O que fala ao coração #10

«A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa», Edward Elgar
Não passo um dia sem ouvir música. Esta semana - e a partir de agora sempre há segunda - a minha escolha é no feminino e, como não poderia deixar de ser, em português. Atrevo-me mesmo a dizer em bom português, porque o talento desta artista é gigantesco e acredito que não pare de crescer. Com um estilo muito próprio, algures entre o pop-rock-indie-folk, e com uma voz tão terna, mas cheia de garra, o nome Márcia já não deixa ninguém indiferente. Com uma capacidade de interpretação fantástica, as suas músicas transportam-nos sempre para um mundo à parte. Fazem-nos refletir. Fazem-nos sentir, imensas vezes, o coração a transbordar de tanta coisa, com infinitas emoções a correr em simultâneo. Detentora de um timbre que a mim me enche as medidas, é uma lufada de ar fresco ouvi-la a qualquer hora do dia. Tem, a meu ver, um dos duetos mais bonitos que tive o privilégio de ouvir até hoje. Há músicas que marcam uma vida. «A pele que há em mim», acompanhada por JP Simões, marcará a história da música portuguesa. Pelas vozes que combinam tão bem. Pela música. Pela letra que é de uma beleza inconfundível e indescritível. Mas Márcia não é só isto. Não é só esta música. É tantas outras mais com igual qualidade. É uma artista cheia de talento, que canta com o coração e a alma de mãos dadas e em constante ascensão.
Como as palavras serão sempre poucas para descrever aqueles que admiramos, deixo-vos aquelas que fazem parte da sua biografia, escrita por José Fialho Gouveia. E que é uma delícia de se ler. Conheçam Márcia pelas suas palavras. Pelo texto que se intitula «Um "Casulo" e um mundo lá fora». E pelo seu trabalho que é absolutamente genial. Carregado de originalidade. Com tanta paz, mas sempre com a mensagem certa. É do que se faz de melhor em Portugal. É das melhores e por isso gosto tanto. Aquece-me a alma e o coração. E é daqueles artistas que ouço um dia inteiro sem nunca me cansar.
«A Márcia chegou-me como costumam chegar as coisas boas. Pela mão dos amigos. Chegou-me pelo João Monge, que partilhou ‘A pele que há em mim’ no Facebook. E bastou-me ouvir uma vez para que ficasse de gigante nos meus ouvidos.
Algum tempo depois, convidei-a para o “Bairro Alto”, na RTP2. Ela disse que sim, que aceitava, e combinámos um primeiro encontro num hotel perto do cinema King. Foi a 3 de Janeiro de 2012. Conversámos sobre o seu percurso, sobre música, sobre as vidas e pagámos um balúrdio por dois cafés. A gravação do programa foi ainda nessa semana, no dia 6. E pela primeira vez estiveram mais do que duas pessoas naqueles sofás. Eu, a Márcia e a sua filha. Ainda dentro dela, é certo, mas já tão grande que era fácil perceber que faltava muito pouco para reclamar o seu direito ao mundo. Muito pouco para sair desse casulo amniótico onde aprendemos a amar as mães.
“Casulo” é o nome deste disco, o primeiro que Márcia edita depois da maternidade. Antes tinha lançado dois. A estreia deu-se em 2009. Era um EP com cinco temas e chamava-se apenas “Márcia”. O segundo, “Dá”, saiu em 2010 e foi reeditado em 2011. Foi com essa reedição em mente que surgiu o desafio a JP Simões para estender a letra de ‘A pele que há em mim’ – que já estava gravado no EP – e fazerem uma gravação a dois. Contou-me a Márcia, durante a entrevista, que este tema foi escrito na Avenida de Roma, em Lisboa. Tinha ido ver uma exposição de artes plásticas ao Júlio de Matos e no caminho de regresso a casa, um percurso de mais ou menos 20 minutos, desenhou a melodia. Muitas vezes as canções também lhe saem nos transportes públicos ou na praia. Pouca coisa mudou por cá, desde a nossa primeira conversa naquele dia de Janeiro até agora que oiço este novo álbum. Continuamos às voltas com a austeridade, a tentar encolher o défice e a fazer olhinhos de aluno graxista aos mercados. Continuamos a tropeçar em passos pouco seguros, alguns deles até inconstitucionais. O último ano não foi fácil. A Europa anda avariada da cabeça, quase a cair da tripeça, e respira-se um ar de colapso do sistema. As pessoas vivem com medo e de olhos postos no chão. Talvez por isso Márcia se tenha refugiado na música, vendo nela um escudo protector, e tenha criado uma realidade alternativa com as canções deste disco. Em boa hora teceu este “Casulo”, onde nos podemos fechar e deixar o mundo aos gritos lá fora.
Mas nessa realidade cabem ainda e sempre os amigos. Márcia gosta de fazer esse sublinhado. E os amigos, além de serem para as ocasiões, são também para a música. Daí que não seja de estranhar a voz de Samuel Úria no tema ‘Menina’. Os amigos também servem para dizer olá nos discos uns dos outros. Foi o que ele fez. Da mesma forma que, há mais tempo, a voz de Márcia também já tinha cumprimentado a de B Fachada em algumas canções; e que ela nos disse ‘Até ao Verão’, no tema que escreveu para o “Desfado” de Ana Moura.
Márcia nasceu em Lisboa, a 19 de Fevereiro de 1982. Coincidências dos mercados, também nessa altura os tempos não iam famosos e o Fundo Monetário Internacional andava por cá. Foi precisamente nesse ano que José Mário Branco se revoltou com o “FMI”. Com a entrada na CEE a vida tornou-se mais fácil e foi durante a esperança demasiado ilusória da década de 90 que Márcia, aos 12 anos, começou a meter as mãos na música. Às escondidas, punha-se a tocar e a experimentar sons na guitarra de 12 cordas do irmão. Tocava baixinho para que não a ouvissem. Encostava o ouvido à madeira e os dramas da adolescência perdiam vigor. A ressonância da guitarra acalmava-a. Quando tinha 18 anos deu o passo seguinte. O namorado de uma amiga tinha uma banda que precisava de uma vocalista. Ela, na audição, cantou temas de Tracy Chapman e convenceu os restantes membros. Não tardou muito até que começasse também a compor, obrigando a que a banda fosse rebaptizada para Ana’s Blame. Nessa altura ainda escrevia e cantava em inglês. Apesar desta relação com a música, desde muito cedo que Márcia se refugiava nos desenhos que fazia. Alimentava o sonho de ser pintora e, na escolha da faculdade, optou por Belas-Artes. Mais tarde, nas voltas do curso, viu-se em Angers, em França, para um semestre no programa Erasmus. A distância revelou-se determinante no que estava para vir. Quando estamos longe de casa sentimos a falta do aconchego da língua e há emoções que só sabemos dizer em português. Márcia sentiu isso e o inglês deixou de ter lugar nos versos que ia rabiscando. Regressada de França e já com os estudos arrumados, rumou até Barcelona para um estágio em cinema documental. Ficara-lhe essa vontade desde que fizera um documentário sobre a sua irmã para uma cadeira na faculdade. Mas a metragem da aventura foi curta. Márcia desiludiu-se com o mundo das produtoras e a música agarrou-a de vez. Talvez não tivessem sido precisas tantas voltas. Afinal já era a ressonância da guitarra que lhe acalmava os tumultos da alma durante a adolescência. Mas às vezes é preciso saber esperar. Às vezes é preciso ir lá longe para conseguir ver melhor ao perto e preencher de vida o silêncio de uma canção que ainda não está escrita.
A Márcia chegou-me como chegam as coisas boas. Pela mão dos amigos. E de gigante continua neste “Casulo”».
Já conheciam? O que acham? Gostam das músicas? Qual/Quais preferem?
boa semana :)
ResponderEliminarSou completamente fã! Bom gosto mesmo!
ResponderEliminarJá conhecia algum reportório musical desta cantora. Ela costumava expressar nostalgia e uma certa melancolia com as suas músicas, mas conforta as nossas memórias.
ResponderEliminarFez como o Paulo Gonzo ou o inverso. Concordo contigo !
Não conhecia. Já estive a ouvir algumas musicas mas não faz o meu género musical :)
ResponderEliminarBeijinho *
Conhecia apenas a primeira música a pele que há em mim. Gostei de conhecer mais temas dela :9
ResponderEliminarbeijinhos
http://retromaggie.blogspot.pt/
Desconhecia a cantora mas estive a dar uma vista de olhos e gostei muito do que ouvi. Ainda há bons talentos em Portugal, pena que se dê mais ênfase a artistas completamente fracos...
ResponderEliminarConfesso que não conhecia a cantora, a minha cultura musical é muito fraquinha mas estou a ouvir a primeira música que colocaste dela e estou a gostar!
ResponderEliminarAmiga grupo maravilhoso amei a postagem
ResponderEliminarBlog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
Canal de youtube: http://www.youtube.com/NekitaReis
Eu adoro ouvir musica em português, mas tal como referes em bom português sem duvida e acho lindo o que somos ainda capazes de fazer...é pena não valorizarem mais o que é nosso!!
ResponderEliminarR: Muito obrigada querida, eu estou a ultrapassar aos poucos, mas ainda é um assunto muito fresco na minha cabeça xs e já estou a recuperar bem do joelho também :'D
Mais uma vez nao conhecia :O estas sempre a trazer coisinhas novas
ResponderEliminarOie =D
resp: ela é mesmo linda, sim o da Andreia Rodrigues também era bonito :)
ResponderEliminarSomos duas, querida. As músicas dos anos 90, regra geral, são todas fantásticas. E os Radiohead são incríveis. :)
ResponderEliminaré mesmo, e ela e o Daniel fazem um casal tão fofo *.*
ResponderEliminare estavam tão bem no domingo :)
ResponderEliminarÉ sempre bom ouvir estas músicas old school, a-d-o-r-o!
ResponderEliminareu também *.*
ResponderEliminarestá querida, agora ando na escolha do vestido para o Baile de Finalistas :)
ResponderEliminarComo gosto desta música.
ResponderEliminarJá a tive lá no blog uma série de vezes.
A música toca-nos de forma insingular.
Beijinhos
Impossível viver sem música, boa semaninha :)
ResponderEliminarJá conhecia esta artista e sim, ela é fantástica! E aquele dueto? Está qualquer coisa de mágico...
ResponderEliminarAlgumas bem lindas
ResponderEliminarSónia
Taras e Manias
Bonita selección musical para comenzar la semana!!!
ResponderEliminarBesos, desde España, Marcela♥
Sim é verdade :)
ResponderEliminaragora depois desta situação toda parece que a ideia de me casar me entusiasma mais :p
Sim claro querida, e eu também oiço bastante...mas nunca hei-de tirar o valor ao que é nosso! Até porque acho que mesmo a rádio devia de passar mais músicas nossas, visto que o mundo da musica esta a crescer cada vez mais**
ResponderEliminarE infelizmente mesmo parecendo um pesadelo foi a realidade, agora só tenho de aprender a lidar com isso...eu e amigos dele ainda nos lembramos muito dele e ainda fazemos brincadeiras como se ele ainda estivesse cá, pois sempre foi assim que ele gostava que fossemos! Mas a vida são dois dias e um dia estaremos juntos de novo! Agora é guarda-lo no coração e na memoria e seguir em frente. E muito obrigada por tudo o apoio, sempre foste bastante querida comigo *-*
Confesso que ler seu texto me deixou com uma expectativa danada pelas músicas. Mas, olha, elas ainda conseguiram me surpreender - pelo lado positivo. Eu não conhecia a Márcia, mas adorei poder conhecê-la! As músicas são tudo o que você disse e um pouco mais. Vou baixar algumas mais para escutar. Obrigada!
ResponderEliminarBeijos
Andreia, adoro a música da Márcia!
ResponderEliminarTem muito soul e sendo em português mais soul ainda tem.
Sabe tão bem ouvir boa música portuguesa, a letra tem sempre mais significado e é sempre mais autêntica.
Excelentes escolhas!!! :)
Beijinhos
Amiga que texto lindo amei as musicas
ResponderEliminarBlog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
Canal de youtube: http://www.youtube.com/NekitaReis
Chegando, ainda lendo,
ResponderEliminarvolto depois pra
comentar.
Lindo domingo!
Bjins e meus sonhos e delírios
CatiahoAlc./ReflexodAlma
Mais uma "coisa" que desconhecia. Para não variar não é? :p
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