entrelinhas maio



O meu ritmo de leitura recuperou o fôlego, em maio, o que não deixa de ser curioso tendo em conta que, em quantidade, li um pouco menos. No entanto, ao contrário de março e abril, não foi porque tivesse menos vontade e concentração, foi só porque a agenda esteve mais preenchida. Respeitar estas oscilações é algo do qual não abro mão, uma vez que não quero revestir a leitura de obrigações. As histórias são demasiado preciosas e aprendi que não há qualquer problema em aceitar que nem sempre as nossas prioridades ou a nossa predisposição se alinham com os livros.

A título de curiosidade, este mês, como se celebra o dia do autor português, li maioritariamente autores nacionais, não comprei livros e descobri três autores novos — António Reis, Pedro Mexia e Margarida Vaqueiro Lopes. Li dois livros de poesia, um de crónicas, um de não ficção e quatro romances. O favorito do mês foi o do Afonso Cruz, A Cozinheira do Ditador.


 entrelinhas de maio


Poemas Quotidianos, António Reis

O mundo ficou um pouco em suspenso, dentro destas paredes, uma vez que aproveitei as primeiras horas do feriado para abraçar a escolha de maio do desafio poético criado pela minha amiga Sofia. E, desta vez, fiquei por casa, já que li um conterrâneo: o poeta e cineasta António Reis, cujo livro integra, agora, a coleção de poesia de Pedro Mexia.

Poemas Quotidianos, tal como o título permite antever, divide-se pela banalidade dos dias comuns, por aquilo que está no nosso horizonte e sobre o qual nem sempre é fácil escrever (porque é próximo, porque está entranhado na nossa realidade, porque ainda não temos a distância emocional necessária para racionalizar), mas o autor parte desse cenário e mostra-nos a realidade que nos habita, que nós habitamos, que nos confunde.

Há um tom cru e muito direto a entrelaçar cada verso; um tom que nos leva a «sectores da população [que] vivem no limitar da pobreza ou numa apertada mediania», como se nos arrancasse a esperança, sem piedade, sem floreados, sem lirismos. Por oposição, é nos versos claramente dedicados à mulher que parece recuperar fôlego, talvez leveza, porque existe um propósito, a garantia de conforto e de cuidado, ainda que nem todos os cenários sejam de sonho — são o espelho da vida que acontece, com altos e baixos.

Senti, por vezes, que os seus versos carregavam um peso acrescido e desconforto: não sei se para nos inquietar por dentro ou se era esse turbilhão que o próprio sentia. Não sei se compreendi a extensão de todas as mensagens, mas gostei da lentidão, do toque de estranheza — que nos faz mexer na cadeira — e da urgência. Gostei, sobretudo, do facto de serem poemas tão visuais, mas com margem suficiente para imaginarmos.

Poemas Quotidianos parece-me ter dois mundos: o que se avista para lá da janela, que se reveste «de gente que passaja, vira ou tinge a roupa», e o que fica recolhido, íntimo, ancorando dúvidas, hesitações, esquecimento, abandono, saudade e tristeza. E, depois, traz o Porto e a sua relação ambivalente com a cidade. A aparente simplicidade da sua escrita deixou-me a questionar quantos mais mundos poderão existir nestas palavras.



Lá Fora, Pedro Mexia

O meu contacto com o Pedro Mexia é bastante indireto, porque apenas acompanho a sua curadoria de poesia na Tinta da China. Para inverter a tendência, pensei que seria um nome interessante para incluir no meu desafio de leitura, o Alma Lusitana, e, já que seria uma estreia, optei por não ir à sua obra poética e começar, antes, pelas crónicas.

Lá Fora é um bilhete de ia, no entanto, sem indicação de regresso, porque a viagem de cada texto pode revelar-se mais demorada do que aquilo que aparenta: quer porque é possível encontrar uma camada mais emocional, que nos entrelaça às suas memórias, quer porque se multiplica em referências que nos podem ser pouco familiares. Deste modo, não só nos leva aos lugares físicos onde esteve, como também nos permite ir aos «lugares mentais acerca dos quais pensou», entre livrarias, teatros e, até, pessoas.

No fundo, somos transportados para os espaços do autor, que lhe são próximos e que espalham fragmentos da sua história, recuperando uma certa nostalgia, não porque se recuse a prosseguir, mas porque procuramos sempre «que as histórias não terminem». Entre «os verões da infância na Figueira da Foz» e a «ilha grega de Leonard Cohen», o que mais me cativou neste conjunto de crónicas foi a sensação de orbitarmos tantos planos geográficos distintos, que parecem encaixar com toda a naturalidade. Assim, tão depressa nos envolve em cinema, como nos leva a refletir sobre filosofia, política e religião, sempre de um lugar íntimo, ser esquecer todos os detalhes que nos moldam.

Lá Fora tem, ainda, um aspeto que considero importante: a intemporalidade, uma vez que me parece que estes textos permanecerão muito para além da data em que foram escritos. Embora, por vezes, tenha sentido que não tinha referências suficientes para ir a todos os lugares que Pedro Mexia retratou, gostei muito desta viagem, sobretudo, porque acho sempre generoso quando um autor nos mostra o mundo a partir da sua visão, mas sem a necessidade de nos fazer acreditar que aquela lente é a única possível.



Marcas Que Fazem Portugal, Margarida Vaqueiro Lopes

As memórias de infância parecem aflorar com referências concretas. Neste caso, ao ler o nome do jogo que fomentou um certo lado competitivo entre amigos, o STOP. Aliás, com o papel à frente, foram horas a enumerar palavras que encaixassem em categorias fixas, sendo uma delas as marcas. E é curioso como temos algumas na ponta da língua.

Quando existe uma espécie de nuvem a pairar, costumo dizer que «estou um caquinho, mas não é Vista Alegre». Embora não compre os seus artigos, é inegável que o nome da fábrica de porcelana não me é indiferente, quase como se me tivesse sido passado num legado geracional. Fascina-me, portanto, a transversalidade, a durabilidade e a aptidão para, no meio de mercados com tanta concorrência, sobressaírem ao ponto de terem a sua designação a sobrepor-se às peças que vendem — acabamos por reduzi-las (sem as diminuirmos) ao nome da marca. Assim, quis ir ler o retrato que a Margarida Vaqueiro Lopes escreveu para a Fundação Francisco Marques dos Santos e saber mais do tema.

Marcas Que Fazem Portugal foca-se no «que de melhor se faz em Portugal», até porque é «um exercício muito mais fácil do que pode parecer». Além do mais, enquanto um dos países que, nas últimas duas décadas, teve um avultado número de pedidos de registos de marcas, nota-se que esse investimento conta uma história que ultrapassa a vertente do negócio. E, neste livro, pretende-se traçar a referência em que se transformaram.

Sinto que o mais entusiasmante destes retratos é a possibilidade de conhecermos as marcas para além do sucesso, da formalidade, das questões burocráticas que também influenciam o processo, visto que nos mostram as pessoas, os valores, os desafios e a identidade que as sustentam. No fundo, colocam em evidência o lado humano que as faz funcionar, resistir e reinventar o propósito, adaptando-se à passagem do tempo e às próprias exigências/necessidades do mercado e dos seus públicos-alvo. Nasceram e cimentaram os seus alicerces e, agora, têm o nome bem entrelaçado na história global.

Outro aspeto interessante desta obra prende-se com a diversidade: conforme a autora mencionou na introdução, procurou abranger diferentes setores, o que me parece uma estratégia excelente, porque assim conseguimos ter uma noção mais ampla e perceber o impacto em realidades distintas. Após abordar o conceito de marca e a componente publicitária, agrega essa contextualização a um traço emocional, já que as marcas são, também elas, uma maneira de nos posicionarmos, de mostrarmos, até, quem somos.

Marcas Que Fazem Portugal é uma porta aberta, no entanto, não nos conta tudo. É certo nem todos os nomes aqui referenciados me suscitaram o mesmo interesse, mas gostei de ter acesso a estas histórias, sobretudo, porque sinto que permitem elevar o diálogo a outros debates: por um lado, desmistificando a tendência muito portuguesa de não valorizarmos devidamente o que é nacional, quando há tanto talento cá dentro, e, por outro, servindo de alerta para quem se quiser aventurar a criar os seus negócios — o objetivo não é desmotivar, muito menos demover, apenas deixa claro as várias fases.



As Melhoras da Morte, Rui Cardoso Martins

Os meus olhos enamoraram-se pelo Alentejo, como se de um poema se tratasse, visto que existe algo na sua imensidão que me fascina. Isso e ter uma bagagem emocional a transbordar de memórias por diferentes zonas da região. Se algum dia tivesse de sair das margens que me amparam, sei que me sentiria em casa por paisagens alentejanas. Uma vez que esse cenário não está nos planos, apanhei boleia do Rui Cardoso Martins e regressei a Portalegre, reencontrando-me, ainda, com uma personagem carismática.

As Melhoras da Morte remete-nos para uma famosa expressão que nos retira o tapete, porque nos ancoramos a tudo o que nos traga conforto e a esperança renasce, embora seja frágil como cristal. Neste contexto, «a morte apoteótica de um amigo leva Cruzeta de volta» à terra que conhecemos em E Se Eu Gostasse Muito de Morrer, «para mais uma grande aventura interior», com «dores e alegrias, fantasmas e afetos». Estava, portanto, curiosa para descobrir de que maneira é que o título encaixaria neste arco narrativo.

Um aspeto que me desarma na escrita do autor é a sua capacidade para abordar temas delicados, interligando-nos a um enredo complexo, mas sem perder o humor mordaz, não porque haja a necessidade de aligeirar, de camuflar o verdadeiro impacto de cada situação, mas talvez por precisarmos de construir mecanismos de defesa. No fundo, é como se nos convidasse para sentar perto do abismo, a contemplar a paisagem, e nos mostrasse que um gesto em falso é o suficiente para resvalarmos: sem alaridos, sem a brutalidade presente no discurso, apenas a ser um espelho do quanto a vida é irónica.

O retrato de um Alentejo isolado, melancólico, a oscilar entre a banalidade dos dias e uma ligeira habitação à sina da comunidade, é pano de fundo para refletirmos sobre suicídio, natureza e religião. A morte parece povoar a cidade, aumentar as dúvidas, a descrença, o peso soturno no peito e, não obstante, há sempre um tom sarcástico que acompanha, porque estas pessoas escondem proezas e peripécias e, no meio de tantas sombras, fazem com que a «esperança para um novo começo» se vá fazendo notar.

Creio que o ritmo pouco linear da narrativa pode criar alguma confusão e afastar-nos da(s) voz(es) do(s) narrador(es), razão pela qual acabei a não me sentir tão envolvida na história. Os assuntos são de máxima importância, a narração do Rui Cardoso Martins consegue ter passagens profundamente poéticas, que nos obrigam a parar e a pensar naquilo que está para lá da camada superficial das palavras, mas precisava de sentir que havia uma coesão maior entre a narrativa principal e alguns temas secundários.

As Melhoras da Morte deambula por terreno familiar, fértil e imprevisível, revelando-se uma autêntica viagem emocional quer pelos lugares, quer pelas pessoas que habitam estas memórias. Sem pedir licença, leva o nosso estado de espírito dos zero aos cem num instante, talvez porque seja urgente «haver as melhoras da vida». Embora não me tenha arrebatado, o que mais gostei neste livro foi o seu caráter antagónico e terminar a leitura a sentir que a perda faz muito barulho, mas que há luz do outro lado da janela.



Poesia Completa, Maya Angelou

Quando selecionei alguns títulos para ler e celebrar o Dia Mundial da Poesia, criei uma coleção no Kobo e ficou a faltar-me descobrir o da Maya Angelou (que ainda só tinha lido em prosa). Entre viagens de metro, perdi-me nos seus versos.

Poesia Completa compila «todas as suas frases poéticas, todos os versos comoventes», levando-nos a encontrar as suas «reflexões sobre a vida afro-americana» e a «celebração revolucionária da condição da mulher negra». Embora extensa, é uma obra que se lê num sopro, porque a autora envolve-nos nas suas palavras, toca-nos nas feridas e não nos larga a mão. E é tudo tão visual que, de repente, parece que estamos a observar um quadro ou um fragmento de um filme.

Plural, intenso e atento, não me liguei a todos os poemas deste livro da mesma forma, o que é natural, mas fiquei impressionada com o quanto pretendem quebrar barreiras, consciencializar para a igualdade e defender a liberdade. Acima de tudo, é uma obra atemporal, o que tem tanto de fascinante como de inquietante. Sei que precisarei de regressar a este lugar e mergulhar ainda mais nas suas camadas.



Um Pouco de Cinza e Glória, Cláudia Andrade

A BiblioLED tornou-se uma aliada visível nas minhas leituras e, uma vez que a lista vai aumentando com facilidade, assumi o compromisso de escolher, pelo menos, um livro de lá por mês. Desta maneira, em maio, decidi regressar à escrita da Cláudia Andrade.

Um Pouco de Cinza e Glória passa-se numa aldeia sem nome, onde a guerra é plano de fundo. Ali, conhecemos as histórias dos que ficaram, dos que sobraram por serem considerados inaptos, como era o caso das crianças, das mulheres, dos mais velhos e, até, dos que «carregam dentro de si um medo entranhado», por esse motivo, cruzam-se relatos plurais «de vingança, de amor, de dor, de luxúria, de violência e de crime».

Embora não me tenha relacionado por completo com a narrativa, porque preferia ter sentido uma coesão maior entre as histórias, não deixou de ser interessante constatar o quanto nos confronta com os nossos instintos mais primitivos e com os desejos que tentamos, a todo o custo, silenciar. Além disso, é fascinante perceber como os meios se tornam ainda mais pequenos, como as fronteiras se esbatem e há elos transversais.

Creio que o meu problema foi mais ao nível da estrutura, já que a escrita tem um traço poético, por vezes misterioso, e espelha a humanidade deste grupo de personagens.



 tbr de junho
  • O Primo Basílio, Eça de Queirós (alma lusitana);
  • Também Há Rios no Céu, Elif Shafak (3 autoras para 2026);
  • Avós e Netos, Ricardo Peixoto (ler ffms);
  • Antologia Poética, Natália Correia (12 meses, 12 livros de poesia);
  • Tudo na Natureza Apenas Continua, Yiyun Li;
  • Sinais de Fumo, Alex Couto.

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