em sonhos, é sabido, não se morre, xtinto



A voz de Sérgio Godinho, em Lisboa Que Amanhece, ecoa pela casa sem que identifique o cenário de imediato, mas a tentar transportá-lo para a minha realidade, vendo na sua sombra não o Tejo, mas um Douro onde até a neblina se reveste como se fosse um poema.

Em sonhos, é sabido, não se morre parece encerrar em si um prenúncio, um murmúrio que repetimos até nos convencermos da sua verdade, trazendo conforto e esperança. E, já que estamos a salvo nos nossos sonhos, porque não fazer deles um impulso que nos deixe menos à deriva, mais perto de quem somos?

O xtinto fez isso, depois de ver «pairar sobre [si] uma nuvem densa que [o] empurrava para fora do [seu] sonho». Entre a vontade de desistir e de procurar «outro ofício», também a história do artista de Ourém me deixou a pensar em todas as vezes que esmorecemos, sem anúncio prévio, porque parece existir algo a quebrar o encanto, «o sentimento basilar»; porque parece que aquilo que se torna maior é a profissionalização, o lado burocrático — se o posso colocar nestes termos —, obrigando-nos a focar em tudo menos na arte pela arte. E, por vezes, é difícil sair desse lugar, dessa espiral cheia de névoa.

Este álbum nasce como resposta ao reencontro com a música, ao reapaixonar-se por ela, abraçando uma metamorfose que apurou, ainda mais, a forma como observa o mundo. Naturalmente, há particularidades que não saberia se não o lesse em entrevistas (e na edição especial do disco), no entanto, é maravilhoso perceber aquilo que despertou essa reaproximação, que tanto pode ser o acorde de uma guitarra, como a voz de um artista amigo. Por isso é que acho tão inspirador partilharmos e conversarmos sobre as nossas paixões, sobretudo pelo brilho que nos provocam, porque alargam horizontes, porque nos trazem novas perspetivas, porque nos convidam a olhar para algo que esteve sempre à nossa frente, mas com o qual nos precisamos de alinhar, quase como se déssemos um passo atrás para ganhar balanço.

Divagações à parte, uma característica que sempre me impressionou no xtinto foi a capacidade para brincar com as palavras, para as desconstruir, levando-nos numa viagem auditiva que é imagem de marca e que amplia a versatilidade da nossa língua. Aqui, encontramos essa abordagem, mas acho que é percetível que a amadureceu, que essa vertente abriu espaço para que «a escrita se pareça com o diálogo que [teria] a falar com alguém». E a verdade é que este álbum conversou bastante comigo.

Sem nos apropriarmos das suas experiências, fragilidades e emoções, sinto que há uma linha transversal onde nos conseguimos rever, porque todos nós já sofremos por amor, desamor e saudades; porque todos nós já tivemos dúvidas, quisemos desistir, ficamos presos nos mesmos pensamentos; porque, ainda que de maneiras distintas, encontramos conforto nas nossas raízes, nos amigos, na família. Creio, portanto, que este álbum é sobre todos os lugares — físicos e íntimos — onde regressamos, nos fixamos e renascemos.

Em sonhos, é sabido, não se morre cativou-me, também, pela coesão entre faixas, pela parte instrumental que as funde, sem que percam identidade e autonomia, pelo som das guitarras e pelo saxofone (que momento precioso). E, claro, sendo o xtinto um homem de palavras, «que abraça as melodias sem nunca descurar o texto», com a ponta da caneta sempre afiada, deixou-me a orbitar em versos como tão a ganhar força onde eu não vi verdade (Dividir), eu guardo-te o teu espaço no meu colo (Sofá), se eu só sei ser sozinho deixa-me estar/a sós a dar abrigo ao mau estar (Tempestade), mas basta olhares por mim a dentro para veres que moro só (Fora d'Horas), mas tu sabias ser melhor que a solidão então ficaste (Vento) e o que faz falta a esta cidade/são os teus olhos sobre ela (Cidade) — aliás, foram estes dois últimos versos que espoletaram a publicação para celebrar o Dia Mundial da Poesia: Versos que gostava de ter escrito.

Oscilando entre um tom mais emocional e um tom mais ousado, agrupando utopias/ideias coletivas e individuais, o álbum também adquire força na simbiose com os artistas convidados. E achei particularmente interessante ver que a parte do ed une várias músicas. Admito que posso estar a ver coisas onde não existem, mas senti que nos seus versos, para além da Sofá, encontramos a Vento, a Tempestade, a Nunca Mais e, até a Fora d'Horas. Esta capacidade de ter as músicas a conversarem entre si é outro dos aspetos que me entusiasma neste trabalho.

Em sonhos, é sabido, não se morre é, talvez, sobre ficar em «silêncio numa casa barulhenta», combater a inércia, lutar contra os nossos fantasmas e as nuvens que vão pairando; é sobre ver beleza onde mais ninguém a reconhece. Agora que sabe «que o sonho é bem maior do que [ele]», só espero que o xtinto continue a sonhar cada vez mais alto. Este álbum é uma excelente profecia.

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