à flor da língua, gregorio duvivier



A viver entre palavras, sinto-me sempre em casa quando são o tema central de uma conversa — ou o seu desenrolar nos encaminha nessa direção. Essa era, portanto, uma das razões pelas quais queria tanto assistir à peça que Gregorio Duvivier escreveu com Luciana Paes e, depois de a ver, fiquei tão apaixonada por O Céu da Língua que o passo seguinte só podia ser comprar este livro.


 imaginar a partir das palavras

À Flor da Língua nasce «da desconfiança em relação aos significantes» e funciona como um desdobramento da peça supracitada, até porque, nesta obra, coube tudo o que não coube no texto que levou a palco, ampliando «aquilo que nos une: a capacidade de falar, de imaginar a partir das palavras e de contar histórias».

Ao explorar o seu amor e obsessão pela semântica, Duvivier construiu uma espécie de dicionário, no qual cada termo adquire uma componente emocional, humana, como se fosse um organismo vivo, como se respirasse e tivesse uma forma palpável. Aqui, nenhuma expressão é dita por acaso, sem vir agregada a uma explicação e experiência particulares.

Permiti-me demorar nesta viagem, apesar de a querer ler num sopro, porque é fascinante o poder de argumentação e as associações que o humorista estabelece, despertando sensações, desbloqueando uma nova forma de olharmos para a génese e para o significado de cada palavra. E fá-lo sempre com graça e sensibilidade. Se dúvidas existissem quanto à inteligência e cultura de Gregorio Duvivier, neste livro ficam desfeitas.

«Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida. Se a saudade é a presença de uma ausência, a despedida é a presença antes da ausência: se despedir é tornar presente aquilo que não estará»

Entre palavras mais kiki ou mais boubas, também consegue a proeza de abordar as subtilezas que aproximam e diferenciam o português de Portugal e o português do Brasil. Isso é mágico e, por vezes, quase que podia jurar que o estava a ouvir a dizer os textos — aqueles que se cruzam na peça, então, podia jurar que estava de volta ao Coliseu do Porto a viver a experiência de assistir ao espetáculo. Apesar de serem propostas que funcionam em separado, acredito que este livro prolonga a peça com mais intimidade, deixando-a a ecoar em nós (mas leiam-no mesmo que não tenham visto o monólogo, porque não compromete o vínculo).

À Flor da Língua desperta o nosso sentido crítico e convida-nos a pensar mais fundo. Uma vez que se foca na linguagem, mostra-nos que esta é uma ponte para compreendermos a cultura em que nos inserimos, para reconhecermos uma identidade que é coletiva e, sobretudo, para nunca esquecermos que as palavras nos colam ao mundo. Hei-de regressar para me (re)descobrir nesta pluralidade contagiante.


 notas literárias
  • Lido entre: 7 e 13 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Humor
  • Banda sonora: Trem das Onze, Maria Gadu | Meu Bem Meu Mal, Caetano Veloso

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