também há rios no céu, elif shafak


O reencontro com Leiria implica sempre um regresso à Livraria Arquivo e, no ano passado, levava um título da Elif Shafak para comprar. Dias depois, rumamos a Bragança e levei-o na mala como leitura extra e porque o queria fotografar no Lago de Sanabria, cuja paisagem e história senti muito alinhadas com aquilo que poderia encontrar no livro. Acabei por não o ler lá e, já de volta a casa, entre narrativas que se foram tornando mais urgentes e um planeamento com bastante antecedência para o desafio literário com a Sofia, adiei-o para 2026. Estas voltas fascinam-me pela imprevisibilidade, mas estava longe de imaginar que poderiam ser um reflexo curioso da transversalidade desta história.


 uma gota a conectar estes mundos

Também Há Rios no Céu leva-nos até à «antiga cidade de Ninive, nas margens do rio Tigre», onde o rei Assurbanípal da Mesopotâmia «construiu uma grande biblioteca que se desmoronaria com o fim do seu reinado». É destas ruinas que surge um poema, a Épica de Gilgameš, e o fio que une três personagens, em três períodos históricos distintos: Arthur (1840), que nasceu em Londres e trabalhou «numa das principais editoras de tipografias de Inglaterra», Narin (2014), uma menina turca de 10 anos que foi «diagnosticada com uma doença rara», e Zaleekbah (2018), uma hidrologista a refazer a sua vida depois de se divorciar.

É, também, um elemento na natureza que cruza as suas vidas, sem que o saibam. Inalterável, resistindo à passagem do tempo, ainda que falemos de séculos, uma gota de água evidencia a importância que este recurso tem para a humanidade, independentemente do seu estado, da sua utilização. Compreender a forma como influencia os protagonistas, como se manifesta nas suas ações e decisões foi uma das partes mais fascinantes da obra.

A estrutura da narrativa não é linear, atendendo a que vamos alternando o ponto de vista e o espaço, mas fez-me todo o sentido a sequência, até porque revela, por um lado, o quanto os mundos de Arthur, de Narin e de Zaleekbah estão conectados e o poder que esse vínculo assume nas entrelinhas, e, por outro, a mestria da autora, porque vai recuperando subtilezas, porque nenhum detalhe é desprovido de simbolismo e porque, com naturalidade, nos implica emocionalmente em cada acontecimento. Elif Shafak sabe para onde nos quer levar e a que ritmo, ampliando as nossas dúvidas, a urgência da descoberta e a vontade de debater certos assuntos.

«Um poema é uma andorinha em voo. É possível observá-la enquanto se guinda no céu infinito, é possível até sentir o vento passar sobre as suas asas, mas nunca se consegue apanhá-la, e muito menos encerrá-la numa gaiola. Os poemas não são de ninguém»

Tal como os rios que se desviam do seu curso e, nessa viagem, alargam os limites temporais, geográficos e identitários, cada uma destas personagens carrega um mundo por dentro, que alberga cicatrizes, injustiças, rasgos de esperança, heranças culturais e perguntas que procuram respostas concretas. Enquanto existem aspetos que tentamos esquecer, pela dor que provocam, a água relembra, porque retém todas estas memórias de sofrimento, amor e resiliência.

Há sempre uma figura de referência, talvez para não nos esquecermos das nossas origens; talvez para ficar claro que nunca estaremos completamente sós na nossa travessia e que, embora possamos transbordar, há uma forma de retomarmos à nascente. Não obstante, também são estas figuras de referência que nos confrontam com a nossa ética, os limites da nossa moralidade e até onde estaremos dispostos a ir para preservarmos aquilo em que acreditamos.

Também Há Rios no Céu comove e revolta com a mesma intensidade. Sem pontas soltas e com uma sensibilidade fascinante para retratar elementos históricos verídicos, é daquelas histórias que nos desarmam, mas que continuarão a ter margem para crescer em nós. A água recorda-se, no entanto, confesso, adorava poder esquecer-me do que li só para voltar a estas páginas e descobri-las com o espanto da primeira vez. Que poema extraordinário!


 notas literárias
  • Desafio: 3 autoras para 2026
  • Lido entre: 7 e 10 de junho
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Romance
  • Nº de páginas: 424
  • Banda sonora: Belonging, Muted | Lull, Vraell & Rosie H Sullivan

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