
Um dia como qualquer outro e ocorreu-me que devia começar um diário. Diário talvez não seja o termo correto, mas irei apropriar-me dele só pelo lado prático de ter um espaço concreto onde anotar o momento exato em que comecei a ouvir determinado artista — e que música é que me abriu esse caminho —, para ter sempre presente que fases da minha vida é que acompanhou e/ou quais é que uniu através de fios invisíveis. Por outro lado, a magia talvez esteja em não decorar, em fazer o exercício de tentar regressar a esse momento, a saber, simplesmente, que o nosso caminho se cruzou com aquele artista e ele foi ficando.
Isso aconteceu-me com o Dengaz. Sem certezas inalteráveis, creio que foi Rainha o primeiro contacto e, a partir daí, fui regressando sempre que lançou algo novo, até se tornar daqueles nomes insubstituíveis na minha playlist. Por isso, não é de admirar que o hiato entre o seu último trabalho e o mais recente tenha deixado um vazio, uma sensação de orfandade, ainda que esta designação soe exagerada, já que não deixei de ter as suas músicas para escutar. Sinto, no entanto, que isto é uma consequência de querermos acompanhar a evolução do artista, de querermos perceber como é que a sua música representa a pessoa em que se vai transformando. Não obstante, dez anos de intervalo podem trazer uma maturidade diferente, que não seria descoberta sem esta espécie de silêncio.
No meio destes pensamentos, dei por mim a divagar por outro aspeto: a importância de vermos os artistas a respeitarem o seu tempo, a não cederem a pressões externas, a permitirem-se parar ou, então, a continuarem a trabalhar longe dos holofotes, redescobrindo-se, reinventando-se. Claro que isso não é um privilégio transversal a todos, claro que esse afastamento pode não ser intencional, mas forçado por uma infinidade de camadas complexas, ainda assim, é bom sentir que, neste caso concreto, não houve pressa e que, independentemente dos motivos, não se perdeu o mais importante, demonstrando um profundo respeito pela sua arte, pela sua identidade e pelo seu público. Se calhar, o regresso adquire outro brilho por causa disso.
Não escondo, contudo, que sentia falta de novidades do Dengaz, de mergulhar numa discografia longa, com várias ramificações. E, na primeira sexta-feira de fevereiro, com O Que Não se Vê é Eterno em repetição, até consegui sentir o sol do lado de fora da janela.
focar no mais importante
O Que Não se Vê é Eterno deixou-me logo a pensar no título, porque o significado parece ser amplo e, ao mesmo tempo, muito claro, direto à mensagem. No fundo, são estas subtilezas que nos agregam, que fomentam os nossos laços, que trazem propósito à nossa jornada e não precisam de ser visíveis de um modo público, basta que sejam evidentes para nós, orientando o percurso.
Às vezes, é preciso afastar para entender melhor e foi isso que o Dengaz fez: afastou-se para descobrir aquilo que o entusiasma, o tipo de música que quer continuar a fazer e acho que se sente neste álbum o pulsar de algo novo, ainda que converse com trabalhos anteriores. Aliás, depois da primeira audição, senti que podíamos estabelecer uma correspondência direta entre as canções deste disco e das do Para Sempre, como se víssemos um antes e um depois, um crescimento inevitável e comovente.
É nesta dualidade que, acredito, também descobrimos um lado mais vulnerável e intimista do artista. Ao encerrar um ciclo, avançando para uma nova fase, permitiu-se explorar diferentes sonoridades e inspirações, sem se limitar. Acho mesmo que esta cadência musical — e o próprio alinhamento do álbum — espelham uma maior liberdade criativa, priorizando a vontade «de fazer a música que quer ouvir».
Outro aspeto interessante de O Que Não se Vê é Eterno é o facto de se dividir em dois planos, tanto nas melodias, como na estética, recuperando a energia do Brasil e a do Japão, tão influentes no processo de construção do disco. Como o Dengaz referiu em entrevista, queria incluir, por um lado, algo mais orgânico, «com aquelas guitarras acústicas (...) aquele samba antigo e triste» e, por outro, um traço «mais noturno, com luzes e BPM mais acelerados». A forma natural e coesa como conseguiu articular estas duas visões é, para mim, o culminar de uma jornada de autodescoberta, onde se torna quase palpável a sua metamorfose e maturidade emocional.
É notório que chegou a lugares diferentes, que há subtilezas aqui que reconhecemos de outras viagens, porque continuam a ser parte de si, mas este equilíbrio entre quem foi e quem é evidencia o salto artístico que deu. Recuou, continuou a criar sem lançar e voltou com uma consciência ainda maior. Por isso é que O Que Não se Vê é Eterno é, em simultâneo, inovador e familiar: porque compreendeu que é possível desbravar novas rotas sem largar a mão daquilo que, mesmo invisível, por toda a importância que tem, nos permite permanecer no nosso lado certo.






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