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O termo antologia seduziu-me pela origem etimológica, uma vez que deriva do grego e significa «coleção de flores». Este escalar da botânica para uma utilização mais ampla, sem, no entanto, perder a sua génese, talvez seja a demonstração do lirismo da poesia e do quanto o ato de reunir nos agrega. Como procuro colher poemas como se fossem flores, voltei a Ana Luísa Amaral para (re)descobrir os seus trinta e um anos em verso.
transversal, curioso e próximo
O Olhar Diagonal das Coisas compila os 17 livros de poesia da autora e tradutora, numa viagem inaugurada em 1990, com Minha Senhora de Quê, e que terminou em 2021, com Mundo — não deixa de ser curioso que o último título publicado seja este, porque Ana Luísa Amaral, através da escrita, mostrou sempre a maneira como observava o mundo, encarando-o pelo espelho do quotidiano, pelo que vem de dentro e continua complexo.
Partir da nossa esfera pessoal, privada, mesmo que não tenhamos de analisar o que se passa dentro de quatro paredes, pode ser uma forma muito interessante de estabelecer pontes com aquilo que nos rodeia: se calhar, porque invertemos um pouco a ordem do percurso e seguimos uma linha que vai do concreto para o abstrato; se calhar, porque é nessa inversão que nos predispomos a imaginar, a não temer o metafórico, a conceder espaço para que se avistem e acolham novos ângulos. Desfoca-se o horizonte, contudo, adquire-se margem para o instantâneo e para as subtilezas, sem ponta de narcisismo.
Creio que a expressão que sustenta o nome da obra é, por si só, uma analogia singular, isto porque olhar na diagonal assume uma carga mais negativa, como se estivéssemos pouco investidos no que vemos/lemos. No entanto, nestas páginas, é um conceito que se expande, que se torna transversal, que cria, inclusive, intimidade e privacidade, ou seja, ao olhar na diagonal, a poeta permanece atenta ao outro, só que não o confronta com as suas sombras, as suas incoerências, as suas divagações, nem o intimida nessas observações. Deste modo, as pessoas continuam a agir como se ninguém as estivesse a ver, ficando tudo muito mais próximo da sua verdadeira essência. E acho interessante como parece aplicar a mesma fórmula à sua existência, sobressaindo outras camadas.
«Estragas-me a paz.
E eu preciso das minhas solidões,
de bocados mentais sem ti»
O olhar oblíquo amplia a curiosidade, quer pelas coisas, quer pelas pessoas, ao mesmo tempo que lhe permite ver para além do óbvio e oscilar entre o vazio e o infinito, entre o que é ínfimo e colossal, entre o emocional e o racional. É, também, nestes contrastes que explora vários estilos e assuntos, trazendo para os versos uma ressonância bíblica, política, mnemónica e épica, com uma precisão que pode suportar diferentes crises e, por um lado, auxiliar na procura por respostas e, por outro, levantar mais perguntas.
Naturalmente, não me relacionei com estes livros com a mesma intensidade. Aliás, já tinha lido Ágora e Mundo, que me despertaram reações distintas, e isso fez-me pensar que um dos aspetos mais fascinantes das antologias prende-se com a possibilidade de acompanharmos a evolução do autor de uma forma mais imediata e sequencial. Foi, portanto, estimulante identificar as metamorfoses de Ana Luísa Amaral e, até, a sua envolvência com certas temáticas. Assim, «há poemas transferidos de um livro para o outro» e poemas que dialogam entre si, e esta cumplicidade impulsiona-nos a ver os detalhes com atenção. A título de exemplo, destaco os capítulos Minha Senhora de Quê e Coisas de Partir e os poemas Do Lado Mais Brilhante do Silêncio, Sentidos e A Casa e o Tempo, atendendo a que ficaram com todo o meu coração e a minha alma por inteiro.
O Olhar Diagonal das Coisas alicerça-se na saudade, nos afetos, na banalidade dos dias e no amor. Com um tom espinhoso e sensível, traduz uma humanidade que não nos é indiferente e que denota aquilo que permanece — e a força que habita o ato de sentir.
notas literárias
- Desafio: 12 meses, 12 livros de poesia
- Lido entre: 1 e 16 de julho
- Formato de leitura: Físico
- Género: Poesia
- Nº de páginas: 1384
- Banda sonora: Sentir o Sol, Os Quatro e Meia | Sinal, Dengaz | Para T., Valter Lobo






1 Comments
Uma sugestão a ter em conta.
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