.png)
O despertador ecoa no quarto e há um novo dia a amanhecer dentro e fora das quatro paredes que o delimitam, que delimitam esta casa construída de pedra, de saudades e de afeto. E sendo, todo ele, feito de promessas, florescem perguntas diferentes, outros olhares sobre a mesma realidade e a vontade renovada de me continuar a mover pelo espanto, tal como Inês Meneses, com quem aprendo, sobretudo, a olhar para dentro.
o que se acrescenta aos dias banais
Linhas de Valor Acrescentado embarca nessa viagem intimista, de quem observa sempre o mundo de um modo introspetivo, mas sem diminuir a possibilidade de enriquecer os dias com rasgos de esperança, de animação, de amor. Aliás, sinto que uma das missões da autora é mesmo mostrar-nos o quanto a vida «acontece com os amores por cumprir (…) com as paixões que fazem os anos parecer instantes»; mostrar-nos que a vida é um lugar «bonito para se habitar», apesar da solidão, dos silêncios, do desânimo, visto que os amigos também nos resgatam da «claustrofobia quotidiana» e não nos desamparam.
Existe sempre um motivo para as coisas demorarem o seu tempo: se eu tivesse escrito este texto pouco depois de ter terminado a leitura, teria perdido um exemplo evidente das linhas que me acrescentam e que refletem várias observações que sublinhei nestas páginas. Num domingo que tinha tudo para ser igual a tantos outros, estar no parque com a minha melhor amiga (e a mais antiga), enquanto a filha dela se divertia a ver as bolas de sabão, foi daqueles momentos simples que se colam à nossa pele, talvez, não tanto pela situação em si, mas pelo facto de nós, duas adultas com tantos dias dentro, estarmos apenas em silêncio, sem necessidade de preencher esse espaço com palavras. Podemos não conversar diariamente, podemos demorar até combinar um reencontro, no entanto, continuamos a nutrir aquilo que nos une. E isso, creio, explica o conforto que esse silêncio representa, excluindo qualquer indício de cobrança ou afastamento.
A Inês Meneses é uma das vozes que mais companhia me faz e tenho procurado voltar à sua escrita com maior frequência, uma vez que sei que encontrarei sempre uma nova perspetiva para aquilo que é comum e uma maneira de não perder a capacidade de ver nisso uma certa beleza, porque, parafraseando-a, precisamos de andar distraídos para estarmos atentos e é nessa distração que vamos colhendo o que nos deixa mais perto de quem somos — se calhar, pela pureza, por nos moldarmos menos ao que esperam de nós e nos limitarmos a ser livres naquilo que nos amplia as emoções e as memórias.
«O amor e a paixão são ambos válidos. Preciso do amor para me situar e da paixão para saber que lado meu não obedece. Não há nada de errado nisto. A paixão descoordena-nos, o amor situa-nos»
Confesso que tenho algumas reservas em relação ao ato de romantizar a vida, quando isso implica bloquear a nossa vulnerabilidade. Nem todos os dias serão luminosos e a transbordar de felicidade, porém, precisamos de sentir, de nos fragmentar, porque só assim «voltamos a ficar quase intactos». E reforço o quase, tendo em conta que nunca seremos as mesmas pessoas: as cicatrizes fazem parte do processo e, mesmo que soe a lugar comum, são, também elas, fiéis contadoras da nossa história. Não obstante, creio que a Inês Meneses consegue trazer o equilíbrio perfeito entre descermos ao abismo e sermos arrebatados por aquilo que nos rodeia, sem medo de sentirmos as coisas como elas nos chegam, porque sente tudo intensamente, mas há uma calma que nos inebria.
Leio-a sempre com um lápis por perto, porque há frases que abraçam e sobre as quais me apetece escrever, como se lhe enviasse um bilhete de resposta através das margens, embora saiba que nunca o lerá. Neste livro, que aparenta ser uma crónica longa, senti-me a conversar com uma amiga e, por um lado, a chegar a lugares onde não tinha ido e, por outro, a voltar a temas que são recorrentes nas minhas conversas. Assim, pude refletir sobre a diferença entre confiança e segurança (que parece evidente e não é), o caminho da sororidade, o que fica do (que não foi) amor, as pessoas que nunca chegam a sair da nossa vida totalmente e as feridas provocadas por amizades interrompidas.
Linhas de Valor Acrescentado parte das relações humanas e traz para a mesa aquilo que é o território material e o território afetivo — e a certeza de ser no segundo que reside o que temos de mais valioso. Hei-de regressar a estas páginas, porque existe, em cada uma, um mundo que nos acalenta nos dias mais turvos e que nos faz sentir acolhidos.
notas literárias
- Lido entre: 28 e 30 de julho
- Formato de leitura: Físico
- Género: Crónica
- Nº páginas: 112
- Banda sonora: Neblina, Luar, Rita Onofre & Avalanche | Gostas, Lhast | Inquietação, José Mário Branco






0 Comments