arraial, vítor sá


O meu texto precisava de começar com uma confissão: a primeira vez que ouvi o Vítor Sá não encaixei com a sua energia. Na altura, ainda não acompanhava Cubinho de uma forma assídua e creio que incompatibilizei com ele por não ter compreendido o tom, por me parecer que havia uma postura de superioridade, sobretudo, em relação a um dos colegas. Contudo, o lado bom das primeiras impressões é que podem ser mudadas e bastou-me estar mais atenta ao seu percurso para perceber o quanto estava errada.

Para além do podcast que divide com o António Azevedo Coutinho e o Ricardo Maria, assisti ao especial de comédia que disponibilizou no Youtube, Incerto, e, mais tarde, vi-o a abrir o Não Faz Sentido, do Guilherme Fonseca. Se, após esse espetáculo, dissessem que eu ia acabar por comprar bilhetes para um solo seu, talvez não acreditasse, porque até achei que embalou bem o público, mas que a construção do texto se socorreu mais de palavrões (e eu adoro palavrões). Claro que é injusto reduzir o trabalho do artista ao tempo de abertura, ainda assim, foi uma primeira interação que me deixou oscilante.

Corta para novembro, de 2025, quando Vítor Sá anuncia o novo espetáculo de stand-up e, com uma perceção diferente, tive de me apressar a comprar bilhetes, já que estavam a desaparecer num ápice. E a curiosidade foi aumentando: pelo conceito do solo, pelos novos ângulos que traria à sua comédia e pela quantidade de histórias hilariantes que teria acumulado, afinal, atendendo a que tanto o podemos ver «disfarçado de Zorro na Festa dos Arcos de Paços de Paços de Brandão», como a ser «tesoureiro e dançarino no Rancho Folclórico e Etnográfico das Terras de Santa Maria em Rio Meão», sem, claro, esquecer que foi «praticante de skate amador», não lhe faltam peripécias na bagagem.

Conclui-se, portanto, que «uma boa parte da vida de Vítor Sá foi passada num Arraial» e não haveria melhor nome para o espetáculo. Com um cenário, em palco, que nos leva mesmo para um ambiente festivo, a noite começou com a atuação do Chimpas, que se revelou uma excelente surpresa. Não sabia o que esperar, sendo honesta, porque ainda não tinha visto trabalhos dele, mas sinto que entregou tudo e que deixou a plateia no ponto certo. Logo de seguida, ainda tivemos a visita de Carlos Contente, que fez total justiça ao apelido. Se o início da festa já prometia, o resto da noite cumpriu em pleno.

Não quero entrar em pormenores, para não comprometer a experiência a quem possa ir ver Arraial, mas permitam-me realçar o quanto a evolução do Vítor Sá é admirável: o texto nem parecia o de um primeiro solo, de tão bom e coeso que estava. Uniu todas as pontas soltas com mestria e sem quebrar o ritmo — nem quando teve de gerir aquelas situações imprevisíveis. Se existia nervosismo, nunca o transpareceu, atuando seguro, conseguindo o equilíbrio certo entre o cómico e o javardo. Há, aqui, histórias que só podiam ser contadas por ele, que talvez só nos levem a chorar a rir por serem dele, no entanto, a entrega em cada momento foi irrepreensível, espelhando toda a qualidade.

Não me recordo de ter estado noutro espetáculo em que estivesse o tempo todo a rir e ele conseguiu-o. Aliás, fiquei com a sensação de que esse foi o estado geral da sala, o que corrobora o tom cirúrgico das punchline. Percebe-se que existiu trabalho «a limar cada frase», não obstante, o texto não perdeu naturalidade e isso também é uma prova da sua evolução. A fasquia está elevada, mas acredito que tem tudo para melhorar. E o mais curioso é que não o conheço, mas saí do Teatro Sá da Bandeira orgulhosa, como se tivesse assistido a uma conquista de um amigo. Se dúvidas existissem em relação ao quanto merece que lhe esgotem todas as salas, este solo veio desfazê-las uma por uma.

Sinto que nenhum outro Arraial foi tão extraordinário, porque este fica para a história!

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