as coisas maravilhosas de junho



Junho teve foguetes na rua e o manjerico na mesa.

Creio que nunca tinha parado para pensar no quanto podia ter meses favoritos, mas, sem haver necessidade de o verbalizar, junho sempre esteve num lugar de destaque, porque simboliza família, casa cheia e a contagem decrescente para a noite mais bonita do ano. Também se passou a revestir de saudade e de lugares vazios, mas há algo neste mês que consegue recuperar um conforto emocional que torna todas as memórias num espaço seguro e isso permite-me (ou tem-me permitido) não andar à deriva, ficar na margem certa e apaziguada.

Este mês, porque há ciclos que terminam, também se revestiu de despedida. O coração fica um pouco mais apertado, mas é tempo de ver voar aqueles que vimos crescer. Se custa? Claro, mas não deixa de ser especial.

Junho foi uma montanha russa de emoções, mas não o trocava por nada.


as coisas maravilhosas de junho


 os fragmentos aleatórios

A publicação sobre os meus favoritos do momento já inclui este fragmento, mas não podia deixar de o trazer para esta retrospetiva, até porque a t-shirt da Foguetes é mesmo a minha cara, quer pela cor que escolhi, quer pelo simbolismo associado: por um lado, homenageia uma das minhas pessoas-casa, que já faleceu, e, por outro, destaca uma das músicas que mais me marcou o ano passado.


Outros fragmentos aleatórios: bálsamo de limpeza mylabel, um ano de Violetta, Volcanix e Iced Frappé.


 as músicas e os álbuns

Junho foi menos versátil neste departamento, o que, por um lado, me deu menos mundo musical, mas, por outro, fez com que estreitasse o vínculo com trabalhos de meses anteriores. Agora, há duas coisas inegáveis: estou cada vez mais fã da voz do Santos, Só e a temperatura subiu por causa do Van Zee.

As músicas que marcaram o mês: Noite Inteira, Iolanda | , Yang | Balsa, Santos, Só | Quem Me Vê, Os Quatro e Meia & Luís Trigacheiro.


Os EP's que marcaram o mês: Tá Calor e a Culpa é Tua, Van Zee | It All Leads Back South, Carla Prata.


 as publicações

babell: um breve guia
Escrita com dois LL, fazendo lembrar «o mito bíblico da Torre de Babel, para afirmar a diversidade cultural e linguística como riqueza maior da humanidade» e inspirando-se «no conceito de biblioteca infinita, criado por Jorge Luis Borges», assim é BABELL (publicação completa aqui).

No meu substack poético No Silêncio —, partilhei um poema inspirado na música Fora d'Horas, do xtinto. Se vos interessar, podem ler tempo certo.


 os filmes, as séries e os podcasts

Neste segmento, destaco uma série, dois podcasts e um behind the scenes.

Novas Narrativas de Caça
Novas Narrativas de Caça pretende ser um espaço de conversa, que rejeita os habituais lugares comuns associados à comunidade afrodescendente em Portugal e evidencia o racismo estrutural existente em situações mundanas. Nas palavras de Luís Almeida, o autor da ideia da série, cada episódio é um lugar de fala, por isso, encontramos temas como identidade, pertença e opressão, a partir da escrita de diferentes argumentistas. Ademais — ou por causa disso —, contactamos com «histórias que partem de dentro», edificando pontes para realidades da nossa sociedade que necessitamos de reavaliar (opinião completa aqui).

Diário de Marias
O nome Maria está no meio deles, por isso, Inês Meneses e Rui Maria Pêgo uniram-se neste Diário de Marias para conversarem «sobre os seus dias», tão cheios de cultura, de desabafos, de pensamentos e, até, «de pequenos delitos entre amigos». Estou bastante entusiasmada com este projeto.

É Para o Lado Que Eu Durmo Pior
A lista de podcasts em atraso continua caótica e, por isso, nada como acrescentar mais um à minha biblioteca — em algum momento equilibrará —, já que Guilherme Duarte decidiu avançar com uma ideia a solo.

Violetta Behind The Scenes
Um ano depois, em jeito de celebração, temos acesso ao behind the scenes do Violetta, documentado e editado pelo Fabrice. Enquanto assistia, dei por mim a pensar que é sempre especial vermos o entusiasmo que os artistas que acompanhamos têm pelos seus projetos, mas que tudo se amplia quando, à sua volta, há um grupo de pessoas a partilhar esse mesmo entusiasmo, porque creio que dá outro alento, outro impulso. E, além disso, posso ou não ter ficado emocionada com uma parte acústica deste vídeo.


 os livros

Junho pareceu-me quase monotemático nas histórias que selecionei para ler, o que não é verdade, mas, como dois dos livros que mais me marcaram este mês continuam tão presentes na minha memória, é essa a energia que sobressai.

Pela primeira vez, decidi fazer um curso sobre um dos livros que li, porque senti que precisava desse complemento para chegar a todas as camadas da história. Por isso, comprei o da Bruna Martiolli sobre O Primo Basílio e adorei a experiência — tanto que já estou a pensar fazer outros. 

Os favoritos do mês: Tudo na Natureza Apenas Continua, Yiyun Li | Também Há Rios no Céu, Elif Shafak | Uma Porta de Vidro Entre o Céu e o Inferno, Susana Piedade.

Outros livros lidos: Antologia Poética, Natália Correia | O Primo Basílio, Eça de Queiroz | Avós e Netos, Ricardo Peixoto | As Pequenas Chances, Natalia Timerman | Sinais de Fumo, Alex Couto.


 os momentos

Ouvir a listening party de Tá Calor e a Culpa é Tua. Jogar ténis de mesa em versão mini. Concluir a ideia que comecei no início do ano. Lenços, lenços e mais lenços. Muitas bebidas de café. Receber a t-shirt no dia 18. Concertos. S. João. Casa cheia. Poesia na rua. Mais motivos para celebrar o Violetta.








Slow J no Maia Fest Outdoor
Sem esquecer a banda, que é absolutamente extraordinária, voltei a ficar sem palavras para a capacidade que o Slow J tem de nos fazer sentir cada verso, cada travessia, como se nos saíssem de dentro, como se aquela história fosse também a nossa — e, em parte, é. Além disso, acho mesmo comovente a forma como se entrega inteiro em palco, como é tão feito de verdade e como não deixa de ficar maravilhado com o que está a acontecer à sua volta. Ele continua a lutar pelo seu sonho e a honrar, todos os dias, a sua escolha, sem a dar por garantida. Preciso que nos cruzemos mais vezes, porque é um privilégio ouvi-lo.

Solstício: S. Pedro & Os Quatro e Meia
O S. Pedro é, para mim, um dos nossos melhores letristas, não só pela sensibilidade, mas também pela atenção ao detalhe e pela capacidade de bordar temas próximos a sonoridades um pouco mais leves, dançáveis, ainda que também os possa revestir de uma certa tristeza em todos as componentes, se for isso que pede. Portanto, vê-lo ao vivo encheu-me todas as medidas, porque pude ver todo o seu talento à minha frente.

Os Quatro e Meia, sem querer exagerar, talvez sejam a banda que mais vezes vi ao vivo e não há um concerto que me tenha desiludido. Para além do talento inesgotável, são a alma da festa e deixam-me sempre impressionada com as camadas que acrescentam às canções: podemos ouvi-las inúmeras vezes e sabê-las de cor, no entanto, a próxima vez terá um toque diferente, permitindo-nos traçar — até debater — outras interpretações.

BABELL: GNR, Pedro Abrunhosa & Rui Veloso
O espetáculo foi feito de uma enorme partilha e generosidade, algo visível nos temas que tocaram em duplas — Efetivamente por GNR e Pedro Abrunhosa, Eu Não Sei Quem Te Perdeu por Pedro Abrunhosa e Rui Reininho —, mais ainda quando se reuniram os três em palco para interpretarem o emblemático Chico Fininho. Valeu muito por isto!

Ninguém me pergunta, mas se algum dia tiverem necessidade de questionar as razões que me levam a ser tão apaixonada por música portuguesa, acho que lhes falarei desta noite e do quanto me permitiram viajar no tempo e redescobrir um período da minha vida em que, sem ter maturidade suficiente para o entender, foram meus confidentes.

A Poesia Está na Rua e Poesia ao Poder
A propósito do BABELL, alinhei-me para fazer parte de um percurso poético, no qual «doze diseurs e dezenas de voluntários, especialmente preparados em seis workshops gratuitos de leitura poética», se reuniram «para uma intervenção». Assim, partimos da Praça da Batalha, fomos à Rua de Santa Catarina, ao Mercado do Bolhão, à Praça Dom João, à Avenida dos Aliados e desaguamos nos Paços do Conselho. Nesta versão única de A Poesia Está na Rua, ecoamos palavras de ordem por entre os versos de seis poetas.

Já nos Paços do Concelho, poetas portuenses elevaram «A Poesia ao Poder, subindo à varanda da Câmara Municipal do Porto para ler os seus poemas sobre a cidade». Participar nestas iniciativas reforçou a certeza de querer que a poesia me defina.


Julho, sê gentil 

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