a cozinheira do ditador, afonso cruz


Os meus dotes culinários não são propriamente dignos de nota, o que não invalida que as memórias mais bonitas envolvam comida e mesas redondas. Aliás, cá em casa, é um hábito recorrente mencionarmos os nossos pelas iguarias que eram/são quase imagem de marca: a minha avó materna e o seu arroz de tamboril (sem calda, por minha causa), o meu tio e as suas rabanadas de vinho, pelo Natal, e o meu pai e o seu arroz de forno. A forma como a comida nos agrega e estreita laços é poética e, até, uma manifestação de liberdade. Por isso, quando percebi que o mais recente livro de Afonso Cruz estaria a orbitar por este universo, trazendo sempre uma visão particular, fiquei entusiasmada.


 a preparar a vingança

A Cozinheira do Ditador é uma receita que se prepara com astúcia, com atenção a todos os detalhes, porque uma pitada a mais ou a menos pode alterar um sabor que se espera no ponto. Nesta história, que vai apurando os nossos sentidos, a personagem feminina «tem lábios finos, olhos de águia e nariz adunco» e a masculina tem «lábios carnudos, olhos meigos e nariz pequeno». Dito assim, talvez fosse imediato o julgamento acerca da personalidade de cada um, talvez fosse fácil iludirmo-nos, mas, tal como um prato que saboreamos devagar, para descobrirmos cada condimento, vamos percebendo que as aparências enganam e que existem segredos obscuros por «entre tachos e panelas».

A tradição de partilharmos refeições em família — de sangue e de coração — serve de pano de fundo a este «tratado de culinária e da arte de bem comer», uma vez que existe algo a ser preparado com perversidade, enquanto refletimos sobre questões sociais e políticas; enquanto compreendemos que nenhum pormenor é introduzido ao acaso — seja pelas ações das personagens, seja por determinados episódios. Logo, existe uma série de referências históricas e humanas que identificamos e que nos comprovam que a literatura é, por um lado, uma ponte para decifrarmos o mundo que habitamos e, por outro, é um alerta para os acontecimentos que se podem repetir, condicionando-nos.

O traço camaleónico de Afonso Cruz é uma das características que mais me fascina na sua escrita, porque faz com que a sua arte se ramifique e nos guie por camadas menos óbvias. Neste livro, que oscila entre um tom mordaz e cómico, sinto que é impossível não nos identificarmos com a protagonista, não sentirmos as suas dores e a vontade de querer fazer justiça pelas próprias mãos. Isto porque, sem revelar em demasia, vive em condições que não a dignificam. Portanto, nesta situação extrema, há uma revolução a acontecer por dentro, mostrando-nos uma vingança que é literária, fria e metafórica.

«Cozinhar é uma narrativa, e é provável que tenha sido ema a espoletar essa prática, a de contar, narrar, ficcionar, lembrar, oferecendo sentido à confusão do mundo»

Quis avançar no enredo sem pressas, porém, a minha missão não foi bem conseguida, já que fui inebriada pela voz da cozinheira. A maneira como orquestrou o seu plano, envolvendo-nos em cada etapa do processo, nas escolhas, nas alternativas, na ocasião mais indicada para concretizar a jogada final, deixou-me com a sensação de estar ao seu lado, a sentir na pele a angústia, o desconforto, o medo e o impacto deste jogo de poder doentio, quase absurdo. Através da sua lucidez, somos transportados para um mundo cada vez menos distópico, com regras assustadoras e valores questionáveis.

O humor negro do autor acaba por tornar a viagem um pouco mais suportável, ainda assim, quando paramos para refletir sobre tudo o que acontece nestas páginas, há algo que nos inquieta, sobretudo, por ser evidente a necessidade de sobreviver a um regime autoritário, a um ditador que, sem ter nome, conseguimos associar a rostos que tanto reconhecemos do passado, como vemos em imagens televisivas, no presente. Ademais, creio que a própria estrutura acrescenta alguma leveza a temas pesados, até porque os capítulos são sempre antecedidos por um detalhe que achei extraordinário, mostrando que a ironia é altamente recomendada para ser servida como se fosse o prato principal.

A Cozinheira do Ditador, embora tenha episódios caricatos, é credível o suficiente para não colocarmos em causa as motivações que norteiam aqueles que se querem libertar de cenários opressores e para termos sempre presente o lado humano das situações. É surpreendente como Afonso Cruz nos leva a descobrir tantos mundos dentro das suas narrativas, onde nada é uma só coisa — as entrelinhas florescem de teses. Com a dose certa de sarcasmo e estranheza, acedemos aos distintos tipos de ditadura e à maneira como cada um deles molda a nossa identidade, incitando-nos a lutar para (sobre)viver.


 notas literárias
  • Lido entre: 14 e 16 de maio
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 280
  • Banda sonora: O Circo dos Fachos, GAC - Vozes na Luta | La Llorona, Carmen Goett

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