a sua arte, as suas causas. E o mais interessante é perceber que, apesar de conhecermos tanto da mulher e da obra, há partes que permanecem ocultas. A poetisa abraçou diferentes facetas, tão únicas e tão complementares, mas talvez a liberdade seja o elo que as interliga a todas, porque a reivindicou sempre, mesmo quando tentaram impedir que a plantasse em todos nós.


 notas literárias
  • Lido entre: 24 e 29 de março
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Não ficção
  • Banda sonora: Tous Les Garçons et Les Filles, Françoise Hardy | A Solidão da Mulher e Mulheres Guerrilheiras, Tereza Paula Brito

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