
Os ciclos de lavagem articulam diferentes fatores, adaptando-se ao tipo de tecido e de sujidade. Por esse motivo, a duração do programa também difere. Contudo, aquilo que aparenta ser só um processo mecânico, automático, será pano de fundo de um crime.
Algodão a Frio, que começou por ser um nome provisório, mas que acabou por «ajudar a cimentar o conceito da série», abre as portas de uma lavandaria self-service, onde sete desconhecidos ficam presos, «por consequência de um violento atropelamento e fuga». Sara é a única testemunha desta ocorrência e «esconde o paradeiro da vítima de Jorge, um homem misterioso que procura o atropelado por motivos sinistros». Peça a peça, ficamos a conhecer todas personagens e as linhas paralelas que se cruzam neste local.
Uma vez que as cenas centrais são gravadas, na sua maioria, no mesmo cenário, sem grandes «estímulos externos», é interessante descortinar as soluções pensadas pelos argumentistas para justificar certas escolhas/situações. Já não é a primeira vez que o refiro, mas acho mesmo entusiasmante esta dinâmica, porque obriga a ver para além do óbvio, a elevar a criatividade e a chegar a respostas «mirabolantes». É neste jogo de mergulhar às profundezas que descobrimos uma proposta com traços de originalidade.
André Barbosa, um dos argumentista, destacou algo que, para mim, é o tom da série, porque há, aqui, «uma mensagem de permanência da natureza humana», que é muito «ligada à sobrevivência». Neste caso, não «de um ponto de vista fisiológico, mas de um ponto de vista moral». Através das sete personagens, que espelham estratos sociais e realidades tão distintas, perante um contexto tenso, a transbordar de suspeitas, vemos como é que se aliam para se desembaraçarem da situação, de preferência, isentos de complicações que condicionem toda a sua vida futura. O problema talvez sejam as revelações inesperadas, atendendo a que nem todos são tão inocentes como apregoam.
Algodão a Frio foi escalando na intensidade, transmitindo a sensação de estarmos a um passo do abismo ou de termos uma bomba-relógio nas mãos. Aliás, os planos fechados contribuíram bastante para esse efeito, porque nos sentimos enclausurados, tal como as personagens. Com episódios que acompanham as etapas deste ciclo de lavagem, é impressionante como o crime ramifica e refletimos sobre prioridades, sobre intenções e sobre valores. Incluindo um toque de comédia, adorei o cinismo, a oscilação entre inocência e insanidade e a capacidade de transformar o silêncio numa encruzilhada.






0 Comments