«A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa», Edward Elgar
Não passo um dia sem ouvir música. A escolha desta semana encheu-me o coração pela surpresa tão agradável que se revelou. Com um nome que nos faz contar as horas, percebemos que estamos sempre a tempo de embarcar nesta aventura que é conhecer novos artistas que nos façam sentir uma ligação única com aquilo que fazem. Quatro e meia podia ser mesmo a hora certa para isso, mas todas o são. E se for ao som d' Os Quatro e Meia melhor ainda.
«Quer mudança ? Comece por você. É insano esperar diferença de onde não se mudam as ações e pensamentos. Se não consegue praticar em você mesmo, como esperar dos outros?», Jéssica Barreto
O Porto também é muito das suas gentes. Do amor que lhe têm. Do gosto que é conhecê-lo todos os dias, com o mesmo encanto como se o víssemos pela primeira vez. E há sempre quem pense mais à frente, que se preocupe com os outros e lhes queira proporcionar momentos únicos. Não poder ver o Porto, para mim, seria angustiante. Perder a oportunidade de presenciar toda a sua beleza, todas as suas histórias, todas as suas especiarias, todos os seus cheiros seria impensável. Infelizmente, nem todos terão a possibilidade de ver o Porto como o vejo. Literalmente. Mas acredito que o conheçam de uma forma igualmente fascinante, com outro sentido que eu não consigo ter. Ainda assim, saber que há pessoas com sensibilidade para fazerem a diferença reconforta o coração. Deixa-me com esperança no amanhã.
A história de hoje é sobre pessoas assim: que pensam nos outros. Que lhes querem oferecer uma forma de conhecerem o Porto com os seus olhos e à sua maneira, com as limitações que têm, mas que nunca deveriam ser um impeditivo. E é na descoberta de algumas lacunas a nível de roteiros para invisuais que nasce o projeto «Blind Senses», que pretende criar possibilidades turísticas para este tipo específico de publico.
Os sentidos não foram esquecidos. As pessoas também não!
«Alunos criam roteiro do Porto para invisuais (e ganham prémio)
Alunas do 11º ano de uma escola de Espinho foram premiadas pela Fundação da Juventude. Agora, vão disputar essa proposta com outros jovens inovadores europeus
Em causa está o projecto "Blind Senses [Sentidos Cegos]", com que Ana Lopes, Caroline Alves, Diana Lago, Liliana Oliveira e Sofia Oliveira, alunas do 2.º ano do Curso Profissional de Técnico de Turismo, venceram a competição de ideias inovadoras em contexto de "Turismo e Mobilidade".
Patrícia Martins é a docente que orientou o projecto e, em declarações à Lusa, realça que o "Blind Senses" nasceu da sensibilidade das próprias estudantes, que, após a sua pesquisa, "detectaram uma lacuna na oferta turística do Porto, que é o facto de não haver roteiros para este tipo específico de público".
"Hoje em dia dá-se muito destaque às sensações no que se refere a spas, programas de bem-estar ou gastronomia, mas a realidade é que não se explora isso na perspectiva das pessoas que, por não terem visão, até têm os outros sentidos mais apurados", explica a professora.
Ana Lopes, porta-voz as autoras do projecto Blind Senses, confirma que o objetivo do grupo era "criar algo diferente, que incluísse todo o tipo de turistas e permitisse que os não podem ver pudessem conhecer na mesma o Porto, nas suas diferentes formas".
A parte mais divertida na concretização dessa proposta foi "experimentar as coisas de olhos fechados", como se as cinco estudantes fossem invisuais, e a mais decepcionante foi cortar no número de itens inicialmente previsto para o roteiro, "ou porque tinham acessibilidades difíceis, ou porque eram muito caros".
Ana Lopes garante que o roteiro definitivo propõe, ainda assim, "experiências muito boas", como a degustação de uma francesinha num estabelecimento reputado, para potenciar a descoberta de uma das maiores tradições da cidade ao nível do paladar.
Já no que se refere à audição e ao olfacto, por exemplo, o percurso do "Blind Senses" inclui passagens pela Praça da Ribeira, para vivência do Douro, e continua pelo Mercado do Bolhão, onde Patrícia Martins diz que se irá apreciar "o aroma das frutas, das flores, e também o bulício próprio da clientela e os pregões dos comerciantes".
O tacto, por sua vez, estará em destaque na Igreja de S. Francisco, onde os turistas invisuais à descoberta do Porto terão oportunidade de tocar a talha dourada e sentir as pedras dos claustros, numa experiência potenciada "por luvas de algodão".
Terá sido por esses e outros detalhes que o júri da Fundação da Juventude distinguiu o Blind Senses. "[O projecto] foi escolhido por unanimidade pela sua criatividade, inovação e exequibilidade", lê-se no site desse organismo. "É inclusivo, criativo e de fácil implementação, tendo as alunas feito uma abordagem muito profissional e com pleno domínio dos conteúdos", acrescenta.
A disponibilização efectiva deste circuito está dependente, contudo, da sua dinamização por empresas e entidades do sector do turismo e hotelaria. Patrícia Martins revela que o projeto já foi apresentado a algumas empresas, mas desconhece ainda o que possa vir a resultar desse contacto.
Certo é que, no arranque do próximo ano lectivo, as autoras do Blind Senses começarão a preparar a sua participação no concurso em que o projecto premiado pela Fundação da Juventude "deverá competir com as propostas que venceram em Espanha e Itália" - os países que, com Portugal, integram o cluster Sea Cities [Cidades Marítimas]».
«São em ferro, com vidros simples ou muito trabalhados, invisíveis para quem passeia pelas ruas do Porto, na maioria das vezes, e têm como função iluminar de forma natural as casas desta cidade. Típicas da construção do século XIX, são entrada directa de luz solar nas escadas das casas estreitas e escuras da cidade. Paulo Ferreira e Luciana Bignardi, fotógrafos, retrataram centenas de clarabóias nos últimos meses e querem, agora, publicar o livro “Anima Luminária”» (fotogaleria aqui).
O Porto é mesmo uma cidade de cantos, recantos e encantos. De histórias que se ligam e se multiplicam. De memórias que nunca têm fim. De segredos que se desvendam com o olhar. E há sempre quem descubra, para lá da primeira abordagem, mais um pedaço de beleza que deve ser partilhado com o mundo. O Porto é isto, tudo isto, todos estas pequenas coisas que o distinguem. E eu fico ainda mais feliz quando encontram mais um pretexto para o dar a conhecer.
Os telhados do Porto escondem muita coisa. Para uns talvez não esconda nada, mas para outros escondem a beleza e a fascinação. E é assim que, de fotografia em fotografia, durante cinco meses, as clarabóias ganham destaque. Estes «olhos de vidro» têm muito para contar. Pelo formato. Pelas histórias. Pela luz. Pela diferença. E o Porto também é feito destes «nadas» que para alguns significam tudo!
«Clarabóias, "olhos de vidro" dos telhados do Porto
Paulo Ferreira e Luciana Bignardi são fotógrafos e têm uma predilecção por clarabóias. Passaram os primeiros cinco meses de 2014 a fotografar centenas de clarabóias pelo Porto e agora querem lançar o livro “Anima Luminária”
Não é possível saber quantas clarabóias existem, ao certo, nos telhados das casas do Porto. Percebemos que são muitas, largas centenas, quando abrimos o Google Earth, por exemplo, e sobrevoamos as ruas da cidade, sobretudo nas zonas mais antigas. Quase casa sim, casa não, há provas da existência de clarabóias. São “olhinhos de vidro” que absorvem a luz, como lhes chama Luciana Bignardi, a fotógrafa brasileira de uma dupla que inclui o portuense Paulo Ferreira. Juntos descobriram e visitaram centenas de clarabóias, fotografaram-nas e agora querem lançar “Anima Luminária”, uma homenagem a este património do Porto.
Paulo tem 50 anos e há 30 que descobriu as clarabóias da sua cidade enquanto modelos fotográficos. “Tinha que as namorar, procurar a hora certa, a altura do ano com a luz que eu queria”, conta ao P3, com muito menos tecnologia do que aquela a que tem hoje acesso. “Fotografava e tinha de esperar 15 dias para que os diapositivos chegassem da Suíça. Hoje, ao poder ver o resultado imediatamente, posso imediatamente melhorar”, resume. O encontro com a paulista Luciana, há algum tempo, deu-lhe o empurrão que precisava “para finalizar o projecto” e avançar com o livro, que reúne ainda poesia sobre o objecto.
Os primeiros cinco meses de 2014 resultaram em mais de quatro mil imagens, entre clarabóias e lanternins (peças iluminadas pelo lado, com janelas, ao contrário das primeiros, iluminadas por cima). Estudaram o ângulo e a hora certos, bateram a muitas portas – muitas abriram, outras não – e descobriram, com a ajuda de leitura, que as clarabóias do Porto têm algumas características únicas. “Dentro do que conheço do que vou lendo, não andará longe da verdade se disser que o Porto é a cidade que tem mais clarabóias no mundo, em termos de diversidade. Ou, pelo menos, o património mais importante”, arrisca Paulo.
Nesta cidade, as clarabóias não são exclusivas de palacetes, estão presentes em casas da “pequena e média burguesia”, sobretudo do século XIX. Difíceis de encontrar, por estarem escondidas por definição, são, muitas vezes, a principal fonte de iluminação natural directa. Resultado da “circunstância de factores do Porto”, nomeadamente da estrutura urbanística da cidade daquele século – “um talhão esguio com uma fachada muito estreita, normalmente com 5,20 metros, uma planta muito estranha” -, a inclusão de clarabóias na arquitectura possibilitou não só iluminação como arejamento.
O que mais intriga Paulo e Luciana é, contudo, a razão por detrás do trabalho que cada clarabóia comporta. “Porque se faz um objecto tão cuidado e belo para estar, por definição, em sítios onde não se vê? É que a parte mais significativa está escondida”, aponta Luciana.
“Anima Luminária” é o título do livro que está em fase de construção, ainda sem data de lançamento e que deverá contar com cerca de 200 imagens. Os dois fotógrafos não querem fazer um catálogo deste património no Porto, antes “uma interpretação estética do objecto”. Vêem as clarabóias como “um tesouro” que pode ser “altamente rentabilizado em termos de turismo”. “Nós, Porto, melhor destino europeu, temos a obrigação de nos renovarmos”, defende Paulo. Procuram, agora, financiamento para concretizar o projecto, em forma de livro e exposição. “Este trabalho fica por aqui se não vierem os mecenas. E se pudermos, um dia, declarar o Porto capital mundial da clarabóia, sem dúvida que a cidade tem muito a ganhar”».
«A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fractura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam», Vergílio Ferreira
Li algures que hoje é o dia da saudade. Consegues adivinhar em quem pensei primeiro?
Sou feita de saudades, porque há muita coisa que me enche o coração. Tenho saudades de palavras, de atitudes, de lugares, de pessoas, de momentos, de abraços, de beijos na testa, de sentimentos e sensações, de mensagens, de chamadas, de sorrisos e gargalhadas, de cheiros, do silêncio; saudades do ontem, do agora, do que ainda não conheço.
«A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas», Bono Vox
Paz. Talvez seja isso mesmo que sinto quando ouço o Diogo Piçarra a cantar. Inclusivamente nos momentos em que a sua voz nos eriça a pele pela magnitude que tem. Por mais que o nosso coração pareça prestes a sair do lugar, por toda a garra com que canta, no fim, é a tranquilidade que se instala. Porque ter a oportunidade de ouvir vozes assim é de um privilégio indescritível.
Há um Diogo pré-Ídolos que conheci pouquíssimos dias antes do programa começar, através da versão brilhante da música «Se fosse um dia o teu olhar», de Pedro Abrunhosa. Confesso, nunca pensei que me emocionasse tanto. E que dois anos depois fosse dos artistas que mais admiro. Por tudo o que é e que acredito que ainda virá a ser. Acompanhei o percurso desde o início, fascinada com o crescimento que teve gala após gala. A sua interioridade, que algumas vezes foi criticada no programa, foi das características que mais me cativou. Talvez a minha noção de música seja diferente da de todos os outros, mas aquilo que me faz ficar de coração cheio não é só a voz, o alcance que tem. Aquilo que a mim me emociona é o conjunto: a voz poderosa, capaz de chegar a qualquer nota, a presença, a alma, o sentimento em cada palavra. Ele sempre teve isso tudo, talvez porque sente isto como ninguém. E por isso, para mim, estava num patamar superior a todos os outros concorrentes. A maturidade, o respeito pela música, o amor ao que se faz são coisas que adquirimos com o tempo, mas é preciso trabalhar para isso. Não chega ter talento. É preciso senti-lo bem cá dentro, para que a plateia receba o que queremos transmitir. Exatamente como se o sentisse por nós.
Não é segredo para ninguém que sou de lágrima fácil. Mas as pessoas têm que me tocar. Tenho que estar deste lado e sentir uma ligação única. É essa ligação que eu sinto em todas as vezes que o ouço. Há tanto dele em cada uma das músicas que é impossível ficar indiferente. Já chorei a ouvi-lo. Já sorri. Já ri. Já dancei. Já cantei mais alto. Já fechei os olhos e deixei-me invadir por uma data de recordações. Já senti muita coisa. E em todos esses momentos fiquei sem palavras. Torna-se cada vez mais complicado tê-las para alguém que nunca pára de nos surpreender. Há alturas em que me questiono onde guarda tanto talento, porque sempre que nos apresenta algo novo está melhor. Todos os dias, quando ponho a música dele a tocar, é como se o descobrisse pela primeira vez. E rendo-me. Com a mesma facilidade com que me rendi há dois anos.
É quase impossível dissociar o músico da pessoa por trás do profissional. E é bom quando percebemos que ambos correspondem ao que idealizamos. A imagem que tenho é a melhor, até porque nunca me deu provas do contrário. E nunca me esquecerei daquele «muita força» quando escrevi o texto sobre o meu avô (aqui), com a «Volta» como fundo. Aquelas palavras, vindas de alguém que me diz muito, mesmo que não o conheça pessoalmente, souberam quase a um abraço apertado. Ainda que o tenha identificado por causa da música, não tinha obrigação de dizer fosse o que fosse. Mas disse! Estou grata por isto e por me ter feito conhecer, indiretamente e à distância, pessoas fantásticas que o admiram tanto ou mais do que eu. Talvez não tenha a noção do que quanto as suas palavras fazem a diferença, ou talvez tenha, mas fazem mesmo. E é este cuidado constante que tem com quem o acompanha que o torna ainda mais especial. Sabe-lo a construir um percurso consistente, com os pés assentes na terra, sem perder a humildade que sempre teve, é um grande motivo de orgulho.
Admiro-lhe a capacidade de nunca parar. De se reinventar. De querer chegar mais longe. É esta vontade que, aliada a todo o talento que tem, comove e conquista. E é por isso que o futuro só pode ser de sucesso. E eu prometo estar aqui, incondicionalmente, para o ver crescer ainda mais. Podem existir novos programas e concorrentes a chamarem-me à atenção, mas nenhum outro terá o impacto que ele teve. Porque artistas como ele não se encontram com facilidade. Acredito que há vários tipos de amor. E este que eu sinto, com todo respeito do mundo, por ser sinónimo de admiração e nada mais, será até ao fim.
Pela qualidade imensa que tem, ontem voltou a surpreender com a sua mais recente versão (aqui). A música escolhida foi a «Safe and Sound», dos Capital Cities, e não podia ter ficado mais magnifica, bem ao jeito dele. Como já nos habituou. O vídeo é um misto de leveza, energia, verão, festa, amor, cumplicidade, amizade e tanto mais. É a paz do mar e as gargalhadas entre amigos. É a união. E a prova de que tudo o que faz é bem feito e pensado ao pormenor. A voz, essa, fala diretamente ao coração. Doce, mas com um timbre que tende a fugir para uma rouquidão natural que eu tanto adoro. É um cover que fica bem com esta altura do ano. Ou com todas as outra. Porque ele combina com qualquer hora do dia. Especialmente se for ouvido em repetição, música após música. Nunca cansa. Nunca desilude. Demarcou-se do programa que lhe deu maior notoriedade, sem esquecer o que ficou para trás, mas perspetivando novos caminhos. Há um Diogo para lá do Ídolos. Sempre houve, uma vez que em nenhum momento se prendeu a essa imagem. Talvez quando o apresentam ainda mencionem o facto de ter sido o vencedor, mas todos nós sabemos que é muito mais do que isso. E sê-lo-à continuadamente. Nunca duvidei: o talento dele não tem limites.
Não consigo parar de te ouvir. Nem quero. E enquanto existires tu, sei que posso ficar «sã e salva» porque a música portuguesa está bem entregue.
«A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa», Edward Elgar
Não passo um dia sem ouvir música. O artista desta semana obriga-nos, sem que nos sintamos com essa condição, a permanecer numa estação que teima em não nos largar. «Inverno» é o seu primeiro EP e as músicas que o compõem parecem aconchegar-nos. Prolongam-se os dias frios, as gotas da chuva presas no lado de fora da janela, a manta onde nos enroscamos, a caneca de chá quente para nos aquecer. E ao fundo, com uma voz doce e calma, Valter Lobo invade-nos o coração sem pedir licença para se instalar.
«Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim»
( Mário de Sá Carneiro )
Tenho saudades.
De tudo e de nada
De todos e de ninguém.
Mas tenho saudades, principalmente, de mim.
Tenho saudades de mim
De toda a liberdade que me corria o sangue,
Há uns anos atrás, quando eu era um labirinto.
Quando me perdia em mim.
Quando me sentia só a mim.
Quero recuar!
Tenho saudades.
De ti e de mim,
Enquanto tu és eu e eu sou tu.
E, enquanto para além de nós, só o vazio se perdia no caminho.
Nada sei, mas tenho saudades.
Muitas saudades!
Apenas não sei do quê, ao certo.
E enquanto não descobrir, vou continuar a sentir as saudades
A conhecer as saídas dentro de mim
Porque eu era um labirinto e agora,
Apenas agora, tenho saudades de mim.
Quando as souber, vou ter ainda mais saudades.
De tudo isto, de nada disto, de correr para e contra isto.
De ter saudades.
E vou voltar a perder-me em mim.
Sentir-me enquanto o que sou, agora.
Sentindo a permanente saudade do labirinto que era.
Ontem!
Parte do que sou. Fevereiro, 2010
«Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação», Charles Chaplin
Há quinze dias estava em contagem decrescente para assistir a três momentos distintos que não mais esquecerei. Integrados nas festividades do S. João do Porto, os Concertos na Avenida permitiram-me ver ao vivo três dos artistas que mais admiro: Os Azeitonas, GNR e Ana Moura.
Sexta-feira, vinte de junho de dois mil e catorze
Nunca mais chegava à hora de sair de casa. Podia ser uma sexta qualquer. Só mais uma. Só mais um dia no calendário. Mas não era. Não para mim que sabia que estava a horas de ver uma das bandas que mais gosto. Era uma estreia absoluta ver Os Azeitonas atuar ao vivo e não podia estar mais entusiasmada. Admiro-lhes tudo: o talento, as músicas, a cumplicidade, a presença, a paixão. Presenciar isso era realizar um sonho antigo. E foi melhor do que aquilo que algum dia poderia imaginar.
Saí dos Aliados sem sentir os braços e as pernas. De tanto filmar. De tanto saltar. De tanto dançar. De tanto aplaudir. E saí igualmente com menos voz, até porque era impossível não acompanhá-los. A energia que têm em palco é mesmo fascinante e envolvente. Os meus pais, que foram os meus grandes companheiros nesta aventura de três dias, vieram radiantes - e ainda hoje a minha mãe me diz que foi o melhor concerto a que assistiu. Puseram uma avenida inteira a mexer e a cantar a uma só voz. Hoje ficam as memórias que nunca saberei reproduzir em palavras certas, mas que me aconchegarão sempre o coração quando as saudades se fizerem sentir.
«Anda comigo ver os aviões» foi, talvez, a que mais impacto teve, também por todo o sucesso que fez. Parar para ouvir as pessoas ao meu lado e sentir que a música (seja ela qual for) é capaz de juntar tanta gente é indescritível. Arrepiei-me. Emocionei-me. E acho que é por isso que gosto tanto de música: por todas as sensações que nos faz viver. Não consegui conter as lágrimas quando cantaram «Nos Desenhos Animados», até porque retrata muito da nossa infância. Parece uma letra tão simples, mas, ao mesmo tempo, é tão cheia de significado. Foi impossível não saltar/dançar na «Ray-dee-oh», «Quem és tu miúda», «Dança, menina dança». E a «Tonto de ti» fala-nos mesmo ao coração.
Os Azeitonas são, para mim, uma das nossas melhores bandas. São todas as músicas que nos cantaram. Toda a energia com que nos envolveram. Toda a humildade e cumplicidade que passou de cima do palco para o público. E, por momentos, senti que nos levaram todos lá para cima porque em nenhum momento se esqueceram de interagir connosco. São estes gestos que fazem a diferença. Eles marcaram-na bem há muito tempo, porque são do que temos de melhor.
O momento final em que fizeram «A Dança» foi memorável e só tenho pena de não ter conseguido filmar. A solo, a pares ou a trios brindaram-nos com passos muito peculiares e próprios, numa coreografia sentida no momento e que nos deixa perceber a boa disposição que se vive. Primeiro eles e depois nós. Sim, porque o público não escapou ao «O que é que estás a fazer pá? O que é que estás a fazer pá? Dança pá?». E dançamos. Todos juntos. E foi assim que nos despedimos, com a certeza de que ficaríamos a noite toda ali se eles continuassem connosco.
Como o disse na altura, foi um concerto do caraças! E um privilégio enorme assistir a tão magnífico momento. Fica a promessa de que nos havemos de encontrar. Brevemente, espero.
Sábado, vinte e um de junho de dois mil e catorze
Cresci a ouvir GNR, por isso mesmo são das bandas mais antigas que ouço e das que mais gosto. Estava bastante curiosa por ouvi-los ao vivo e por presenciar toda a energia que ainda lhes reconheço, mesmo que os anos passem a voar. Também foi uma estreia, visto que nunca tinha ido a um concerto deles, e não podia ter saído dos Aliados mais satisfeita, sobretudo porque comprovei a opinião que adquiri com o passar do tempo.
O Rui Reininho é mesmo um espanto. Adoro a espontaneidade e o facto de não fingir ser algo que não é. Sem complexos, permite-se viver intensamente o que se passa em palco, brincar com determinadas situações, entreter quem o ouve. Está tão à vontade que sente tudo isto com outro espírito e é por isso que acho que o tempo, mesmo que passe, não passa pela banda. Continuam geniais e a arrumar a um canto algumas que aparecem de novo. É que não basta chegar, é preciso haver qualidade e vontade de trabalhar. Aquilo que os GNR são não surgiu do dia para a noite, foi preciso trabalho e muita dedicação, além de talento que, naturalmente, tem que existir. Quebraram barreiras ao longo do seu percurso e não me admira nada que continuem a fazê-lo até chegar o dia em que as luzes se apaguem e só fique a história. E que história! O legado que deixam na música portuguesa merece total respeito. E é um verdadeiro exemplo. Mas como eles continuarão cá por muito mais tempo ainda não é hora de pensar nas despedidas finais. E isso sentiu-se durante duas horas de concerto.
Acompanhado pela enormíssima Isabel Silvestre, o que foi uma autentica surpresa, pois ninguém estava à espera, emocionaram-nos a todos quando cantaram a célebre «Pronúncia do Norte». Sente-se o coração a ficar pequenino e a pele completamente eriçada. O orgulho fica ainda maior por se fazer parte deste povo do Norte, que sente na alma cada palavra. Há músicas que nos marcam, para sempre, e esta é uma delas. Ouvir todas as outras que eu adoro, como «Sangue Oculto» ou mesmo «Ana Lee», é, novamente, um sonho tornado realidade. E que bom que isso é. Por tudo aquilo que representa. Daqui a uns anos, tenho a certeza, recordarei tudo isto, com a mesma emoção com que o vivi.
Senti a minha adolescência ali, a um palmo de mim. Foi uma honra. Das grandes. Das que nunca se esquecem. Até breve!
Domingo, vinte e dois de junho de dois mil e catorze
Era o último! Não é possível, como é que o tempo passa tão depressa? Mas ainda ontem era quinta e estava a contar as horas para sexta à noite... Passa tudo demasiado rápido que chega a ser assustador. Mas a vida é mesmo assim: não para, faz-nos avançar e viver todos os dias novas experiências. Só que, verdade seja dita, há momentos em que gostávamos de parar o tempo, só para termos a sensação de que os podemos eternizar.
Não é segredo para ninguém que Ana Moura é, sem qualquer dúvida, a fadista que mais admiro. Pela elegância com que canta. Pelo sorriso constante. Pela alma. Pelos fados. Pela simplicidade. Por tudo. Naturalmente, cada artista tem que se adaptar ao público que tem à sua frente e, principalmente, ao espaço onde atua. É completamente diferente cantar numa casa de fados, dar um concerto no coliseu ou atuar ao ar livre. Estar num palco improvisado com uma avenida inteira pela pela frente deve ser assustador, ainda para mais quando o tempo não está, de todo, para ajudar e com a agravante de haver jogo da seleção. É preciso cativar. E ela faz isso na perfeição.
Cá em casa éramos dois de coração nas mãos (não era só eu que a queria ver, o meu pai também), a pensar que a chuva nos estragaria os planos. Mas arriscamos. E ainda bem. Porque nem a chuva que depois voltou conseguiu apagar a beleza de uma avenida inteira a cantar fado. A voz forte e ligeiramente rouca, que muitas vezes se conjugou com as nossas, ou que se calou para nos ouvir, fez tudo valer a pena. Sempre de sorriso no rosto, encheu o palco de vermelho vivo, com paixão, com alma e um talento inesgotável.
Faltou-me «O que foi que aconteceu» e «Até ao fim do fim», mas ouvir da segunda fila todos os outros fados que cantou, com especial destaque para «Os Búzios» e «Desfado» compensou. E muito! É impossível falar deste momento sem mencionar os músicos. Que qualidade! Aquela guitarra portuguesa entoou diretamente nos nossos corações. E ver tocar bateria com martelos de S. João não é para qualquer um. Acredito que o trabalho fique mais facilitado quando se tem todo este apoio, pois permite que o artista brilhe ainda mais. Mas a generosidade partilhada entre todos naquele palco foi comovente.
No fim, e porque todos juntos tem ainda mais encanto, cantamos a uma só voz «A Portuguesa», carregando no peito o orgulho que é ser-se português. Foi um momento mágico, assim como todos aqueles que se viveram desde que o concerto começou. As palavras ficarão sempre aquém, mas o coração recordará para sempre tudo isto!
Só partilhei três vídeos de cada um, uma vez que eram muitos para colocar nesta publicação. Mas podem ver todos os outros no meu canal do youtube. Podemos voltar atrás no tempo? Já estou a morrer de saudades!
«Nenhuma pessoa passa por nossas vidas por acaso, até as que vão permanecem como lição e as que ficam um prémio por todo aprendizado», Daniel Sant'Ana Leite
Ao volante de uma pão-de-forma imaginária mostro-vos o meu mundo, abrindo gavetas onde guardo temas que me fascinam
É exatamente com aquela frase que faço a descrição deste blog na página do facebook. Já devem ter reparado que na barra lateral tenho a ligação que vos leva lá. Hoje, tal como pretendia fazer há algum tempo, venho falar-vos disso.
Criei a página, inicialmente, para o meu blog «Parte do que sou», mas uma vez que deixei de o utilizar não fazia sentido continuar com esse nome. Alterei-o, então, para «As gavetas da minha casa encantada». É lá que publico as ligações para os textos que escrevo, mas também sobre as coisas que vou fazendo e que acho relevante partilhar. Senti necessidade de criar a página como complemento, até porque conseguiria estar mais perto de todos aqueles que me lêem.
Não posso deixar de agradecer, antes de mais, por estarem sempre desse lado e por ajudarem o blog e a página a crescerem. Como disse uma vez, não escrevo para os outros, mas quando partilho é diferente. Aí sim, partilho para que leiam, mas, principalmente, para que deixem críticas, sejam elas positivas ou não, desde que sejam construtivas.
Quem quiser pôr um gosto na página do facebook basta ir aqui. Mas quero que o façam com duas condições: só se gostarem mesmo. E se me deixarem as vossas para que também eu possa gostar. Viajam comigo?