a malcriada, beatrice salvioni



O final de A Malnascida deixou-me a ansiar por uma continuação: não só porque a história em si despertava essa vontade de a continuar a acompanhar, mas também pela escrita de Beatrice Salvioni, que nos faz sentir o impacto de cada fragmento, emoção e vivência. Por isso, fiz as minhas malas ficcionais e voei até Monza, para reencontrar personagens que ainda hoje me impactam.


 as marcas do passado

A Malcriada leva-nos até 1940, quando, «numa noite cerrada, uma rapariga corre descalça pela cidade deserta. Desesperada, raivosa, acaba por descobrir que foi traída por alguém que jamais julgara capaz de a enganar». É desta forma intensa, angustiante até, que somos recebidos no enredo, ficando claro, desde o início, que haverá um tom sombrio e feridas abertas. Só ainda não conseguimos prever a extensão do problema.

Há quatro anos que Francesca não tem notícias de Maddalena, o que, inevitavelmente, criou um fosso emocional impossível de ignorar, porque não existe só distância física, existe, também, uma certa desconfiança, dúvida e medo pela possibilidade de haver qualquer tipo de ressentimento. E se existem ligações de amizade onde parece que partimos sempre do lugar onde ficamos, aqui não o podemos afirmar com total certeza, quer pela força das circunstâncias, quer pelo historial e pela imprevisibilidade. 

O mais curioso, para mim, foi sentir que houve uma espécie de troca de papéis. Com Maddalena num plano secundário, vemos Francesca a florescer e a transformar-se numa mulher que não cai bem numa «sociedade conservadora e patriarcal». E foi neste ponto que dei por mim a pensar na culpa, nos valores que se perpetuam, naquilo que é exigido à mulher. Creio que ver Francesca a ter uma voz ativa neste sentido trouxe uma reviravolta necessária a esta história.

«— E porque andas sempre com esse recorte de jornal?
— Para me lembrar que eles podem moldar a realidade como lhes aprouver. Porque, se conheceres o pior que podem dizer de ti, nada te consegue surpreender.
— Nunca tens medo?
— O que mais me podem eles tirar?»


Quando, por fim, revemos Maddalena e nos reencontramos com a sua energia, percebendo o arco evolutivo e todas as marcas do passado, isso deu-me outra perspetiva: a perspetiva de todas as carapaças que, por vezes, temos de vestir para sobreviver, para que não nos transformem em algo que não somos, para ainda sermos capazes de ter algum controlo na narrativa que querem escrever por nós. Maddalena nunca se diminuiu para caber e sinto que, juntas, as protagonistas foram encontrando sempre uma maneira de alimentar a sua ferocidade — mesmo com quedas e decisões pouco ortodoxas pelo meio.

A consciência acerca da condição feminina, aliada a um plano político em ruínas, com a guerra a espoletar, causa um certo desconforto por ser tão lúcida, tão assertiva; por expor a necessidade constante de calar, de moldar a uma imagem que não provoque danos, que seja obediente. E isso é transversal a todo o livro, deixando evidente que não há nenhum ponto sem nó, que até a atitude mais inocente é sempre uma consequência de algo maior, enraizado na sociedade. Não existe, portanto, uma cisão entre escolhas individuais e escolhas sociais, porque há quem procure fazer prevalecer o sistema em vigor e há quem abrace a resistência. Estes mundos colidem e nós vamos assistindo ao caos e à missão de encontrar alternativas.

A Malcriada apresenta ligações e reflexões mais complexas, desarmando-me na forma como a autora interligou a consciência social e política com a amizade das protagonistas. Senti a narrativa um pouco mais previsível e isso talvez me tenha retirado o impacto do deslumbramento, mas quanto mais o tempo passa, mais sinto que este amadurecimento foi necessário. Além disso, impactou-me pelo crescimento e pelas vozes femininas que precisam de continuar a ser rebeldes.


 notas literárias
  • Lido entre: 2 e 10 de abril
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 480
  • Banda sonora: La Mia Canzone al Vento, Carlo Buti | Pippo Non So La, Trio Lescano & Silvana Foresi

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