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O processo interposto pelos Anjos não deixou ninguém indiferente e acredito, até, que foi motor de várias conversas, durante o último ano, não só pelo espanto, mas também pela curiosidade, pela vontade de debater os vários ângulos desta situação caricata. E, tal como prometido, Joana Marques veio falar sobre o assunto no seu novo espetáculo.
As minhas expectativas para Em Sede Própria estavam elevadas, mas admito que tinha um pouco de receio que, por ser somente sobre este tema, tendo em conta que foi tão esmiuçado na comunicação social, se tornasse maçador, talvez repetitivo. No entanto, a forma como construiu o texto não deu qualquer margem para desilusões. Antes pelo contrário, sinto que conseguiu acrescentar camadas novas e intercalar a insanidade de todo o processo com situações recentes, integrando o seu humor de atualidade mordaz.
Naturalmente, não entrarei em detalhes, mas achei que foi muito inteligente no modo como iniciou o espetáculo e como o conduziu. Ainda que seja todo baseado em algo que lhe aconteceu, não deixa de ser evidente o cuidado com que limou os segmentos, o tom e a fluidez. Sem quebras de ritmo e com «provas irrefutáveis», foi certeira em cada observação. O palco fica-lhe bem e vê-la a escalar no texto com tanta naturalidade traz a sensação de que é fácil estar naquela posição. Não é, claro, mas a Joana Marques não vacila — e acredito que o seu humor incomoda porque carrega nas feridas sem filtros.
Em Sede Própria só peca porque termina, ainda assim, sem aspas, foi extraordinário. O ponto de partida era claro para todos e, através dele, fez-nos refletir e rir sobre falhas, lugares de privilégio, maternidade, moralidade, liberdade e dualidade de critérios. Que o ser humano é cheio de incoerências, já todos sabemos (nenhum de nós escapa a essa sina), mas continua a ter graça perceber aqueles que se levam demasiado a sério: é que existe sempre uma ocasião em que essa imagem desmorona como um castelo de cartas.






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