 |
| Fotografias da minha autoria |
livros e música no mesmo lugar
A Socorro, localizada na Rua Guedes de Azevedo, no Porto, é uma loja de discos, livraria e sala de concertos. Já estava no meu radar para visitar há algum tempo e a apresentação de Quando os Rios se Cruzam, em junho, foi a oportunidade ideal para a conhecer. Entretanto, aproveitei agosto para fazer uma nova visita.
João Pimenta e Artur Nogueira partilham o amor pela arte e o sonho de adolescência transformou-se em realidade, em 2023. Numa pesquisa rápida, achei curioso que Socorro seja, na realidade, «o nome de família do Artur», portanto, encontraram uma «forma de homenagear» as suas raízes. Este dado torna o conceito ainda mais distinto.
Outra curiosidade é que a Socorro fica «num edifício de 1958, onde antes funcionava um loja de peças de automóveis». Apesar de terem reformado o espaço, «mantiveram o chão, os corrimões originais e o traçado arquitetónico industrial» e dividiram-no em três partes, cada uma com a sua função: a cave está destinada a concertos, recebendo artistas/bandas de diferentes géneros musicais; o piso térreo acolhe vinis, cd's e cassetes, também eles de vários estilos, numa seleção cuidada, onde «95 por cento dos discos são novos», mas com a possibilidade de incluir preciosidades em segunda-mão. Além disso, é neste andar que podemos encontrar merchandising e pequenas exposições; por fim, a mezzanine funciona como livraria, com um catálogo que se divide por biografias, novelas gráficas, não ficção e ficção, e com inúmeras obras em inglês «que não se encontram habitualmente em Portugal».
O espaço é encantador e percebe-se o cuidado que têm para receber bem e para nos deixarem à vontade, como se estivéssemos em casa. No meu regresso, aproveitei para comprar Cá Dentro, de Isabel Minhós Martins e Maria Manuela Pedrosa, e saí com a mesma sensação da primeira vez: terei de voltar.
 |
| Fotografias da minha autoria |
«a primeira livrearia do mundo»
As portas número 61 e 63 do Largo da Matriz, em Ponte de Lima, acolheram um conceito inovador, cujo propósito maior «passa por criar um espaço de tributo à palavra, aos livros e aos seus autores, tendo a liberdade, a confiança e o respeito como principais pilares da sua existência». E foi assim que de um sonho nasceu a Livrearia.

Manuel Pimenta queria «acrescentar algo à vida das pessoas» e encontrou na loja antiga do seu avô o espaço ideal para o efeito. Por lá não há funcionários. Muito menos caixas registadoras. Quem quiser entrar e ficar apenas a ler, não paga nada por isso. Quem quiser adquirir algum dos exemplares expostos, só tem de se deslocar a uma das lojas vizinhas e acertar contas. Através de um vínculo de confiança, porque só desta forma é que o projeto resulta, também se fomenta o espírito de comunidade.
Na Livrearia, os livros são «escolhidos por pura intuição» e, pelo que pude perceber, têm todos um lugar de destaque, para que nenhum título passe despercebido. E isso acontece porque a própria oferta não é sufocante, como realçou o fundador. Aliás, «terá poucas jóias» e esta medida não foi um acaso: foi pensada com intenção. Por um lado, achei-a ousada; por outro, tendo em conta a quantidade de estímulos literários que vamos recebendo, face ao número de publicações, não deixa de ser uma lufada de ar fresco, sobretudo, porque nos impulsiona a olhar com atenção. E pode sempre dar-se o caso de encontrarmos aquele título que há muito que procurávamos. Embora não encontremos um grande número de obras disponíveis, achei a oferta diversificada - em género, em idioma e em público-alvo -, o que evidencia a estima na construção do catálogo.
Não sei como será a movimentação nos outros dias, mas, quando a visitei (sábado), senti uma paz imensa: estava só eu, a observar as estantes com cuidado, a perder-me de encantos pelos detalhes e a sentir que seria muito feliz se pegasse num livro e ficasse lá a ler. Sendo um espaço mais minimalista, há um aconchego que nos convida a ficar.
Como nem só de livros se faz a Livrearia, acho fabuloso que as receitas deste comércio sejam unicamente destinadas a dois objetivos: pagar despesas e criar eventos com foco na palavra escrita. Se estiverem a pensar ir a Ponte de Lima, acredito que têm aqui uma paragem interessante, quer num programa a solo, quer acompanhados.
Antes de entrarem na primeira livrearia do mundo, aconselho a que leiam o aviso da vitrine, que elucida sobre o conceito e o modo de funcionamento. Depois é só seguirem as indicações: começar por desapertar o cinto que nos prende à terra e voar para dentro dos livros presentes na sala. Conto regressar mais vezes. E, mesmo que já não esteja cá para assistir, espero que tenha uma existência mais longa que 2822.
 |
| Fotografias da minha autoria |
«A segunda casa de clientes e amigos»
Os teóricos da conspiração afirmam que Leiria não existe, o que eu não confirmo nem desminto, mas a verdade é que tem o segredo mais bem guardado da história. Se calhar, já não é tão secreto assim, porque o dinamismo tem atraído visitantes, no entanto, continua a ser um local imaculado e, claro, eu fui descobri-lo.
RENOVADA E COM AINDA MAIS AMOR
A Livraria Arquivo localiza-se na Avenida Combatentes da Grande Guerra. Enquanto livraria tradicional, «iniciou atividade em 1978» e é fruto do amor da família Vieira: primeiro, através do pai de José Ribeiro Vieira, depois, pela própria «visão e alma do empresário, que ali passava momentos infindáveis» - sozinho ou entre amigos. Por fim, o formato atual «saiu do coração e mente da livreira Alexandra Vieira», filha de José. Esta referência passou de geração em geração, sendo um marco ímpar na região e no meio das livrarias independentes.
Volvidos 45 anos, a Arquivo expandiu e renasceu com a sua abertura. Mantendo a essência de sempre, renovaram o seu espaço com o intuito de «reforçar a programação cultural» e ter maior oferta literária para clientes e amigos, como referem. Assim, é possível continuar a encontrar uma agenda recheada de concertos, tertúlias, oficinas, lançamentos de livro, entre outras componentes, mas com mais conforto e possibilidades.
A estrutura da livraria e a forma como as várias áreas se interligam e complementam são aspetos que tornam a visita mais intimista. De facto, parece mesmo que chegamos a casa, porque tem uma paz distinta, que só se encontra em lugares que sabem ver para além do negócio. Não tínhamos ilusões, a economia tem de circular e o investimento não pode trazer prejuízo, mas sentir que a preocupação não se limita aí, sentir que os leitores são parte integrante do processo, é maravilhoso. A filosofia da casa evidencia-o, por isso é que podemos desfrutar de uma experiência bastante agradável e completa, entre palavras, exposições e gastronomia.
A serenidade que a caracteriza, e que pude comprovar, só faz com que haja uma vontade maior de permanecer, de olhar para as estantes como se estivéssemos a entrar num universo alternativo, de sentar nas bancadas de madeira e deixar voar a imaginação - e o tempo. Para além deste ambiente literário, desfrutamos de menus saborosos (aconselho a Salada Arquivo) e da simpatia de uma equipa que leva poesia ao peito.
Gosto de trazer alguma obra das livrarias que visito, porque funciona como uma recordação do espaço: quando for ler aquele livro, lembrar-me-ei que veio comigo de outras paragens. Desse modo, levei uma lista comedida, até porque a Feira do Livro do Porto estava próxima, mas trouxe cinco exemplares: A Última Coisa Que Ele Queria (Joan Didion), Mundo Belo, Onde Estás (Sally Rooney), Pequena Coreografia do Adeus (Aline Bei), O Terceiro País (Karina Sainz Borgo) e Enciclopédia da Estória Universal: Recolha de Alexandria (Afonso Cruz).
Ficou prometido um regresso e mal vejo a hora para que este reencontro se concretize.