antologia poética, natália correia


A excentricidade — que eu sinto que é, somente, um ato de profunda liberdade — de Natália Correia nunca passou despercebida. Aliás, nunca foi aceite e a prova disso é que teve livros censurados, apreendidos e queimados e idas a tribunal (uma em nome próprio; outra, pelo processo judicial referente ao Novas Cartas Portuguesas). Se isso a demoveu? De todo. Portanto, no final de 2022, estreei-me na sua obra e fui descobrir a escrita sem filtros. Quatro anos depois, regressei e é sempre extraordinário perceber a quantidade de camadas novas que conseguimos retirar das mesmas palavras escritas.


 carnal e vulnerável

Antologia Poética equilibra o «gosto pessoal do organizador e a representatividade dos diversos períodos» literários da poeta. Através de uma curadoria cuidada, que mostra os motivos pelos quais o nome de Natália Correia «continua a surgir como um dos que causaram uma repercussão mais duradoura», ficamos com uma noção mais ampla das temáticas sociais e políticas que povoam e impulsionam os seus versos — e inquietam.

Sinto que, em certos poemas, precisava de ter um pouco mais de contexto histórico, de conhecer melhor algumas situações da época em que se concentram, para ser capaz de decifrar todas as entrelinhas. Contudo, ao fazer esta travessia pelas suas composições poéticas, que atravessam o tempo em assumiu o cargo de deputada, o pós-25 de Abril, o PREC e a opressão, tornou-se ainda mais evidente o tom que adotou, uma vez que se dedicou a lutar pela cultura, pela emancipação da mulher e pelos direitos humanos. A sua escrita demonstra-o com frontalidade, inconformismo e como um grito de revolta.

Enquanto articulo os meus pensamentos acerca desta obra, ouço o Mundo Segundo a cantar, na Guerreiros Indomáveis, «não queremos lugar numa mesa que não é justa» e a sincronia pareceu-me curiosa e bastante certeira, já que a postura da poeta se alinhou sempre a esse princípio, sem omissões, socorrendo-se da escrita ousada, sarcástica e intensa para se insurgir contra «regras impostas pela força» e vários tipos de poder.

«só ela sem paciência
desfazia o colar das horas transportadas.
E perguntava qual a medida do tempo:
se as horas
se o sonho que as desligava»

Na primeira leitura, estava à espera de ser arrebatada de uma maneira diferente, ainda que não soubesse bem explicar em que contornos. Agora, ao regressar a estas páginas, creio que senti as suas palavras com outro impacto, porque houve versos que soaram mais emocionais, mais sensíveis. Fascina-me o tom irónico, complexo e humorístico, mas rendi-me por completo àqueles em que se nota uma vulnerabilidade maior. Sinto, inclusive, que a sua liberdade vem precisamente desta combinação. Por essa razão, sei que quererei voltar a estes poemas quando ler a sua biografia, O Dever de Deslumbrar.

Antologia Poética divide-se em planos distintos, combinando feminismo, sensualidade, erotismo, efemeridade e denúncia, entre o que é humano e o que é divino. Através da palavra, centra-se em problemas concretos e urgentes, com um tom que tanto é capaz de ser canal, como de se revestir de compaixão. Este poemas são livres, assertivos, com diferentes intenções por dentro. E, com todo o seu carisma, têm melancolia e saudade.


 notas literárias
  • Desafio: 12 meses, 12 livros de poesia
  • Lido entre: 1 e 4 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Poesia
  • Nº de páginas: 336
  • Banda sonora: Magnólia, Lúcia Moniz

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