
A perda leva-nos para terrenos pantanosos, imprevisíveis, porque, por mais que lidemos com ela de perto, nunca se transforma em algo ínfimo. Uma vez que nenhuma despedida é igual, o impacto que tem sobre nós também diverge e desperta posturas igualmente distintas, obrigando-nos a ajustar, a adaptar, a ressignificar o processo. Já levo algumas perdas na bagagem, mas nenhuma se compara à de Yiyun Li.
situações-limite, abismo e aceitação radical
Tudo na Natureza Apenas Continua inquieta, de imediato, no título, porque nos confronta com a certeza de que a vida segue o seu curso apesar da nossa dor, dos fragmentos em que nos dividimos. Neste livro, «sem sentimentalismos ou redenção», a autora testemunha a morte dos dois filhos, no espaço de sete anos: ambos «escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família».
O exercício de encarar a situação com uma certa racionalidade é complexo, sobretudo, quando percebemos que a tragédia se repete. Os meus lutos sempre foram muito mais emocionais. Durante esse processo longo e moroso, desço ao abismo e há um vazio que se apodera, contaminando tudo por dentro, portanto, admito, estava com algum receio de não conseguir compreender a aceitação radical de Yiyun Li, mas liguei-me a estas memórias e talvez não seja capaz de o traduzir por palavras.
O livro não é sobre o luto, no entanto, impressionou-me a forma como me deixou a pensar nele e na urgência de o ultrapassarmos, como se existisse sempre um limite. Ao parar para pensar na sua perspetiva sobre o assunto, acho que apaziguei algumas questões que me afligiam mais do que tinha consciência. Houve um período em que temi que manter-me nesta realidade fosse um espaço de conforto. Aliás, agarrei-me à convicção de que ficar ali era a minha maneira de não esquecer, até me questionar se prolongava o luto por medo de não saber quem sou sem as pessoas que perdi. Depois eduquei a tristeza, lancei foguetes para continuar a contar a «história até me faltar a voz», encontrei pontos de fuga e, com esta obra, percebi que também «não quero uma meta final para o meu sofrimento».
«A Necessidade obriga-me a prestar atenção a todos estes pormenores depois do que aconteceu: tudo é relevante, tudo tem peso, tudo conduz a um momento no passado, que se torna recordação, a qual, por sua vez, se transforma numa narrativa»
É egoísta da minha parte colocar-me neste relato, quando nem sequer sou mãe. Ainda assim, não pretendo apropriar-me dele, apenas destacar que me revi na citação supracitada, porque, de repente, tudo adquire novos ângulos e significados. Além disso, outro aspeto que me impressionou foi o alerta para a insensibilidade camuflada em todas as tentativas de ajuda. A intenção vem de um fundo de generosidade e empatia, na maior parte dos casos, mas precisamos de aprender a escutar as verdadeiras necessidades do outro. Uma das maiores aprendizagens deste livro, para mim, foi entender que querermos cuidar de feridas que vemos de fora pode ser sufocante: precisamos de dar espaço para que sintam.
O pragmatismo da autora, evidente na escrita direta e honesta, permitiu-lhe construir o seu habitat e aceitar que nunca sairá do fundo do abismo, porque é impossível ser igual ao que era, mas concentrar-se no agora talvez seja a sua cura. Sem qualquer tentativa de romantizar a depressão e o suicídio, também não pretende trazer conforto e emotividade a este testemunho. Não obstante, creio que há um lado emocional a pairar nas suas palavras, se calhar, por se sentir todo o amor e respeito que tem pelos filhos.
Tudo na Natureza Apenas Continua não pretende encontrar respostas, nem justificar escolhas. Leiam-no com cuidado, se estiverem num lugar bom, porque tem «uma gramática só sua», oscilando entre rasgos de intimidade e um tom mais austero. Este livro consegue ser brutal e desconfortável, mas achei particularmente bonita e comovente a maneira como utilizou a escrita para prolongar a memória dos filhos e marcá-los no mundo.
notas literárias
- Lido entre: 4 e 5 de maio
- Formato de leitura: Físico
- Género: Não Ficção
- Nº de páginas: 176
- Banda sonora: How To Live, Del Water Gap | 12 to 12, Sombr






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