Entre Margens

«A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa», Edward Elgar.


Não passo um dia sem ouvir música. Nesta terça-feira chuvosa, e depois de algum tempo de ausência, vamos a banhos. Mas não se preocupem, não é no sentido literal da expressão. Arranjem mais três lugares à mesa, porque os convidados de hoje vêm em trio. E trazem com eles um talento infindável. É preciso espaço para as guitarras e para a percussão, e para as viagens que fazemos mentalmente enquanto ouvimos as canções.

«No fundo de um buraco ou de um poço acontece descobrir-se as estrelas», Aristóteles


A Rota do Chá, situada na Rua Miguel Bombarda, 457, no Porto, é uma «casa de chá, com mais de 300 variedades de chá». Mas não só!

«A criança que você era teria orgulho da pessoa que você é hoje?»

«Deixe-me ser só ser», Sara Tavares


Sem pressas
A vida dá voltas
A cavalo
Em cestas
Num foguetão
Em rodopios incertos
De tanta certeza
Seremos eternas crianças
De sorrisos luminosos
Olhando o mundo
Quente
Que queima 
Na ponta dos dedos
A ânsia de parar
E não voltar
Ao encanto
De um assento reluzente
E a vida rodopia
Corremos ao lado de sonhos
Há pontos de luz
Horizontes profundos
Largos
De tanto 
Que nos envolve
Tenho fé
No meio de tantas voltas
Chegaremos
Ao lugar certo
Que sobe
Que desce
Nesse carrossel mágico
Que nos aquece
A alma
Tão longe de tudo
Tão perto de nós






Tranças e coroas de flores. Em separado. As duas juntas.

«Liberdade de voar num horizonte qualquer, liberdade de pousar onde o coração quiser», Cecília Meireles


O meu baloiço 
Balança 
Sem balanço
E nesse balancear
Livre e desimpedido
O meu corpo 
Dança
Ondulante
Com o vento
E eu vou
E venho 
E não paro
Presa nas cordas
De mãos atadas
Balanço
Desenlaço
Voo sobre o mundo
Fecho os olhos
E o meu cabelo
Balança
Sem lança
De trança
Há um gingar
De lá
Para cá
Sem peso no pé
E o meu baloiço
Balança
Comigo
Sem mim
Para a frente e para trás
Para a frente e para trás
Para a frente...
... e para trás...
...

«Cozinhar é como tecer um delicado manto de aromas, cores, sabores, texturas. Um manto divino que se deitará sobre o paladar de alguém sempre especial», Sayonara Ciseski


Cozinhar é uma arte que não domino, mas que começo a apreciar. Gosto dos aromas que invadem a cozinha, que para muitos é o coração da casa, dos temperos que se misturam, das invenções que se fazem, dos tachos e das panelas a fumegar. Os olhos também comem, por vezes mais do que a própria barriga, por isso é preciso alimentá-los com mestria. Uma mesa com iguarias e uma boa bebida a acompanhar fazem a noite. E as receitas são infindáveis, portanto não há desculpa. 

Quando iniciei a rubrica «A minha vida tem...» falei sobre um prato que comi muitas vezes na minha infância. E ainda hoje o faço porque adoro. Como algumas pessoas disseram não saber o que é, pensei partilhar a receita que a minha avó fazia (e que é a mais simples) contrapondo-a à que a minha faz atualmente. Tenho imensa sorte em viver numa casa - e numa família - onde todas as pessoas cozinham divinamente, espero ter herdado esse dom. Esta ideia deu rapidamente lugar ao pensamento de criar uma rubrica onde partilhasse algumas receitas que gosto particularmente, desde os doces aos salgados, ou até a uma simples infusão de chã. Aqui vale tudo, menos comida estragada.  

Doce ou salgado q.b não terá uma periodicidade definida, mas aparecerá sempre que a fome ou a gulosice se fizerem notar. E como é quase hora de começar a preparar o almoço, deixo-vos com a primeira receita. Com a certeza de que esta, para mim, não é só deliciosa, traz consigo memórias de dias felizes. 


Receita 1: Farinha de Pau com frango


À moda da avó:

- Colocar o frango numa panela com água e deixá-lo cozer (colocar sal para temperar);
- Assim que estiver cozido, desfia-se o frango;
- Juntar a farinha de pau (farinha de mandioca) e ir mexendo para não colar. 
- Reduzir o lume e deixar cozinhar até que o preparado obtenha a consistência desejada. 

À moda da mãe: 

- Fazer estrugido (refogado);
- Quando a cebola estiver dourada, junta-se polpa de tomate e rala-se tudo com a varinha;
- Acrescentar vinho, vinagre, sal e folha de loureiro;
- Colocar o frango no estrugido;
- Depois de estufado, desfia-se o frango e acrescenta-se a farinha de pau (farinha de mandioca).
- Ir mexendo para não colar, baixa-se o lume e deixa-se cozinhar até obter a consistência desejada.

Nota comum:

- A quantidade de farinha a colocar depende do gosto pessoal, isto é, depende se querem que fique um preparado mais grosso ou menos;
- Podem substituir o frango por bacalhau, perú ou outro alimento que gostem mais. Ou então acrescentar cogumelos e legumes.

Qualquer dúvida que tenham deixem-na nos comentários ou enviem-me uma mensagem para o e-mail do blog.

«Não quero mais nada, só o silêncio do teu abraço», Miguel Gameiro

Os abraços do regresso têm um encanto redobrado. São a certeza de um passado que não morre. Perpetua-se e continua rumo a um futuro que, mesmo incerto, é a maior prova que temos para dar. São a magia do que ficou e do que está para vir. São o antes e o depois. O recomeçar do ponto de onde partimos, como se isto fosse um jogo e os dados tivessem parado de rodar durante o tempo em que se esteve fora. Os abraços do regresso, carregados com o amor que guardamos para partilhar em presença, são a esperança de um sempre. Nessas cordas que se enlaçam, os nossos braços dançam à chuva uma valsa interminável. E os nós não se desatam. Nem nos largamos mais. Porque os abraços que partilhamos no regresso são a promessa de querer ficar e nunca mais partir. Dali. Do sítio onde nos sentimos sempre em casa.

«A conhecida apresentadora de televisão Camila Vaz vê-se obrigada a fugir de Portugal para atenuar o escândalo provocado pelo lançamento do livro A Persistência da Memória. Quando finalmente decide reaparecer em público, recebe um jornalista num hotel do Rio de Janeiro no último dia do ano e rapidamente o encontro se torna num espaço de confissões e sedução, despertando sentimentos e memórias de ambos há muito perdidos no tempo...»


Fiquei a conhecer o seu trabalho no Alta Definição e não mais o deixei de acompanhar. Foi com surpresa e grande expectativa que tomei conhecimento do seu primeiro romance. E não podia esperar mais até o ter nas mãos. O risco de ficar desiludida era grande. É que quando admiramos o trabalho de alguém temos tendência para esperar que seja bom em todas as áreas. E o facto de ser um grande entrevistador não significa que seja um grande romancista. Mas sabia perfeitamente que se escrevesse tão bem como faz entrevistas o produto final só podia ser algo de cortar a respiração. Pela envolvência. Pela criatividade. Pela positiva. Sempre pela positiva. Estas foram algumas das palavras que utilizei quando falei do Daniel Oliveira n' As gavetas da minha casa encantada (podem ler o texto na integra aqui). E a verdade é que depois de ler «A Persistência da Memória» posso afirmar que é brilhante em tudo aquilo que faz.

«Deixa a janela do sorriso aberta», Sara Tavares


Vamos fugir? A pão de forma já está a trabalhar lá fora, as mochilas estão em cima da cama à espera que peguem nelas e eu tenho uma vontade incontrolável de desaparecer daqui contigo. O mundo chama por nós. Os campos revestidos de serenidade, as águas límpidas onde podemos mergulhar e flutuar por horas; as camas de rede, a areia fina, as montanhas a pedirem para as escalarmos. Anda, vamos, não podemos perder tempo. Esta urgência de estar longe de tudo, tão perto de ti, cresce em mim há um par de dias, desde que me sussurraste ao ouvido, naquele jantar de amigos, «eu, tu e a lua, agora, do outro lado do mundo. Vamos?». Não te respondi. Sorri. Vamos! Era o que te devia ter respondido em vez de um sorriso que já conheces de cor. Mas vamos. Vamos agora. O que é que nos impede? És tudo aquilo que preciso para viver. Fugimos? Não respondas. Promete-me apenas que chegas ao fim do dia com esse abraço apertado e me envolves sem largar. Eu prometo que estendo a toalha na estrada e nos deitamos a olhar as estrelas e a imaginar o dia em que estaremos do outro lado do mundo. Sozinhos. Juntos. Para sempre.   

Vem comigo
Descobrir o brilho 
Das estrelas
Os ventos que sopram
Do outro lado do mundo
Nesse encanto desmedido
Tão diferente 
E tão distante
E tão perto 
Daquilo que somos.
Vem comigo 
Conquistar o mundo
Num abraço profundo
Deste amor que é nosso
Eternamente. 

«Deixa-me existir no espaço novo que acordaste em mim», 
Tiago Bettencourt


Sempre que o calendário vira a página há uma nova oportunidade que nos surge. Sacudimos da nossa árvore as folhas secas de tudo aquilo que nos faz parar e preparamo-nos para renascer, encarando o mundo com o sorriso mais largo e luminoso que tivermos escondido na gaveta. E de armas em punho vamos lutar por todos os sonhos que ficaram por conquistar. O sol ainda brilha lá fora, abre a porta, olha uma vez mais para toda a beleza que tens à tua volta e sai para a rua. Não podemos perder tempo, ele é que nos perde a nós. Vamos na décima primeira tentativa, que seja desta! E que novembro seja tudo aquilo que esperamos de melhor.
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andreia morais

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