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O corpo fragmenta-se em silêncio, numa «lenta e incendiária viagem», mas há algo nas palavras que desencadeia um encontro. Um reencontro, para ser mais precisa, entre as inúmeras versões resultantes desse processo subtil. Como se fossem um sopro frágil e, em simultâneo, indomável, resistem, porque se renovam e Sara Duarte Brandão parece ter encontrado nesse limbo um modo de multiplicar pontes com aquilo que nos habita.
uma travessia emotiva e cívica
Descolonizar o Sujeito Poético abre o peito e tira-nos o tapete com a mesma rapidez com que nos acolhe e nos abraça na sua travessia. Aliás, leva-nos até às raízes da autora e a «todas as coisas a que não se deram nome», mas sobre as quais não deixou de escrever. Talvez os seus versos sejam uma forma de encontrar essa denominação, já que faz das palavras morada e caminho. E, a certo ponto, transmite-nos uma sensação de conforto perante o naufrágio, como se fosse uma oportunidade para repousar e desbravar novas fronteiras — independentemente da natureza e das coordenadas de cada uma delas.
João Gesta afirma que descolonizar é preciso e eu acrescento que necessitamos de nos libertar do que mantém o nosso coração preso, a temer a vulnerabilidade, quando é ela que nos permite ampliar o debate e descobrir pontos de contacto com os outros e mais focos de luz. A madrugada «vigia-nos os impulsos» e Sara, sem o omitir, traçou na sua poesia um gesto de resistência. Atrevo-me, inclusive, a dizer que teve a ousadia de nos fazer acreditar que também na escuridão é possível sonhar, porque nos ajustamos: não pela conformidade, mas pela capacidade de descermos às profundezas de quem somos.
Estava na página do primeiro poema e já perdida, no melhor sentido possível, a pensar sobre uma das perguntas, atendendo a que não sei para «onde regressam as almas/que nunca saíram do lugar», porque há ocasiões em que me sinto um barco parado no cais a rever sempre o mesmo horizonte. No entanto, onde poderia florescer mágoa, prefiro que haja a convicção de «que um dia vou voltar/aonde nunca fui», como uma promessa que, apesar de semeada em terreno incerto, contribui para a esperança de um amanhã.
«lê com atenção os silêncios
que sobrevivem nos lábios»
Há, aqui, uma noção de futuro que recupera memórias passadas, que nos impulsiona a seguir, porque é forte a certeza de termos onde ancorar. E por entre silêncios, solidão, ausência, distância e o tempo que passa sem pedir, fala-nos sobre sermos livres, sobre perigos e sobre a saudade, com o mesmo cuidado com que nos fala sobre a beleza dos detalhes, cravos e amor. Pode chover por dentro, mesmo assim, o poema nunca acaba.
Sinto que esta obra é, também ela, uma maneira preciosa de impedir o esquecimento: daqueles que nos moldam, dos lugares que nos formaram, das casas que edificamos ao nosso redor e onde podemos crescer. Por esse motivo, estes poemas também são sobre pertencer — muito mais do que sobre caber. A título de curiosidade, embora seja uma redução inglória, visto que «é um livro comovente» no seu todo, próximo e complexo na mesma intensidade, confesso que Expansão marítima do poema, Navio de combate ao esquecimento, O espaço vazio, Flôr di nha esperança ficaram com todo o meu coração.
Descolonizar o Sujeito Poético alicerça-se num património afetivo que abre portas a um património cívico que nos quer atentos, reativos. A deambular pelas palavras que são casa, manteve-me sempre em movimento, a preencher as minhas margens. Fabuloso!
notas literárias
- Desafio: Alma lusitana
- Lido a: 3 de agosto
- Formato de leitura: Físico
- Género: Poesia
- Nº de páginas: 76
- Banda sonora: Ouvi Dizer, Ornatos Violeta | Rua da Saudade, Bárbara Bandeira | Cajuína, Caetano Veloso | Quem Me Vê, Os Quatro e Meia & Luís Trigacheiro
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