
As leituras de junho permitiram-me cruzar narrativas como já não fazia há algum tempo, porque houve três que senti complementares, a abordar distintas camadas de um tema comum. Encontrar estas pontes entre livros deixa-me sempre entusiasmada, até porque possibilitam o contacto com perspetivas amplas, que talvez não tivesse sensibilidade para distinguir se isso não se verificasse. Os grandes responsáveis foram Tudo na Natureza Apenas Continua (Yiyun Li), Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno (Susana Piedade) e As Pequenas Chances (Natalia Timerman).
A título de curiosidade, li oito livros (um de poesia, dois de não ficção, quatro romances e um de auto ficção), comprei dois (As Pequenas Chances e o guião do espetáculo O Céu da Língua) e descobri quatro autores novos — Yiyun Li, Ricardo Peixoto, Natalia Timerman e Alex Couto. Os favoritos do mês foram Tudo na Natureza Apenas Continua, Também Há Rios no Céu e Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno.
entrelinhas de junho
Avós e Netos, Ricardo Peixoto
Os versos «as estrelas são avós/vogando em trenós de prata/lá em cima a velar por nós» povoaram o meu pensamento, assim que defini o livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ler este mês. Uma vez que junho é, para mim, símbolo de família, quis descobrir mais sobre um vínculo tão especial e optei pelo retrato do Ricardo Peixoto.
Avós e Netos é construído a partir «das contradições de muitos estudos existentes sobre [esta] relação (…) para questionar as condições» em que têm sido realizados, bem como «os factores e variáveis privilegiados». Por esse motivo, encontramos o ensaio dividido em três capítulos: o primeiro, focado nas hipóteses que a literatura reconhece como as que mais influenciam esta relação; o segundo, dedicado à análise da perceção que avós e netos têm do seu vínculo familiar e afetivo; o terceiro, pensado para entender a razão pela qual «tantos estudos apresentam resultados tão diversos», quase sem consenso.
É interessante verificar que «os avós e os netos desenvolvem uma relação diferente de todas as outras existentes numa família», talvez por cruzarem uma noção de passado e de presente, talvez por entrelaçarem «juventude e experiência (…) realidade e fantasia», talvez por continuar a existir uma figura de referência que incute responsabilidades e rotinas, mas de um modo mais despreocupado, equilibrando regras e brincadeira. Foi neste último ponto que dei por mim a pensar no quanto isso pode ser uma benção ou um problema, caso não exista uma comunicação franca, sobretudo, entre pais e avós, porque é fácil quebrar o fio educativo que os progenitores tentam construir. O ditado «os pais educam e os avós deseducam» tem o seu tom cómico, mas se não for levado à letra, porque as crianças precisam de estrutura e de uma dinâmica complementar.
Não conheci os meus avôs (o paterno faleceu, salvo erro, quando eu tinha dez meses e o materno faleceu no dia em que fiz quatro anos), mas tive uma relação próxima com as minhas avós (mais com a materna, porque vivíamos com ela), por isso, é curioso ler este livro agora, enquanto adulta que já perdeu todas estas pessoas, e tentar enquadrar as nossas vivências em alguns dos dados apresentados. Além disso, é interessante ver a quantidade de variantes que, sem que nos apercebamos, influenciam estes elos e as repercussões que podem ter. Portanto, é natural que os estudos divirjam, porque nós próprios divergimos: as minhas avós tinham visões semelhantes sobre vários assuntos, mas a mesma situação desencadearia sempre reações diferentes — ainda que, visto de fora, até parecessem iguais. Herdei características distintas de cada uma delas e dei-lhes versões diferentes de mim, porque uma estava comigo todos os dias e a outra via-me quando a íamos visitar. E por mais que isso fosse frequente, «a proximidade física» implicava uma quebra (pouco visível) no que entregávamos a este estreitar de laços.
Os avós têm múltiplos papéis no decorrer do nosso crescimento, porque são mentores, cuidadores, parceiros de brincadeira, porto de abrigo e, até, almas gémeas e esta visão é fascinante pelo que deixa implícito: ao assumirem estas funções, despertam em nós um conjunto de valências afetivas e relacionais que tornaremos transversais noutras relações, independentemente da sua natureza. Esta «transmi[ssão] de ensinamentos», que pode ser mais ou menos consciente, talvez seja uma das heranças mais bonitas.
Avós e Netos é acerca de tudo aquilo que pode aproximar e afastar esta relação, durante várias fases de desenvolvimento, alertando-nos para o quanto esse vínculo é moldado pelas construções sociais, por mudanças pessoais e por dinâmicas particulares, uma vez que também nunca dissociamos o lado emocional do lado racional. Apesar de ter gostado deste retrato, senti que algumas ideias se tornaram um pouco repetitivas — ou que a justificação para determinado aspeto orbitava sempre nos mesmos padrões. Ademais, acho que a obra beneficiaria se trouxesse testemunhos na primeira pessoa.

As Pequenas Chances, Natalia Timerman
O luto será sempre um terreno pantanoso. Talvez nenhuma experiência seja totalmente individual, porque há pontos comuns, há dores que se tornam transversais, há sinais que reconhecemos dentro desse quarto escuro que nos dilacera, mas a verdade é que ninguém vive o luto da mesma forma, porque precisamos de mecanismos diferentes para não descermos ao abismo ou para assumirmos que ficaremos por lá indefinidamente. E ler o livro da Natalia Timerman corroborou esta perceção.
As Pequenas Chances é um romance de auto ficção «sobre o luto de uma filha após a morte do pai». À espera do seu voo, a narradora «cruza-se no aeroporto com o médico de cuidados paliativos que acompanhou o seu pai nos últimos tempos de vida». É este encontro inesperado que recupera memórias, «o assombro do tempo, a saudade» e todas as inquietações que a revestiram durante esse período de declínio, de tristeza, de oscilação.
Fartei-me de sublinhar passagens, sobretudo, das duas primeiras partes, porque me revi naqueles pensamentos, na sensação de vazio, na injustiça que nos ferve por dentro, mas também na tentativa constante de não ferir a figura paterna (neste caso) com um tom de mágoa, como se tudo o que se viveu antes não tivesse acontecido e não tivesse sido feliz. Sinto que este limbo será sempre estranho e difícil de gerir, mas, tendo em conta que é «uma história sobre vida, sobre estarmos aqui, mais sobre o que fica do que sobre o que passa», encontramos um discurso muito terno e lúcido, que nos mostra que o legado permanece.
As Pequenas Chances é um retrato bastante emocional e próximo, entre um processo longo de cuidados paliativos e os lugares que contam a história das nossas pessoas (incluindo a nossa). Confesso que dispensava a terceira parte, não porque não seja valiosa, mas por sentir que ficou um pouco desconexa das anteriores, ainda assim, não me esquecerei deste livro.

Sinais de Fumo, Alex Couto
Os últimos dias de junho estavam a pedir uma leitura menos densa, até porque vinha de algumas dentro do mesmo tema — luto — e precisava de uma narrativa diferente. Por esse motivo, arrisquei no livro do Alex Couto, que já queria ter lido o ano passado.
Sinais de Fumo leva-nos para «um dos bairros mais problemáticos de Setúbal», o Bairro do Viso, durante o tempo da Troika, quando este «se vê sem fornecimento de cannabis e derivados». O que aparentava ser uma situação complexa, revelou-se, pelo contrário, uma oportunidade de negócio, porque um grupo de amigos decidiu criar uma startup, a Green, com o intuito de ser ele a fornecer a erva na iminência de não chegar. Esta visão empreendedora, ainda assim, teve de enfrentar várias complicações e dilemas morais.
O enredo acompanha os protagonistas, mas fascina-me que um lugar seja capaz de ser tão central nas ações, como se fosse uma personagem e a sua identidade fosse uma voz de comando. Aliás, acredito que uma das reflexões mais pertinentes da obra é sobre o impacto que o sítio onde nascemos tem no nosso futuro, na pessoa que nos tornamos. As nossas decisões também se moldam nessas circunstâncias, mesmo que não seja de um modo consciente, uma vez que fazemos parte daquele contexto. Isso não significa que não seja possível alcançar novos horizontes, porém, há marcas que permanecem.
Admito que estava um pouco reticente com a abordagem, porque sinto que é fácil cair em descrições estereotipadas, redutoras, mas a construção inicial da narrativa e, até, a linguagem utilizada desfizeram esse receio: sem a revestir de lugares comuns, o autor tornou a história próxima, facilmente reconhecida, mas sem dar a entender que só há aquele caminho, aquele fim. É certo que algumas vivências se repetem, pelo contexto ou apesar dele, mas não é algo que se verifique como linear, muito menos inflexível.
Outro aspeto valioso é o tom crítico que o texto assume. Através destes protagonistas, a debaterem-se com questões de identidade, relacionamentos disfuncionais, dúvidas e períodos de solidão, mostra-nos que existem movimentações duvidosas, de profundo aproveitamento político, porque nem sempre há sentido de honra e o grupo acabará por perceber isso no meio de todo o fumo que lhes tolda o discernimento — mas que, de certa maneira, os deixa alerta para certos detalhes e jogadas turvas. Portanto, este livro é feito de simbolismos, sobretudo, quando nos parece que há partilhas inocentes.
Sinais de Fumo, apesar do seu caráter próximo e de trazer temas tão importantes para a discussão, não me prendeu totalmente, talvez por ter sentido que se alongou em partes menos relevantes e pela reta final da narrativa um pouco confusa. Não obstante, vale por todas as reflexões e por nos fazer pensar na necessidade de termos um propósito. Via este enredo a sair do papel para o ecrã, porque a escrita do autor é muito visual.

tbr de julho
- Cidade Infecta, Teresa Veiga (alma lusitana);
- As Vinhas de La Templanza, María Dueñas (3 autoras para 2026);
- O Olhar Diagonal das Coisas, Ana Luísa Amaral (12 meses, 12 livros de poesia);
- Benjamim, Chico Buarque;
- Futebol, o Estádio Global, Fernando Sobral (ler ffms).






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