
A ideia andava a pairar e optei por não prolongar a dinâmica até ao final do ano, porque, honestamente, já não me estava a divertir com a rubrica Notas Literárias, nem a sentir que se mantivesse relevante para justificar uma publicação individual. Por isso, decidi agregá-la ao Entrelinhas, numa espécie de nota introdutória antes de partilhar as reviews.
Em abril, quis rodear-me de autores-casa, de livros sobre livros e que fossem uma forma de celebrar a liberdade. No total, li dois de poesia, três romances, um de humor e três de não ficção, e fiz duas releituras (Jóquei e Vem à Quinta-Feira). Descobri três autores novos — Gregorio Duvivier, Carlos Maria Bobone e Tiago Fernandes — e, de acordo com as estatísticas do The StoryGraph, fiz leituras mais reflexivas e emocionais. O Homem Sem Mim e À Flor da Língua levaram a medalha de favoritos do mês
entrelinhas de abril
A Religião dos Livros, Carlos Maria Bobone
Os leitores praticam várias modalidades e uma que creio ser transversal é o gosto em lermos livros sobre livros, talvez por ser uma forma de orbitarmos mais tempo neste universo, descobrindo novas camadas e pretextos para nos deslumbrarmos. Num mês em que celebramos este portal mágico para infinitas histórias, decidi ler o ensaio que o alfarrabista Carlos Maria Bobone tem na Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A Religião dos Livros mostra-nos um retrato sobre «a vida dos livreiros e das livrarias», que, certamente, encapsularão «historietas rocambolescas» dentro da normalidade dos dias. Há uma imagem romântica que lhes associamos, mas estava curiosa com «o lado iniciático, o cenário algo apocalíptico e o papel do livreiro como guardião da cultura e de preciosidades esquecidas». Além do mais, estava intrigada com o olhar acerca dos alfarrabistas, uma vez que continua a ser um mundo bastante desconhecido para mim.
Sinto que, ao desromantizar todo o processo, nos deixa mais próximos da realidade, da dificuldade que paira em algumas situações, da necessidade de resistir, de modernizar, de encontrar estratégias estimulantes que permitam vender. É que, embora possa ser um cenário idílico para a maior parte dos comuns mortais, existe uma componente de negócio que não se pode descurar, por isso, achei particularmente interessante que o autor partilhasse informações sobre os leilões, a compra de bibliotecas particulares e a relação preço-objeto, pois ajuda-nos a refletir sobre a complexidade destas questões.
Reconheço, ainda assim, que não adorei a escrita e o tom, que me pareceu um pouco condescendente em certas passagens. Mas, se calhar, esta sensação vem do facto de me ter faltado mais paixão no discurso: os dados e a contextualização são importantes para compreendermos o propósito e este universo que exige intuição e calculismo, só que, por ser alguém que o conhece com proximidade, esperava um lado menos formal.
A Religião dos Livros abre-nos a janela para que espreitemos os bastidores e, por isso, é uma leitura que permite satisfazer curiosidades e entender que o futuro se reveste de esperança, até porque, «enquanto houver livros, haverá muito mais do que leitores».

As Filhas do Capitão, María Dueñas
A escrita da María Dueñas deixa-me sempre com uma sensação de aconchego, porque consegue retratar vidas comuns de uma forma muito natural, quase como se pudessem ser pessoas próximas, com dilemas e sonhos semelhantes aos nossos. Por esse motivo, e por saber que é baseada numa história real, estava muito curiosa com esta obra.
As Filhas do Capitão transporta-nos para uma «grande cidade americana», quando Emilio Arenas morre num acidente e «as suas filhas indomáveis assumem as rédeas do [seu] negócio, enquanto nos tribunais se revolve a herança». Perante a necessidade de sobreviver e de fazer o luto pelo pai, Victoria, Mona e Luz veem-se envoltas num quotidiano de adversidades, que coloca à prova os seus temperamentos e a própria relação entre elas.
Talvez não tenha sido o meu tempo certo para descobrir esta história, razão pela qual quero relê-la mais tarde, mas, de facto, não me consegui relacionar com o enredo e as personagens. A primeira parte até estava a fluir e a intrigar-me, mas depois senti que a ação ficou algo confusa, a perder-se em pormenores que não me pareceram assim tão essenciais para a construção da narrativa.

Revolução, Contrarrevolução e Democracia, Tiago Fernandes
O marco mais bonito da nossa história, enquanto país, continua a ter vários contornos que merecem ser descobertos: não só pela total pertinência da data, mas também para que nunca esqueçamos que precisa de ser cuidada/protegida todos os dias. Para além de tudo o que reconhecemos, ao pós-25 de abril acresce o facto de ser «historicamente raro uma revolução levar diretamente a um regime democrático», sendo este o foco do retrato que Tiago Fernandes escreveu para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Revolução, Contrarrevolução e Democracia parte de um estudo comparado da revolução portuguesa «com outros processos revolucionários europeus do séc. XX». A intenção, que fica clara desde o início, é perceber os motivos que permitem que as revoluções se transformem num regime democrático. Assim, responde a duas questões centrais: (1) «por que razão Portugal não sofreu um golpe militar de direita apoiado por segmentos da elite do anterior regime» e (2) «por que não sucumbiu à ascensão de um regime de partido único revolucionário apoiado por segmentos dos militares». Focar o contexto português espelha um simbolismo duplo, porque a revolução portuguesa marcou «o início da terceira vaga de democratização» e foi «uma revolução social pacífica».
A obra divide-se em três capítulos, cada um deles responsável por analisar um período específico — a crise do Estado Novo, o 25 de abril e a consolidação da democracia —, o que nos ajuda a compreender melhor o arco evolutivo, quer em relação aos valores defendidos pelo regime, quer em relação às incoerências que pautavam esse sistema político, à oposição e ao papel dos militares, socorrendo-se de dados e de gráficos para termos uma noção mais visual daquelas que eram as condições da sociedade nacional.
Confesso que esperava encontrar um diálogo mais estreito com o dia da revolução em si, porém, privilegia mais o antes e o depois desse acontecimento, evidenciando que o «predomínio das forças liberais/moderadas […] ocorre quando aquelas têm capacidade de organização cívica e aliados nos militares». Embora tivesse precisado de calibrar as minhas expectativas, achei Revolução, Contrarrevolução e Democracia muito elucidativo e interessante, por me permitir explorar um tópico sobre o qual nunca tinha lido antes e por sentir que abre a porta para que continuemos a informarmo-nos sobre o assunto. É uma leitura para fazer sem pressas, porque há muita informação para assimilarmos.

Notas Para John, Joan Didion
O monólogo baseado n' O Ano do Pensamento Mágico foi a minha porta de entrada para o universo Joan Didion. Anos mais tarde, quando tive a oportunidade de ler o livro, fiquei embevecida pela intensidade do relato, da escrita sem filtros e, ainda assim, com tantas sombras. Por isso, quis continuar a aventurar-me na não ficção da autora.
Notas Para John é um diário «comovente do dilema doloroso de uma mulher, de uma corajosa escritora reconhecida pela capacidade de examinar meticulosamente as camadas de uma história». Em 1999, começou a ser acompanhada por um psiquiatra e, durante mais de um ano, «descreveu as sessões clínicas» através de entradas que dirigiu ao marido, John Gregory Dunne.
Foi um pouco sufocante ler esta obra, devo admitir, porque se percebe o medo da perda, a preocupação constante, a fragilidade que se entrelaça ao querer proteger quem amamos. Não sei é se a compilação destas notas teve a sensibilidade que merecia, porque são demasiado íntimas.

tbr de maio
- Poemas Quotidianos, António Reis (12 meses, 12 livros de poesia);
- Lá Fora, Pedro Mexia (alma lusitana);
- A Cor do Hibisco, Chimamanda Ngozi Adichie (3 autoras para 2026);
- Marcas Que Fazem Portugal, Margarida Vaqueiro Lopes (ler ffms);
- A Cozinheira do Ditador, Afonso Cruz;
- As Melhoras da Morte, Rui Cardoso Martins;
- Um Pouco de Cinza e Glória, Cláudia Andrade.






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